Zé e Yolanda

-Ai que merda!
-Bem? Que foi?
-Cadê o meu sapato?
-Deve estar aí, ué.
-Eu não tô achando…
-Faz o favor de abaixar e olhar debaixo da cama, bem.
-Gostaria de poder, se não fosse essa minha coluna… Ung.
-Hoje tá doendo? Já é o que? A quarta vez na semana?
-Isso mesmo.
-Já te disse que isso e sério, Zé. Você tem que voltar no Dr. Wilson… Tomou o remédio que ele passou?
-Kriptonita?
-Lá vem você de novo com essa maluquice. O remédio é verde, mas você não é o super-homem.
-Muito menos você é a… Porra como era o nome dela?
-Nome? Lois Lane.
-Ok. Isso aí. A Lois Lane.
-Para de enrolar, Zé. Você tem que ir no médico de novo.
-Qual é Yolanda. Eu já fui e ele me mandou tomar injeção. Nem a Pau, Juvenal.
-Rapaz, como você é cagão, hein? Um homão desses com medo de injeção?
-Sabe de uma coisa? Nem tô sentindo mais nada, ó.
-Tá. Então abaixa aí e pega o sapato debaixo da cama pra eu ver.
-Unnnnnnng. Ai, ufa. Tá aqui ó.
-Viu? Sabia que tava aí em algum lugar… Quê? Que foi, “benhê”? Que cara é essa Zé?
-Wilson!!! Liga pro doutor Wilson! Ai!
-Xííí… Travou? Ai meu Deus… Peraí. Cadê o telefone? Onde que tá o telefone dele?
-Yolanda, tá na mesinha do telefone, mulher! Anda logo! Ai meu Deus, não consigo levantar daqui!
-…Zero, sete três, nove zero dois… Toma. Tá chamando.
-Alô? Aaaaaaai!
-Nem falar com o médico você consegue, “benhê”?
-Basta eu me ferrar pra você ficar com essa cara de riso. A culpa foi sua, pô. Fala aí com ele pra mim.
-Como que eu explico?
-Dá seu jeito… Ai, ai!
-Eu vou ter que contar que você abaixou e aí…
-Fala o que quiser, mas arruma um jeito dele me tirar dessa posição idiota.
-Gente, nunca vi isso. Chama, chama e não atende…
-Hoje é sábado, né?
-Ih, é mesmo. Nem tinha me tocado. E agora “benhê”?
-Já vi que vou passar o fim de semana todo agachado aqui. Mifú.
-Kiwi… Eu vi na Ana Maria Braga um pajé que disse que um chá de folha de kiwi ajuda a reduzir a dor. Quem sabe se eu…
-Lá vem você com essas macumbas. Só acredito na ciência, Yolanda. Ciência! Ung… Como isso dói.
-Mas eu só tô tentando te ajudar, Zé.
-Não tem jeito. Não dá pra sair daqui. Travou tudo.
-Olha, Zé. Eu não ia dizer nada, mas você sabia que foi nessa posição que o Napoleão perdeu a Guerra?
-Para com isso, Yolanda. Eu não posso rir que dói. Ai! Vá buscar ajuda!
-Que que eu posso fazer, amor? O médico não atende…
-Rapa fora daqui. Me deixa. Vou ficar sozinho, com a bunda no ar e a cara debaixo da cama então, pô.
-Só tem um jeito, amor. Vou te dar um puxão pra ver se a coluna volta pro lugar.
-Tá maluca? De onde você tirou essa ideia insana?
-Uma vez eu vi isso num filme.
-Você acha que filme é verdade, criatura? Filme é filme. Verdade é verdade. Nunca vi nada travar assim…
-Windows! O windows trava assim, do nada.
-Yolanda, a piadista infame de sempre.
-Zé, o homem Windows, aquele que trava na pior hora, da pior maneira, sempre de um jeito ridículo.

FIM

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1 comentário em “Zé e Yolanda”

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