Netuno

Fim de semana de sol, acordei disposto a ir para a praia.

Chegando lá percebi que o dia estava lindo, mas curiosamente quase ninguém se atrevia a entrar na água. Eu achei aquilo estranho, mas abri uma cerveja, tirei a camisa e esqueci da vida.

Papo vai, papo vem, resolvi entrar na água.

Mal entrei entendi o porque da galera não entrar no mar. Tava frio pra caramba. Nadei pra lá, nadei pra cá… Até me acostumar com a friaca. Praia oceânica é fogo.Comecei a pegar confiança. Dei uns mergulhos, nadei para o fundão, fiquei boiando.

Bem eu estava nadando e percebi que o mar aumentou sutilmente de intensidade, em termos de ondas. Elas estavam ficando fortes e grandes. Foi aí que comecei a notar que eu estava sendo gradualmente puxado para o fundo. Cada vez mais… Sabendo nadar, eu tentei me iludir de que não estava acontecendo aquilo e continuei a nadar, devagar, para a areia.

Mas depois de umas braçadas, tentei colocar o pé no chão e… Porra, cadê o chão?

Comecei a me preocupar, afinal não sou lá um exímio nadador. Pra piorar, eu tenho a escrota mania de me sabotar mentalmente nessas situações. Eu abria o olho em baixo da água em busca de ver onde que estava o chão, mas eu não via nada, porque sou míope e porque a água tava turva. Então vem a minha mente maligna e começa a “tocar” os acordes de Tubarão…

Uma coisa roçou na minha perna. Eu sabia que era uma porra dum plástico, mas sabe como é. Eu tava pensando na musica do Tubarão. E não tinha ninguém, absolutamente ninguém nadando perto. E então minha mente lembrou do Discovery e daquele episódio que cansou de repetir sobre como os tubarões confundem surfistas com focas, sobretudo em águas… “Turvas! Puta que pariu! É um tubarão!” Eu pensei.

Eu podia já sentir aquela bocarra cheia de dentes pontiagudos e tortos cravando no meu pânceps (meu músculo mais desenvolvido).

Nadei como o Michael Felps (dos pobres) e em pouco tempo, senti a areia aparecer. Comecei a sair da água o mais rapido que eu podia. Alcancei algumas pessoas, que olhavam pra minha cara com um ar de: “Oh, meu Deus! O que é isso?”

Eu pensei: Porra, será que eu tô com um catarro pendurado no nariz?

Eu vi um cara que estava ali perto nadar desesperadamente mar adentro.

Comecei a acompanhar o cara enquanto saía em direção a areia. Foi quando eu olhei para trás e vi.

Maluco, não era ninguém menos que NETUNO!  Gigante, formado por uma onda monumental que se levantava bem atrás de mim. Não deu tempo nem de encomendar a minha alma. Só consegui falar: Fude…*

Buuum!

NETUNO!

NETUNO!

Netuno me pegou num mata-leão, e bateu minha cabeça no chão de areia umas quatro vezes. Eu sabia que estava fodido, e num lampejo de pensamento, juntei os braços perto do corpo e baixei a cabeça, tentando virar uma espécie de “bola” e assim evitar de me quebrar todo.

Eu rodei de tudo que é eixo possível. Era como se eu estivesse nu numa máquina de lavar roupas cheia de giletes. Bati com força naquelas areias grossas da praia de Niterói e comecei a quicar. Com o susto eu não tinha recolhido ar suficiente. Começou a faltar ar. E eu nem sabia onde era o “para cima”. Rodei tanto que senti claramente quando minhas pernas saíram da água. Eu tava desesperado achando que ia morrer, e o pior, morrer de um modo escroto, virando piada na praia. A força da água era uma coisa descomunal. Nunca vi aquilo.

Capotei com tudo para fora da onda. Saí tossindo, os olhos arregalados. Tentando me equilibrar. Tudo rodava e eu não sabia onde estava. A espuma ferveu à minha volta como se eu fosse um sonrisal gigante e imediatamente senti uma força enorme tentando me puxar. Netuno queria mais. Eu meio que – é foda dizer isso – soltei a franga e comecei a correr aos saltos, como uma gazela, para fora do mar. Isso deixou tudo ainda mais detestável.

Minha sunga ameaçou cair. Eu paguei cofrinho peludo na praia e havia cerca de dois quilos de areia no meu fiofó.

E eu ouvi risos. Até agora não sei se as pessoas riam da minha desgraça ou de nervoso, pois a onda que me acertou bem nas fuças era um ondão daquelas que aparece no filme “Náufrago”.

Saí do mar cambaleando, tentando ver se estava ferido. Quando olho para a areia, não conseguia mais me localizar. Pensei que a batida de cabeça no fundo tivesse me afetado o cérebro. Estava tudo muito embaçado. Mas daí me conscientizei que eu estava mesmo era sem óculos e comecei a andar pelo meio das barracas, tentando sair daquele lugar onde as pessoas olhavam pra mim com risinhos cretinos. Caminhei pelo meio das barracas sem ver direito pra onde estava indo, até achar a primeira dama, que olhava aflita para o mar, num lugar totalmente diferente de onde eu fui cuspido.

Eu tava com fome, catei meus bagulhos e fui embora pra casa.

Não vejo a hora de voltar na praia. Netuno vai se ver comigo!

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