Bolsa Família não dá pra nada! Nem pra uma mísera calça de 300 reais!

Realmente, é um absurdo. Veja a indignação dessa senhora que reclama que há oito anos o bolsa família dela não aumenta. Em contrapartida, o feijão, o tomate, a carne, o macarrão, o óleo, até o sal, tudo aumenta.

Mas eu não sei não, hein? Acho que ela pode não estar sabendo, tem gente que pode comprar a calça com bolsa família sim. Segundo o governo:

Os valores dos benefícios pagos pelo Bolsa Família variam de R$ 32 a R$ 306, de acordo com a renda mensal da família por pessoa, com o número de crianças e adolescentes de até 17 anos e número de gestantes e nutrizes componentes da família. O Programa tem quatro tipos de benefícios: o básico, o variável, o variável vinculado ao adolescente e o variável de caráter extraordinário.

Se ela não ganha os 306 reais, que da pra comprar a calça e até pagar ônibus, deve ser porque ela não teve filhos o suficiente.
No fundo, eu penso que essas esmolas generalizadas travestidas de programas sociais só atendem realmente ao pobre miserável no papel. No mundo real, das conveniências e armações, da vilaneza canhestra a quem interessa manter a massa dominada e oprimida, os bolsa isso, bolsa aquilo, vale isso, vale aquilo servem é aos interesses eleitoreiros dos políticos.
A ideia, como toda ideia que se preze, não é de todo ruim, e não é de todo (nem de longe) boa. Obrigar as crianças a frequentar as escolas (mesmo que com ensino questionável e instalações quase sempre sub-saarianas) é o mínimo que se poderia esperar do governo.
Mas a pergunta que eu me faço é: Por que diabos devemos nos contentar com o mínimo se já pagamos o máximo?

Eu não sou um maldito direitista fascista que quer que o pobre se exploda. Eu quero que o pobre vá à extinção, admito, mas não matando eles, quero que eles virem classe média, mas classe média de verdade, não essa maquiagem tosca de números no qual o governo do PT inventou deliberadamente que hoje quem ganha mais de 291 merréis, virou “classe média”.

Qualquer pessoa normal, (excluindo alguns políticos) quer que os pobres acabem, ou se for utopia demais, (e é!), que eles pelo menos se reduzam. A concentração de riqueza no Brasil é brutal. Tão brutal que deveria só ser permitido ser gravado em caixa alta e negrito: BRUTAL

O povo pobre se vê refém em diversos níveis. Alguns tão sutis que eles sequer imaginam que possam existir. As piores grades são as invisíveis. Por exemplo, no grau de escolaridade. Sabe-se que no Brasil, um percentual muito pequeno, detém um nivel superior. Num trabalho intitulado Pesquisa Social Brasileira, o sociólogo Humberto Carlos de Almeida, professor da Uff e FGV nos diz que é somente a escolaridade um divisor de águas que separa o Brasil moderno do Brasil arcaico.

Sabe-se que quanto maior a escolaridade, maior o salário e não só isso, maior a produtividade. Com um país formado por mais pessoas com menos escolaridade do que um percentual mínimo capaz de questionar, capaz de pelo menos entender o que vem escrito num jornal, não tem como mudar o panorama. A verdade é essa. Infelizmente.
Por exemplo, o político. O político brasileiro que vem das classes ditas “dominantes”, é um percentual mínimo. Praticamente inexpressivo. A massa, o grosso dos políticos do Brasil, provém das classes populares. Entender isso é fácil, já que são eles que os elegem.
O problema está aí. Qual o programa de governo de um cara que surge ali? Não existe. O programa de governo dele é juntar a maior grana possível no bolso, e então construir estruturas que o mantenham indefinidamente no poder, e para isso, “ele joga para a platéia”.

Em muitas situações é necessário a adoção de medidas impopulares. “O remédio ruim pode evitar a morte”.

Mas quando você precisa desesperadamente de aprovação, você faz vista grossa para a doença, para não dar o remédio ruim. Isso é um problema SÉRIO neste país!
Se o político coloca seu interesse pessoal à frente de sua função, (o que é o caso de praticamente todos) ele JAMAIS, repito, JAMAIS vai propor algo que soe impopular, como “acabar com o bolsa família”.
Ao contrário. Sabendo o que seu curral eleitoral deseja ouvir, ele faz o que? Ele cria novas bolsas. Novos mecanismos eleitorais travestidos de sistemas de distribuição de renda. O modelo é tão calhorda que não permite sequer discordâncias. Qualquer discordância é imediatamente apontada como “nazista”, “anti-pobre”, “elitistas”, “forças invisíveis” e numa jogada indefensável, coloca qualquer posição a projetos desse naipe como sendo interesses de manter o pobre na miséria. Ou ainda pior: Dirá que é “jogo político”, para defenestrá-lo de sua função de guia ideológico-messiânico-mundial.

Como se pudesse existir algo que escape ao conceito de “jogo político” vindo de políticos.
Não curiosamente, é o povo de menor escolaridade, muitos dos quais vivendo dos programas assistencialistas, que constroem os pensamentos mágicos onde habitam figuras divinas, com supostos poderes de salvá-los através de programas de distribuição de dinheiro e conduzem essas figuras ao poder. As pesquisas sobre como pensa o brasileiro, feita com pessoas de diferentes graus de instrução, renda, sexo e idade, nos dão um panorama de como o brasileiro pensa.

A mão que dá o pão é a mão que será beijada.

Quer ver uma coisa que me faz ter pena? Ver uma pessoa pobre dizendo que não acha que precisa ter escolaridade. Que saber ler (pra ler a Bíblia na igreja) já está bom. Isso é miséria intelectual em seu pior grau. Atuando na expansão e cristalização dessa própria miséria.
Não há programas sérios de expansão da escolaridade neste país, fora as maquiagens de sempre, aos quais já estamos habituados. É triste, é vergonhoso. É dramático. Não se prioriza a educação de qualidade. Os números de planilhas interessam mais. Mas os números não são a realidade. Números maquiados não vão ajudar a conter a picaretagem generalizada que se aproveita da ingenuidade do eleitor pobre. Ao contrário. Eles irão potencializar isso.

Quanto menor a escolaridade, maior a concordância com a ideia de que um político que rouba mas faz é aceitável. Isso aparece na pesquisa, que também mostra que a baixa escolaridade contribui para a tolerabilidade a situações como o controle federal da liberdade de imprensa (censura). E ainda, o apoio social ao clientelismo no Brasil é imensa. O político é clientelista porque a população QUER! E aceita isso.

Outra coisa, que parece óbvia, mas os números estatelam ainda mais: A religiosidade no Brasil cresce à medida em que baixa a escolaridade. São fatos diretamente atrelados.
Assim, podemos interpretar a explosão pirotécnica de religiões neopentecostais de nomes bizarros se sanhas pelo dízimo com sistemas de metas e até marketing multinível como um fenômeno produzido diretamente pela pobreza. Isso por que? Porque a igreja vai instituir para este cara, dependente em diversos níveis, um grupo social que EFETIVAMENTE VAI AJUDÁ- LO!

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Mas não vai ser de graça, é óbvio!

A dona do video reclama que com o que ela ganha (vamos supor que ela só ganhe o bolsa família) NÃO dá para comprar a calça moderna e descolada para a filha dela. De fato, não dá.

Há uma certa indignação aí de imaginar que ela não pode pleitear dar uma calça cara da moda para a filha. Ela é pobre e portanto deve se colocar em seu devido lugar, se recolher à própria insignificância e jamais desejar qualquer coisa senão vegetar no pântano escuro da pobreza fedida.

Ora, meu! A mulher é gente. Tal como eu, que quero o melhor pro Davi, ela quer o melhor para a filha periguete dela. É direito da pessoa desejar dar o melhor para seu filho, mesmo que o melhor, em uma distorção social, seja um símbolo de status, que na verdade é tão babaca quanto o símbolo de status do meu vizinho ali que comprou um carro de R$ 100.000 reais e ta devendo o condomínio. A babaquice é igual, só muda o patamar de valores.

Aposto que o Eike tem amigos que trocam de avião para não ficar por baixo na rodinha de uísque e charuto do clube.

“hummm… Viu meu novo Gulfstream? Eu até que não queria comprar, mas sabe como é. A dona encrenca insistiu. Vamos dar um pulo em Mônaco semana que vem?”

Há pessoas que chamam essa dona de vagabunda, de folgada para baixo. Eu não sei. Não conheço ela para formar juízo de valor sobre a vida dela. O que eu acho é que se ela ganha bolsa família  ela é pobre, e enquanto pobre, me impressiona ela querer usar este pouco que realmente é, para dar a calça que a filha quer. Isso coloca esta calça num nivel simbólico muito interessante que nos diz muito sobre as relações de poder naquele contexto que ela vive.

Uma coisa que eu acho peculiar é quando vejo gente usando o video da dona que diz que não pode comprar nem a calça de 300 contos para filha com o bolsa família, para tentar justificar que quem votou no Lula foi a massa ignorante.

Isso é uma ideia certa e errada ao mesmo tempo.
Eu explico: É claro que o Lula só virou presidente do Brasil porque a massa ignorante votou nele. Assim como o Collor, o Fernando Henrique, a Dilma… Entenda: Não é possível ganhar eleição NENHUMA sem o voto dos pobres e dos ignorantes. Fato. Não se discute isso. Isso é cristalino como diamante! Mas é claro também que não foram só eles que votaram no Lula. A maioria das pessoas que votou e se decepcionou, foi porque entenderam que ele era melhor para o país na medida em que – mais um – vindo da classe C ou D, entenderia a necessidade premente de educação deste país. O que não aconteceu. Milhões de reais em Pesquisa e Desenvolvimento foram contingenciados para fazer superávit. Outros tantos foram desperdiçados fazendo papagaiadas diversas no exterior, e uma fatia significativa realmente ajudou no desenvolvimento do Brasil. Não foi uma novidade. Não é mérito. É obrigação. Até o Collor, aquela figura abjeta contribuiu para o efetivo desenvolvimento do Brasil.

Esse é o nosso retrato. Nós somos um país de pobres, com “uma meia duzia de cinco” milionários, uma classe media escorchada de imposto. E uma massa que se perde no horizonte de gente que acha certo continuar recebendo benefícios mesmo após sair da faixa de renda que lhe garante este direito, afinal, “o dinheiro é do governo”. O povo pensa que “é da Dilma”… “Do Lula”… “Menlhor no meu bolso que no bolso do Maluf” e coisas do tipo.

Mudando um pouco o foco do assunto, eu te pergunto: Por que o livro é tão caro no Brasil?
Margem de lucro? Sadafeza? Imposto? Insumos? Logística? Encargos trabalhistas?
Claro, todos esses fatores e muitos outros incidem sobre o valor final de uma obra literária. Mas há uma coisa que é impossível de discordar. Um livro tem seu valor unitário inversamente proporcional ao volume de sua tiragem. Assim. Quem faz 100 livros termina com cada um saindo a uma pequena fortuna, enquanto tiragens altas produzem um valor menor por livro. Isso é um fato palpável. Como no Brasil temos um mercado consumidor restrito, porque uma parcela não sabe ler, outra não gosta, ou prefere ver a Novela da Globo que é mais legal, e ainda grátis, o livro vende pouco. Não justifica tiragem monumental. Assim, com tiragens menores o livro encarece e sobre esse valor cai a cascata de tributos e taxas que dá no que dá.

Então, veja como este problema crônico do país, que vem desde suas origens monárquicas afeta diferentes sistemas… Peter Dullius proprietário da rede de livrarias Beco dos Livros,  contou uma história interessante aqui:

“Certa vez, uma Secretária de Cultura de uma pequena cidade do interior veio na Beco comprar as Obras Completas de Erico Verissimo. Apresentei-lhe aquela coleção de capa cinza, dura, de papel amarelado. As páginas eram amareladas não por velhice, eram assim mesmo. Hoje os livros de primeira linha não têm mais páginas 100% brancas. Custava R$ 300. Ela olhou, fez cara de nojo e disse que os vereadores não iam gostar daqueles livros de papel com jeito de velho. Acabou pagando R$ 1.000 por uma edição com as folhas bem branquinhas, daquelas que fazem mal aos olhos, coisa de quem não lê. Brasileiro gosta de coisa nova e cara”.

Eu sei lá. Não me espanto com mais nada neste Brasil. Talvez, de tudo isso reste a surpresa indigesta de saber que uma calça de pirigueta custa o preço da coleção das obras completas do Erico Verissimo.

40 Comentários

  1. jeyson 21 de maio de 2013
  2. Leonardo Cezar 22 de maio de 2013
  3. Farid 22 de maio de 2013
  4. Luís 22 de maio de 2013
  5. João Vittor 22 de maio de 2013
  6. Gustavo 22 de maio de 2013
  7. Gustavo 22 de maio de 2013
    • Gabera 22 de maio de 2013
    • rosi 3 de junho de 2013
  8. Carla 22 de maio de 2013
    • Cemin 13 de junho de 2013
  9. Alberto 22 de maio de 2013
  10. mamed 22 de maio de 2013
  11. clauton alves 22 de maio de 2013
  12. Felipe Veiga 22 de maio de 2013
    • Luiz Morais 23 de maio de 2013
      • Cemin 13 de junho de 2013
  13. Felipe Veiga 22 de maio de 2013
  14. Jackie 22 de maio de 2013
    • Philipe 23 de maio de 2013
  15. BEZALEL 22 de maio de 2013
  16. Mme. Danica 22 de maio de 2013
  17. Mario Mesquita 22 de maio de 2013
  18. alex 22 de maio de 2013
    • Philipe 23 de maio de 2013
  19. Cadu 22 de maio de 2013
  20. Celio Peres 22 de maio de 2013
    • Linda 23 de maio de 2013
  21. Paulo 22 de maio de 2013
  22. BEZALEL 23 de maio de 2013
  23. Diego Correa 23 de maio de 2013
  24. BEZALEL 23 de maio de 2013
  25. Diego Correa 24 de maio de 2013
  26. Nathalia 24 de maio de 2013
  27. Lou 27 de maio de 2013
    • Philipe 27 de maio de 2013
  28. Furanus Alheius 27 de maio de 2013
    • Philipe 28 de maio de 2013
  29. Carolina Moraes 30 de maio de 2013
  30. Carolina Moraes 30 de maio de 2013


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