Este post não é sobre nada. É que está tocando uma música aqui. O que será, do Chico com o Milton. E aí me vieram uns pensamentos…

Sabe, tem músicas que são verdadeiras obras-primas. Uma das que eu mais gosto, que me leva para lugares inimagináveis a cada vez que eu ouço é esta “O que será”, feita pelo fodão, garanhão e como diria Fusto Silva, o glorioso Chico Buarque de Hollanda.

Eu sou fã deste cara desde guri. Quem já tentou escrever música e - principalmente - tocá-las em um violão, vai concordar comigo que tem música dele que a gente chega a se perguntar se ele não tem nenhum pacto com o Dêmo, de tão completas, tão redondas. Sem mais, nem menos. O cara fez “O que será” para o filme do Cacá Diegues, Bruno Barreto: “Dona Flor e seus dois maridos”.

Isso me irrita. Como que pode o cara fazer uma letra como “O que será” para um filme? Eu aceitaria se a musica fosse a expressão máxima de vida de um cara. Tipo o livro “e o vento levou” cuja autora nunca mais fez nada, porque julgou que de cara tinha feito a melhor obra que poderia naquela existência.

MAs não, não o Chico. Ele humilha e faz como quem brinca. Parece o David Blaine e seu sorriso cínico de quem domina conhecimentos muito além da maioria dos reles mortais que contemplam com pavor seu pretenso “poder”.

O que será é muito, muito superior ao filme. É uma daquelas coisas que acontecem e você pensa: “Nossa. Que bom que sou brasileiro e entendo isso”. Chego a ter uma certa pena dos gringos, coitados, que apenas podem especular sobre a sonoridade latina e musical da lingua portuguesa, que sem dúvida já é bom, mas não absorvem NADA da poesia absolutamente discreta, densa, sôfrega e profunda naquela letra.

Não obstante, Chico Buarque resolve joselitar e faz DUAS letras diferentes para “O que será”. Uma cognominada O que será (Á flor da pele) e a outra O que será (à flor da terra)

Ah, não. Tá de sacanagem. Como é que pode isso? Numa mesma encarnação o mesmo maluco manda duas letras absolutamente densas e completas para a mesma melodia. Só pode ser erro da matrix.

Mas não é. O cara é gênio e genialidade não se discute. Agora, como pode ele fazer coisas assim, com tamanha complexidade e densidade poética e depois de um certo tempo ficar tão sem graça? Basta pegar os discos recentes do Chico e compará-los aos dos tempos de Julinho da Adelaide, e veremos como Chico murchou. Que o Chico nunca cantou bem, eu concordo, e até ele mesmo reconhece, com uma certa vergonha elegante. Mas o fato é que um letrista não deveria ser como um escritor? Como o vinho, que melhora com o tempo?A ditadura e a repressão eram duas grandes merdas, eu reconheço. Mas a merda não é de todo ruim. É como a merda que aduba o jardim que florescia a musica de Chico.





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9 Comentaram sobre “O que será - A flor da ditadura”

  1. Amósis Says:

  2. Ah, Philipe, discordo que as letras dele são fracas hoje em dia. Ele busca fazer uma espécie de “música-literatura”, e a idéia de se conter e não fazer algo “passional” é uma tentativa de manter o bom-gosto dentro dessa proposta.

    Mas, com certeza, o álbum Construção é o melhor da discografia dele.

    Ah, e eu já postei no blog aquela história em quadrinhos que eu disse que ia te mostrar aquela vez, lembra? É só procurar lá no site pela palavra “Quepe”. :D

    Té mais, aí!

  3. Freakazoid Says:

  4. Como ele disse no documentário do Oscar Niemeyer.

    “Quando a minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é a casa do Oscar.”


    Eu acho que “Dona Flor e seus dois maridos” é do Bruno Barreto, melhor filme dele por sinal, refilmado nos Estados Unidos, o livro de Jorge Amado, contou com a participação de James Can no papel original de José Wilker, o resto do Elenco não tenho certeza se era Sally Field ou Goldie Hawn, além de Jeff Bridges.

  5. Philipe Says:

  6. Tem razão. Confundi com Bye-Bye Brasil.

  7. VICTOR Says:

  8. CARA, TO VIRANDO FÃ SEU.
    QUE TEXTO.
    ADORO CHICO E TEM RAZÃO, ELE MURCHOU.
    QUE TAL UMA DOSE DE DITADURA PARA FECUNDAR NOVAMENTE A GENIALIDADE DE ESCRITORES E MUSICOS BRASILEIROS?
    FOI SÓ UMA SUGESTÃO, AFINAL, ATÉ A MERDA TEM SEU LADO BOM.
    ABRAÇOS.

  9. Celso Luiz dos Santos Says:

  10. Realmente…
    Músicas que já foram ouvidas e me passaram despercebidas. Mas agora com seu texto, acenderam a curiosidade e peguei na net. Um primor de letra.
    Mostra como a nossa língua, bem usada, é de uma riqueza ímpar.
    Parabéns pelo seu Blog.

  11. Konda Says:

  12. Apenas para completar a informação, são 3 versões, há um tempo atras fui pesquisar sobre essa musica, segue abaixo oque eu ache, recebi de um amigo da internet chamado Rinaldo:

    retirado do site oficial de Chico Buarque (www.chicobuarque.com.br):

    Feita para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, a canção “O Que Será” tem três versões, que marcam passagens diferentes da trama: “Abertura”, “À Flor da Pele” e “À Flor da Terra”. Cantada no filme por Simone, a versão “À Flor da Terra” (três estrofes de doze versos) alcançaria grande sucesso na gravação de Chico Buarque e Milton Nascimento, que abre o elepê Meus caros amigos, um dueto, aliás, que aconteceu por mero acaso. Chico estava na gravadora ensaiando a canção com Francis Hime, quando Milton, de passagem pelo estúdio, ouviu e gostou. Daí surgiu o convite para a gravação, depois retribuído com a participação de Chico num disco de Milton, cantando com ele “À Flor da Pele”. Mas “O Que Será”, em qualquer das versões, é uma obra-prima, no nível das melhores criações de Chico Buarque, com sua melodia forte e sua letra libertária, um tanto ambígua em certos aspectos: “O que será que será / que todos os avisos não vão evitar / porque todos os risos vão desafiar / porque todos os sinos irão repicar / porque todos os hinos irão consagrar…” Em 15.9.92, ao tomar conhecimento do conteúdo de sua ficha no Dops-DPPS, em que há uma análise de “O Que Será”, Chico Buarque declarou ao Jornal do Brasil: “acho que eu mesmo não sei o que existe por trás dessa letra e, se soubesse, não teria cabimento explicar…”
    Depois de uma primeira viagem a Cuba, em fevereiro de 1978, como jurado do prêmio da Casa de las Américas (na volta, foi detido no aeroporto do Rio, com Marieta Severo e Antônio Callado), Chico multiplicou viagens a Havana, onde acabou por se tornar uma espécie de embaixador informal do Brasil, que só em 1986 reataria relações com o país de Fidel Castro. De lá trouxe a música até então desconhecida dos compositores da nueva trova cubana, como Pablo Milanés e Sílvio Rodríguez. Inspirado em fotos da ilha que lhe mostrara o escritor e jornalista Fernando Morais, compôs O que será, buscando algo entre o baião e os ritmos do Caribe - “um cubaião”, batiza
    Acrescento ainda:
    “O que será - Abertura” é cantada/narrada do ponto de vista da mulher (representa a força do desejo feminino); “O que será - à flor da pele”, é cantada/narrada do ponto de vista do homem (idem, sugere a representação da força do desejo masculino); “O que será - À flor da terra”, por sua vez, é cantada/narrada do ponto de vista de um corpo coletivo, desejoso de mudanças, de novos rumos para a História (diria, ansioso pela Revolução).

    (Escreveu Rinaldo de Fernandes)

  13. Philipe Says:

  14. Muuuuito bom!!

  15. Magda Says:

  16. Tudo bem que as letras do Chico são FENOMENAIS
    Mas esse cara que escreveu este artigo nao fica atras
    Um texto inteligente e bom de ler
    Meu amigo; você tem o dom do Chico também….

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