A era dos coronéis

A treta que narrarei a seguir aconteceu no dia sete de maio de 1931, que foi um dia quente na cidade montanhosa de Corbin, no Kentucky.

Naquele dia, havia um gerente de estação de serviço chamado Matt Stewart que estava precariamente se equilibrando numa escada para pintar uma placa de anuncio da estação de trem. Ele estava cobrindo um anuncio anterior com seu novo anuncio, quando escutou o som de um carro acelerando pela estrada, levantando uma nuvem de poeira. O carro vinha em sua direção, e Matt sabia exatamente quem estava nele e o que queria. Por isso, o pintor desceu da escada, e sacou seu revólver, já a espera da merda que ia dar. E deu!

O carro estava vindo do norte – da faixa de sertão conhecida entre os habitantes locais como “Meio-Acre do Inferno”. A área era assim chamada por suas principais exportações: bebidas piratas, balas e defuntos.

Não foi um homem armado que surgiu do carro – eram três homens armados. Parecia mais uma cena de Hermes & Renato: Tão logo o cara saiu do carro, já  mandou um:

-“Certo, seu filho da puta! Quer dizer que  você fez isso de novo, né?”

O motorista do carro, além de armado, estava puto porque aquela não era a primeira vez que Matt cobria os anúncios do concorrente na estação de trem com os dele.

O tal do Stewart saltou de sua escada, e já saiu disparando sua pistola freneticamente enquanto se preparava para se esconder atrás da parede da estação.

O tiro comeu feito cena de filme. Vendo que o colega estava caído no chão com um tirambaço no peito, o motorista abaixou-se e pegou a arma do amigo, com o qual disparou de forma selvagem.  

Então, agora eram dois contra um e chovia  bala de um lado para o outro. O tiroteio só amainou naquela estrada poeirenta e quete quando  o pintor finalmente gritou: “Não atire, Sanders! Você me matou!”

Logo, Stewart sairia cambaleando baleado no ombro e no quadril. Por sorte os tiros não foram fatais, ao contrario do tiro certeiro dele no peito do homem que estava estirado ao chão. E por isso, ele foi preso por assassinato. 

Este encontro pode ter sido tão comum como qualquer outro tiroteio em torno do meio acre  do Inferno, não fosse pela identidade do motorista. O “Sanders” que havia acertado dois tiros no pintor assassino não era ninguém menos que  este cara aqui:

A era dos coronéis
O famoso “coronel” 
 

Harland Sanders, era o homem que se tornaria o mundialmente famoso com a alcunha de “coronel Sanders”.

Obviamente que naquele dia do tiroteio, ele ainda não tinha o visual com o qual se tornaria famoso. Ele tinha cabelos pretinhos como a asa da grauna, e andava perfeitamente bem barbeado como todo homem de bem daquele tempo. Pouca gente sabe que o Coronel não é uma figura do Marketing, como Ronald McDonald. Sanders era um cara real, que metia o pipoco mesmo, e cuja biografia é bem GUMP, e é isso que explica esse post (além do fato de eu adorar comer no restaurante dele,  para horror do Clóvis, meu cardiologista) , hahahaha. 

Harland Sanders nasceu em 09 de setembro de 1890 na comunidade agrícola de Henryville, Indiana. Era comum que comentassem na cidade, que os homens dali  não se importassem em comprar um terno até que eles precisassem de um para o seu próprio casamento, e eles não se incomodariam em usá-lo novamente até que precisassem de um em seu próprio caixão.

Parecia ate uma profecia, porque em Em 1895, quando Harland tinha apenas cinco anos de idade, seu pai Wilbur fechou seu açougue cedo e voltou cambaleando pra casa, no meio do dia, febril e doente. Em alguns dias, Wilbur vestiu seu terno pela segunda vez.

Harland foi então criado por sua mãe, Margaret, uma cristã rígida que constantemente alertava seus filhos sobre os males do álcool, tabaco, jogos de azar e até mesmo assobios aos domingos. Com apenas sete anos de idade, o jovem coronel já tinha responsabilidades irreais para os padrões nutellinha de hoje. Ele cozinhava para os irmãos e cuidava dos menores até que sua mãe chegasse do trabalho.  Aos doze anos de idade, com a rotina de tomar conta dos menores atrapalhando os estudos, ele  abandonou a escola para nunca mais voltar. Sua mãe se casou novamente e seu novo marido detestava os filhos do casamento anterior, de modo que metia a porrada na galera por qualquer coisinha.  Então, o coronel aos  13 anos, levou porrada do padrasto pela ultima vez. No melhor estilo Tom Sawyer, colocou seus poucos pertences em uma caixa, entrou na cozinha, saiu pela porta dos fundos e partiu sozinho para viver sua vida.

Tempos militares

Em 1906, o jovem Harland Sanders havia encontrado trabalho como condutor de bonde em New Albany, Indiana, quando dois homens conversaram com ele sobre os problemas que estavam rolando lá em  Cuba. Eram recrutadores do Exército e, quando chegaram a sua parada, convenceram os jovens Sanders de que o Exército era o lugar para ele. Ele prontamente se alistou e foi despachado para um navio carregado de homens e mulas com destino a Cuba.

Antes de embarcar naquele navio, a maior massa de água que Sanders já havia visto era “o antigo buraco de mergulho” um tipo de açude. Logo o espanto com o marzão sem fim, se tornou um pesadelo e ele  passou o resto da viagem vomitando.  Aos desembarcar, Sanders agradeceu a Deus pelo final da viagem, mas tão logo desceu em terra firme, deu ruim: Quando o oficial comandante de Sanders em Cuba descobriu que seu novo recruta tinha apenas 16 anos, ele dispensou o menino e o colocou em um barco de volta para os Estados Unidos. Assim terminou a carreira militar do futuro coronel,  vomitando pelo mar kkkk.

No Trem

Essa fase da vida do coronel é uma das mais curiosas e intrigantes, porque tão logo ele voltou para os Estados Unidos com uma mão na frente e outra atrás, foi procurar emprego. Mas emprego para um rapazinho sem qualificação não era fácil (leia-se semi-imposível) 

Mas o moleque era incansável, e arrumou emprego como um “caçador de cinzas” para a Southern Railroad, raspando cinzas de carvão de motores dos trens , que naquele tempo, eram movidos a vapor. Ele não apenas era empenhado em fazer bem sua raspagem de cinzas das caldeiras, como estudava meticulosamente a forma como os alimentadores de caldeira e fornalha espalhavam o carvão para obter a máxima eficiência. A essa altura Sanders estava fazendo 18 primaveras, de modo que ele já era esperto o suficiente e maduro também para não apenas fazer bem seu trabalho como fazer uma engenharia reversa nos processo dos ferroviários, e graças a isso,  começou a substituir os ferroviários que não compareceram ao trabalho. Ele também adotou o jargão da peãozada,  cultivando um extenso vocabulário de palavrões em seu dia-a-dia. O curioso mesmo é que apesar de sua língua imunda, Sanders era obcecado pela limpeza, e adotou a prática incomum, veja bem o nível gump dessa merda:  de vestir-se de macacão branco e luvas brancas de algodão o tempo todo. Todos se espantavam com o fato de que o rapaz ia do trabalho para casa impecável, apesar de trabalhar num dos trabalhos mais sujos do mundo, metido na raspagem de carvão durante todo o dia.

Foi nessa época que Sanders conheceu sua amada:  Josephine King. Ambos eram clientes regulares no mesmo cinema e, depois de um namoro breve e tímido, decidiram se casar. Josephine estava convicta que não queria ter filhos, mas sabe como é… A carne é fraca e Margaret nasceu cerca de 40 semanas após a noite de núpcias.

A carne é fraca, o sangue é quente

Sanders trabalhou em várias ferrovias durante vários anos, mas seus dias como ferroviário acabaram quando ele e um engenheiro foram encontrados em franca porradaria sob uma torre de água. A história não registrou a causa do desacordo, nem se o jovem Sanders teria manchado seu uniforme branco imaculado com sangue. Mas o fato é que ele s ferrou nessa e rodou. 

Aos 21 anos, Sanders desistiu dessa vida de empregos braçais. Era esperto demais para ficar a vida toda raspando fuligem. Por isso, pegou uma grana de economias que tinha juntado e iniciou um curso de correspondência de direito conseguindo um estágio no escritório de um  juiz em Little Rock. Eventualmente, ele encontrou um trabalho com melhor remuneração no tribunal de justiça local, onde esperava trazer alguma justiça para os pobres abusados ??da região. Ele estava particularmente orgulhoso do tempo em que conseguiu negociar melhores indenizações para as vítimas, em sua maioria negras, de um acidente de trem. Mas seus dias na justiça do tribunal acabaram quando ele e seu cliente foram encontrados saindo em franca porradaria (de novo) brigando em um tribunal, evidentemente por honorários legais não pagos.

Uma vez que não deu certo na justiça e nem na ferrovia e nem no exército, ele resolveu empreender: Durante um tempo ele lançou diversas ideias de negócio com sucessos variados. Ele perdeu a maior parte de seu dinheiro tentando vender um sistema de iluminação interno baseado em gás acetileno – foi traído pelo progresso, quando a nova rede elétrica chegou às áreas rurais mais cedo do que o esperado. Qualquer pessoa ficaria triste, desmotivada, mas Sanders era um Joseph Climber, mermão. E foi uma boa, porque logo ele ganharia uma pequena fortuna quando estabeleceu uma travessia muito necessária em Jeffersonville, Indiana.

Sanders usou os lucros para criar então uma novidade:  um Clube de Jovens Empresários na cidade. Numa bela tarde de sábado, o clube declarou que todas as empresas da cidade seriam fechadas para um piquenique no parque. Eles colocaram cartazes anunciando o piquenique no dia anterior.

Eis que tudo estava fechado para o piquenique quando Sanders viu que a barbearia não fechou. Ele foi la saber o que estava acontecendo e ouviu umas poucas e boas do barbeiro da cidade, que não pretendia fechar porque queria ganhar dinheiro. “Sempre que eu quiser fechar o meu negócio, colocarei meu próprio cartaz na minha porta”, o barbeiro respondeu: “Eu não vou ter vocês malditos associados me fechando”.

O cliente que estava fazendo a barba, na cadeira acrescentou: “Tudo o que vocês estão fazendo é ganhar todo o dinheiro da cidade para vocês”.

“Vem aqui fora falar isso na minha cara se você é homem! “, respondeu Sanders. O cliente se levantou ainda com a cara cheia de espuma e os dois foram “lá pra fora”. A essa altura você já deve imaginar que vou falar que a discussão sobre o barbeiro estar aberto no feriado do clube resultou em franca porradaria de novo.

A porrada comeu e  Sanders deu um soco na cara do cliente barbeado sem papas na língua.   Infelizmente, o novo chapéu de palha de Sanders – um que ele comprou para o piquenique – foi pisoteado no combate. No entanto, o piquenique foi supostamente o mais “jeitoso” que Jeffersonville já viu. Os participantes até coletaram dinheiro para substituir o chapéu arruinado.

O incidente na ponte

No final da década de 1920, a família Sanders estava morando em Camp Nelson, Kentucky, onde Harland apoiava sua esposa e três filhos como vendedor de pneus da Michelin Tire Company. Suas comissões eram suficientes para que ele fosse o orgulhoso proprietário de um novo automóvel Maxwell topo de linha. Ela era uma beleza, com rodas envernizadas de madeira novinha, acabamentos em níquel e um novo e revolucionário motor de seis cilindros embaixo do capô.

A era dos coronéis

Numa manhã gelada, em novembro de 1926, Sanders estava do lado de fora amarrando um cabo de reboque da parte traseira de seu Maxwell à frente do outro carro da família, um velho Ford Modelo T . O Modelo T era uma coisa complicada, especialmente no frio, e às vezes tinha que ser puxado para o motor virar. O filho de Sanders,  Harland Jr. tinha 18 anos e assumiu o volante do Modelo T. Enquanto o moleque guiava o Ford, Sanders pai rebocava o carro com seu Maxwell  em direção à ponte sobre Hickman Creek. Era uma “ponte de vaivém” projetada para carruagens puxadas por cavalos, mas não era raro que passassem carros nela.

Enquanto atravessavam a extensão, o peso combinado de dois carros provou ser mais do que a ponte de madeira precária poderia suportar. Quando estavam na metade do caminho, um dos principais cabos se partiu.

A ponte inteira se contorceu, jogando pai, filho e automóveis da família no barranco abaixo.  Ambos os carros aterrissaram de cabeça para baixo, esmagando seus frágeis telhados de lona. O filho do coronel escapou quase ileso do acidente, somente com  pequenos cortes e contusões. Mas o pai, se ferrou. Saiu debaixo de seu carro arruinado, fraturado, machucado, enlameado e ensangüentado. Os dois voltaram para a casa enquanto os vizinhos observavam horrorizados. Pareciam dois zumbis.  Quando chegou em casa, Josephine ajudou o marido a colocar um grande retalho de couro cabeludo no lugar, encharcou as feridas em terebintina (solvente de tinta)  e enfaixou-o. Ele havia sobrevivido, mas sem um automóvel funcional, seu emprego foi pro saco (de novo) .

Histórias de Corbin: Parte 1

Harland Sanders, em seguida, encontrou trabalho gerenciando um posto de gasolina da Standard Oil em Nicholasville nas proximidades. Ele lucrou dois centavos por galão de gasolina e ganhou sobre os juros vendendo equipamentos agrícolas para os locais a crédito. Tudo ia bem, até que… Sim, ele se ferrou novamente.  Veio uma seca severa no final da década de 1920, devastando colheitas e deixando geral na miséria. A demanda por gasolina diminuiu e os clientes ficaram inadimplentes em seu crédito. Então, pra piorar ainda veio o crash de Wall Street em 1929 que acabou por destruir a  pouca esperança de recuperação que restava.

Sanders tava ferrado, e ele sabia disso. Assim, começou um movimento para não se ferrar ainda mais, porque eram tempos difíceis. Contatou alguns conhecidos da Shell Oil e alavancou sua reputação para arrendar um novo local onde a demanda de combustível fosse maior. Eles lhe deram um posto caquético na cidade de Corbin, Kentucky. Ainda não havia eletricidade, e era uma área difícil, uma poeira do cacete, um lugar horroroso, mas era um posto no meio da estrada e ele  tinha um apartamento nos fundos. A cidade ia mal, mas Sanders tinha visão. Sabia que na estrada suas chances seriam melhores porque a rota 25 estava muito ocupada. Era o “Acre do Inferno”, onde Sanders mais tarde se engajou em atividades relacionadas à publicidade, e onde rolou o tiroteio que descrevi lá em cima. 

Uma noite, na madrugada, Sanders foi acordado por vários tiros do lado de fora. Dois contrabandistas de álcool rivais trocavam balas e insultos na estrada em frente à casa de Sanders. O tiroteio foi interrompido pelo som de uma porta se abrindo no posto. O coronel estava parado do lado de fora da porta usando apenas uma cueca, apontando uma grande espingarda na direção deles. “Mãos ao alto, seus filhos da puta e joguem suas armas!” Sanders ordenou. Ser chamado de filho da puta não era um insulto insignificante para os carinhas naqueles dias, mas a espingarda os convenceu a obedecer.

Quando o xerife chegou para recolher os suspeitos, ele pediu a Sanders que voltasse para a sede do condado com ele para servir como testemunha. Enquanto se afastavam, a filha de Sanders, Margaret, correu atrás do carro segurando um pedaço de pano. “Pai!” Ela gritou, “você esqueceu suas calças!” kkkk eu tô falando sério! 

A era dos coronéis

Histórias de Corbin: parte 2

Um dia, no início da década de 1930, Josephine e Margaret Sanders começaram a se perguntar o que estava mantendo Harland longe por tanto tempo. 

Na última vez que elas viram o coronel,  ele estava montando uma mula montanha acima em uma chuva torrencial, carregando um velho balde de banha cheio de ataduras, tesouras, antissépticos e luvas de borracha. Ele estava a caminho de uma comunidade de índios Apalaches nas proximidades, que não dispunha de eletricidade, estradas, encanamento e outras conveniências modernas. De vez em quando, Sanders levava a família para lá com comida de graça, incluindo os pacotes de Ação de Graças para cidades inteiras, mas o mais urgente era que as pessoas precisassem de cuidados médicos. Ele havia sido convocado porque uma das mulheres da cidade entrara em trabalho de parto. Tendo três filhos, Sanders teve uma pequena experiência com o parto, então ele se tornou um parteiro amador. Mas dessa vez, ele estava demorando muito mais que o normal.

Harland interrompeu a preocupação de sua esposa e filha quando ele apareceu para pegar sua fiel espingarda que ele mantinha atrás da porta da frente. Ele explicou que pode ser necessário usar um pouco de “persuasão”. O bebê não estava na posição correta no útero, exigindo uma intervenção mais experiente. Mas o médico, supostamente bêbado, estava se recusando a comparecer ao lugarejo.

Logo, o médico foi devidamente persuadido, e ele foi visto andando na montanha montado em uma mula molhada. O médico ajustou manualmente a posição do bebê e o bebê veio ao mundo com saúde.  Os pais nomearam seu  filho de  “Harland” em homenagem ao coronel parteiro.

Em 1935 ou 1936, em reconhecimento ao trabalho de obstetrícia de Sanders, doações de comida e seu deslocamento regular de moradores para reuniões do Alcoólicos Anônimos , o governador de Kentucky, Ruby Laffoon, contratou Harland Sanders como um “Coronel doe Kentucky”, o mais alto título de honra concedido pela comunidade do Kentucky. E foi assim que ele ganhou o apelido. Fazendo o bem nem que fosse preciso ameaçar matar o médico a tiros. 

Histórias de Corbin: parte 3

Em Corbin, de acordo com Harland Sanders, “confusões, brigas e tiroteios eram tão regulares quanto um galo cantando na manhã”. Se esse barulho excessivo de frango influenciou a carreira futura de Sanders é impossível dizer, mas Corbin é onde tudo começou. 

A única coisa que Sanders parecia gostar mais do que xingar era experimentar cozinhar. Ele decidiu colocar uma grande mesa de carvalho em um antigo depósito e reabrir como “Serviço e Café do Sanders”. Os viajantes famintos foram atraídos pelos grandes anúncios que Sanders pintou nos celeiros ao norte e ao sul da cidade. Sanders contratou garçons, mas ele fez questão de pagar-lhes um salário digno e proibiu-os estritamente de aceitar gorjetas. Usando a cozinha do apartamento nos fundos, Harland e Josephine preparavam a comida como bife, presunto, batatas com molho  e biscoitos quentes. O frango não costumava estar no cardápio – levava muito tempo para cozinhá-lo até atingir o padrão de qualidade idealizado Sanders. Mas ele tentou atingir esse padrão diversas vezes, buscando inovar sempre.

Foi nessa época que Sanders conheceu Claudia Price, uma jovem divorciada que morava em Corbin. Por sugestão de Harland, sua esposa Josephine contratou Claudia para ajudar em torno do café, e logo se tornou uma espécie de segredo aberto que Claudia era garçonete e amante em partes iguais. Mas esse escândalo silencioso foi marginalizado pelo crescente sucesso do restaurante. Sanders acrescentou um pequeno motel de luxo à propriedade em 1937, o primeiro a leste do Mississippi, segundo Sanders.

Sanders também mantinha um corvo de estimação nas dependências da equipe chamada “Jim Crow”. Os hóspedes do motel podiam pagar um centavo. Eles colocavam o centavo no bolso e iam  passear pelo quintal, enquanto isso, o corvo treinado por Sanders ia e roubava o dinheiro deles,  para a diversão dos espectadores. Ninguém sabia o que Jim fazia com os centavos .

Foi nessa época que Sanders conheceu sua amada Bertha. Bertha era seu apelido para sua primeira panela de pressão, uma nova engenhoca que rapidamente cozinhava legumes usando altas temperaturas e pressões. Sanders se perguntou se isso poderia ser a chave para conseguir sua meta: fritar o frango rapidamente sem sacrificar a qualidade. Acrescentou válvulas de alívio de pressão a Bertha, tornando a panela segura para a fritura, e passou anos experimentando várias fórmulas de temperos. Marinadas, óleos, temperaturas, tipos de farinha e temperos. Em julho de 1940, Sanders havia desenvolvido um sistema para fritar o frango até dourar em cerca de oito minutos, e ele aperfeiçoou seu espectro de especiaria, que à aquela altura chegava aos 11 ingredientes scretos.

Ele também inventou um “molho de crocância” que aproveitava os pedaços de pequenos esquecidos no óleo depois de fritar.  Mas suas descobertas teriam que esperar que o mundo resolvesse algumas coisas.

A cidade secreta

No frio de uma tarde de domingo no início de dezembro de 1942 , a família Sanders estava sentada na casa de Margaret ouvindo música no rádio quando a transmissão foi interrompida por um boletim especial de notícias. Um locutor informou aos ouvintes que Pearl Harbor estava sendo bombardeada pelo Império do Japão. Os Estados Unidos estavam em guerra.

Aos 52 anos de idade, Sanders era velho demais para servir o seu país, mas ele ainda podia servir uma pequena porção dele. Deixou o restaurante aos cuidados de sua amante Claudia e viajou até a remota cidade de Oak Ridge, no Tennessee, onde o governo havia construído às pressas uma instalação de última geração sobre o que antes era uma fazenda. Sanders se encontrou com seu amigo Jo Clemmons, o gerente de uma lanchonete local, e formalmente aceitou um cargo de assistente administrativo.

A era dos coronéis

Embora ele tenha trabalhado lá até quase o fim da guerra, Sanders não tinha ideia de como os milhares de homens e mulheres de Oak Ridge passavam seus dias. Eles nunca discutiram abertamente o seu trabalho, mesmo com a amizade dele. Só mais tarde ele aprenderia que aqueles trabalhadores eram cientistas e engenheiros e que eles estavam desenvolvendo sua própria receita secreta: o urânio-235. 

Eles passaram anos aquecendo pedaços do metal a altas temperaturas, depois empurrando seus vapores através das membranas, e depois girando-o em enormes câmaras magnéticas, tudo para isolar alguns quilos do isótopo especial. Em 1945, o material foi colocado na bomba do Little Boy , carregado no Enola Gay , levado para o Japão e lançado em Hiroshima. Foi a primeira arma atômica já implantada na guerra.

O coronel chegou

Em 1952, Harland Sanders decidiu visitar a Austrália. Muito mudou em sua vida depois da guerra. Harland e Josephine se divorciaram depois de 39 anos, e Sanders se casou com sua funcionária de longa data e amante Claudia. O governador Wetherby o condecorou novamente como Coronel do Kentucky em homenagem à sua cozinha, e desta vez Sanders abraçou totalmente o título. Ele começou a se apresentar como “Coronel Sanders”, e começou a montar sua assinatura, cultivando um cavanhaque e vestindo ternos com uma gravata de estilo Kentucky. Com tantas mudanças em sua vida, ele pensou que deveria mudar seu vocabulário para combinar com o motivo do cavalheiro sulista que ele estava tentando emplacar, o que significava a eliminação dos palavrões. Foi por isso que ele estava viajando para a Austrália, onde esperava que uma grande conferência religiosa pudesse curar seu hábito.

Vestindo uma versão inicial de seu visual que o tornaria uma lenda, o coronel Sanders, de 62 anos, desceu de um trem em Salt Lake City e foi até o Do Drop Inn, uma hamburgueria recém-reformada de propriedade de Pete Harman. Sanders conhecera Harman em um congresso de restaurantes em Chicago, e os dois se tornaram muito amigos.

Sanders pediu a Harman que lhe desse uma carona para uma mercearia local, e lá o Coronel comprou alguns frangos congelados e uma porção de temperos. Ele estava planejando fritar um lote da receita secreta de frango que ele havia aperfeiçoado antes da guerra, esperando que Harman se inscrevesse para franquear a receita. O coronel era foda, como eu já falei. O franchising ainda era um conceito novo, e a ideia de Sanders era convencer os restaurantes já estabelecidos a acrescentar seu frango e molho aos seus cardápios existentes. Eles assinariam um serviço de ervas e temperos secretos pré-misturados, pagando um níquel por ave para obter acesso às receitas e técnicas.

O coronel cozinhou o frango na cozinha de Harman numa panela de pressão emprestada. Frango frito não era uma entrada comum em torno dessas partes naqueles dias, então a equipe do Do Drop estava cautelosa. Sanders apresentou um grande prato de frango frito. Os caras não disseram que ficariam com o projeto. Apenas agradeceram.

Duas semanas depois, voltando para casa, Claudia se encontrou com o marido em San Francisco, e Sanders decidiu que ela deveria ver o novo lugar de Pete Harman. Desembarcaram do trem em Salt Lake e se dirigiram para o Do Drop, e lá foram confrontados com uma enorme placa pintada nas grandes janelas que diziam: “Kentucky Fried Chicken – algo novo, algo diferente”.

O Coronel disparou um monte de palavrões e depois se tocou: “Eu vou ser amaldiçoado”, disse Sanders. A convenção na Austrália não ajudou muito a reduzir sua boca suja.

Sneaky Pete Harman tinha evidentemente catalogado os onze ingredientes secretos que o Coronel havia comprado, e ele havia feito engenharia reversa no processo de fritura por pressão. O nome “Kentucky Fried Chicken” foi uma ideia do pintor de letreiros, que sugeriu quando Harman não sabia como se referir à criação do Coronel. De alguma forma, Sanders não se enfureceu com essa aparente falta de cuidado (ou, pelo menos, essa foi a história finalmente acordada). Com o surpreendente reaparecimento do coronel, (e suponho, a ameaça de nova franca porradaria por tentar copiar na tapetada) Harman aceitou oficialmente a franquia – foi a primeira pessoa a fazê-lo – e Sanders reivindicou o nome de “Kentucky Fried Chicken” pra ele. Eles selaram o acordo com um aperto de mão. Harman logo inventou a infame “refeição no balde” e abriu locais adicionais. Em cinco anos, sua receita anual de restaurantes multiplicou-se por vinte.

A estrada

Em 1956, o presidente Dwight D. Eisenhower assinou a Lei Nacional Interestadual e de Defesa, autorizando o gasto de US $ 25 bilhões para construir mais de 40.000 milhas do Sistema Interestadual de Autoestradas. Este seria o maior projeto de obras públicas que a América já havia visto.

O complexo de hotéis e restaurantes de Sanders já estava em dificuldades – o estado havia realocado um cruzamento importante na Rota 25, e a localização de Sanders não era mais tão conveniente para os viajantes. Mas o Coronel sabia que estava com sérios problemas quando o jornal publicou as rotas pesquisadas para essas novas rodovias. A rodovia 75 iria substituir a Rota 25 como a artéria de trânsito local, mas passaria 11 quilômetros  por fora da cidade. Com a perda irrecuperável de transeuntes, Sanders vendeu a propriedade por uma fração do que valia um ano antes. Aos 66 anos, Harland Sanders estava de volta à estaca zero, sem renda além de algumas taxas de franquia e US $ 105 por mês em previdência social.

Sanders começou a cortejar franqueados de frango a sério. Dirigia até uma cidade com boas perspectivas, estacionava seu Oldsmobile nos arredores e passava a noite dormindo no banco de trás. Trouxe com ele tudo o que precisava para demonstrar seu processo – uma geladeira cheia de galinhas, farinha de rosco, panelas de pressão recém-patenteadas, caixas de temperos pré-misturados, óleo vegetal e até uns extintores de incêndio. Ele fritou seu frango para as equipes de restaurantes receptivos, e se eles aceitassem, ele cozinhou uma quantidade para os clientes. Ele passeava pelo restaurante perguntando como os fregueses estavam aproveitando suas refeições, vestido com seu uniforme do  coronel – um cavanhaque prateado, uma gravata preta de barbante, uma bengala e um terno branco imaculado como nos seus dias de estrada de ferro.

Um restaurante que decidiu fazer a franquia  foi The Hobby House em Fort Wayne, Indiana. Lá, o coronel Sanders fez amizade com o cozinheiro chefe Dave Thomas. O experiente veterano levou o jovem Thomas, dando ao noviço um sábio conselho e orientando-o nos caminhos do restaurante. Thomas iria administrar várias franquias bem-sucedidas do Kentucky Fried Chicken. Mais tarde, Thomas fundou sua própria franquia, uma rede de hambúrguer chamada Wendy’s, (bom pra caramba) e obteve um certo sucesso.

O rango que quase acabou em morte

O negócio do coronel Sanders estava começando a dar certo, finalmente.

Mas o trabalho era pesado para os Sanders, com quase 70 anos de idade, causando considerável rabugice. Uma manhã desconhecida em alguma cidade desconhecida, ele e Claudia pararam em um café da estrada para um café da manhã. Quando a garçonete colocou o prato do coronel diante dele, ele empalideceu diante dos ovos fritos e mal cozidos. “Moça”, disse ele, “eu nunca estive bêbado o  suficiente para comer ovos crus como isso aqui”.

 “Eu vou levá-los de volta.” – ela disse. Ela se foi por alguns momentos, e depois voltou com o prato. De fato, os ovos pareciam mais bem cozidos, embora o coronel achasse que isso era uma impossibilidade física, dado o tempo que se passara. Ele virou os ovos e confirmou sua suspeita: um lado ainda estava intocado pela grelha; o cozinheiro tinha simplesmente virado os ovos no prato.

Na cozinha, o cozinheiro estava sentado em uma mesa, fumando um cigarro, quando as portas duplas se abriram para revelar um homem curiosamente vestido. O velho estava enfiado num  terno de linho branco, gravata preta e tinha um cavanhaque prateado. Ele tinha um prato de café da manhã na mão. “Ei seu filho da puta”, o coronel  disse: “Você acha que é inteligente por fazer aquela malandragem  no meu prato?”

“Não me chame de filho da puta”, disse o cozinheiro, levantando-se da mesa. “Saia da minha cozinha.”

– “Farei exatamente isso” – disse Sanders, inclinando os ovos do prato para a palma da mão – “mas deixarei seus ovos com você”!

O coronel Sanders tacou os ovos no meio dos peitos do cozinheiro, que explodiram  numa gosma amarela. 

De  sua mesa, Claudia ficou surpresa quando as portas da cozinha explodiram para fora e o marido voltou rapidamente para a área de jantar. Ele estava segurando uma pequena banqueta em uma postura defensiva e gritando para o cozinheiro encharcado de gemas, que saiu da cozinha com uma faca  na mão. Sanders  sacou sua cornucópia de vulgaridades relacionadas a divindades sobrenaturais, excreções corporais, procriação e temperamento e estado civil dos pais de seu agressor – suspendendo seu discurso profano por um momento para pedir desculpas a alguns comensais que ficaram surpresos com o bizarríssimo espetáculo. O homem da grelha finalmente desistiu de seu ataque e voltou para a cozinha. O Coronel devolveu seu banquinho ao chão, e ele e Claudia decidiram que provavelmente deviam comprar um café da manhã em outro lugar.

A “minha fuça”

Apesar do lento progresso inicial na contratação de franqueados, o interesse no Kentucky Fried Chicken começou a melhorar no final dos anos 50 e início dos 60. Havia chegado a notícia do sucesso de Pete Harman – até então ele estava fazendo negócios vigorosos em vários locais. A empresa do coronel Sanders também lançou vários locais inovadores de transporte que omitiram a área de refeições. A comida era embalada em caixas e baldes para que os clientes pudessem levar para casa para o jantar, e o conceito estava se mostrando cada vez mais jpa popular.

A era dos coronéis

O traje meticulosamente anacrônico do Coronel e o encanto de seus olhos brilhantes o ajudaram a se firmar através do marketing orgânico. Ele começou a visitar estações de rádio locais para contar sua história e, ocasionalmente, apareceu em talk shows de televisão e coisas do gênero. O rosto e a gravata de assinatura estavam aparecendo em sinais e pacotes de comida cada vez mais numerosos, e as pessoas começaram a reconhecê-lo em público. “Nunca gostei da ideia de usar minha fuça nas coisas”, escreveu ele em sua autobiografia. “Eu sempre me referia ao meu rosto como minha fuça*. Mas eu tinha um desenho feito para uso em publicidade, e quando eu vi a minha fuça nas caixas contendo minha comida eu quase desmaiei. ”

*( ele se refere a Mugshot – Um tipo de foto que a polícia faz dos criminosos. Converti em “Fuça”, aqui porquê é mais ou menos o clima do que ele queria passar ao usar “mug”)

Em 1962, havia centenas de restaurantes na América do Norte enviando taxas para Sanders de 72 anos. Acredite se quiser,  a maioria dos negócios eram fechados com um aperto de mão e mantido totalmente no sistema de honra. Os solicitantes de franquia acabaram se tornando tão numerosos que Sanders não saiu mais para encontrá-los; em vez disso, ele cordialmente chamava-os s para um passeio em sua propriedade em Shelbyville, Kentucky.

A cidade Slicker

Em outubro de 1963, um advogado de 29 anos chamado John Y. Brown Jr. tinha certeza de que sabia o que o coronel Sanders deveria fazer com o finalmente lucrativo Kentucky Fried Chicken, Incorporated: ele deveria vendê-lo para John Y. Brown, Jr.

Brown estava trabalhando com Sanders como um franqueado iniciante, mas ele tinha maiores ambições. Brown viu uma empresa que ganhava mais de US $ 300 mil por ano com uma equipe de 17 pessoas. O Coronel não era muito fã de publicidade paga e Brown achava que havia um potencial milionário ao  adquirir a empresa e instituiro uma campanha de vendas agressiva. . Ele convenceu o coronel a se juntar a ele em uma reunião com Jack Massey, um empresário de Nashville.

“Coronel”, disse Massey, “você tem 74 anos. Você desenvolveu um produto maravilhoso na Kentucky Fried Chicken. E você trabalhou duro fazendo isso, mas agora é a hora de você relaxar. ”

Relaxar não estava entre os talentos do Coronel. “Um homem vai enferrujar mais rápido do que ele vai se desgastar” – costumava dizer. De acordo com Sanders, ele rejeitou a “cidade mais discreta” e sua oferta, provavelmente com um profano tom de palavrões, mas o par logo retornou. Ele recusou novamente, eles voltaram novamente. Empregando o método de água mole em pedra dura, os dois encheram a porra do saco do velho até que ele foi vencido pelo cansaço.

O argumento decisivo foi quando disseram-lhe que a carga tributária sobre sua propriedade seria astronômica se ele morresse enquanto ainda possuía a empresa, roubando das suas filhas a herança. Disseram-lhe que seria um desastre vender para os franqueados como ele havia planejado; a empresa se despedaçaria. Disseram-lhe que manteriam também a maneira como ele sempre fez as coisas, tratando os franqueados como parceiros e tratando as receitas como sagradas. Eles disseram-lhe muitas coisas.

Brown e Massey convenceram Sanders a se encontrar com Pete Harman e alguns outros franqueados de longa data e confiáveis ??para ver como eles se sentiam sobre ele vender a empresa. Para surpresa de Sanders, eles recomendaram que ele vendesse. Isso pode ter algo a ver com as 25.000 ações que a Brown e a Massey haviam oferecido a cada um desses franqueados, além de assentos no conselho.

Seja como for, em uma reunião que durou até as duas horas da madrugada, Sanders finalmente cedeu a um acordo provisório: venderia  o KFC por US $ 2 milhões e um salário anual de US $ 40 mil para permanecer como controlador de qualidade e embaixador da marca. O acordo excluía algumas regiões que já haviam sido prometidas a amigos e parentes, incluindo o Canadá, que Sanders queria manter para si mesmo. Sanders diria mais tarde que ele havia perguntado sobre como obter algumas ações como parte do negócio, mas os compradores desaconselharam por razões tributárias. Ele decidiu confiar neles.

Apesar da considerável consternação, Sanders assinou o contrato de venda, arrecadou a primeira prestação de $ 500.000 da Massey e confiou o trabalho de sua vida a eles. Sanders iria manter as ações da empresa como garantia até o total de US $ 2 milhões pagos. Ele assumiu o papel de porta-voz e não de tomador de decisões, acalmando-se com as garantias dos novos proprietários de que não comprometeriam a qualidade do negócio ou do produto.

Embaixador Sanders

Os compromissos no novo Kentucky Fried Chicken, Inc. começaram quase imediatamente. A empresa comprou muitas das franquias existentes e ordenou que os proprietários restantes obedecessem: eles deveriam remover seus próprios itens do cardápio, renomear seus restaurantes para  “Kentucky Fried Chicken”, atualizar a decoração para o novo padrão da marca corporativa listrada de vermelho e branco, e claro, usar a sinalização e embalagem com a “fuça” sorridente do  do Coronel.

A nova campanha publicitária foi de fato agressiva e financeiramente bem-sucedida. O Coronel apareceu pessoalmente em comerciais de TV, bem como no The Johnny Carson Show, no Lawrence Welk e em outros spots de talk show. “Onde quer que você veja uma foto dessa minha fuça, você sabe que vai conseguir boa comida”, ele dizia. “Pelo menos, um bom frango!” Sanders ficou desconfortável com as mudanças que estavam sendo feitas dentro da empresa, mas ele foi pago para ser o embaixador da boa vontade, então ele espalhou boa vontade.

Embora o contrato de venda tivesse reservado o Canadá como território do Coronel, as mentes jurídicas da nova corporação logo perceberam que a redação lhes dava margem de manobra – o contrato concedia ao Coronel direitos exclusivos de processar frango no Canadá, mas nenhuma restrição ao merchandising lá . Assim, enquanto eles pré-processassem o frango, poderiam vendê-lo legalmente no mercado canadense – supostamente exclusivo – do Coronel.

Advogado é foda, bicho. Mas o velhinho não deixou barato. Mais tarde, quando funcionários da corporação chegaram a Sanders e pediram que ele entregasse as ações colaterais para que a empresa pudesse abrir o capital, ele se recusou até revisar o contrato de venda para fechar a “lacuna daquela malandragem que fizeram no Canadá”. Nesse meio tempo, ele continuou a espalhar “boa vontade” na televisão, enquanto nos bastidores a franca porradaria comia solta como nos velhos tempos.

Jack Massey, o investidor original de US $ 2 milhões que controlava 60% das ações da empresa, ordenou que a sede fosse transferida da grande propriedade do Coronel Sanders em Shelbyville para um novo prédio no Tennessee. – “Este não é o maldito Tennessee Fried Chicken” – protestou o coronel – “não importa o que um filho da puta de terno de seda diga”.

Mas Sanders vendera a companhia “para o filho de uma cadela” e praguejar contra o cara e a progenitora dele eram os únicos recursos disponíveis.

The Booze Hounds

No início dos anos 70, o coronel Sanders foi informado de que a Kentucky Fried Chicken e suas mais de 3.500 franquias haviam sido adquiridas pela Heublein Inc., uma empresa mais conhecida por distribuir a vodca Smirnoff. Como alguém que passou toda a sua vida lutando contra o álcool , isso era uma afronta insuportável. Quando a compra de US $ 285 milhões foi concluída, a empresa estava cheia de novos milionários. Mas o coronel Sanders não estava entre eles. Ele não tinha estoque.

Quando a grande e insaciável barriga corporativa começou a reclamar, os cozinheiros e químicos da empresa foram supostamente orientados a buscar maneiras de reduzir as despesas associadas ao espectro de receitas secretas. Ingredientes em menor quantidade  e mais baratos se acumulariam em milhões de economia para o KFC. Cozinhar o molho de cracklin foi uma tarefa difícil, então uma alternativa em pó foi introduzida. Apesar de seu papel como o chamado controlador de qualidade, o coronel Sanders não foi informado sobre essas mudanças, mas ele recebeu cartas de fãs perguntando por que ele continuava mudando suas receitas.

Enquanto isso, a Heublein estava ficando cada vez mais preocupada com uma nova oferta “crocante” do frango da concorrência. Executivos decidiram lançar o frango “Extra Crispy”  mais empanado e com menos especiarias, mudando o nome da receita do Coronel para “Original Recipe”. O coronel descreveu a nova oferta como uma “bola de massa frita presa em um frango”, e ele disse que não não queia seu nome e semelhança associados a aquilo. Mas suas preferências não pareciam influenciar muito os novos donos de seu nome e imagem, e eles foram em frente e deram um tapa na cara dele com o nome: “Frango Extra Crocante do Coronel Sanders”.

Em um esforço para restaurar sua reputação como cozinheiro, Harland e Claudia abriram o The Colonel’s Lady , um novo restaurante que ocupava o espaço em sua casa que estava desocupado quando a sede foi transferida para o Tennessee. Frango frito estava no cardápio, entre outras coisas, mas não ficou claro se era “receita secreta” de frango. De acordo com a filha de Sanders, Margaret, Heublein alegou que eles possuíam seu rosto, o nome “Coronel”, e suas criações de alimentos, e iniciaram procedimentos legais para fechar o pequeno negócio incipiente do velho. O Coronel Sanders dobrou o cacife, processando os “cangurus” por usar sua imagem para promover produtos que não desenvolveu e por interferir em seus novos negócios. “Não estou muito orgulhoso de meu nome e minha fuça estar associado a alguns dos meus restaurantes”, disse ele ao jornal Milwaukee Journal.. “Todo mundo acha que eu sou o KFC. Eles não conhecem esses outros companheiros que realmente administram as coisas. […] Eu só quero descobrir quanto do meu corpo e alma eles possuem. ”

Sanders e Heublein finalmente resolveram o problema  fora do tribunal. A Heublein pagou a Sanders US $ 1 milhão e concordou em parar de interferir em seu novo empreendimento. Sanders concordou em mudar o nome de seu restaurante para Claudia Sanders Dinner House . Esse restaurante ainda está em funcionamento até hoje.

Terno de pressão

Enquanto as franquias Kentucky Fried Chicken surgiam em todo o mundo, o coronel Sanders, de 86 anos, cruzou o mundo para participar de grandes inaugurações e outros eventos especiais. Ele gostava de fazer visitas surpresa de controle de qualidade a franquias enquanto passava pelas cidades. Se o frango estava sem brilho, o molho abaixo do padrão, ou a limpeza da instalação sem ser impecável, um punhado de críticas aguardava a administração local.

A era dos coronéis

Em uma ocasião, em 1976, em uma franquia em Bowling Green, Kentucky, os funcionários aguardavam ansiosamente a avaliação do Coronel enquanto ele provava o molho do dia.

Ele fez uma cara de que ia vomitar ali mesmo e disparou: “Como você serve essa maldita lama?” Com um canudo?”

A era dos coronéis

O velho era foda. MAndou a letra falando mal do KFC no jornal:  “Meu Deus, aquele molho é horrível. Eles compram água da torneira por 15 a 20 centavos de dólar por mil litros e depois misturam com farinha e amido e acabam com uma merda que é  pasta de papel de parede pura ”.

Esse insulto era mais do que o franqueado de Bowling Green estava preparado para suportar, e o franqueado resolveu meter no velho Sanders uma ação por  difamação. O tribunal finalmente descartou o caso, decidindo que o Coronel estava claramente discutindo o  Kentucky Fried Chicken em geral, em vez de seu restaurante em particular. A Heublein poderia ter processado o coronel por calúnia, ou até mesmo demitido o embaixador da marca, mas os clientes ainda respondiam positivamente aos seus anúncios e aparências, então a empresa optou por não jogar o bebê para fora com a água do banho. “Vamos enfrentá-lo”, disse um executivo da empresa ao The New Yorker “.

O fim 

Em abril de seu 89º ano, o coronel Sanders foi enviado ao Japão para mais uma turnê promocional. Ele fez aparições pessoais em centenas de lojas e posou para fotografias com milhares de fãs individuais. Ele se sentiu incomumente exausto quando voltou para casa. Com o passar das semanas, a exaustão não diminuiu, e várias semanas depois ele foi diagnosticado com um quadro de leucemia aguda. Sanders passou os próximos meses dentro e fora do hospital, ainda fazendo aparições públicas quando era capaz. Ele sabia que seu fim viria em breve, e implorou aos franqueados para permanecerem abertos naquele dia quando finalmente chegasse sua hora derradeira. As pessoas não devem ser privadas de frango.

O Coronel se interessara por religião em seus últimos anos, e um dia ele perguntou a um reverendo se Deus poderia ajudá-lo a curar sua linguagem suja. “Aquilo que desejas, quando orardes, acredita que as recebes e as terás”, respondeu o reverendo usando a Bíblia em resposta. 

Então, o Coronel rezou. Ele disse que sentiu então como se um grande peso tivesse sido tirado de seus ombros. Seus problemas com profanidade finalmente acabaram. Mas isso não quer dizer que ele parou de amaldiçoar constantemente, longe disso – mas a partir de então, ele faria uma oração silenciosa pelo perdão imediatamente após as vulgaridades, e isso parecia dar certo.

Harland Sanders morreu em 16 de dezembro de 1980, com a idade de 90 anos. Seu caixão foi exposto na rotunda do edifício do Capitólio do Estado de Kentucky, onde pessoas de luto e dignatários faziam seus respeitos. O governador de Kentucky, um John Y. Brown, Jr., deu o elogio.

A filha de Sanders, Margaret, escreveu um relato de sua criação intitulado O Segredo do Coronel: Onze Ervas e uma Filha Picante . Nela, ela explicou como ela era filha favorita de seu pai, e ela creditou-se por algumas das inovações cruciais que levaram ao sucesso do Kentucky Fried Chicken. Ele também incluiu uma quantidade curiosa de detalhes sobre a vida sexual de seu pai, incluindo uma anedota da noite de sua própria concepção. Mas outros parentes de Sanders foram rápidos em apontar que a versão dos eventos de Margaret não é universalmente aceita.

Kentucky Fried Chicken hoje – oficialmente encurtado para “KFC” em 1991 – é uma subsidiária da Yum! As marcas e a sede foram transferidas de volta para o Kentucky anos atrás. Até o momento, a KFC é a segunda maior cadeia de restaurantes do mundo, com cerca de 19.000 pessoas comendo frango diariamente.

Apesar de Sanders sempre ter insistido em fritar com óleo vegetal para o melhor sabor, nos anos 90 a empresa mudou para óleos mais baratos de palma e soja. Caricaturas grosseiras do Coronel aparecem na televisão promovendo caricaturas grosseiras de sua comida.

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Pode-se imaginar como Harland Sanders responderia ao uso continuado de seu nome e semelhança na manifestação moderna de seus restaurantes. Ele provavelmente teria uma ou duas coisas a dizer sobre divindades sobrenaturais, excreções corporais, procriação e estado civil dos pais dos executivos. Ele provavelmente faria todos os esforços para impedir legalmente a empresa de colocar sua “fuça” em prédios, baldes e caixas contendo os produtos impostores. E, na falta de todo o resto, ele provavelmente teria desafiado aqueles “filhos da puta escorregadios de ternos de seda” para franca porradaria, afim de resolver a questão de quem é dono de seu corpo e alma de uma vez por todas.

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