Brasil: Um país repleto de bandidos

Para pessoas de outros países, pode soar algo estranho e eu diria até inconcebível, que o Brasil seja tão repleto de bandidos. Ocorre que a construção histórica e social do Brasil se organizou de tal maneira que uma fenda de desigualdade (talvez sem precedentes no mundo) marcou esse país de forma indelével. Há pessoas que ganham nada, zero, e outras ganhando salários milionários, como esses juízes que ganham mais de cem mil reais no mês…. Morando praticamente um ao lado do outro. Apenas uma rua pode separar um funcionário da Justiça Federal de um pobre morador de favela, como ocorre no complexo da Rocinha, exatamente ao lado de um endereço super nobre do Rio.

Vista aérea da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro (Foto: Wikimedia Commons)

Muitas vezes favelas pequenas dominadas pelo tráfico de drogas, com facções de todos os tipos, convivem em verdadeira harmonia com casas boas e mansões ao redor. Eu mesmo moro bem ao lado de um morro. Na verdade dois, onde existe tráfico, existe assassino de aluguel, existe um poder paralelo. Um amigo meu costuma dizer que no Rio, se seu vizinho não for do tráfico ele é provavelmente da milícia (o que pode ser até pior em termos de violência).

Exageros à parte, há uma verdade subjacente nisso tudo. Como o sistema brasileiro de desigualdade faz com que pessoas de baixa renda trabalhem como empregados para pessoas de renda mais alta, não é incomum que uma proximidade entre esses dois mundos formem pontes.

Essa mistura torna o Brasil um lugar peculiar, porque você vai tomar uma cerveja num bar, faz amizade, e depois descobre que seu amigo mata pessoas para viver. Ou o cara que lava seu carro oferece “pacotes de serviço” que podem ser a eliminação de desafetos no “microondas” – (é uma forma de matar onde os bandidos colocam uma pessoa viva dentro de um monte de pneus e tacam fogo) ou com tiros, fazendo parecer assalto.

Quando o cara é mau ele pode mandar a foto/video da execução pra família do infeliz.

O volume de mortes no Brasil é tão gigantesco que uma morte aqui, outra ali, passa batido quase sempre.

Mata-se por um prato de comida

A maior burrada que uma pessoa pode fazer na vida, é arrumar problema no Brasil ou com alguém do Brasil, sobretudo do Rio de Janeiro. “Arrumar treta” como se diz por aqui, é um grande risco de vida, porque a vida no Brasil vale menos que um prato de comida. No interior, não é difícil encomendar um matador de aluguel. Na capital era mais difícil, mas isso vem mudando com o Telegram. Há grupos para tudo, dinheiro falso, clonagens, toda sorte de 171, comprar drogas e claro, contratar um matador. E muitos trabalham por um preço extremamente barato. No Brasil, sobretudo no Rio, a vida não vale nada. Por isso, eu sempre dirijo com um medo múltiplo:

1-Bala perdida – No Rio, Há pessoas atirando de cima dos morros toda hora. Essa bala vai cair. E não raro, cai em alguém. O medo de bala perdida é um temor permanente para todos os que moram no Rio e nas regiões metropolitanas da cidade.

2-Malucos – O Rio de Janeiro está repleto, REPLETO de pessoas malucas, sem nada a perder. Um simples desentendimento de trânsito, não raro, evolui rapidamente para um assassinato. Comigo ocorreu outro dia de um cara tentar me assassinar depois que ELE bateu no meu carro. Praticamente toda semana morre alguém aqui por causa de briga de transito que evolui para tiroteio. Os meios de comunicação nem divulgam mais, pq afinal, isso já “nem é notícia” pra eles.
Então, é uma loteria. Você pode ter um problema simples ou um bem horroroso e não dá pra saber.

3-Crime – O crime é um dos problemas mais terríveis da cidade do Rio. Como ele está entranhado na cidade até os ossos, às vezes errar uma rua resulta em ser assassinado. (não estou exagerando. Aqui mesmo perto da minha casa, um casal seguiu um GPS que os mandou por um caminho errado. Sem conhecer o lugar, eles acabaram na comunidade do caramujo onde foram metralhados, porque HÁ LUGAR ONDE NINGÉM ENTRA. PERTINHO AQUI DE CASA.

Muitas vezes, você pode estar seguindo sua vida pacificamente, sem arrumar problema com ninguém, quando seu carro é cercado por dezenas de pessoas armadas que vão te roubar. Essa operação é feita em grande escala, fechando uma via de grande movimento, produzindo um grande afluxo de veículos, e é onde começa o que se chamou de “arrastão” – Um nome derivado de uma modalidade de pesca onde se passa uma enorme rede de pesca entre dois barcos, que vai pegando todo peixe que estiver no caminho. NA versão criminosa, quem se recusa a entregar celular, carteira e joias pode ser assassinado.

De volta ao lance do crime organizado, o Rio teve um negócio que se chamou “Jogo do Bicho”. O Jogo do Bicho foi um tipo de loteria paralela muito popular, que logo se espalhou pelo estado inteiro, e depois para outros estados do Brasil. Com muito dinheiro, logo os “bicheiros” que operavam esse sistema se tornaram mais poderosos, e influentes na sociedade. Um sistema assemelhado com a máfia italiana foi organizado, com um loteamento das cidades em áreas controladas por um seleto grupo de bicheiros. Eu mesmo tive parentes dentro desse negócio. O meu dentista tratava de um dos maiores e mais perigosos bicheiros do Rio, o Castor de Andrade. As histórias do Castor são várias, algumas hilárias, outras davam uma real dimensão do poder paralelo que eles tinham em mãos. Tem coisa que eu não posso nem contar, por motivos de precisar estar vivo.

A pena de morte em vida

Certa vez eu estava conversando com uma pessoa. Essa pessoa me contou um caso anedótico real que se chamou “pena de morte em vida”. Basicamente  alguém sacaneou um parente desse amigo meu. Então o que eles fizeram? Mataram o cara? Não. Eles mataram os pais do cara. Depois mataram os filhos desse cara, um a um. E seguiram matando.  Mataram CADA PESSOA que se relacionava com este cara, cada namorada. E ele foi deixado vivo para ver e entender que existe pessoa no mundo com quem não se pode fazer graça. Ele chegou a ligar e pedir para morrer quando começaram a matar os filhos, mas recusaram.  Estimo que por baixo morreram umas vinte pessoas (eles me ligaram e avisaram que foram 14) no total.  No final, desesperado, o cara tirou a própria vida.

Crime e pobreza

A ideia de associar o crime a pobreza é uma ideia bastante comum, mas nada está mais distante da realidade fria dos fatos. O crime no Brasil está entremeado nas fibras da sociedade de um modo complexo. Você pode jogar bola com um cara ligado a uma facção criminal perigosíssima e nem sabe. A razão disso é que o tráfico desde meados do fim dos anos 90 passou a usar um sistema engenhoso de empresas de fachada para lavar dinheiro. Muitas vezes, uma empresa como uma padaria ou uma clínica médica só existem por serem uma fachada para lavar dinheiro. Eu sou natural de Três Rios, alguns sabem, e lá, é um posto de passagem para grande volume de droga que vem chegar no Rio de Janeiro. Passa muito dinheiro lá. Volta e meia tem umas apreensões de drogas brutais por lá.

Não é raro você descobrir que um grande amigo de infância está envolvido nas maiores barbáries que você nem pode imaginar. Também não é raro você estar num grupo de amigos tomando um vinho e ficar sabendo de coisas impressionantes que tiram sua fé na espécie humana na hora. Essas facções que antes estavam restritas a favelas, hoje estão nos condomínios de luxo. Elas estão nas empresas pequenas e médias, e estão se ligando a outros grupos internacionais. E sempre que há dinheiro, poder, e violência na equação, você pode esperar o conluio de autoridades dos mais diversos espectros. Então, a ideia de que a pobreza gera o crime é irreal e delirante. Mas é fato que a pobreza, a desigualdade e a conjuntura histórico-social  são ingredientes que entram na mistura.

Não existe segunda chance

Às vezes quando o ambiente fica pesado, o melhor a fazer, é se afastar. Dar no pé. Como se diz no Brasil, ficar “no sapatinho” que é um eufemismo para não chamar a atenção e provocar problemas maiores. Muita gente que vê muita novela e filmes, pode pensar que dá pra arrumar treta e depois fugir. Mas não dá.

Muitas vezes, uma pessoa pode pensar que por estar longe, ela está segura. “Ah eu moro na França… Eu moro Na Bélgica… Eu moro nos Estados Unidos…”
Esqueça, trouxa! Se encomendarem sua morte numa favela do Brasil, você vai morrer ONDE ESTIVER.
Infelizmente pensar que está seguro por estar longe é um engano trágico. Problemas de todas as ordens podem levar a uma “encomenda”. Basta uma fácil olhada nos noticiários para perceber que eventualmente, brasileiros no exterior que se envolvem em problemas e acabam sendo encomendados.

O ideal na vida é tentar não arrumar problema com ninguém, porque você nunca sabe com quem realmente pode estar lidando, sobretudo no Rio e no Brasil.

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Philipe Kling David
Philipe Kling Davidhttps://www.philipekling.com
Artista, escritor, formado em Psicologia e interessado em assuntos estranhos e curiosos.

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Comentários

    • Não apenas rio, mas em toda a região metropolitana. São Paulo não fica muito atrás. Recife Tb não. Salvador nem se fala. Mas o rio tá gore pra caralho.

    • A solução é inviável. É uma guerra aberta, sangrenta e violenta contra o estado paralelo, ao mesmo tempo em que se atua contra os mandantes e poderosos, também com o objetivo de eliminar esses vetores do jogo.

      Mas essa solução é impossível. O sangue inocente pra isso é um preço muito, muito alto. O risco envolvido para quem determinar isso, também é alto. E principal, quem muitas vezes poderia ter o poder para decidir por isso, está é do outro lado, na trincheira do inimigo, enchendo os bolsos.

  1. Só lembro que em 2012, eu fui vítima de uma tentativa de homicídio. O cara queria meu celular e o da minha prima, mas eu tinha um intestino na cabeça, em vez do cérebro, e não queria entrar meu celular. O cara, às duas da tarde, no centro de Duque de Caxias, me deu um tiro na perna e um na barriga, e saiu sem levar nada. Graças a Deus, eu fui bem atendido no hospital Moacir do Carmo, fui atendido rápido e tive uma recuperação ótima. Saí do Rio em 2016, mas a violência nem foi o fator determinante, foi problemas de relacionamento com meu pai. Mas é muito bom, aqui em Colatina, poder andar com o celular na mão quando se está na rua.

  2. O Brasil só é assim porque não existe política e projetos para acabarem com o crime organizado, tráfico de drogas, roubos de celulares, dentre outras coisas horrendas que acontece em toda a sociedade brasileira. E não existe política para acabar com a desigualdade social. E esqueça esses programas sociais de governos de esquerdas que fingem que se importam com os pobres. Isso não passa de mentiras para ganhar votos. E a culpa disso é da própria população que vota errado, colocando bandidos de colarinho branco no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto. O Brasil é um dos melhores países do mundo para se viver, mas quem estraga ele são os próprios brasileiros. Não todos, pois dessa massa existem boas pessoas com boas intenções e com honestidade. E a corrupção do país começa na base e vai só subindo até chegar em nossos representantes. Temos tudo para ser uma potência mundial, mas o “jeitinho brasileiro” estraga tudo!

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