O índio e a natureza humana

Ontem um amigo desmotivado com as reviravoltas políticas que vem castigando o Brasil disse que gostaria de voltar no tempo, ao tempo antes do descobrimento, quando os Índios viviam felizes, em harmonia completa com a natureza e tudo era paz.

Eu confesso que ri quando li aquilo. Poucas coisas podem ser tão românticas, tão fantasiosas quanto essa ideia de índios felizes em comunhão com a natureza.

Muita gente pensa isso, e esse é um aspecto trágico do desconhecimento da história da nossa própria civilização. Se você pensa isso, eu já te adianto que este post vai ser um puta dum balde de água fria!

Não. O índio brasileiro nunca viveu em paz.

Muito menos em comunhão com a natureza, e jamais viveu em harmonia! Esqueça essa ideia que inventaram. É um mito.

Sabe o índio feliz e em paz? Esquece.
Sabe o índio feliz e em paz? Esquece.

Claro que glamorizar e criar uma fantasia eco-feliz do índio atende a diversos interesses né?

Quando aqui aportaram os Europeus, o Brasil era habitado por diversas tribos diferentes. Esses índios, como eu informei ao meu amigo, viviam em permanente estado de guerra. Esqueça a guerra ocidental de cavalheiros, onde existem tratados e normas de guerra, diplomacia e etc. As guerras dos índios eram a mais completa e absoluta barbárie. Não obstante alguns Índios COMIAM seus inimigos, praticando a antropofagia.

Bom, saber como era essa terra aqui antes dos Europeus chegarem é difícil por alguns motivos, sendo que o principal é que as populações que aqui estavam eram da idade da pedra. Eles não sabiam escrever. Logo, os índios nem sequer a noção de tempo, de números não tinham. Algumas tribos conseguiam contar “um”, “dois” e “muitos”, sendo que essa era a toda a Matemática deles. Três e um milhão era a mesma coisa para o índio.  O conceito de tempo era bastante abstrato para o índio, porque esse conceito abstrato está diretamente associado a uma estrutura linguística que suporte esse significante. Aliás, isso é um dado curioso. Você sabia que os alemães são tão organizados que eles não possuem a palavra BAGUNÇA em seu vocabulário? O alemão desconhece a “bagunça” porque simplesmente não possui essa palavra para poder compreender. Eles só sabem o “fora da ordem” que na estrutura da língua seria mais ou menos como um “ordem fora de”. Logo, note como na língua, a ideia de “ordem” é estruturante do pensamento. Assim, sabe-se hoje cm base em alguns estudos muito interessantes, que a língua afeta diretamente a forma do pensamento. Isso em tese poderia ser um valioso recurso para entendermos como os indianos são tão bons em Matemática e como os alemães dão bons filósofos.

Assim, mesmo que os índios conseguissem se comunicar com os europeus, eles não teriam condições de contar detalhes sobre suas origens, na medida em que eles simplesmente não teriam um horizonte histórico para saber além daquilo que o avô contou ao pai que contou ao filho.

Sendo assim, os pesquisadores sabem mais ou menos como foi a distribuição humana pelo continente não com base nos relatos, mas por indícios arqueológicos, além de outros indícios, como pinturas rupestres. Mais recentemente, depois da tecnologia genética, o estudo dos genes dos índios ajudou a detalhar melhor essa distribuição humana. Aliás, o índio naquele tempo, sequer se chamava índio. Esse foi o nome quase que um apelido com o qual foram chamados os até então “gentios” e depois “bugres”.

É com a chegada dos portugueses que as coisas começam a ser mais classificadas cientificamente. Mesmo precários, os relatos dos viajantes eram bastante detalhados, chegando a servir como um panorama etnográfico de boa qualidade sobre algumas tribos. Casos como o de Hans Staden, que deu o azar épico de ser capturado por uma tribo de índios canibais, os Tupinambás, e a mesmo tempo a sorte suprema de virar um “animal de estimação” ou “troféu” por 9 meses desses índios antes de finalmente escapar num navio pirata. Outros relatos legais, surgem a partir das aventuras de Jean de Léry.

Outra maneira pelo qual os cientistas conseguem delinear como foi a gradual ramificação do ser humano nas terras brasileiras, é através do estudo da linguística desses povos. Com o tempo, teria ocorrido a diferenciação linguística e social que deu origem aos troncos indígenas Macro-Jê e Macro-Tupi. Deste último, entre os séculos 8 e 9, originaram-se as nações Tupi e a Guarani. Essas são as que mais se destacam nos últimos 500 anos da História do Brasil, justamente porque tiveram um contato mais próximo com o homem branco.

Estima-se que em 1500 quando Cabral chegou aqui, havia entre um e cinco milhões de índios. E a ampla maioria dessas tribos viviam em guerra entre si. Não eram incomuns os genocídios. Por que? Porque a natureza humana é essa merda aí, meu chapa. Esquece o indiozinho feliz na floresta. A parada era frenética! Pense no Brasil da época como um tipo de Age of Empires! Quem não mata morre!

A explicação para essas guerras envolve entre outras coisas a questão básica que era serem habitantes primitivos na idade da pedra. Logo, eles ainda não tinham criações ou agricultura desenvolvida. Os índios criavam e plantavam sim, mas não com método. Sabe-se que eles já sabiam cultivar há pelo menos 4000 anos. Mas eram muito rudimentares nas técnicas. Eles eram nômades, esgotando recursos numa área, partiam para outra. Assim, pense num território descomunal de floresta tropical, (que aliás, é uma merda do caralho de horrível como ambiente, LOTADO de mosquitos, plantas de espinhos, plantas venenosas, animais peçonhentos, tão ruim que muitos relatos antigos dão conta de imigrantes indo à loucura. O próprio Coronel Fawcett descreve isso em suas memórias) onde uma hora ou outra uma tribo ia dar de cara com outra e quando isso acontecia era porrada! Não impossível, porrada até a morte!
Assim, podemos dizer que ao contrario do que meu amigo imaginava, mesmo antes de os portugueses chegarem aqui, o extermínio indígena já havia começado: em busca de melhores regiões de habitação, tribos se locomoviam pelo território que seria o Brasil e iam expulsando – e exterminando – os índios inimigos que encontravam pela frente.

Índios vendendo índios

A cartilha do indiozinho feliz nunca vai te contar que os índios vendiam índios aos invasores. Documentos históricos endossam essa tese, como uma carta datada de 1605 em que o Padre Jerônimo Rodrigues mostra-se surpreso com índios dispostos a trocar gente da própria família por mercadorias. Saca só:

“Trazem a mais desabrigada gente que podem, scilicet, moços e moças órfãs, algumas sobrinhas, e parentes, que não querem estar com eles ou que os não podem servir, não lhe tendo essa obrigação; outros trazem enganados, dizendo que lhe farão e acontecerão e que levarão muitas coisas […] outros venderam as próprias madrastas, que os criaram e mais estando os pais vivos.”

Assim, é muito comum ouvirmos que “os índios estavam em paz por aqui”, “em comunhão com a natureza exuberante” quando os malvados portugueses vieram para matar todos eles. Em parte isso é uma grande mentira, porque apesar dos portugueses e europeus de um modo geral terem passado o rodo em muitos índios, eles foram ajudados, adivinha só? Isso mesmo. Pelos próprios índios!

As bandeiras e entradas tinham, no mínimo, duas vezes mais índios do que portugueses, aliás, geralmente eram dez vezes mais índios! Por que os índios faziam isso? Fácil, porque o índio era péssimo escravo-mão-de-obra, mas ele era um bom captor. Assim, nas bandeiras ou nas guerra tribais, os índios capturavam os próprios índios para os venderem aos portugueses.

Uma das explicações para isso é que os índios não deviam ter um conceito de identidade única, porque eles não possuíam ainda um conceito de demarcação geográfica bem definida. O índio sequer imaginava como seria o mundo além do que conseguia enxergar, e de uma certa forma essa noção de espaço não estruturado afetava sua percepção enquanto grupo. Os índios não sabiam que eles eram índios, basicamente. Até a chegada dos portugueses, eles pensavam que o mundo era cheio de índios, e se dividia apenas entre “nós e os outros”. Era um conceito binário *(que aliás, está voltando à moda, hein?)
Assim, para um tupinambá, um índio botocudo era tão estrangeiro quanto um português. Aliar-se a um ou a outro era uma mera questão de estratégia e conveniência.

Canibais pra todo lado nessa joça!

Uma das coisas que faz a ideia de ir numa maquina do tempo para o Brasil pre colônia ser uma péssima ideia é que tinha canibal pra tudo quanto era lado aqui nessa joça! Ver a vergonhosa situação da política brasileira é ruim, mas nem se compara com a ideia de ser comido por índios, né meu chapa?
Não se sabe exatamente quantos grupos indígenas praticavam a antropofagia. Sabe-se que o hábito durou até o século 17, quando a catequização acabou com ele nos territórios controlados pelos colonizadores. “Mas a lógica antropofágica permaneceu forte, inclusive na forma pela qual os índios assimilaram os rituais católicos, que incluem a ingestão do ‘sangue’ e do ‘corpo’ de Cristo”.

Hoje, só os ianomâmis conservam o hábito de comer cinzas de cadáver, como forma de homenagear um amigo morto. Hummm dilícia!
Uma das tribos canibais mais selvagens que teve no Brasil foram os Caetés. Eles eram tão brutais que só pararam de matar gente pra comer porque foram exterminados completamente (os 75.000!) por ordem do Governador Mem-de-Sá em 1562 que os considerou “inimigos da humanidade”.

Muitos traços estranhos dos Índios assustaram os portugueses. O canibalismo, o incesto, o infanticídio neonatal e a feitiçaria, entre os mais marcantes, sempre inseridos em um contexto cultural coerente. Apesar de tudo, foram frequentes os relatos sobre sua generosidade, sua habilidade guerreira, seus valores de honra e coragem, notabilizando-se como heróis, por exemplo, Felipe Camarão e Sepé Tiaraju.
Os índios também duelavam, quase sempre por questões de honra.

O assunto indígena é e sempre foi marcado por grandes discordâncias. Uma dessas discordâncias dão conta justamente da forma como as tribos se relacionavam. Há pesquisadores que sustentam que mesmo que matar muitos inimigos acrescentasse grande prestígio ao guerreiro, e que sacrifícios de prisioneiros fossem comuns, e que a vingança fosse um dos motivos principais para os confrontos, a belicosidade entre as tribos se resumia na maior parte das vezes a uma troca de insultos e provocações ou demonstrações de poder e aparato envolvendo pequenos raides, e os relatos de carnificinas extensas intertribais só aparecem aqui depois de avançar a conquista portuguesa.

Pessoalmente eu discordo completamente dessa ideia, porque primeiro: Não tinha ninguém lá pra ver se era isso mesmo. Depois, porque a belicosidade e a tendência ao um reconhecimento binário do universo é uma tendência humana. O clássico “somos nós contra eles”.
Isso aparece o tempo todo. Coalizões são tão intimamente ligadas à natureza humana (e não só ela, pois ocorrem entre Chimpanzés e outros símios) e podem ser vistas em curso ao vivo e à cores até no Big Brother.

José de Anchieta tem uma ideia clara sobre o tipo de violência entre tribos.

“Naturalmente são inclinados a matar, mas não são cruéis; porque ordinariamente não dão nenhum tormento aos inimigos, porque se os não matam nos conflitos da guerra, depois tratam-nos muito bem, e contentam-se com lhes quebrar a cabeça com um pau, que é morte muito fácil…. Se de alguma crueldade usam, ainda que raramente, é com o exemplo dos portugueses e franceses”

Note que ao dizer que os índios eram “não cruéis” ele se referia nas praticas de morte. Eles matavam, mas não eram como os Espanhóis, que a exemplo na mesma época disputaram um “jogo em que ganhava quem cortasse uma criança indígena ao meio com um único golpe de espada dado de cima a baixo”. Outro fator a se levar em conta é que Anchieta relatava sobre os “índios”, como se todos fossem a mesma coisa e não eram. Seria inviável um jesuíta saber detalhes sobre os 3 milhões de indígenas, que viviam ainda num processo de transição do paleolítico para o neolítico com variações entre as tribos. Assim, as análises dos jesuítas levadas em conta eram vagas e deficientes de método científico, limitadas a observação pura e simples de um gentio pelo missionário, que os consideravam homogêneos por se tratar de pagãos primitivos. Sob o nome “ìndios” são povos diferentes e com interesses conflitantes, pois muitas vezes se chocaram ao disputarem a terra.
Mas isso não se deu por distração dos europeus, claro que não, né véio? A natureza humana é filhadaputesca. Não se esqueça disso. Eles juntaram índios de diversas diversidades étnicas justamente para embolar sua capacidade de organização. Nada foi por acaso.

Naquele tempo os regulamentos determinavam que os aldeamentos deveriam preservar a unidade étnica. Assim, as tribos com línguas e culturas diferentes deveriam ficar em aldeamentos distintos. Parece contraditório? Não é.
Já naquele tempo, nego aqui botava uma coisa no regulamento e fazia outra, kkkkk. Assim, logo no início os portugueses promoveram aldeamentos pluriétnicos, forçando tribos com diferentes línguas e culturas a conviverem num mesmo espaço territorial. Miguel A, Menéndez assevera que em 1716 uma parte dos índios Tora foi aldeada no Rio Abacaxis junto com contingentes de diversos grupos. Em 1827 foi fundada uma missão na margem esquerda do Rio Madeira com índios Mura, Munduruku, Arara e Arupa.

O aldeamento pluriétnico foi uma das maneiras mais eficientes que os portugueses e depois os brasileiros empregaram para destruir a identidade cultural dos povos indígenas a fim de dominá-los mais facilmente.

E por falar em missões, um dos maiores engodos da história do Brasil é exatamente o propósito religioso da colonização. As missões religiosas tiveram duas finalidades bem claras no processo de colonização.
A primeira foi privar os índios de sua identidade cultural através da conversão facilitando o trabalho do colonizador. A segunda foi meramente econômica.

Philippe Erikson em Uma singular pluralidade: A etno-história (Pano), esclarece que o quinhão das missões era estabelecido a partir do índice de fiéis convertidos e isto acarretava conflito entre as diversas ordens religiosas. Ao estabelecerem-se no Brasil elas tinham interesses claramente financeiros.

A economia foi a mola mestra de todo o sistema colonial, inclusive no que se refere à penetração religiosa. O sistema todo era muito simples. As tropas realizavam os descimentos liberando as terras para os colonizadores e fornecendo mão de obra “livre” e escrava para os interessados (leigos e clérigos). Os religiosos ajudavam a pacificar os índios através da conversão e ganhavam em decorrência desta e do trabalho dos indígenas nas missões. Os índios, em geral sifú. Perdiam a terra, a cultura, a língua, a força de trabalho e a capacidade de reagir. E se reagissem perdiam a liberdade e a vida nas famosas “guerras justas”.

Apesar disso, é difícil imaginar os índios bonzinhos, sobretudo quando vemos os grandes grupos, como os Tupinambás. Esses foram um dos grandes inimigos da colonização portuguesa. Espalhados por uma parte da costa brasileira, eram encontrados sobretudo na Bahia e no Rio de Janeiro, migrando, mais tarde, para o Maranhão, o Pará e a ilha de Tupinambaranas (Amazonas).
Os tupinambás eram fodas! Bravos pra caramba mesmo! Um povo extremamente belicoso, onde a guerra desempenhava papel destacado na sua economia, como fator de “conservação e aumento dos recursos naturais sujeitos ao domínio tribal.”
Assim, eles foram literalmente “passando o rodo em geral”. Entraram em conflito com os goitacazes, os tupiniquins, os carajás, os caetés, os botocudos, os tupinas, os diversos grupos menores da nação dos tapuias e, após o início da colonização efetiva do Brasil pelos portugueses (1530), moveram guerra contra estes, sendo então expulsos ou aniquilados.

Claro que a chegada dos estrangeiros mudaria gravemente o equilíbrio de poder. A começar porque eles chegaram com canhões, ou seja aço e pólvora contra pau e pedra. Um troço sutil como um ataque aéreo. E por isso mesmo que os Tupinambás dançaram (bem como diversas outras nações de índios). Os portugueses não eram santos, (bem longe disso, aliás) e os índios que também não eram (para desespero que os crédulos românticos do bom selvagem), se aliaram e como se diz cientificamente, “a porrada comeu bonito!”

Assim, como desde o princípio dos tempos, é o homem, limitado em sua natureza: assassina, sangrenta e belicosa.

Um livro bom que detalha mais essas relações dos índios antes da colônia é o “Guia politicamente incorreto da História do Brasil”, de Leandro Narloch (Editora Leya).

 

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10 comentários em “O índio e a natureza humana”

  1. O problema dessas romantizações é que elas esquecem que eles são pessoas. Nem todo indígena era só bonzinho e todo europeu só filho da puta.

    Um belo exemplo é o padre Bartolomé de las Casas, que na época defendeu o direito dos nativos e também sugeriu a escravidão dos africanos.

  2. Cara, não é só com indios, com animais tambem, com animais tambem. Sempre que vejo alguem falando algo do tipo “quanto mais conheço o homem mais eu amo os animais”, que geralmente é seguida de algum relato sobre algum animal que fez algum ato do que seria bondade para nós, fico meditando comigo mesmo sobre o quanto essas pessoas não sabem do que falam. Golfinhos estrupam, matam, torturam, por nada. Chimpanzes tambem se canibalizam assim como os humanos selvagens. Orcas brincam de futebol com filhotes de focas até mata-los e sequer os comem depois. E olha que esses que eu citei são justamente os considerados mais proximos dos seres humanos, em termos de cultura e inteligencia. Talvez seja esse o problema, quanto mais “inteligente”, mais FDP são.

  3. Concordo em parte. Li já algum tempo atrás, sobre uma tribo que era exemplar como sociedade e na relação com a natureza, mas sei também que o que o Philipe colocou é tudo verdade e talvez até pior. Enfim, como disse o autor, é a natureza humana, assim como os brancos “civilizados” existem em varios graus de evolução.

  4. Nossa, ainda estão nessa do “bom selvagem” de Rosseau? A bondade e a maldade são inerentes à natureza humana, não importa as condições da sociedade em que ele vive…

  5. Dizer que os índios faziam o mesmo que nós e apontar algumas de suas crueldades, nós dá uma certa legitimidade sobre nossos roubos e guerras. Nós fazemos tudo por dinheiro, mesmo que para isso tenhamos que sacrificar o outro, algo não muito diferente do trocar alguém que você não gosta.

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