A ilha onde o povo enxerga preto e branco mas tem delírios coloridos

Minha amiga Maria Morgen deu a dica de uma ilha muito louca, onde muitas das pessoas que vivem lá enxergam em preto e branco. Não obstante, esses caras da ilha usam umas paradas alucinógenas lá, e nas viagens eles vêem cores.

Muito louco isso, hein?

Provavelmente ela viu isso aqui:

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A ilha é esta aqui.

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Seu nome é Pingelap. Pingelap faz parte da Micronéisa, um conglomerado de pequenas ilhas que se localizam no Oceano Pacífico. O atol de Pingelap fica na direita, no cantinho da imagem abaixo, e é formado por três ilhas, que são Sukoru, Daekae, e Pingelap. Dessas, somente  Pingelap Ilha é habitada. O atol tem sua própria linguagem, o pingelapense, que é falado por mais de 250 moradores do atol (noossa, quanta gente né?).

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A vida nesse atol é como você poderia imaginar. Lembre-se aí do filme Náufrago. Pingelap tem um clima tropical, com temperaturas quentes ao longo do ano, em compensação, chove pra dedéu! Por estar no meio do oceano, sem barreiras deve ventar direto e chove o ano todo, em grande quantidade.

Pensa num lugar bonito pra dedéu!
Pensa num lugar bonito pra dedéu!

Apesar de linda, a ilha de Pingelap não tem uma história das mais felizes.  O atol onde está Pingelap foi tomado no peito e na raça pelo Japão em outubro de 1914, após o início da Primeira Guerra Mundial. Assim, a  parte sul da Ilha foi ocupada pelos japoneses durante as hostilidades no teatro de operações do Oceano Pacífico na Segunda Guerra Mundial. Os japoneses exploraram a ilha como uma base de fornecimento, e por estar ocupada pelos “inimigos” ela foi atacada duramente pelas forças aliadas. Deu uma destruição desgraçada, mas pior ainda foi que a presença de tropas estrangeiras na ilha levou à introdução de uma série de doenças infecciosas, incluindo gonorréia , tuberculose e também a disenteria, que reduziu a população para apenas 1000 (ou até 800 pessoas) além de diminuir gravemente a taxa de fertilidade dos habitantes da ilha.

Com a chegada da Marinha dos Estados Unidos, em 1945, um governo democrático foi introduzido na ilha. A educação primária foi fornecida para crianças pingelapenses e um regime especial de  cuidados de saúde foi criado para erradicar as doenças introduzidas durante a guerra. Durante os anos 60, o Corpo da Paz e da Força Aérea dos Estados Unidos se estabeleceu na ilha principal, onde foram construídas uma unidade de acompanhamento de mísseis um píer e uma pista de pouso. A pista foi concluída em 1982, e, atualmente, entre 2 e 3 aviões por dia descem no atol, operados pela Air Ilhas Carolinas.

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Um dos fatos mais estranhos envolvendo essa ilha é que há um grande número de daltônicos nela.  Existem, como você sabe, diversos tipos de daltonismo diferente. E nessa ilha, há uma proporção significativa, de 4,92%, da população com acromatopsia completa. Nessa condição, o cara não ver cor nenhuma. O mundo é como um jornal velho, todo em preto e branco.

A acromatopsia completa é raríssima, e sua prevalência na ilha chamou muita atenção. Assim, a doença foi então estudada e rastreada, até que se chegou a causa do problema: Um tufão.

Sim, meu amigo, um tufão! Houve um gargalo populacional no ano 1775, quando  depois de um tufão catastrófico varreu a ilha, deixando apenas 20 sobreviventes (menos do que a galera em Lost!)

Veja que por um capricho do destino, um cara chamado Nanmwarki Mwanenihsed ( que era o governador na época) tinha essa condição genética. E assim, após repopular a ilha (imagino como esse cara devia transar!) ele passou seus genes da visão preto e branca para a frente.  Curiosamente,  o transtorno da acromatopsia não apareceu até a quarta geração após o tufão, altura em que 2,70% dos pingelapenses estavam vendo em preto e branco. Uma vez que a acromatopsia é uma herança autossômica recessiva  a endogamia provocada pelo efeito do tufão que reduziu as opções de parceiras sexuais do soberano, resultou em um aumento da freqüência do alelo recessivo. Por volta da sexta geração, a incidência da visão preto e branca era agora de 4,92%.  Assim, sabe-se que todo mundo que tem esse daltonismo raro acaba sendo um parente do Nanmwarki Mwanenihsed. (eta nominho desgraçado!)

Hoje, o atol ainda é de particular interesse para os geneticistas, justamente porque devido ao pequeno conjunto de genes e rápido crescimento da população, o distúrbio já está predominante em quase 10% da população, com mais 30% que são portadores ainda não afetadas. É possível, que com o passar dos anos, sem genes externos (turistas) entrando na brincadeira,  Pingelap pode virar  uma ilha onde todos os nativos serão daltônicos que só vêem preto e branco. Uma ilha onde para seus moradores, o azul belíssimo do mar será um cinza sem graça.

Entenda que não é exatamente preto e branca a visão de quem tem este tipo raro de daltonismo severo, essa é uma associação mental para quem enxerga poder entender o que seria um espectro de cores reduzido pela doença.

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Apesar da ilha ser real e o caso de cegueira de cores também, eu não consegui achar nenhuma fonte confiável que diga que os moradores dessa ilha tem acesso a algum tipo de droga psicodélica. Pode ser que isso realmente aconteça, porque existem muitas substâncias naturais, que vão de venenos de certos animais a raízes tóxicas, fungos e etc que tem capacidade de produzir alterações perceptivas.

Mas isso nos leva à questão principal que é a pergunta: Seria possível que um daltônico veja as cores que ele não consegue enxergar usando drogas psicodélicas, como o ácido Lisérgico?

Olhe fixamente para o final do tuuuuuunel...
Olhe fixamente para o final do tuuuuuunel…

 

Vamos entender a base do daltonismo. As pessoas daltônicas são capazes de ver as coisas claramente, o problema está nos receptores de cores nos olhos delas.  Alguns tipos de daltônicos, não conseguem ver totalmente a luz vermelha, verde ou azul. Existem diferentes tipos de daltonismo e há casos extremamente raros, como a galera da ilha, em que as pessoas são incapazes de ver qualquer cor.

Nossa capacidade de ver cores se dá através dos fotorreceptores chamados “cones” localizados dentro do nosso olho. Olhos normais contêm três tipos distintos de cones que trabalham juntos para perceber as cores. Geralmente se há algo errado com um desses diferentes tipos de cones, (eles podem estar com defeito ou mesmo não estarem lá) isso ainda quer dizer que será possível ver cores, mas menos. Para essas pessoas, o mundo será menos colorido menos diversificado.

No caso da galera da ilha eles não tem cone nenhum que converte as informação luminosas das cores em sinal elétrico que vai para o cérebro e por isso o mundo que eles enxergam é bem sem graça.

Então o que acontece quando as pessoas que sofrem de uma dessas condições tomam drogas alucinógenas?

A resposta rápida é que “depende”.

Nem todas as pessoas daltônicas são totalmente cegas às cores e há diversos tipos de daltonismo. Sabe-se que até mesmo as pessoas totalmente cegas são capazes de “ver” as coisas em seus sonhos, mas desde que eles não sejam cegos de nascimento. E dessa forma, certas pessoas cegas podem experimentar viagens alucinógenas visuais quando tomam drogas psicodélicas.

Mas neste caso, são pessoas que em algum momento de suas vidas já conheceram as cores.

Sabemos disso porque, entre outros estudos, em 1963, o Dr. Alex E. Krill publicou um artigo, sobre “os efeitos de um agente alucinógeno em indivíduos totalmente cegos”. Nessa curiosa pesquisa, ele deu a um grupo de 24 cegos “totalmente cegos mesmo” doses de LSD para ver se eles teriam alucinações visuais de algum tipo. O experimento, embora pequeno em metodologia, o experimento mostrou que do mesmo jeito que os cegos que ficaram cegos podem sonhar com imagens, as viagens cromáticas do lsd só ocorriam com cegos que tiveram atividade visual antes… ”

Aparentemente as pesquisas científicas estagnaram neste ponto. Mas se levarmos em consideração relatos anedóticos, (que lembrando, não servem como prova científica) é possível encontrar relatos de daltônicos dizendo que viram outras cores pela primeira vez quando estavam chapados. Alguns desses relatos aparecem no The Experience Erowid Vaults, um forum dedicado a catalogar as respostas que um amplo e variado leque de pessoas têm quando são expostos a diversas plantas psicoativas e produtos químicos.

Em fóruns desse tipo, há um punhado de relatos de casos de pessoas com daltonismo alegando terem descoberto que o  LSD alterou a sua percepção da cor.

Apesar de serem relatos anedóticos, pelo menos o Erowid parece tentar estabelecer uma métrica aceitável, já que o site tem atualmente mais de 100.000 entradas diferentes e que os relatórios apresentados levam uma média de cerca de 6 meses para serem publicados, e só o são depois de serem revistos por pares, para correção e credibilidade. Além disso, Erowid é bastante referenciado em artigos científicos, incluindo os publicações em revistas médicas extremamente respeitáveis.

Um dos exemplos do que se pode ver no Erowid sobre daltônicos descobrindo milagres num LSD:

Eu sou daltônico de verde/vermelho. Não vejo em preto e branco, mas eu não posso distinguir duas cores de tons semelhantes e eu sinto falta quase todo número no teste de daltonismo com os pontos coloridos do optometrista.

Desde que eu tenho feito uso de psicodélicos, especialmente LSD e AMT, as cores se tornaram mais nítidas e brilhantes e eu posso mais facilmente distinguir tons semelhantes em cores brilhantes e pastel, mas as cores mais escuras, como azul escuro e roxo, tornaram-se mais difíceis de distinguir porque parecem se transformar em outras. Eu vejo todas as cores e padrões muito vividamente, mas quando estou chapado, parece que eu posso vê-las mais facilmente do que podem os meus amigos de “viagem”. Eu não posso dizer se as cores e padrões que vejo são os mesmos que as pessoas com visão normal vêem, porque eu não sei o que é a visão normal. Desde que eu comecei a ficar chapado, eu visitei o oftalmologista pelo menos uma vez e obtive 8 de 15 números no teste de daltonismo, enquanto antes eu só chegava a três, no máximo.

Aqui temos outro caso, mais próximo ao caso da ilha:

… A chegada da aurora anunciava a maior experiência visual que eu poderia ter imaginado; Pela primeira vez na minha vida, eu vi a cor.

Estou no extremo da escala de daltonismo, não totalmente monocromático, mas perto o suficiente para me confundir com a maioria de cores. No entanto, sob a influência do LSD, minhas percepções de cor começaram a aumentar. No início, eu achei que eram meras alucinações visuais, mas firmemente, comecei a notar, pela primeira vez, uma diferença na aparência entre as folhas de uma árvore e sua casca. A tentativa de estudar essa diferença no início foi difícil, devido ao fato de que as folhas estavam constantemente virando passarinhos, bolos, pipas, etc … Uma vez que eu tinha me acostumado com a natureza intensamente visual da droga, comecei a explorar o meu entorno com mais profundidade.

Até este ponto, eu sempre tinha invocado a sombra de um objeto para determinar a sua cor; colocando-o em um “agrupamento”, como o vermelho / verde / marrom, azul / roxo / rosa, laranja / amarelo / verde-claro e assim por diante. Durante a minha experiência com o LSD, comecei a diferenciar entre o que eu só posso descrever como os ‘tons’ da cor. Minha incapacidade para ser mais clara não é devido à falta de observação, mas devido a falta de ponto de referência. Com efeito, durante um momento de intensa euforia, lembro-me de rir descontroladamente, chorando com a verdadeira beleza da natureza e falar diretamente com as cores dizendo: ‘Eu posso vê-la, mas eu não sei como chamá-la …!’

… Eu decidi me acalmar um pouco e começar um estudo sério dos efeitos sobre a minha percepção das cores. Portanto, iniciei com um amigo em minhas experiências e começamos a testar com o que estava disponível. O elemento mais bizarro para estes experimentos foi a necessidade de passar uma hora aprendendo todas as cores a partir do zero. Uma vez que eu tinha um ponto de referência visual, ele me testado com vários itens, como lápis de cor, folhas e revistas. Nós ainda tentamos um teste de Ishihara on-line para Daltonismo, mas isso não foi bem sucedido devido ao fato de que os pontos se transformavam continuamente, um em outro.

Depois de várias horas, meu amigo, que não é daltônico determinou que eu podia realmente ver a cor …

 

Então temos duas condições potenciais que nos dizem, segundo os estudos científicos, que os caras da ilha não poderiam ter alucinações em cores, porque eles simplesmente são alheios à cores desde sua infância e não sabem diferenciá-las. Assim, eles simplesmente não poderiam ter um parâmetro cerebral.

Já nos casos apresentados, as pessoas alegam que conseguiram ver cores loucas realmente, e no último, podemos ver que ela via as cores mas não sabia qual cor era. Se os caras da ilha dão uma viagem de LSD é possível que seus delírios tenham cores, mas eles, por já terem nascido sem conhecê-las, não conseguiriam diferenciá-las.

Uma coisa é a experiência em si e outra é a análise da experiência.  Para simplificar, também podemos citar que seria impossível uma pessoa que nunca viu um jacaré, tomar um LSD e ter uma viagem com um jacaré. Como o jacaré não faz parte de seu arcabouço mental, sua mente se ocupará de coisas que ela conhece.

Há diversas formas pelos quais uma pessoa poderá se tornar daltônico. Assim, temos também que levar em consideração que relatos anedóticos podem ter uma falha quando lembramos que a pessoa pode ter “ficado daltônica” e não simplesmente nascido assim.

Desse modo, ela poderia não se lembrar de ter sido capaz de ver certas cores, e isso vai surgir como uma novidade sob o efeito do LSD. Casos como a  Síndrome do Bebê Sacudido,  podem causar danos diretos nas estruturas do olho, e há algumas doenças degenerativas dos olhos, além de efeitos colaterais de certos medicamentos…

Portanto, é possível em pelo menos alguns dos casos anedóticos, que o indivíduo acredita que está vendo um pouco de cor pela primeira vez, e isso se encaixaria na experiência onde cegos que já enxergaram conseguem ter alucinações visuais.

Mas e quando a pessoa não via cor quase nenhuma e começa a ver sob efeito da droga?

Seria o caso de estudar mais a fundo, mas não seria inviável supor que em certos indivíduos, seu daltonismo é tal que os fotorreceptores estão lá, apenas não estão funcionando como deveriam. O dano poderia ser no “Hardware” que é o cone de captação de cor nos olhos, como poderia ser de “software” no processamento dos sinais no cérebro. Vamos supor que a droga poderia acionar áreas cerebrais que afetariam de alguma forma essa leitura incorreta dos padrões de cores… Isso realmente explicaria porque ela passa a ver cores quando chapada.

Não seria inviável também pensar que algum efeito do LSD poderia estar atuando diretamente nos cones danificados ou inativos. Mas eu não sei qual seria a viabilidade disso do ponto de vista neurológico.

Sabe-se que ” alguns usuários de LSD pode ter uma deficiência prolongada ou irreversível na distinção das cores . ” Esse detalhe do uso prolongado do LSD é um grande maleficio, mas ele aponta um indício de que a droga parece atuar sobre a visão diretamente, levando uma visão sadia para uma visão estragada. Mas será que esse mesmo efeito sobre alguma condição fisiológica incomum não poderia consertar o problema temporariamente até os efeitos indesejados do LSD ferrarem com tudo mais à frente? Acho viável.

fonte fonte fonte

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14 comentários em “A ilha onde o povo enxerga preto e branco mas tem delírios coloridos”

  1. Philipe, desculpa, só não consegui compreender a informação desse trecho: …”Entenda que não é exatamente preto e branca a visão de quem tem este tipo raro de daltonismo severo, essa é uma associação mental para quem enxerga poder entender o que seria um espectro de cores reduzido pela doença.”… pode me explicar?

    • Há alguma discussão sobre se acromatas podem ver cores ou não. Como ilustrado em The Island of the Colorblind por Oliver Sacks, alguns acromatas não podem ver cores. Com cinco genes diferentes, atualmente conhecidos por causar sintomas semelhantes, pode ser que alguns veem níveis marginais de diferenciação das cores devido a características genéticas diferentes.

      isso significa que eles podem nao ver exatamente em tons de cinza, pode ser que as cores sejam terrivelmente em tons pasteis… e isso ´pode variar dependendo do gene afetado

  2. desculpa mudar do assunto mais a esculturara q vc ta fazendo ja começo o processo de pintura heuheuheu? to super ansioso para ver como ele vai fica pintado *-*

    • Tô pintando ainda, to indo devagar, e o pior, não tô fazendo passo-a-passo da pintura, pq dei mole e esqueci de registrar um porrilhão de etapas e larguei de mão.

      • essa escultura pelo jeito vai fica show.
        mais vc vai mostra ai como fico mesmo sem o passo-a-passo né *_* to muito animado para vê como vai fica pintado he,he

  3. Philipe, ótimo post!

    achei tão fantástica a ilha, que estava navegando e procurando ilhas fantásticas e encontrei isso em Dubai:
    http://asfotosdecasas.com.br/2012/01/13/fotos-de-casas-nas-ilhas-the-world/

    Seria legal ver um post seu acerca..

    abç

  4. Eu sou daltônico e tenho essa deficiência de verde/vermelho. Os tons se misturam e em alguns casos não sei “de que nome chamar” determinadas cores. Brinco que é como ver alguém que você não encontra há muito tempo e lembra do rosto mas não lembra o nome. Consigo diferenciar tons fortes numa boa, consigo dirigir e tudo mais.

    • Eu tenho vários amigos daltônicos, deve ser muito ruim aquele que não consegue saber se o sinal está verde ou vermelho e precisa se guiar pela posição da luz no semáforo.

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