Desventuras de natal

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s20 Desventuras de natal
Natal é foda. Não é atôa que o papai-Noel, símbolo cocacolesco e ícone consumista do natal carregue um SACO nas costas. Afinal, natal é um saco.
É um saco porque sua caixa de mensagens lota de emails de gente que você nem toma conhecimento da existência com milhares de imagens que em teoria deveriam te inspirar os melhores sentimentos, mas na verdade te inspiram a dar um tiro na própria cabeça. Na sua caixa de correio real estão dezenas de cartões de todos os tipos. Até do entregador de gás. E ao recebê-los, bate aquela sensação mágica de ter que retribuir cada uma daquelas merdinhas, mas como você deixa tudo para última hora, não há tempo hábil para isso e você se sente um feladaputa, um crápula de marca maior. Que bom, né?
Então chega a hora de sair pra rua em busca de presentes. Se você é casado, o problêma não apenas dobra como quadruplica, porque são sogra, sogro, cunhados, sobrinhos, filhos de maigos, colegas… Resumindo, é presente que não acaba mais e no meio do turbilhão de consumo, você se vê como uma folha descendo por uma valeta em dia de chuva, cercado de gente em todos os lados. Shoppings abarrotados de pessoas com saquinhos, sacões, caixinhas e caixões. crianças fazem escândalo, velhas e adolescentes se acotovelam pelos corredores. Vitrines fricam entupidas. Pipoqueiros fazem pipoca, as musiquinhas natalinas ecoam nos alto-falantes para gerar um ruído de jingle-bells que entra na mente para dar defeito nos nossos neurônios.
As lojas não tem nosso número, e quando têm, a peça está com defeito, ou está sem preço. O vendendor não sabe o preço, o vendendor nem sequer sabe vender. Ele foi contratado de véspera para ajudar a reduzir o caos, mas apenas o aumenta, zanzando com dezenas de caixas de sapato que invariavelmente não irão agradar, ou não irão servir, ou ainda, ambos.
Quando você se dá conta, o cartão não passa, o congestionamento das operadores de cartão de crédito te faz desejar voltar ao cretácio financeiro, quando apenas uma moeda de ouro bastaria.
Não há lugar para estacionar, as praças de alimentação deveriam mudar o nome para: “zonas escalafobéticas para fazer as pessoas perderem a fé na raça humana“. O hambúrguer vem frio. Isso quando vem.
Mas isso não é tudo. Você é sortudo e casou com uma mulher complicada que não come cebola. Nem molho especial. Nem picles. Ela pede a porra do hambúrguer mais complicado, aquele que nunca sai, e especial, sem queijo, sem molho, sem picles, sem cebola, e enquanto milhares de pessoas sacodem notas infectas de dinheiro ao seu redor você só pensa em porquê raios irá pagar pelo Mac-complicado, se no fim das exigências de sua senhora, ele virará um hambúrguer sem graça de pão e carne. Seu refrigerante será aguado com gosto de cloro. Mas você não sentirá, porque perdeu o paladar ao descobrir que a batata frita está ultra-super-salgada do jeitinho que sua pedra nos rins adora.
O sundae estará como um leite cor-de rosa e você vai arrotar ele pela madrugada adentro.
Chega a hora de voltar ao caos em meio aos milhares de consumidores padrão, como você, já exaustos, de saco cheio e com bolhas nos pés de tanto rodar atrás de milhares de titiquinhas.
Entre as coisas caras e bonitas, as feias e baratas, as interessantes que estão em falta e as sensacionais que acabaram de esgotar, você resolve voltar para casa.
Quando está prestes a sentir o gosto da liberdade, você se dá conta de que terá que enfrentar o pesadelo supremo – o SAARA.
O saara é um mar de pessoas, na grande maioria suburbanos melequentos e suarentos que invariavelmente irão encostar e aderirão a você como se fossem cobertos de super-bonder.
No meio da multidão que anda a menos de 0,1km/h estão varios obstáculos, como vendendores de caneta que explode, discos da “Sandijuni”, mendigos aleijões cheios de perebas brilhosas como corais de pús, poças dágua, montes de lixo ornamentais, buracos, placas, cones, carros, carroceiros, camelôs que vendem chumbinho para rato, árvores de natal com pisca-pisca, árvores de natal plásticas e de metal, árvores musicais, árvores com fios de fibra ótica que fazem ela ficar multicolorida, só que mais parecem espinhos. Você precisa desviar disso tudo, mas cuidado:
Velhas negras gordas e peitudas enfiadas em minúsculos vestidinhos de viscose irão atingí-lo com sacos plásticos pretos contendo coisas duras e espetantes que irão causar-lhe ematomas.
Ao seu ouvido, um sujeito vai berrar com toda a capacidade pulmonar que alguma merda chinesa vagabunda de um e noventa e nove está em promoção e quando você se recuperar da tontura, mais um berro no outro ouvido te lembrará que o melhor neste natal é comprar na “Bijux Joias e acessórios”.
Você até tentaria proteger os tímpanos se ao menos pudesse levantar os braços, mas isso é virtualmente impossível em meio ao mar de sacolas e gente por todos os lados.
O calor causticante do Rio em pleno verão de 43 graus na sombra te faz lembrar que precisa beber alguma coisa. Mas onde? Meio metro a frente e quase vinte minutos depois, você vê alguém vendendo um garaná muito do suspeito, que parece mais uma água preta que sai da roda do carro quando você lava. Sem pensar duas vezes e sem respirar dentro do copo para não vomitar, você mete aquele líquido escuro para dentro e antes que possa sentir o gosto, enfia meia coxinha que deveria estar ali parada desde anteontem.
O suplício recomeça. Entre bancas de música funk no último volume e a rádio do Saara que é um show à parte, você se escafede em pequenas portinhas recobertas por cartelas de brinquedos empoeirados, bolas de natal e enfeites de qualidade e gostos pra lá de duvidosos quando você vai entrando de loja em loja de quinquilharias orientais em busca de alguma coisa interessante.
De fato, existem porrilhões de coisinhas interessantes. Na sua maioria eletrônicos suspeitos e procedência idem além de bibelôs de todos os tipos, formas e cores. Sua vida seria fácil se você pudesse pragmáticamente encontrar tudo que precisa numa única loja dessas, preferencialmente, na primeira que entrar, mas você escolheu uma mulher detalhista e curiosa quando casou e agora vai passar boa parte deste dia quente pra caramba entrando de loja em loja até achar a porra do bibelô certo. Mas isso só acontecerá na última loja, quando você já está prestes a explodir de ódio. Some-se a isso tudo as milhares de flores artificiais mostruosamente feias, lustres orientais com cordinhas vermelhas que te roçam o cangote em cada loja, velhos chinas que estão em pé em banquinhos te olhando do alto como quem diz: “VAI ROUBAR?” saquinhos com bugingangas, porta-retratos e vasos que nem na casa da Grande Família ficariam bem.
“Quem compra essas merdas, meu Deus?” – você se pergunta, mas antes que possa pensar outra coisa é acertado nos joelhos por uma compradora legítima deste tipo de coisa papagaiada.
Ali está. É uma senhora que está coberta de sacolas pretas gigantes, todas com trecos pintiagudos saindo dos sacos, e que agora vai comprar um quadro de quase um metro por um metro de um Jesus Cristo com raios que saem para todos os lados. Basta ligar na tomada e ele fica brilhando com raios multicoloridos a se espalhar por todos os lados.
E então você descobre ali, no meio de uma loja, em pleno saara, no meio do caos completo, entre folhas de samambaia de plastico e orquídeas gigantes de seda, no meio da compra de uma aposentada suburbana, o verdadeiro espírito do natal.

4 comentários em “Desventuras de natal”

  1. Pô, Philipe, tenho uma sensação bem parecida sobre essas épocas de fim de ano. Aqui em Salvador os Shoppings são menores e não temos o Saara, mas o equivalente deles já são bastante ruins ( inclusive estou neste momento chegando a um fator de multiplicação de umas 10, 15x, pra imaginar a zona que deve ser esse lugar )
    Que bom, nos 45 do segundo tempo de seu post, lembra r de alguma coisa que possa suplantar essa experiência aterradora que vc narrou.
    Feliz Natal!

  2. Sorte sua eu ter paciencia para ler, esse post e maior qe a tela do monitor… Mas vamos ao que interessa, não posso dizer que eu sinta isso que vc sente, primeiro pq eu n so ateu, porem eu tb axo isso td cansativo pacas, reveillon então, nusss, e um cumulo, um monte de gente amontoada, emporrando pra ca e pra la, da nos nervos isso tudo, mas fazer oq, se tem uma coisa qe agente n pode mudar e a cultura, se for para mudar ela mudara sozinha.

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