A árvore

Eu, como quase todo mundo que eu penso que conheço, guardo com carinho na memória alguns momentos marcantes da minha infância.
Sei lá porque, certas memórias surgem do nada, qual uma ejaculação mental precoce, não raro, em horas impróprias. Noutras vezes, essas memórias afloram em bons momentos. São aqueles momentos em que, sem nada melhor para pensar, passamos o scandisk no nosso cérebro. Os melhores momentos para passar o scandisk no cérebro são: Engarrafamentos horrendos, enquanto esperamos elevadores demorados, em salas de espera, em conversas com pessoas chatas, que nem sequer suspeitam que nossas interjeições são meras atitudes automáticas para que elas continuem, verborrágicas, falando, falando, falando todo aquele monte de coisas que você nem sequer sabe do que se trata. Há também bons momentos para pensar durante o banho, antes de pegar no sono, etc.
Nessas horas, minha mente fica processando sei lá o que. Idéias, eu acho. Idéias de posts, coisas que eu tenho que fazer, a minha agenda mental, coisas que eu vi, enfim, a mente humana se diverte à sua própria maneira.
Hoje mesmo, eu estava tomando café da manhã, quando fui assaltado por pensamentos sobre aquela máxima que todo mundo já ouviu:

“A vida de um homem só é completa quando ele escreveu um livro, plantou uma árvore e teve um filho.”

Tal qual uma toalha de renda do norte, cada fio de idéia que surge se trança com outro, e mais outro e os processos se repetem, cruzando idéias e imagens. Lentamente eu percebo que toda uma estrutura de idéias vai invisivelmente se solidificando no ar. Muitas vezes eu me pego no meio de um pensamento que não tem “lé com cré” e me pergunto: ” Mas da onde veio este pensamento?” Então trato de vasculhar a mente tentando refazer, passo a passo, idéia após idéia, o longo fio de trama mental que levou um pensamento a virar outro, completamente distante. Engraçado isso, de que as idéias estão amarradas umas às outras. Eventualmente as memórias preenchem espaços vazios, como as flores das rendas nordestinas.

Então, como eu ia dizendo, eu estava tomando café e surgiu a tal máxima do livro, árvore e filho. Imediatamente me ocorreu encaixar minha vida neste paradigma e ver se sou completo ou não. Logo de cara vi que não sou “completo”, pois não tenho filhos ainda. Mas em compensação, já escrevi o tal livro, e já plantei a tal árvore.
Certamente, no tempo em que a máxima foi cunhada, provavelmente há mais de um século, não havia essas modernidades de internet, ecologia e planejamento familiar.
Minha mente tratou então de imaginar como deveria ser uma releitura de uma máxima assim. Algo mais atual, mais de acordo com os novos tempos. Ficou assim:

” A vida de um homem é completa quando ele escreve algo que sirva para alguém, planta um vegetal e ama e é amado por uma criança.”

Sim, acho que isso soaria melhor. Afinal, hoje em dia, lançar livro é um trabalho hercúleo. Os editores só querem autores consagrados, afinal é a grana deles em jogo. Isso limita o mercado editorial e impede que muitos bons autores não passem de potenciais bons autores. Claro que resta as editoras alternativas, que certamente vão cobrar do autor para fazer o livro dele. “Pagando é fácil”, como dizem os editores donos dessas empresas que trocam o ponto de captação do lucro para antes da publicação da obra.
Por outro lado, escrever na internet é grátis, é rápido e é, sem dúvida alguma, mais gratificante, pois você atinge mais gente. E o que é melhor: sem risco.
Já que na internet qualquer bundão escreve qualquer porcaria, é importante que o texto ajude alguém, ou sirva, de algum modo para o leitor. Ninguém, em momento algum da história da humanidade, escreveu alguma coisa para não provocar efeito. Até as pinturas rupestres do homem primitivo, tinham alguma finalidade. A escrita é uma expressão e sendo assim, provoca efeitos positivos ou não em quem lê. Lógico que existem milhões e milhões de porcarias que passam em brancas nuvens. Mas não consigo conceber alguém escrever o que quer que seja, com este objetivo.

Sobre ter filhos, certamente que o sábio que inventou a tal máxima, não imaginava que alguém poderia não ser dotado desta capacidade física, que o senso comum, na exuberante ingnorância que sempre o marcou, pensa que é algo natural que equipa de fábrica todo ser humano. Infelizmente, para as pessoas com problemas reprodutivos, esta máxima é uma condenação, que informa com todas as letras que a vida de alguém assim jamais será completa. Mas… Será?
A verdade dos fatos é que, tirando causas físicas, fazer filho é fácil. Basta um homem e uma mulher seguir os instintos naturais e nove meses depois, ali está um bacuri – ou mais.
O difícil não é fazer filho. O difícil é criar a criança. O importante, ao meu ver não é derramar espermatozóides e sim amar. É ser amado. Ter filhos, milhares por aí os tem e largam pra lá. São as clássicas máquinas de fazer pivetes, e o que dizer das que enterram, abandonam e jogam no lixo os filhos recém nascidos? Veja que coisa intrigante: O maior ato de amor que uma pessoa que não ama a criança poderia fazer, é dar a mesma para que seja amado por outra.

E a árvore? Foi-se o tempo em que plantar uma árvore era tudo que uma pessoa poderia fazer para melhorar a natureza.
E por que só árvores? E as gramíneas? E as flores? E os arbustos? E as algas? As folhagens? Quem vai defender o reino vegetal? Impor a condição de completude da vida para quem planta apenas árvores é uma injustiça.
Aliás, quando a máxima foi pensada, nem sequer havia a preocupação ecológica. As pessoas simplesmente não pensavam nos recursos naturais. Parecia que haveria sempre mais e mais árvores. Mais e mais água. Que certas coisas nunca acabariam. Com o tempo e a destruição do nosso meio ambiente, descobrimos com tristeza que estávamos (estamos) matando o planeta aos poucos, de forma que estamos vivenciando o maior e mais lento suicídio em massa que uma espécie já provocou em toda a História.
Em um momento de consternação, a humanidade pensou que replantar as árvores eram tudo que poderíamos fazer para recuperar um pouco do que estamos exterminando. Falou-se em “Amazônia, o Pulmão do Mundo”.
O verdadeiro “pulmão do mundo” é o mar. Mas plantar árvores é importante, é legal. Não vai mudar muito o problema que nós humanos criamos pra nós mesmos, mas é bom.
E então eu me lembro aqui da árvore que eu plantei. Gradualmente, surge da escuridão das minhas memórias, a cena daquele fatídico dia, quando eu voltava pra casa vindo da aula de recuperação em Matemática.
Todo mundo de férias e eu estudando feito um desgraçado. O medo de repetir de ano… Num período onde todos tem grande prazer, eu vivenciava momentos bem ruins.
Resolvi inovar e voltar pra casa por um novo caminho. Um caminho que eu nunca havia feito antes, porque desde pequeno, eu odeio a rotina. E também pelo prazer da descoberta, da aventura.
E então, após andar por aí uns 500 metros por ruas que eu não conhecia, eu me deparei com uma casa meio velha. Meio antiquada. A casa tinha uma enorme árvore no quintal. O chão era roxo. Totalmente roxo. Eu olhei pra cima e vi milhares de pequenas frutinhas escuras naquela árvore de verde exuberante.
– Amoras! – Eu pensei.
Imediatamente, pus-me a catar os galhos mais baixos da árvore em busca de amoras. Não sei quanto tempo fiquei ali, catando uma, duas, três, duzentas amoras…
Não precisa dizer que eu sou louco por amoras. Eu tenho dessas coisas. Quando encontro algo que eu gosto, eu como até sair pelos olhos. Foi assim também com jambo, que eu comi tanto que vomitei jambo até pelo nariz.
Naquele dia, eu rapelei a árvore completamente. Quando acabaram todas as amoras em estado comestível que havia na parte da árvore que dava para a rua, eu comecei a subir no muro, visando agarrar amoras mais vermelhas, mais roxinhas e doces, que estavam dando sopa dentro da casa.
Gradualmente, fui me empolgando e vendo que a casa parecia vazia, me arrisquei a pular o muro para dentro daquela residência.
Eu invadi a casa e trepei na árvore. Eu me deliciava com as amoras. Estava tão absorto naquela colheita maravilhosa que esqueci completamente de ler a placa vermelha no portão que dizia: “CUIDADO COM O CÃO”.
Foi então que eu tive o desprazer de conhecer o tal “Cão”.
Era uma besta do apocalipse preta com mais de um metro de altura e olhos injetados de sangue que surgiu não sei de onde. Aquela boca arreganhada cheia de dentes olhando pra mim com o mais profundo ódio.
Eu tratei de escalar a árvore, e o troço ficou pulando lá em baixo.
Tentei jogar amoras na besta, mas a criatura das trevas só ficou ainda mais puta da vida comigo. E começou a querer escalar a árvore.
Não vendo outra saída, fui obrigado a lançar mão do meu poder:
Berrei “Socorro” a plenos pulmões.
Eu berrei tanto que quase fiquei rouco. Mas a porra da rua era meio deserta e ninguém ouviu. O cachorro bravo fazia um escândalo de rosnados e latidos. Ele estava pulando cada vez mais alto. Pra piorar, o tênue galho no qual eu estava desesperadamente agarrado, começou a estalar.
Falando sério que eu pensei que o monstro ia me engolir. Até que ele parou subitamente. Eu estava com os olhos apertados, já esperando pelo pior quando ouvi uma ordem direta:
-Pode tratar de descer daí!
Quando abri os olhos era uma velha, de camisola. Cabelos grandes e brancos. Ela era meio gorda. Muito cheia de rugas. Parecia a Madame Min.
Eu fiquei meio sem ação e ela entendeu que era por causa do cachorro. Então ela prendeu o bicho atrás de um portãozinho na lateral da casa.
Aí eu desci e levei um belo esporro por invadir a casa dela.
Eu tentei me explicar, mas a velha era boa em dar bronca. Tão boa que eu chorei.
Quando eu chorei, ela ficou com pena. Acho que ficou com pena mesmo não por eu ter chorado, coisa de moleque cagão, mas sim quando viu nos meus dedos, camisa e boca que eu estava apenas comendo amoras.
Certamente foi isso, pois eu mais parecia o Bozo com uma bola vermelha ao redor da boca.
Depois de me acalmar, eu comecei a conversar com ela. O tom dela mudou e de bruxa, ela ficou maternal. Ela se chamava de “vovó” e, ou eu me esqueço, ou de fato ela realmente nunca falou seu verdadeiro nome para mim.
A Vovó me disse para nunca mais fazer isso novamente. Que era para nunca entrar na casa de alguém sem ser chamado. Ela disse que o cachorro era bravo mesmo e que se ela não estivesse em casa dormindo, eu poderia morrer.
Eu não tinha dúvida alguma de que ela estava certa. Pedi desculpas e disse que não havia visto a placa porque eu gostava de amoras e queria apenas comer algumas.
Ela olhou para a árvore, a esta altura com muito menos amoras do que sempre, e riu.
-Você quer uma muda dessa arvore? – A Vovó perguntou.
Eu aceitei prontamente. Nessa altura da vida, eu ainda não sabia exatamente o que era uma “muda”, mas tendo em vista ter praticamente dizimado as amoras da árvore da vovó, topei.
Ela entrou na casa. Eu fiquei do lado de fora, sentado no parapeito do pequeno muro, sobre a tampa do registro de água. Do outro lado do portão, o cão preto enorme me olhava fixamente, em silêncio assassino.
Dali a uns minutos a Vovó Voltou, certamente dos fundos da casa, onde deveria haver outro quintal, ou “terreiro” como se chamava. Nas mãos dela, uma garrafa de água mineral, cortada pelo meio, com terra dentro e um diminuto galhinho com umas três folhinhas para fora.
-Aqui está. – Ela disse. E me orientou para plantar a amoreira numa área que não pegasse sol o tempo todo. Eu agradeci e fui embora, carregando meu prêmio.
Cheguei na casa da minha avó e pedi meu avô para me ajudar a plantar a amoreira no jardim, dele. O meu avô sempre gostou de jardim e me ajudou a escolher um bom lugar para plantar.
Cavamos um pouco e com cuidado, transplantamos a árvore-bebê para o local.
O tempo foi passando e o galhinho lentamente se transformou em um graveto, e depois numa vara com muitas folhas e lentamente ela engrossou e se abriu em outras varas.
Mês a mês, eu acompanhava o crescimento da minha árvore. Com felicidade vi surgir as duas primeiras amorinhas.
Meu avô tornou-se o responsável por ela. Podava e sempre avisava quando as amoras apareciam, lá pra meados do fim de junho.
A minha amoreira nunca foi uma árvore como a da tal “Vovó”. Frondosa e cheia de amoras, carregada. A minha dá uma meia dúzia de amoras. Mas mesmo assim, eu descobri que havia naquela árvore, um prazer maior do que apenas os frutos. Ali estava o trabalho meu e do meu avô querido. Estava a materialização da história daquela planta e de nós dois.
Tal qual o tesouro que os heróis das estruturas míticas enfrentam perigos e até a morte para trazer de lugares inimagináveis, a minha amoreira é o meu tesouro e ocupa um lugar eterno no meu coração e no jardim do meu avô.
Domingo, eu estava na casa dos meus avós e conversava com o vô Hugo sobre plantas, árvores e flores. Após inspecionarmos a amoreira, ele me mostrou ou oiti que trouxe para a rua da casa dele numa lata de banha, há mais de cinqüenta anos atrás. E em silêncio, eu admirei aquela árvore enorme. Ali estava a árvore amiga que me viu crescer, brincar e até tacar fogo na vizinha dela. O Oiti é outra árvore do coração. Quase uma pessoa da família. Meu avô nunca esqueceu daquela arvore que ele plantou, e da qual ele recolhe centenas de folhas secas todos os dias, há mais de meio século. E eu nunca esqueci a minha amoreira.

22 Comentários

  1. Jack Waters 11 de agosto de 2009
  2. Uronim 11 de agosto de 2009
  3. Gabriela 12 de agosto de 2009
    • Philipe 12 de agosto de 2009
  4. Gustav 12 de agosto de 2009
  5. Mestre Splinter 12 de agosto de 2009
  6. Leh 12 de agosto de 2009
  7. renato 13 de agosto de 2009
  8. jackie 13 de agosto de 2009
  9. Douglas 13 de agosto de 2009
    • Philipe 14 de agosto de 2009
  10. Vinicius 14 de agosto de 2009
    • Philipe 15 de agosto de 2009
  11. Maria Goreth Kling 14 de agosto de 2009
    • Philipe 15 de agosto de 2009
  12. Giovanna 15 de agosto de 2009
    • Philipe 15 de agosto de 2009
  13. Rodrigo Andrade 20 de janeiro de 2010
  14. José Carlos David 19 de agosto de 2010
  15. Didi Tenório 6 de setembro de 2011
    • Philipe3d 6 de setembro de 2011
  16. Erick Rodrigues 16 de julho de 2013

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