Olhei na cara da morte – UM

Eu devia ter uns três aninhos. Morava nessa época em Juiz de Fora. Eu não me lembro da história, só sei o que minha mãe conta. E é mais ou menos assim:

Ela tinha saído e me deixou com a babá “tomando conta”. Era dia de faxina. Quando minha mãe chegou da rua, algum tempo depois, viu a babá vendo televisão.

– Cadê o Philipe – Perguntou minha mãe.
– Tá aí pra dentro… – Disse a babá, meio desatenta, levantando pra me procurar.

Nada. Não havia nenhum sinal meu na casa. Apenas o silêncio. Os brinquedos arrumados. Tudo direitinho. Minha mãe entrou em pânico.

A empregada falou que eu estava do lado dela, e então sumi. Minha mãe chamou meu pai e taca os dois a me procurar. Primeiro na casa toda, depois no corredor, casa dos vizinhos, lixeira do andar, elevadores, térreo, garagem, rua…

Eu havia literalmente desaparecido no ar.

Minha mãe estava desesperada com meu pai na cozinha imaginando que alguém tivesse entrado sorrateiramente no apartamento e me levado embora.
Ela olha pro meu pai:
– Eduardo o que vamos fazer?

Então naquele momento de silêncio que antecede o choro desesperado, a minha mãe conta que ouviu uma vozinha fraquííííínha… Quase sumindo:

– Mãããããããããããããa…..* Socooooooooooo*…

– Escuta – Ela disse pro meu pai. – É ele! É ele! – Ao invés do fato de ouvir a minha voz reduzir o desespero, o efeito foi ao contrário. Ela ficou mais nervosa pois se a voz saía fraquinha assim eu devia estar em algum lugar muito perigoso.

Corta e entra flashback:

A empregada vendo novelinha da tarde, provavelmente “marrom glacê” na GLobo, quando eu me levanto e saio meio cambaleante carregando algum brinquedinho. Vou na direção da cozinha… A câmera fica.

Corta e volta para minha mãe. Uma cena igual a de Poltergeist:

– Philipe? – Ela grita olhando para o teto. E continua: – Tá ouvindo a mamãe Philipe?
Passa-se um tempo. Apenas o silêncio. MInha mãe e meu pai se entreolham.

– Mããããããã… Tá escuro aqui….* – A voz fraquíssima, como um rádio fora do ar, sumindo.
– Onde você está meu filho? – Meu pai pergunta, andando sem saber onde olhar. De um lado para o outro na cozinha, abrindo gaveta, armário. Olhando em baixo da mesa… Minha mãe interrompe:
– Philipe, grita pra mamãe!
– Mãããe… Eu tô com medo.
Então a porta da geladeira se abre como uma explosão fantasmagórica, e eu sou vomitado tal qual um pinto molhado para o meio da cozinha. Caio estatelado lá.
Close na cara de espanto-alívio-desespero-e-medo dos meus pais.

Flashback:

Eu entrando na cozinha carregando o brinquedo. OLho a geladeira, sem prateleira, descongelando… ( naquele tempo descongelava-se geladeira nos dias de faxina) Eu vou entrando e a porta se fecha atrás de mim. Tudo fica escuro. Começam a cair pingos terrívelmente gelados em cima de mim. Do lado de fora a empregada se diverete vendo a novela. O galã vai beijar a moça.

Foi a primeira vez que olhei a morte de frente. Minha mãe conta que saí de lá de dentro azul. Os dedos roxos. Eu fiquei fraco, e com três anos é uma força descomunal para abrir a porta da geladeira com aquele ímã de antigamente. A Consul vermelha quase virou um belo de um caixão vertical na cozinha.

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22 comentários em “Olhei na cara da morte – UM”

  1. Gostei dessa. Principalmente, da Cônsul vermelha. Na casa dos meus pais tinha uma “condenada” dessas. Foram obrigados a vendê-la, pois ela não se destruía.

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