A menina do ônibus e o estupro existencial

Hoje acordei cedo. Precisava ir a Icaraí para uma consulta médica, coisa que detesto peremptoriamente. Em vez de pegar meu carro, optei por ir de ônibus, uma vez que o bairro de Niterói tem mais densidade populacional que o Japão, e segundo dizem (verificado in loco) a prefeitura vem apurando seu rendimento com uma máquina municipal de rebocar carros como nunca se viu.

Precisei andar um pedação debaixo de um sol escaldante para pegar o ônibus. Depois de uma longa espera, ele finalmente apareceu, e como não podia deixar de ser, apareceu lotado. Eu dei bom dia para o motorista e pela expressão que ele fez, como se estivesse arrancando um furúnculo do ânus com um espeto de churrasco, percebi que não deve ser muito comum as pessoas darem bom dia para o motorista do ônibus lotado.

Logo que começou “a viagem” entendi o motivo. Assim que consegui passar na roleta, algo digno de um contorcionista do Cirque de Sileil, me deparei com um mar de gente já fendendo de manhã cedo. A cada ponto, dezenas de novos corpos se juntavam numa sauna que parecia uma sacolejante sucursal do inferno.

Uma senhora idosa ameaçou fazer barraco para uma mocinha que estava na poltrona amarela, que é preferencial para idosos, gestantes e deficientes. A moça fingiu dormir. Normal, manobra manjada praticada diuturnamente em 9 entre 10 ônibus lotados. A viagem prosseguiu, com o ônibus desafiando a lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar do espaço. As pessoas odiando o motorista com todo seu âmago. E enquanto isso eu pensava no meu carrinho paradinho na garagem, grandão, com ar condicionado…

Eis que em meio aos meus pensamentos filosóficos de como sou capaz de me foder para não me foder, noto olhos azuis olhando diretamente para mim. Logo abaixo de onde eu estava, uma moça muito bonita, com um decote sobre o qual eu pretendo não detalhar, estava me olhando. Pensei que talvez estivesse me conhecendo, quem sabe até pensando: “será aquele cara do blog?”

Mas logo, minha percepção extra sensorial edificada na capacidade de ler expressões faciais me deu “a real”.

A real é que ela estava prestes a gritar que eu a estava estuprando. Sim, ali estava aquela linda criatura de singela beleza, parecendo saída dos sonhos mais pecaminosos dos homens-bomba, me olhando com uma cara que deixava claro que ela queria me dar uma porrada. Percebi tudo só de olhar pra ela. Ali estava uma feminista militante, que certamente lê ou escreve manifestos, que frequenta grupos com nomes como “Vadias contra os machos”, que apoia o Pepeka Satânika ou coisas do tipo. Certa vez entrou uma aqui e disse que eu era um estuprador porque eu tinha pênis. A moça, de olhar injetado e cara de mau estava olhando fixo pra mim, na esperança de me pegar roçando meu bingulim véio de guerra no braço dela. Incrível como estava claro, acho que até telepático aquele negócio. Num ônibus onde não há sequer lugar para pensar, a mulher estava visivelmente incomodada com a proximidade de minhas gônadas com seu sacrossanto e imaculado braço.

Por uma fração de segundo temi que ela estivesse avaliando o delicado buquê de minhas partes íntimas ali perto da cara dela. Mas felizmente eu havia tomado banho, já que nunca se sabe quando os médicos vão esmagar seu ovo ou enfiar o dedo no seu cu… (true story)

Esperei que ela dissesse alguma coisa, como “sai seu macho opressor!”, mas ela nada disse, apenas me olhava séria. Estava pronta para o conflito. O coração devia estar batendo forte, a adrenalina a mil como quem sabe convenha a uma fêmea de qualquer espécie que enfrenta um macho (tirando uns peixes e o Louva-Deus). Eu, por minha vez ja havia colocado a mente para gerar uma resposta de bate-pronto que era: “Troca de lugar comigo, que eu não vou reclamar de sua xana me roçando”. Mas ela nada disse. Os olhos azuis, lindamente azuis por trás dos óculos âmbar me confrontando.

Me senti mal de uma mulher pensar que eu posso ser um desses caras de lotação cujo QI não se diferencia de um cachorro no cio, desses taradinhos que agarram na perna da visita dando vexame zoofílico nos piores momentos.

Cada pessoa que entrava no ônibus e tentava passar na roleta, produzia uma onda que culminava num esforço hercúleo de minha coluna lombar para evitar o campo de força invisível que a moça havia erguido ali. Tudo que eu mais queria era sair de perto dela, mas seria impossível, o ônibus lotado, tão lotado que nem mudar de posição era possível. Pra piorar alguém havia tomado banho de leite de rosas e eu já falei aqui que nada, NADA fode mais minha cabeça que cheiro de leite de rosas de manhã cedo. Enjoei, em dez segundos minha cabeça latejava. Tive medo. E se eu desmaio e caio em cima da feminazi? Será a certeza concreta do estupro. Até que o povo entenda o que aconteceu, já me lincharam.

Mas para meu alívio, estava chegando o meu ponto. Era o lugar onde eu ia descer, largar aquele inferno. Mas então, eis que a moça se levanta, sem tirar os olhos de mim. Ela olhou para as minhas calças, talvez conferindo se era a situação daquele macho estar em ponto de bala para a procriação, o que talvez tenha a deixado um pouco constrangida, porque não consegui conter minha expressão de espanto ao ver a mulher olhando deliberadamente para o fudêncio. Não estou acostumado com essas coisas. Não me dou a essas liberdades com estranhas.  Certamente ela avaliou ali qual seria as chances de eu, aquele homem com cara de tarado a “encoxar”, coisa que não fiz na vida e muito provavelmente morrerei sem saber como faz.

Ela passou por debaixo do meu braço e por um breve segundo rezei para que aquela sovaqueira que impregnava o catacorno não estivesse provindo das minhas axilas peludas de macho opressor.

Para meu azar a feminista silenciosa desceu justo no mesmo ponto que eu. Logo, em meio a multidão que esfregavam suas bundas em meu corpo, notei que ela olhou para trás pelo menos umas dez vezes, para se certificar que claro, o “tarado” estava seguindo ela. Afinal, como todos os homens sabem, menos Copérnico talvez, o mundo gira em torno de mulher de olho azul e com decote.

Finalmente descemos os dois no ponto da praia. Ela foi andando rápido e eu na minha. Não dei importância, mas a cada seis ou sete passos, ela se virava para me olhar. Devia estar avaliando se o macho tarado-opressor e estuprador em potencial estava olhando a bunda dela e de fato eu estava mesmo (desculpa, mô).

Ela foi andando, virou numa rua, e era a porra da rua em que eu precisava virar. Eu tinha que passar na clinica onde fiz minha ultrassonografia das pedras nos rins (prazer, meu nome é chocalho)  para pegar o resultado e levar no outro médico.

Lá fui eu, andando atrás dela. A maluca, coitada, deve ter entrado numa paranoia fodida, porque ela estava quase correndo. E eu na minha, nem mais olhava pra ela, afinal era um belo dia de sol e a praia estava espetacular.

Qual não foi minha surpresa ao perceber que ela estava indo no mesmo prédio comercial que eu?

Quando a mulher me viu entrando no vácuo dela no prédio, ela ficou muito, muito bolada. Dava pra ver que ela estava suando frio. O elevador prestes a subir, entramos eu e ela e tinha uma vovozinha de uns 90 anos ou mais. Ela não parava de me olhar fixo e eu quieto. Nisso a porta abre e a vovó desce.

Agora éramos só eu, o protopseudoestuprador e ela.

Abriu a porta e ela desceu. Eu saí também, afinal, “não vou bater palma pra maluca dançar”. Fomos andando pelo corredor escuro e deserto do prédio, e ela andando apressada. Finalmente ela entrou na clínica. Puta que pariu, a mulher ia na MESMA clínica que eu!

Assim, entrei atrás.

Ela parou no meio da recepção, virou e ficou me olhando com cara de quem ia falar: “Se manca tarado!”  Mas felizmente ela nada falou, apenas se prostrou ali na segurança da presença da atendente e ficou me olhando com a expressão de quem estava prestes a me virar uma porrada de MMA e me finalizar ali mesmo.

Dei bom dia, entreguei meu protocolo, peguei meu exame, assinei o papelzinho, renovei o bom dia e fui embora.

 

 

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44 comentários em “A menina do ônibus e o estupro existencial”

  1. Não estava lá e não vi o que aconteceu, mas vc já parou pra pensar que o mesmo jeito que vc tem certeza que ela era uma feminazi, que concordo que existem, ela tinha certeza que vc era um estuprador? Que esse “complexo de estupro” pode ter motivo, ela ou alguma amiga dela pode já ter passado por uma situação dessas (o que é muito provável, eu mesmo conheço pessoas vítimas de estupro)? Que se vc estava perseguindo e olhando a bunda dela, ela pode ter razão de pensar que vc era um estuprador? Que se ela não fizesse cara de bunda com certeza algum idiota poderia pensar que ela “ta dando mole”? Por favor, não julgue as pessoas e saia fazendo textos em blogs sem saber de fato o que aconteceu, não sustente a idéia de que ela estava errada, pois ela estava certíssima! Assim como não pode dar mole de andar de janela do carro aberta em lugar perigoso, ela era uma vítima em potencial de um crime que ocorre com muito mais frequência. Uma menina de olhos azuis com decote num ônibus lotado! Eu não estou te criticando, amo seu blog, vc é uma boa pessoa, mas na minha opinião dessa vez vc deu bola fora heim!

  2. Em algum lugar, talvez neste mesmo dia do ocorrido, esta moça se reportou a suas amigas de mesmo pensamento sobre o episódio de “quase estupro” que havia sofrido no ônibus. Deve ter aumentado a história, te acusado de fazer coisas muito além do que realmente ocorreram, fazendo descrições macabras de como tudo se desenrolou. Deve ter dito como ela tinha certeza que, se não fosse a velhinha, você teria consumado o ato ali mesmo no elevador. Descreveu a angústia dantesca que sentiu quando da possibilidade de a velha sair do elevador e vocês dois se verem ali sozinhos naquele lugar fechado.
    Mesmo sem querer, sem ter culpa, sem ter agido para este resultado, você alimentou na cabeça nela mais um pouco da espiral de paranoia do estupro, mais um pouco da ameaça velada que ela acredita que a cerca todos os dias. Somente pelo simples fato de existir e estar ali você causou isso nela.
    Fico imaginando se não surge nestes mulheres uma repulsa fanática aos homens que chega a lhes deformar a própria sexualidade, a própria forma de se ver perante os outros e de se sentir em sociedade. Devem viver numa guerra psicológica infernal, paranoica, quase esquizofrênica.
    Devem sentir dor e angústia reais, devem sentir a violência quase se tornar física de tanto que a remoem e esperam dentro da suas cabeças o tão temido ato por qualquer transeunte na rua. Devem ter de fingir com sorrisos plásticos quase todos os pequenos contatos sociais que são obrigadas a ter para tentar mendigar uma vida em sociedade de mínima normalidade, disfarçando que, por dentro, estão doentiamente ameaçadas e agredidas pela simples existência dos homens.
    Cara, elas estão estuprando elas mesmas.

  3. Nossa, Philipe… Te sigo há anos e adoro seu trabalho, mas SÉRIO que você não consegue enxergar todo o machismo no seu discurso?

    Esse post me deixa profundamente triste porque eu sei que você pode mais, muito mais. Me surpreendo em ver que você tenha tal mentalidade.

    • hummm. é difícil escapar do machismo que nos cerca. Deve ser uma luta permanente. Mas em algum momento VC se perguntou se eu não estava fazendo isso propositalmente para mostrar que tanto minha certeza sobre a mulher, quanto a certeza imaginária dela, que no fundo é minha própria certeza são moldadas no texto afim de mostrar que são dois lados da mesma moeda? Fico feliz de VC considerar que eu posso mais. Talvez eu possa mesmo, hehe

      • Sinceramente eu não entendo o problema do ”machismo”. Se procurar no primeiro dicionário Aurélio vai ver que não existia nem o conceito ,forçado por pseudo-intelectuais logo na segunda edição, de ”opressor” das mulheres.
        Ser contra o ”machismo” sendo homem, no sentido literal da palavra, é ser contra a própria natureza que faz o homem ser homem e não um menino.

      • No final, parabéns pelo texto. É engraçado como as cenas vão se construindo e até parece uma estória fictícia pela coincidência gigante. Ademais, qual foi a reação dela quando você pegou os papéis e foi embora? A impressão que fica é que ou ela vive em uma realidade alternativa depois de possivelmente ler incontáveis horas de femimismo na net ou tava dando mole e tu bobeou hahahaha.

  4. Bem legal a história, parece que você atrai coincidências e casos bizarros kkkkkkkk Entendo o lado da menina, ela fez um prejulgamento sobre você baseado em experiências de assédio que já sofreu.

  5. Interessante este sistema de comentários. Perdeu um leitor que vem te seguindo a anos, sempre indicando seus contos aos meus amigos. Não pelo texto em si, mas por não autorizar um comentário. Sempre percebi que outras pessoas reclamavam que o comentário não aparecia, quando lhe convia. Uma pena, agora além de eu não fazer mais propaganda, pra mim vc é um exemplo de pessoa que torna o Brasil mais lixo do que é hj…

    • Que agressividade, meu amigo. Mantenha a calma. Ocorre que BR é foda, vc sabe como são as coisas. Um blog com muita audiência, acaba sendo alvo de gente qe entra aqui querendo fazer propaganda de pirâmide, venda de rim, toda sorte de bizarrice (estou falando sério sobre o cara que quer comprar rim) véio. Assim, eu preciso MODERAR os comentarios. Ocorre que eu tb trabalho, tenho uma vida profissional atribulada e não fico o tempo todo aprovando, o que me leva a aprovar os comentários em lotes. Assim, eles entram, mas eu preciso ler um a um, e respondo (quase) um a um também. Não fique com raiva, preciso fazer isso para evitar o spam no site. E tb porque de acordo com nossas leis, se nego escreve merda nazistas ou racistas aqui EU posso ser o processado. Eu tb preferiria que o comentario entrasse na hora, mas não rola. Não há segurança jurídica que permita isso e nem as pessoas tem comportamentos que me permitam liberar geral. Eu estou sempre tendo que explicar isso pras pessoas.

  6. Phillip, sem querer ser a chata, mas eu acho que essa moça já sofreu algum abuso sexual sério ou estupro, não um só mas vários. Essa reação não é normal. Um taradão com idade pra ser meu pai se esfregou em mim no ônibus uma vez, só empurrei ele com o braço e o cara saiu, hoje se um homem encosta em mim pq o ônibus tá lotado ou quando é empurrado pelo povo que passa eu não ligo. Muitas outras mulheres que eu conheço também não ligam da proximidade ou contato por causa do aperto no busu. Mas mulheres que já sofreram abusos e estupros tem esse horror a contato com homem, principalmente se a violência é antiga e acontece desde que a mulher era criança. Já li vários depoimentos e o perfil de mulheres que tem essa aversão total a contato com homens é o mesmo, o abuso sexual começa quando a vítima era criança, por um pai, irmão ou parente próximo, dura anos. Depois o namorado estupra, o chefe assedia e molesta, o amigo se aproveita. Quando a vítima enfim se livra dos agressores ela fica com esse horror a contato com homem, por menor que seja, mesmo que o homem não tenha intenção de molestar. O fato da moça ser bonita provavelmente foi a desculpa dos abusadores, li um depoimento de uma vítima de violência sexual prolongada em que os agressores diziam que “não conseguiam resistir” pq a menina era linda, loirinha, branquinha, olhos claros, parecida com uma boneca. É medo, cara, o mais puro e irracional medo que impulsiona essas mulheres.

    • TB acho que deve ter sofrido alguma violência mesmo. Mas me intriga é o fato de tanta gente não ter entendido o cerne desse post. Acho uma merda ter que ficar explicando a piada. Poucos entenderam que o cerne do post são as pessoas e suas edificações mentais. sou eu tendo a certeza dessa moça ser feminazi sem absolutamente nenhuma base pra isso. Uma moça vendo em um homem um estuprador igualmente sem base. Isso é a alegoria e a crítica à sociedade cheia de certezas improváveis no qual nos vemos imersos. Veja os comentários desse post, note como as certezas improváveis se manifestam.

      • Oi, Philipe. Acompanho teu blog há anos e nunca comentei; mas hoje bateu essa vontade.
        Entendi sua alegoria e certamente tem esse fato de todos vivermos paranoicos, cheios de medos, prejulgando tudo. A galera que se defende chega a soar ameaçadora, de tanta defesa… Entendo isso sim. E sim, a menina te julgou uma ameaça sem nenhuma base concreta. Deve ser muito desconfortável a sensação.
        Tem um viés de humor, de crítica, de absurdo; é um texto divertido. E o blog é seu, afinal, você fala o que quiser! As piadas são suas, livres pra abordarem o que quiser. Ninguém pode te reprimir por isso. Mas posso dar opinião? É minha crítica ao seu texto (não a sua pessoa!), se for de agrado ler.
        Algumas palavras que você usou, alguns julgamentos que você mesmo fez, e a forma como soou que você tinha razão, afinal: a menina seria uma paranoica exagerada. Sabe, é complicado falar isso por ai, que uma mulher é paranoica por se sentir agredida. É tão tão mais comum o inverso (ela ser realmente agredida e ninguém acreditar) que fazer humor sobre como ela é uma louca “feminazi” chega a ser de mal gosto. Liberdade sua, claro; mas sei que alguns leitores se incomodaram com a cena da mulher com medo sendo tachada de doida, etc.
        Igualmente as frases estereotipadas, “machinho opressor”… sim, poderiam ser frases ditas “feminazi”, mas não são frases de toda mulher que almeje alguma paz, igualdade, etc. E o texto meio que soa que sim, são frases comuns, dessas exageradas, paranoicas… Isso é bem chato pra quem ta tentando ganhar algum respeito nos debates, mas só é jogado nos estereótipos.

        Enfim, pode ser que teu texto tenha sido só humor mesmo, fazendo sarro até do próprio narrador, com seus preconceitos. Se for, não entendi assim de primeira, foi mal. E pode se que você apenas ache besteira todo esse mimimi de quem não gostou. Fica ai pra você decidir.
        Sai triste desse post. Mas continuo as leituras no blog!

  7. Que desabafo, hein?
    Já passei por isso algumas vezes, já senti medo de tarados e já senti até medo de negros (de ser assaltada ou pior), devo admitir. Devo ter sido odiada também.
    Mas não senti raiva da pessoa, senti medo. É complicado, quando você vê seu coração já está pulando na garganta. É foda, não dá pra evitar, só tentar controlar.
    Mas ainda bem que ela não cometeu nenhuma injustiça com você, aí sim teria motivo pra ser odiada.
    Mas foi bem interessante ver seu lado, só acho que você poderia ter menos preconceito com a luta feminista.

    • eu não tenho preconceito com a luta feminista em si, mas acho certas militantes estereotipadas demais, papagaientas demais e com discursos estúpidos. Nada disso é contra ou culpa da luta feminista. Certo dia, eu disse aqui que considerava prostitutas profissionais, e que elas deviam ter todos os direitos trabalhistas assegurados. Eis que surge uma feminazi desejando minha morte, porque eu enquanto nas palavras dela “membro da raça macha” não tenho direito de defender a causa delas, já que nasci com pênis e portanto sou opressor. Opressor não apita, só serve para ser combatido.

      • Da mesma forma, conheço mulheres que acreditam que o homem é um aliado poderoso na luta contra o machismo – e que pode até mesmo se entitular “feminista”.

        Não há como homogeneizar grupos, ainda mais um grupo sem qualquer tipo de liderança central, formado por diversas células, cada uma com sua agenda política.

        Da mesma forma, pegar os exemplos extremos e por eles classificar todo o grupo é injustiça. Da mesma forma que já fui “proibido” de me entitular feminista e simplesmente segui meu caminho – já que eu, apesar de não concordar, entendo os motivos dessa repulsa – recomendo a você cuidado no julgamento, já que ele sempre acaba sendo muito mais ouvido que o elogio.

      • Dentro do feminismo há grupos que não concordam com a existência da prostituição (consideram exploração), outros que pensam como você, outros que são a favor da extinção do gênero.
        Mas essa pessoa que disse isso pra você está afogada no ódio.

  8. assustador é pouco ja passei por isso e a sensação que tu será linchado caso a dondoca que se acha a ultima bolachinha do pacotinho só poquer é bonitinha gritar tarado e o mundo todo vir encima de ti

  9. “Provavelmente ela tenha tido algum tipo de experiência relacionada a estupro/assédio, pense no lado dela, afinal ela é uma mulher”, convenhamos, não é todo cara que entra em um diabo de um ônibus superlotado com a intenção de sarrar em uma jovem indefesa. Feministas ou não, machistas ou não, se a moça sofre por não ter corrido atras de um psicólogo (o que acho relativamente normal de se fazer ao passar por tal coisa) ou não, se sou babaca ou não vou ignorar esses fatos. Somos lindas e ignorantes pessoas enfatizando e olhando apenas o que queremos. Sejamos irracionais, sejamos seres humanos. Nós gostamos de Nescau, mas recusamos o achocolatado em pó. Pobre Chocalho, pobre moça de olhos azuis.

  10. Não se preocupe. Não vou dar piti de “feminazi”. Eu posso dizer por experiência própria que sofrer abuso em coletivos é comum, comum demais. Por causa disso nos assustamos, olhamos desconfiadas quando tem um cara muito perto de nós. Quem não precisa se preocupar com isso não entende o quanto é assustador saber estar sempre na iminência de passar por um abuso. Estamos sempre atentas. Você é casado, tem uma irmã, não? Pergunte para elas, fale com as suas amigas sobre isso, tente entender o que é passar por isso antes de já chamar a menina de “feminazi”.

    Eu sou rodeada por homens maravilhosos na minha vida, homens que amo demais. Sei perfeitamente bem que nem todos os homens são abusadores. Mas infelizmente sei que muitos o são. Muitos se aproveitam de transportes lotados para roçar, passar a mão, fazer ameaças: já fui ameaçada com uma faca dentro de um ônibus quando voltava da escola na minha adolescência, entende? Como eu posso saber se um desconhecido é um cara legal ou um outro canalha que vai me ameaçar? Está começando a ter um pouco de empatia pela moça de olhos azuis, Philipe?

    Para homens com um mínimo de empatia, em situações como essa, eu sugiro que vocês falem com a mulher. Expliquem que vocês não têm intenções de fazer mal.

    • Verônica, eu não tenho costume de falar absolutamente nada com gente que não conheço na rua. Até porque, a mulher não me disse nada, apenas me olhou. Olhar não é crime.
      Eu tenho duas irmãs, não só uma. Isso não atenua o fato de que tem umas feminazis que são chatas pra caralho.

  11. Hey Philipe, poderia aproveitar a onda e criar um texto como se você fosse a mulher, passando por exatamente a mesma situação. Seria show de bola.

  12. Quem nunca esteve vendo por trás daqueles olhos azuis? Muitas vezes minha paranoia social não foi tamanha que o coração disparou ao ser “seguido” por algum estranho que subitamente queria me danar e desapareceu! Apoio a continuidade do texto pelo Point of View da garota do olhos azuis, dessa vez, estuprando existencialmente o “macho opressor”!

  13. Olá, parabéns pelo texto.
    Quero dizer que realmente é complicado para você que sem nenhuma má intenção passou por isso, além de ser constrangedor. Não quero criar polêmica, mas já passei por isso muitas vezes, quando o transporte coletivo fica lotado, como se fosse um ímã, sempre surge uma mulher em sua frente, e os dois acabam ocupando o mesmo espaço, criando uma situação ruim para ela também. Sei que é difícil diferenciar, em meio ao caos, a má intenção de um homem, porém nem todos somos estupradores, algo que parece não passar pela mente feminina em sua grande maioria. Já passei por situações de pedir licença, de pedir desculpas por uma aproximação exagerada. Tento dialogar logo quando me aproximo, porque infelizmente, por seres estupradores que se consideram homem por apenas ter um pênis, a cada movimento é visível o medo da mulher. Não irei rotular um culpado, assim como a mulher tem medo de ser estuprada, um homem tem medo de ser taxado de estuprador e sabe lá deus o que pode acontecer. Creio que o segredo desta situação é o diálogo. Um simples licença, ou me desculpa faz uma grande diferença.

  14. Gostei do texto, ele nos faz pensar sobre algumas coisas e coloca um ponto de vista diferente do nosso. Só que a coisa toda é bem complicada, e o que posso dizer como mulher que pega ônibus com uma certa frequência (muita, na verdade) é que, por mais que a gente saiba que o ônibus está extremamente cheio, e que o contato físico entre pessoas inevitavelmente vai acontecer, estamos tão absurdamente amedrontadas pelo aumento dos casos de abusos, especialmente no transporte coletivo, e de pessoas que aproveitam-se desse “extremamente cheio” para praticar abuso, que ficamos automaticamente na defensiva. Porque o sentimento é esse MEDO, e não adianta sabe, acho que só sendo mulher pra entender, porque da mesma forma que não está escrito no rosto de ninguém quem é bom e quem não é, quem é bandido e quem não é, não está escrito quem pratica abuso e quem não pratica. É automático sabe, irracional, fica na sua cabeça: esse cara está encostando o piru em mim porque o ônibus está cheio ou ele está se esfregando em mim de forma sexual? E isso fica na sua cabeça o tempo todo, a possibilidade de você estar avaliando mal uma pessoa ou lidando com um tarado. Sou feminista, mas classificar uma pessoa por esse comportamento como feminazi (o termo não é legal) trouxe algo de machista sim, porque tenho amigas que não o são e sentem-se da mesma maneira. Mas acho que todas as coisas devem ser observadas de todos os lados possíveis. Imagino que no seu lugar, também não gostaria de alguém pensando em mim como uma tarada… rs. Gosto muito do seu blog, e acredito sempre que o quanto mais mantivermos nossas mentes abertas para assuntos como esse e o quanto mais nos colocarmos no lugar das pessoas só temos a acrescentar!

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