Habemus Impressora 3d!

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Custou mas o dia finalmente chegou. Uma das perguntas que mais respondi nos últimos anos é por que eu não comprava uma impressora 3d. Afinal eu sou um artista 3d e também um escultor de miniaturas, (não só de miniaturas). Realmente, olhando de fora parece mesmo que eu era o cara ideal para ter uma (ou mais) impressoras 3d. Mas havia um problema. Um problema bem complicado:

Impressoras 3d são caras!

Mas o fato de ser caro nunca me impediu de sonhar em ter uma. O problema é que nunca consegui colocar uma no meu horizonte de projetos. Mas as impressoras 3d estão barateando e melhorando sua qualidade com o tempo. Chegou um dia que eu resolvi que isso era algo que precisava acontecer e precisava acontecer logo. Assim, investi uma grana para comprar uma boa maquina, que me atendesse não só na parte de esculturas de miniaturas mas na de design em geral – o que é um grande desafio, já que quanto maior a área de impressão de uma impressora 3d mais cara ela vai ser.

Como escolher uma impressora 3d

Eu fiquei alguns meses me aprofundando no assunto, que felizmente eu já conhecia superficialmente, porque eu trabalhei no laboratório vizinho do laboratório de modelos na Divisão de Desenho Industrial do Instituto Nacional de Tecnologia, onde muitos amigos ainda trabalham, e eu vivia lá dentro, olhando as mais avançadas maquinas de prototipagem, e ficava ali tentando entender como aquele novo mundo era. Qual designer resistiria né?

Hoje escolher uma impressora 3d requer que você fundamentalmente saiba para que vai precisar da maquina. O risco é de comprar uma maquina cara demais, complicada demais ou o pior de tudo: Que não resolva teu galho.

A impressão 3d está virando um negócio impressionante. São tantas maquinas, tantos insumos, tantas tecnologias com nomes insondáveis e siglas estranhas, que a gente se sente no “dilema da placa de video”.   Há simplesmente mais variáveis do que é possível lidar sem virar um cientista ou um pirado, ou ambos.

Claro que a escolha depende também fundamentalmente do fator grana. Talvez este seja o fator principal, uma vez que alta qualidade é igual a vender a alma pro demônio gastar muita grana.

Basicamente, o mundo das impressoras 3d se estratifica em quatro camadas:

  • Maquinas montadas
  • Maquinas de prateleira
  • Maquinas de alta qualidade
  • Maquinas inacessíveis a mortais (exclusivas da Nasa e centros de pesquisa, como o INT)

As maquinas montadas são kits que você acha no mercado livre, ou compra da China. São a solução mais barata e acessível e a porta pelo qual grande parte da galera entra nisso. Eu confesso que quase, quase mesmo, entrei nessa. Eu ia fabricar a minha maquina se não fosse cair dois trampos de impressão no meu colo bem na hora e eu não teria tempo de ficar passando muito tempo em ajustes sob o risco de perder os prazos. Dentro da categoria de maquinas montadas tem sem brincadeira, um MAR de versões, tipos e modelos. Depois de ler muito sobre o assunto, eu diria que os melhores projetos de impressora “faça você mesmo” ou DIY são as do tipo Delta. Elas são as que dão qualidades de impressão mais incríveis na linha chamada FDM, que é deposição de fluidos por camadas.

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A típica impressora montada de kit. Nem todas são assim, algumas são bem profissionais mesmo!

As maquinas para usuários domésticos ( e não domésticos) são maquinas de prateleira, isso é, maquinas feitas por fabricas de impressoras 3d, ja vendidas prontas para colocar para imprimir. Nesse caso, é como comprar uma impressora Hp, ou Epson… Você compra chega a caixa, tira da caixa, liga no pc, liga na tomada e começa a se foder trabalhar.

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Um exemplo de impressora 3d de prateleira são as Makerbots

Se você acha que o mar de opções na linha faça você esmo é grande, você vai entrar em colapso ao descobrir o volume espetacular de fabricantes. São milhares deles, com modelos grandes, médios pequenos, caros, muito caros *(esquece o barato que não tem) que pega um, dois, três, dez tipos específicos de insumos e depois disso, ainda tem as variações de velocidade, consumo elétrico e muito importante, a resolução de impressão final. Se você não gosta e não tem tara disso aí, é um pesadelo essa fase, não vou te enganar!

As maquinas de alta qualidade estão mais acima na pirâmide. Elas são para caras ricos e empresas. Essas impressoras tem qualidades de impressionar qualquer um que ao ver o que elas fazem, pode levar um choque de vislumbrar o que vai ser o mundo em algumas décadas à frente.

E lá no topo da pirâmide estão maquinas que ninguém “normal” compra a menos que ganhou sozinho na mega da virada  e tem um grau de retardamento muito alto. São maquinas de sinterização a laser, impressão em titânio e outras coisas tão escalafobéticas que se eu falar você vai me chamar de mentiroso. Mas essas maquinas existem, são gigantes e fazem peças tão incríveis que a Nasa e a Boeing estão usando para fazer peças para foguetes e aviões!

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Dá pra imaginar que uma maquina dessas não pode ser o que chamamos popularmente de “barata”.

Dentro de todas essas categorias, existem as inúmeras tecnologias de impressão. Elas são muitas, mas eu destaco fundamentalmente duas:

FDM (deposição de termoplástico em camadas) e SLA (impressão com luz em resina fotossensível) 

Cada uma dessas tecnologias tem vantagens e desvantagens. Uma grande vantagem na FDM é que ela custa mais barato (leia menos caro).

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Uma impresão em FDM. Note esse “alias” na peça, típico da deposição do plástico em camadas.

Mas essa tecnologia é limitada no que diz respeito a resolução. Por exemplo, certos projetos que demandam muita precisão e resolução não são feitos com esta tecnologia. Exemplo: Jóias. Em compensação, a FDM tem um custo de operação mais barato e sua variação de modelos é tão monstruosa que existem impressoras FDM com quatro metros de altura! Embora muita gente fã de SLA meta o pau nas FDM dizendo que sua resolução é “sofrível”, com o passar dos anos a tecnologia vem se aperfeiçoando. Os materiais estão sendo aperfeiçoados também, o que vem levando o FDM a um nivel de maturidade impressionante no que diz respeito a resolução (na mão de quem sabe usar) .

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Uma impressão com camada de 50 micron em FDM

 

A impressora de tecnologia SLA consegue imprimir com luz de um projetor especial numa resina fotossensível que endurece quando a luz atinge ela. Assim, como você pode imaginar, a altura da camada impressa com LUZ é uma porra dum troço inimaginável de foda, capaz de fazer uma escultura mais fina que a espessura de um fio de cabelo!

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Impressão SLA

Mas ela é meio cara. Uma maquina mais simples da tecnologia SLA que custa 2300 dólares nos EUA, não sai por menos de trinta mil reais no Brasil, de modo que essa maquina esta fora do alcance da maioria das pessoas por aqui ainda, – o que pode mudar nos próximos anos, já que os chineses estão vindo quentes para cima da SLA com inúmeras maquinas de valor mais acessível.

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A SLA permite detalhes menores que a espessura de um fio de cabelo.

É quase impossível comparar a qualidade de uma impressão SLA com uma impressão FDM. Mas a SLA que ganha de lavada na qualidade final, deixa muito a desejar na questão do preço do insumo. Essa resina custa uma nota preta, na casa de mil pratas meio litro! Tenho dois amigos que tem ela. E ela estraga facim, facim. Se esquenta, a impressão sai de um jeito, se esfria, já sai de outro, se há umidade demais no ar isso afeta, se a luz do ambiente é muito forte, ela pode estragar, enfim… É um saco! Mas olha, a qualidade compensa muitas vezes. Por isso, ela é usada na área odontológica, joias e etc. Ela dá muita precisão. Outro problema na tecnologia SLA é a dimensão máxima da peça impressa, quase sempre pequena.  Claro que aí dentro tem muito mais detalhes, e peculiaridades que não vou cobrir aqui porque tenho noção de quão chato eu posso ser neste blog, que não é para tarados no assunto e sim para leigos.

As outras opções de tecnologia que existem estão restritas ainda a impressoras inacessíveis para pessoas comuns, como as da Stratasys, que fazem uma qualidade de impressão apocalipticamente foda (com custos apocalipticamente desesperadores) .

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Impressão na Stratasys

Assim, considerando tudo isso, comprei uma impressora da Sethi 3d, que é o maior modelo que eles fabricam. Boa demais, maluco!

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Com isso vou começar a fazer diversas peças, entre novos bonecos e objetos para o Epic Art, e também atender aos meus clientes em projetos de design diversos. Com área de impressão de 40cm cúbicos, eu posso fazer muitas peças legais, como a armadura completa do Homem de Ferro, ou um Dollynho gigante hehe.

Meu primeiro teste de impressão 3d caseira foi esta caveirinha 3d que eu modelei no Zbrush:

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Ainda estou estudando os (infinitos) parâmetros, insumos e macetes de impressão. Assim, em breve terei mais novidades dessa parada. Mas de cara, a busca pela qualidade máxima de impressão com FDM  já virou uma obsessão.

 

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13 comentários em “Habemus Impressora 3d!”

  1. Muito legal. Estou montando uma Graber i3 com peças da china, consegui tudo por menos de R$ 900,00 reais. É claro, é um pouco trabalhoso para montar, mas para mim só torna mais divertido.

  2. Ouvi dizer por um professor (também não sei se é verdade) que algumas impressoras das mais “baratas” desalinham com muita facilidade e acabam dando mais dor de cabeça do que ajudando na modelagem de certos modelos

  3. Muito legal tua explicação, eu jogo RPG com um grupo de amigos a quase 20 anos e volta e meia me pego imaginando como seria ganhar na mega da virada pra comprar uma impressora dessas e fazer nossos personagens, heheheheh.
    Mas falando sério, eu tenho pra mim que essas impressoras 3d serão a base da próxima grande revolução tecnológica quando forem acessíveis, eu imagino a pessoa comprando um produto e ao invés de esperar pelo correio, ele ser impresso ali ao lado do PC, sonhar não custa nada.
    Parabéns pela aquisição e pelo trabalho.

  4. Depois que a peça estiver pronta, põe no vapor do álcool isopropílico, isso tira as marcas da impressão e deixa tudo super liso.

    • Creio que vc se refira a acetona, mas isso do vapor só funciona no ABS, o material que eu uso é outro, PLA. Nesse caso preciso mergulhar em uma solução de tetrahidrofurano, ou acetona PA.

    • Ja sim, Júnior. Ela funciona bem para peças com o plastico ABS. A minha impressora imprime com outro plastico, chamado ácido polilático, ou PLA, que é um plastico “verde” feito de milho e por isso biodegradável e que não tem cheiro nem emite gases toxicos no processo de fusão do filamento. O PLA também é dissolvido em acetona, mas sua estrutura é monstruosamente mais rigida que o ABS, fazendo com que vapor de acetona não faça nem cosquinha no ABS. Para alisar ele eu tenho que literalmente mergulhar a peça em acetona PA (uma acetona pura de laboratório) ou usar outros compostos, como o tetrahidrofurano. Mas eu mesmo criei uma formula de alisameto do plastico que estou aperfeiçoando, que é a mistura de dois compostos quimicos.

  5. velho… só vou te pedir o seguinte. quando fizer o modelo 3d do dollynho compartilha no thingiverse hahahaha

    (em tempo, ótimo artigo, estou pensando em entrar pra esse mundo, mas como meu uso será “hobbysta”, vou pras FDM em kit mesmo).

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