No meio da confusão

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Pois é, pessoal. Antes de mais nada peço desculpas pela ausência blogística. É praticamente impossível postar tendo que fazer uma mudança. E não é uma mudança qualquer,  é uma mudança meio às pressas, meio de última hora, indo para uma casa mais longe, mais difícil de morar do que o apartamento onde eu moro.

Além de encaixotar tudo, estou acompanhando uma série de atividades de pintura e acabamento na outra casa, para onde eu vou daqui a uns dias. Ocorre que o dono do meu apê aqui mandou avisar que vai vender meu cafofo e como meu contrato de aluguel já estava vencido tinha três anos, isso foi como um “rapa-fora!”

O pior é que nosso apê próprio ainda está construindo e só vai ser entregue (se tudo der certo) em janeiro, o que significa que tivems que arrumar um cafofo para enfiar milhares de bonecos, espadas, monstros e até uma ossada de boi (sim, eu tenho uma ossada de boi no quartinho dos fundos) por uns 4 a 6 meses.

Imagina só a dificuldade de arrumar um imóvel por tão pouco tempo. A solução foi uma casa de uns amigos dos meus sogros, que pretendem vender e que nem está totalmente pronta. Na verdade, ela está 99% pronta, só faltando fazer aquele 1% que torra uma nota preta e não acaba nunca, sabe? Pois é. Eles precisavam acabar a casa e de alguém para tocar a obra, pois se mudaram para São Paulo. Nós estavamos em busca de um cafofo, e assim, resolvemos o perrengue um do outro e pronto. Então a boa nova é que eu já tenho onde morar.

Agora só falta empacotar tudo e marcar o caminhão. Mas tá dando muito trabalho, pois temos muita coisa, e muita coisa guardada do tipo que você guarda e como nunca mais vê, acha que não existe mais.  Então é interessante este troço de mudar. A gente vai desencavando coisas e redescobrindo lembranças que não acabam mais. Eu levo horas para empacotar meus livros, pois quase cada um que eu pego, não resisto e dou uma folheada… E aí…Sabe como é. Leio um capítulo, outro e mais outro. E assim, mudar torna-se um suplício até agradável sob um certo ponto de vista.

O problema maior é que eu sou um puta dum lixeiro, e com isso acabo juntando coisas, tralhas, pedaços de brinquedos, tampas de plastico, tubinhos, um sem fim de bugigangas, folhetos, folders, panfletos, livretos, e por aí vai.

São mil merdinhas que eu simplesmente não sei onde guardar. Coisas desprezíveis mesmo,  mas são essas pequenas merdinhas os esteios invisíveis que me confortam o espírito, pois mesmo que eu nunca mais veja, sei que cada uma delas estão lá, escondidas numa gaveta, perdidas junto com pilhas velhas, um eliminador de baterias do tempo do onça e meia dúzia de tampinhas de água mineral.

Guardando essas coisas eu começo a pensar que as pessoas são como icebergs mesmo. Só o que vemos e conhecemos é uma pequena parte, que aflora a superfície, mas o grosso está espalhado, distante dos olhos, longe da mente objetiva, na mais obscura e profunda fenda de lembranças. Remexer os guardados é sempre um processo de autoconhecimento. É ter contato com um retrato do seu eu mais verdadeiro, pois tudo que guardamos tem um motivo e este motivo, quando observado diz muito sobre quem nós realmente somos. E muitas vezes, podemos descobrir surpresos, que não sabíamos quem realmente somos.

E as fotos? Achar fotos antigas perdidas dentro de livros, como a em que eu apareço ganhando mil cruzados do meu falecido vô Arlindo, com a Tia Maria toda feliz ali atrás, me trazem às memórias momentos que eu já havia me esquecido. Lembro o que eu fiz para gahar o prêmio, dado num natal na casa da Vó Glorinha. Eu vejo que na foto uso uma pulseira de espuma no braço. Imediatamente, a pulseira vem à minha mente e sei que é o natal em que ganhei uma zarabatana que disparava flechas com velcro e que acertavam num alvo de feltro.

Todos os primos ganharam o mesmo e – óbvio –  que o alvo de feltro foi deixado de lado para um momento mais oportuno, já que atirar flechas uns nos outros era a maior diversão.

E então eu lembro de todo mundo reunído, dos meus primos, das brincadeiras, das eternas piadas do Vô Arlindo, das aventuras de agentes secretos em bases feitas com colchões de espuma, das pessoas que já morreram…  E então, ali, sozinho, sentado numa caixa, bem no meio da confusão, eu me lembro de como sou feliz.

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15 comentários em “No meio da confusão”

  1. Eu também sou do tipo lixeiro… Adoro juntar tranqueiras… Pena que a minha esposa adora fazer faxinas e jogar coisas fora…
    Sucesso na casa nova

  2. Nossa Phillipe, acho que esse foi um dos post mais bonitos que eu já vi aqui 🙂
    Eu faço teatro, e isso me lembrou quando temos que construir nossos personagens, que o que o público vê é apenas um pedaço, como um iceberg, mas o que faz ele completo e real, é todo o resto que temos que construir, suas histórias, suas lembranças, suas tranqueiras que trazem recordações…As vezes eu resolvo fazer uma daquelas limpezas, que estão mais para guerras santas, e também encontro essas relíquias.
    Boa sorte com a mudança.

  3. Cara, também tenho essa mania de juntar tralha de 10 anos atrás (até mais, em alguns casos).
    Lendo seu post, lembrei das vezes em que resolvi dar uma geral aqui e jogar coisas fora. Levei uns 3 dias pra terminar tudo.
    Acho que preciso fazer isso de novo, pra, quem sabe, acabar achando a National Geographic que te falei no Orkut…(a tal, da foto misteriosa na Lua…)
    Abraço!

  4. O lance dos icebergs é a mais pura verdade.
    A galera quer descobrir segredos do universo, se deus existe e o cacete a 4, mas não descobrem nem metade da pessoa que está ao lado…
    Enfim, muito bom post mesmo!
    Abraços!

  5. É isso ai Philipe, mais veja pelo lado positivo. No seu novo “cafofo”, você poderá montar um boneco de e.t em tamanho real sem o perigo do seu vizinho dar um tiro nele. :B

    • HAuHahUAHuHA, essa foi boa, huahhahaua, verdade mesmo, casa sempre melhor mais espaço e tal….e Philipe caramba viajei legal lendo esse post,huh bem loco mesmo, vc viajo tb nas lembranças, hehehehe boa ideia q vc teve..abs

  6. Cara,

    Acabei descobrindo seu blog na busca de informações sobre pendrives Kingston falsificados. Li seu post a respeito e me chamou a atenção a forma que você escreve.
    Parabéns você é ótimo!
    PS: Já teclei Crtl+D…

  7. Eu tambem costumo juntar coisas. Uns anos atrás quando minha mãe ainda estava comigo,resolvi fazer um limpa, e hoje me arrependo. Muita coisa boa se perdeu. Inclusive a única foto que minha mãe tinha de quando eu era bebê.

  8. Caramba
    Emocionou a todos este post.
    Há dois anos mudei para um apartamento próprio e sofri com a mesma coisa, e pior, minha mulher tem mania de faxinar e jogar coisas fora….coisa que já rendeu algumas brigas que chegaram a abalar a união.
    Realmente tem coisas que são importantes e apenas sabemos que ela existe.
    Deixa eu te contar uma coisa :
    Ano passado, no niver de 15 anos de uma sobrinha, foi feita uma festa em buffet com DJ, jogo de luz…fumaça…enfim…aquela coisa que torra alguns milhares de reais dos papais. Como eu sabia que ela ia fazer uma homenagem aos mais proximos (tios e tias de primeiro grau) resolvi também fazer uma pra ela. No meio de poucas fotos que ainda tenho da minha infancia, achei uma foto do niver de 15 anos da mãe dela (minha irmã) onde estava também a avó (minha mãe) e a bisavó que já faleceu.
    Quando chegou a vez de eu ser homenageado dei pra ela uma cópia daquela foto e o carinha que filmava botou no telão, sem querer levei quase todos aos prantos, pois por incrível que pareça, era a única foto da minha avó que restara, pois depois da morte dela meu avô queimou todas as outras.
    Mas voltando…..vendo aquela foto eu me lembrei do niver de 15 anos da minha irmã….foi feito em casa mesmo, com um bolo de padoca e ao invés de DJ tinha uma vitrolinha que tocava Bee Gees e outras coisinhas da época…….e me lembrei do quanto eu sou feliz.
    Obrigado por nos mostrar o quanto esquecemos disso no meio da correria.

  9. uai Philipe, por que nao falou antes?!
    eu ja estava preocupado se iria ter que arrumar um outro blog pra ler… eu adoro o mundogump!
    todos os dias eu entro, so pra ver se voce vai colocar outras partes das suas experiencias, ou suas histórias, ou colocar uma foto do juca!
    Na verdade, eu me identifico muito contigo, gosto de bonecos (o primeiro lugar que eu vou é pra loja de brinquedos quando vou ao shopping), estou escrevendo uma historia (que voce ajudou muito com seus textos), gosto de espadas (me deixou louco quando voce foi pro exterior e comprou so uma lembrancinha!), entre outras coisas… e é por esta razao que eu sempre procuro entrar no gump todo santo dia!
    parabens pelo seu blog, companheiro! e parabens pelo novo ape!

  10. ..

    Conheci o mundo gump menos d 2 dias
    e já virei fã de carteirinha.
    pow Phelipe c manda muito bem.
    persuativas e atrativas redações.!
    me fizeram cuirioso pra ler o resto dos textos.
    daqui pro final do ano eu leio TUDO:d…
    afinal eu num trabalho, só ocupo um pc ¬¬ ‘

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