Tropa da Elite

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Ontem choveu pra caralho. Eu, burro, idiota, energúmeno ouvi no rádio que a cidade estava um caos e fui trabalhar mesmo assim.

Saí de casa antes das nove e cheguei no meu trabalho uma e meia da tarde. No caminho eu vi todo tipo de cena grotesca. Um rato com a barriga arreganhada e as tripas para fora me deu as boas-vindas quando eu precisei dar uma volta por ruelas estreitas para escapar de um mega alagamento em que alguns poucos corajosos se arriscavam com a água no joelho.

Quando eu cheguei no trabalho não havia internet. Não havia ninguém. Só eu, o burro, energúmeno, idiota, estava lá. A Melissa me disse que o diretor havia liberado para todo mundo dar o “vazari” porque a chuva iria piorar e a calamidade pública se descortinaria com toda sua pujança cataclísmica. E não deu outra. Na volta, de dentro do ônibus, eu vi água quase cobrindo carros ali na subida da Ponte.

O rio de janeiro é uma cidade engraçada. O nome da cidade faz todo o sentido quando chove. Vira um RIO mesmo, com neguinho usando Jet sky na calçada!

[youtube]http://br.youtube.com/watch?v=xC5GULJ-LAY[/youtube]

O fato é que eu fui inutilmente para a Praça Mauá no dia mais caótico do ano e para não perder a viagem, resolvi trazer a cópia pirata do filme Tropa de Elite para assistir em casa.

Bem… Eu adorei o filme. Acho que ele representa bem o momento atual de desgoverno que vivenciamos. Achei o filme tecnicamente muito bem feito. Particularmente eu considerei o filme mais como um protesto na forma de uma obra cinematográfica que uma obra ficcional para diversão do espectador.

Eu penso naquele filme como uma representação da estrutura caótica e largada com o qual a segurança pública é tratada no país, sobretudo no Rio de Janeiro.

Um estado que já foi governado pelo Leonel Brizola, um dos mais favelizados do planeta e com maior relação de desigualdade social por metro quadrado existente, o estado do Rio tem ainda contra si a geografia acidentada.

Não há nenhum lugar do universo onde o crime domine um território acidentado com o do Rio, atirando com armas de uso militar de cima para baixo que tenha solução. Some-se a isso o fato de que o estado do Rio, o segundo maior arrecadador da nação, paga o segundo PIOR SALÁRIO do país para os policiais ( O soldo de um PM na cidade do Rio está abaixo do salário mínimo) e que é o estado da federação em que MORREM mais policiais em confrontos com o crime.

Todos nós sabemos do despreparo, das péssimas condições de trabalho, do baixo salário, do preconceito social, da truculência inconseqüente como forma de imposição de uma lei torta que quase sempre afeta o rico de modo diferente do pobre.

O filme pra mim revela isso. Ele trata muito bem da estrutura apodrecida de corrupção que se alastra em níveis pela instituição adentro. O filme mostra como uma pessoa pode ser enlouquecida com o trabalho de combate ao crime.

Sim, enlouquecida. Em muitos momentos isso ficou claro pra mim. Tropa de elite é um filme sobre a loucura gerada pelo caos social. O caos enlouquece. Vemos Capitão Nascimento gradativamente afundando cada vez mais na loucura, no desespero de sair da linha de frente.

O mais intrigante notar na opinião pública um quê de heroísmo no comportamento do Capitão Nascimento. Ele é aclamado em sites e blogs. Capitão tem incontáveis comunidades no Orkut, camisetas e etc. Suas frases marcantes como “bota na conta do papa” viraram bordões. Ele está sendo cultuado como a solução para a política brasileira. Já temos até o Nascimento Facts, mais um arremedo do Chuck Norris facts.

O que acontece é que a sociedade está sem referência. A ordem social foi para o saco faz tempo. E duvido mesmo que ela tenha sequer existido em algum momento da nossa história. Na Tv só passa político notóriamente canalha, que enriqueceu ilícitamente do nosso dinheiro, com sorriso cretino e falando politiquês. Essas aparições são sempre entremeadas por anúncios de aumentos dos próprios salários, pessoas doentes em hospitais caindo aos pedaços e banqueiros comemorando lucros recordes.

Estamos numa nação tomada por negociatas de bastidores em todos os níveis da sociedade. É a lei do “farinha pouca, meu pirão primeiro” que começa na diretora de escola que pega carne da merenda das crianças e faz em casa para os filhos dela e se estende até a Dona Mariza, a primeira dama da Nação, que usando o cartão de crédito do Palácio do Planalto, compra vestidos caríssimos e faz o cabelo no salão de beleza mais caro de Brasília, para viajar pelo mundo bem bonita à bordo daquele avião com hidromassagem que só os ditadores e marajás do petróleo tem igual.

Aí eu me pergunto: Qual a razão do sucesso desse filme?

Eu acho que o povo fica feliz por ver um pouco de justiça, mesmo que seja uma coisa cinematográfica, um conjunto de cenas, uma máscara, uma idéia materializada plásticamente com sangue falso e tiros de festim. O Capitão Nascimento, do modo como foi retratado, representa o arquétipo do justo.

O “justo” sempre funciona. Ele é imbatível, sobretudo em momentos caóticos. Do David bíblico aos heróis das tragédias gregas, ao Rambo, passando pelo Chuck Norris e o Charles Bronson, o justo imperou. Só agora, nosso cinema cria seu ícone de justo, e talvez por isso tenha dado certo. Afinal, muitos brasileiros são justos.

Os brasileiros adoraram o Capitão Nascimento porque ele -mesmo sendo falso, uma representação metafórica de uma realidade muitas vezes pior do que surge na tela – faz justiça num país sem justiça, onde os dirigentes da nação são esses filhos da puta dos quais já estamos cansados, mas que pipocam eleição após eleição num Estado podre e corrompido.

O Capitão Nascimento realmente mata e tortura. Mas, aos olhos do povo sofrido, acuado pelas privações, pela fome, pelos indizíveis sofrimentos, isso não é morte nem tortura. Isso é justiça. Matar vagabundo, matar traficante é dar o corretivo que a sociedade merece e que o povo cansado anseia.

Vamos lembrar que o trabalhador brasileiro, o homem sofrido, que luta diariamente por um prato de comida, que tem os filhos vítimas do trafico, a mulher com medo, sai para o trabalho sem saber se voltará. Ele vê nos políticos salvadores, ícones de um desejo de que “esse é bom”, ‘Esse vai fazer” e a cada ano, decepciona-se sucessivamente. Esse brasileiro teme a polícia, a corrupção e a violência contra pobres e pretos. Ele teme igualmente os traficantes e sua presença constante. Então, vem o Capitão Nascimento e diz: “A polícia é corrupta. A polícia é sócia do narcotráfico. Não tem solução. Tem que matar”. – E vai e mata.
E aí é que surge a comoção. Aquele arquétipo que o brasileiro buscava no político, o cara que “é bom”, “o cara que vai e faz” não é um engravatado que fala difícil, é alguém com arma na mão e cara de mau. Este é um ser de dimensão complexa, porém alguém que fala o português claro. Porque aquele sim, é uma figura compreensiva em diversos aspectos. Capitão Nascimento diz o que o povo anseia ouvir, e mais que isso, ele reflete o povo.

O Capitão Nascimento toma água num copinho de geléia de R$1,99. A mulher dele esquenta água para o café numa humilde panelinha. Os móveis do quarto dele são aqueles das casas Bahia, onde você compra o colchão de casal e leva o armário com espelho. O trabalhador brasileiro tem pena do Capitão Nascimento, porque ele também sofre. Ele também é explorado e humilhado no serviço! Ele também passa privações, sofrimentos, angústias. O Capitão Nascimento é até abandonado pela mulher. Mais humano que isso não tem.

Mas a verdade é que isso é uma coisa Denorex. Aquele que “parece, mas não é”.
Nascimento e seu fuzil são parte de um falso e idealizado retrato da justiça. A realidade é outra.

Tropa de Elite, o filme. O filme que criou a ilusão de justiça, criou a ilusão de honestidade.
Mas e agora? O que vem depois?

Não sei. Temo pelo pior. Veja, uma vez que o inconsciente do povo já está favorável ao confronto, não há mais remorso em “sentar o dedo” no gatilho do fuzil. E quem vai se ferrar não é o cara que está andando de lancha em Angra dos Reis e nem o que vôa fazendo hidromassagem em viagem a um pobre país africano, onde ele irá fazer bonito, perdoando uma dívida de 400 milhões de dólares. Quem vai se foder de verde, amarelo e vermelho-sangue, é o pobre, o herdeiro da escravidão, o oprimido social que se vê pressionado pelo trafico e pela polícia.

O fato é claro. Esse povo pobre, humilde e espoliado das favelas do Rio será vítima do terror, dos bárbaros assassinatos, das balas perdidas, das torturas, das humilhações, do saco e se bobear, do cabo da vassoura.

Atrás do vidro da TV, no Jornal Nacional, os assassinos torturadores serão reverenciados! A opinião pública será favorável ao terror! A ideologia que a honestidade e honra são gravadas a chumbo quente e pólvora já foi disseminada. Não duvido que surjam novelas ou séries retratando os atos de heroísmo contra o crime de homens que entram numa favela à bordo de um caminhão blindado chamado de “Caveirão” disparando armas contra barracos e provocando os traficantes a usar armamento cada vez mais potente para perfurar a blindagem do mesmo.

O combate ao crime se traveste definitivamente de uma guerra. Não é mais um eufemismo. A inteligência necessária ao combate ao crime dá lugar à confrontação franca da guerra e quem ficar na frente das balas, é considerado suicida pelo Estado.

Fora que agora, temos a clara compreensão de que esse Estado não tem mais nada a ver com o narcotráfico.

Não são os juízes, promotores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, delegados e até o analfabeto funcional do nosso presidente os responsáveis pela proliferação do narcotráfico. O filme pra eles foi muito bom. Graças a ele, no imaginário popular, no que realmente importa para o político, que é a opinião pública, o Estado não é mais cúmplice da indústria das drogas. A partir de agora, os cúmplices do narcotráfico são os filhinhos de papai da classe média, que fumam
maconha e cheiram cocaína! E ainda fazem campanha pela paz.

E o povo aclama o Capitão Nascimento como o único capaz de entrar com as quatro patas no peito dessa galera, metendo o fuzil na beiça, o saco plástico na cara e o cabo da vassoura vocês sabem onde.

Os playboys são os inimigos. Eles financiam o tráfico! As multinacionais, os grandes bancos, os acionistas das grandes indústrias, os sócios da “multinacional do pó” não têm nada a ver com o tráfico! A culpa é dos maconheiros!

O povo vê heroísmo no Capitão Nascimento, mas pra mim, “Tropa de elite” não tem heróis. Só vítimas. O povo se satisfaz vendo DVD pirata onde pelo menos no universo da fantasia, alguém faz alguma coisa.

No mundo real, as pessoas são as vítimas também. E a realidade, não raro, é bem mais impressionante e violenta que o cinema consegue retratar.

Enquanto isso, na surdina, tiram do PAC o aumento previsto para os policiais. A desculpa é que não há grana. Sempre a mesma coisa. Não há grana? Tem certeza?
Nos últimos meses, o presidente Lula perdoou a dívida da Bolívia (U$ 52 milhões) , depois Cuba (E$ 40 milhões) e também da Nicarágua (U$ 141 milhões) aí  saiu em viagem pela África, onde perdoou as dívidas de Cabo Verde (U$ 4 milhões) , Nigéria (R$ 83,1 milhões) , Gabão (U$ 36 milhões) e 95% do débito de Moçambique, abrindo mão de U$ 331,7 milhões. *

* Tudo isso ilegalmente, uma vez que :

…é da competência exclusiva do Congresso Nacional “resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional”, e é atribuição privativa do Senado Federal “autorizar operações externas de natureza financeira, de interesse da União…” (artigo 52, inciso V).

Pra mim, isso é coisa de quem tem grana. (sem falar no avião de 55 milhões de dólares, ou no vinho que ele gosta de tomar) Lula gasta sozinho R$ 30 milhões por ano em mordomias.

Por que o PM de Brasília ganha mais que o do Rio?

O estado do Rio vem tomando na cabeça sucessivamente ao longo de varias décadas. Isso gerou este estado de total confusão e politicagem safada que atende a interesses obscuros.

Nesse caos, eu vejo que está de volta a antiga brincadeira de “polícia e ladrão”. Mas agora é o Bope contra o tráfico.

Comments

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12 respostas

  1. Muito boa a análise. Como sempre, abordou pontos que eu não havia parado pra pensar. De fato o filme germinou uma idéia fantasiosa na mente de muita gente que o assistiu, criando a idéia dos “justiceiros”. O povo cansado de apanhar tem que se ater a uma esperança…
    Mas acho que há um lado bom nisso, é uma excelente propaganda para estimular mais pessoas a entrarem para o BOPE, as pessoas q ainda acreditam nesse país e querem fazer algo por ele.

  2. Putz…tenho visto muitas opiniões sobre o filme. De gente muito boa, inclusive. A sua foi a mais sensata, e não me espanto com isso. Você é muito bom, cara.
    Parabéns

  3. Cara, mto foda o post, pra variar neh haha
    Eu vi o filme faz uma semana eu acho, e achei animal, um dos melhores filmes nacionais q eu jah vi…mas ainda eh soh uma obra de ficção
    O problema pra mim eh pensar mais “se existe esse tipo de policia, essa eh a maneira correta de agir??” digo, tortura, assassinato, coisas assim?? será q eh bom ter uma policia assim?
    Se vc ver o filme, provavelmente vai achar q sim…mas será q eh o correto?

  4. Genial Kling… Realmente, contrapor a ficção de um (ótimo!) filme, com nossa realidade – mesmo por se tratar de um título que aborda essa realidade – talvez seja a única forma de estabelecer uma crítica que nos faça refletir. Parabéns! 🙂

  5. Eduardo, se você quiser, eu te mando uma versão sem os palavrões. Pode colocar onde quiser, mas coloca também o link, pq aí eu consigo mais leitores. Seria uma ótima ajuda pra mim.
    Se quiser, me fala.

  6. Michel, eu não disse que fica. Acho que ficou mal escrita esta parte. Na hora de pesquisar os dados, fui incluindo países e empurrei a Nicarágua para o meio da África e nem notei. Vou reescrever este pedaço para ficar mais claro. Obrigado pela dica aí.

  7. VElhão:

    voce tocou no ponto que há tempos eu esperava que alguem tocasse: fala-se na participação concreto do usuário nesse mercado podre das drogas: concordo.
    Fala-se da corrupção policial como uma praga a contaminar as estruturas do Brasil: concordo.

    Mas ninguem ta falando da inversão de valores de se apostar em uma policia que mata, que tortura!!! Ninguem discute o absurdo de tolerarmos o caos de que se usa a própria policia para cumprir suas missões! Sou contra a policia? Não! Sou contra equipes de elite, destemidas, honradas, eficazes? Não! O que não se da pra comemorar e tolerar é a ação corriqueira da tropa q sai do quartel com seus saquinhos de plastico hermeticamente fechados para as torturas!!!
    A culpa é da tropa? Também não! Ela também é vítima dessa desesperança toda, e acaba tomando pra si o poder de fazer, LITERALMENTE, justiça com as próprias mãos…

    Daí o desespero de ver o Nascimento como um herói. Acho que ele é tao vítima – mas tao consciente e culpado quanto – os drogados, os traficantes etc…
    Se todos são filhos de um sistema, melhor ainda: podem pagar na mesma medida por suas respectivas responsabilidades.

  8. Paz,

    Não concordo! Que um cara que comente com tanta propriedade o assunto se denomine: “Eu, burro, idiota, energúmeno”… “Mas num é mermo”! Parabéns pelo seu comentário maduro e detalhado. Achei interessante, por que o filme e a personagem Nascimento fechou, agora, no segundo filme o desejo dos comentaristas e até o seu, de mostrar que o problema é ainda mais complexo e envolve outros poderes. É uma “fantasia” este filme. Será? Vejo no resultado político das eleições que apesar de lentas as mudanças estão ocorrento. Continue apresentando a possibilidade da justiça… quem sabe com a nossa insistência ela se torne realidade!

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