Encontro na estrada – Mais um sonho retardado pra coleção

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Tenho que escrever rápido, porque senão esqueço. Logo que acordei hoje de manhã, fiquei na cama anotando mentalmente e lembrando dos detalhes do inacreditável sonho dessa noite. Estruturalmente o sonho é bem simples, mas “vendo” e “vivendo” aquilo, foi extremamente assustador. Vamos lá ver o que sai na versão escrita:

Lá estou eu, dirigindo um corsa. Estranho ser um corsa, porque já não tenho esse carro há muitos anos. Mas estou lá, naquele meu corsinha 96 cor vinho. Ao meu lado, um garrafão de 5 litros, que está meio precariamente amarrado num travesseiro, e esse sim, cuidadosamente preso com cinto de segurança. O garrafão tem um liquido incolor dentro, mas ele vai de carona do meu lado. Minuto a minuto, olho para aquela merda. Alterno entre o velocímetro, o retrovisor, a estrada cada vez mais escura diante a mim e o  garrafão do meu lado. Como estou angustiado, a viagem parece não acabar nunca. Não, não é angústia. Angústia é sentimento de bacana. Eu estou é com cagaço mesmo. Aquela porra ali do meu lado não é água. Antes fosse.

Passa a placa de 80km/h. Estou a 120, mas acelero para 140 km/h para ver se dou um adianto nessa merda de trabalho.

Eu estou com o radinho ligado, mas não presto atenção na musica.  O cagaço não deixa. Cada curva é uma injeção de adrenalina. Sinto uma gota de suor escorrendo na minha nuca. A porra do corsa não tinha ar condicionado. Era uma sauna sob rodas, com motor 1.0.

Minutos antes, eu estava na Dutra, mas após receber uma dica pelo celular de que havia uma blitz na estrada, precisei mudar a rota. Peguei a estrada na direção de Angra dos Reis. Uma estrada miserável. Cheia de curvas. Talvez enfrentar os meganhas fosse mais fácil.  A estrada é deserta, e corta fazendas, ela vai dar lá perto de Angra, após uma descida de serra que é um pesadelo por si só. Mas pelo menos é uma estrada deserta, e com as poucas faixas de reta que ela tem, dá pra dar uma acelerada boa, apesar de que meu carro parece querer desmontar ao passar de 120. Corsa, se fosse bom não tinha esse nome. Corsa é um nome realmente escroto para um carro.

Passo num buraco. O garrafão balança. Grito um palavrão. O coração quase saiu pela boca agora. Estrada maldita! Não posso distrair. Não dá pra perder a concentração.

Foco todos os neurônios disponíveis nas linhas que vão sendo engolidas sob o capô vinho. O céu esta repleto dos pequenos pontos luzes do firmamento. Pelo menos não chove.

Eu estou olhando as estrelas quando uma coisa estranha acontece. Mais ou menos uns vinte metros de onde estou passando, corre um sujeito de bermuda e sem camisa pela estrada. Ele tropeça e cai. Cai no meio da estrada.

-Puta que pariu! – Eu berro.

Não há tempo de pensar. Meto o pé no freio. O cara se levanta, cata um cavaco. Eu vou passar por cima, fudeu! Ele corre, se joga no mato do outro lado da estrada. Foi por um triz. Os olhos arregalados de medo dele ficam impressos em minha cabeça, Meu coração a mil. Eu olho o garrafão, o líquido balançando placidamente.

Então eu porro. Eu porro o corsa a malditos 120 km/h em alguma coisa. Não há sequer tempo de gritar. Só o barulho dos vidros estourando, instintivamente afundo o pé no freio, o carro está desgovernado,  e tudo começa a rodar. Tudo se apaga numa confusão de fumaça e metal retorcido.

—-

Eu estava duro. A vida ficando cada vez mais difícil. Tudo estava mais caro e eu já começava a me preocupar em como pagar a escola do meu filho. Mas aquele era um dia feliz, porque eu havia recebido aquele email. Um email de aceitação. Um laboratório de pesquisas havia finalmente me contratado como modelador 3d de moléculas.

Meu primeiro dia de trabalho. Fui animadão. Assinei a papelada, conheci a estrutura do laboratório, um complexo enorme com um subsolo padrão área 51, cuja restrição de acesso era feita por biometria. Coisa de filme. Metade de tudo que assinei dizia que eles poderiam me escrotizar na justiça caso eu vazasse os segredos industriais dos projetos do instituto.

No meu segundo dia de trabalho, fui alocado num projeto bem legal com dois caras. Um era mais cientista, de cabelos ralos e óculos morcegão que parecia ter saído de alguma revista dos anos 60. O outro era um cara que lembrava muito o Jess Pinkman da série Breaking Bad. O carinha era na dele, praticamente não falava. Ficava pilotando uma maquina, que eu acho que era um espectroscópio de massa.

Eu estava calmamente modelando uma molécula num computador novinho quando o coroa chegou e sentou do meu lado. Ele foi direto ao ponto:

-Cara, você sabe dirigir?

-Sei.

-Graças a Deus!

-O que houve?

-O … (* esqueci o nome do carinha. Vou chamar de Jess mesmo) Jess tá com a carteira vencida, e eu não sei dirigir.

-Tá mas…

-è o seguinte, demos um vacilo aqui e esquecemos de anotar na relação de pedidos um produto químico muito importante. É o (* esquecia  porra do nome do bagulho, mas era um nome bem loucaço e vou inventar outro) Borofluorclolodium33.

-Boro…

-Borofluorclolodium33. B33.

-Tá. E?

-Preciso que você vá lá na outra planta buscar pra nós. Mas tem que ser hoje. Agora. Antes que a pesquisa agarre. Só temos meio kg, e precisamos de 4 kg.

-Eu pego. Onde é?

-São Paulo!

-Quê????

-Isso, pega teu carro, toma essa grana. Bota gasolina e vai lá nesse endereço. Vai ter um cara chamado Pacheco. Pede ao Pacheco o pedido B33. Ele sabe o que é.

-Ah, tudo bem. Então tá. – Eu disse, meio incrédulo, afinal, eu era modelador molecular, e não motorista.

-Mas chefe, por que não pedir a um motorista?

-Então… – Ele disse, com uma cara estranha, olhando para os lados, quase sussurrando. – Esquecer esse componente foi um vacilo enorme. O Jess vai pra rua se isso vazar. Não posso pedir a ninguém. Tem que ser na “malandragem” sacou?

-Saquei.

-Além do mais…

-Hã?

-Além do mais, o troço é muito perigoso. Esse produto é bastante instável. Não pode ser qualquer veículo que transporta, é altamente explosivo.

-Porra!

-Philipe, precisamos de você, cara. Vai lá, pega a parada, coloca com muito cuidado no seu carro, prende bem e vem sem sacudir muito. Não faz acrobacia. O produto é perigoso, mas você vai trazer pouca quantidade, e ele só desestabiliza mesmo se sacudir muito.

-Tá.

-Olha só, você vai buscar essa porra sem nota. Então não pode cair em blitz. Se cair, ferra tudo. Eu vou ver com um amigo da polícia rodoviária. Vou ligar para seu celular para dar o caminho, ok?

-Ok, eu disse tirando meu jaleco e saindo da sala com o papelzinho.

—–X—-

Lá estou eu perdido em São Paulo. As ruas parecem todas iguais. Estou pregado. Está ficando tarde e eu não acho a rua maldita. Finalmente, o Pacheco liga para meu celular e me orienta. Encontro com o sujeito em frente a um portão enorme, sem identificação. Parece mais um presídio na periferia da cidade.

Ele está tenso, olha para os lados. Me sinto comprando droga. Maldito trabalho, tinha que ter uma merda… Sempre tem.

Ele me entrega o garrafão como se segurasse  o santo Graal. Noto que ele está tremendo. Pacheco é um gordinho de meia idade, com a barba por fazer. Ele faz milhares de recomendações sobre como devo dirigir e sobre o risco que é passar num quebra molas com aquela merda no carro. Ele diz que o B33 é pior que nitroglicerina. Chama aquela coisa de temperamental. Ela esta num garrafão leitoso, mas ainda transparente o suficiente para que eu veja aquilo la dentro. Diz que não devo destampar aquele troço sob hipótese alguma. Pacheco me dá dinheiro, e me ajuda a colocar uns travesseiros bem gordões ao redor do garrafão. Depois prendemos com o cinto de segurança.

Eu estou tenso. Cada minuto ao lado daquela merda parece não passar. Me despeço de Pacheco. Ele aperta forte minha mão. Parece uma despedida final. Aquilo me assusta muito, mas sigo viagem. As palavras de Pacheco de nunca, jamais passar num quebra-molas ecoam na minha cabeça. Minutos depois estou na Dutra, voltando para o Rio. Há movimento na estrada e isso é uma bosta. Tenho medo de levar fechada. O corsinha é valente, mas nunca se sabe…

No meio da viagem o celular toca. É o Chefe. Tem Blitz.  Ele traçou outra rota, muito maior. Vou andar muito mais. Ele pergunta se tenho dinheiro. Felizmente tenho o bastante e o corsa estava de tanque cheio.

Pego uma saída conforme ele indicou. Vou meter o carro para a direção de Angra e depois seguir pela Av. Brasil até o centro de pesquisas onde ele me espera…

O carro vai bem, mas pego uma rua errada. Depois de perguntar na porta da igreja de crentes, consigo achar o caminho certo para a estrada que vai dar em Angra.

Já está tarde. Passa das dez da noite e essa estrada é completamente deserta. Isso veio bem a calhar, porque não precisa de muita preocupação com fechadas, ultrapassagens de malucos e coisa e tal.

Então, quando eu menos espero, o buraco, e logo depois, aquele maluco sai correndo de dentro do matagal. Meto o pé no freio, mas lembro do garrafão. Alivio o pé, espero que ele consiga. Conseguiu! Filho duma égua! Maluco do caralho!

E aí pá. Eu porro em alguma coisa. É uma confusão. O medo de morrer carbonizado implode no meu peito enquanto tento segurar o corsa, que sai de lado. Vai capot*!

Capotou. Agora tá rodando. FInalmente parou de cabeça para baixo na beira do barranco. Eu estou tonto, meti a cara no volante e acho que cortei a testa. Eu olho arregalado para o lado. Envolto no travesseiro e ainda firmemente preso no cinto de segurança bem apertado, está o B33.

É um alivio do caralho. Mas me cago de imaginar que o carro pode pegar fogo. E virado na estrada, se vier alguém pode porrar. Aí fudeu.

Cadê o celular? Porra sumiu. Não acho.  Foda-se. Preciso sair daqui.

É um suplício passar pelo vidro todo estilhaçado em milhares de cubinhos de vidro no asfalto. Me corto todo, mas é o de menos. Preciso correr pra longe do carro. Nos filmes eles explodem. Mas não é filme. É realidade. Saio do carro e me levanto. A coluna queima. Mas pelo menos estou vivo.

O corsa se fodeu todo. Tem um buraco no para-choque que parece que bati num poste, mas eu vi, a estrada tava livre. Não tinha poste nem árvore. É um grande matagal e descampado dos dois lados. Deve ser pasto… No meio de fazendas, não sei que porra que foi aquilo. Não faz sentido.

Dou a volta no carro. Tá um breu do caralho, mas ao menos um dos faróis ainda está aceso, não sei como ele ta funcionando, graças a isso ainda provê alguma luz. Com muito cuidado e um cagaço indescritível removo o cinto de segurança e libero o garrafão do B33. Tiro com cuidado pela janela estilhaçada. Levo até a beira da estrada. E então, ao colocar o garrafão incólume ali no acostamento, me dou conta de uma coisa brilhando barranco abaixo. Tem uma luz verde. Uma luz verde… Que estranho.

Vou dar uma olhada, e estupefato, vejo que tem alguém caído lá no meio duma poça verde fluorescente. Eu desço com cuidado pelo barranco, me agarrando numas plantas. O barranco é íngreme, mas consigo descer.

Estou aterrorizado. Iluminado apenas pela luz que emana daquele liquido estranho e malcheiroso está uma… Uma… Sei lá que merda é aquela. Parece um homem, mas não é gente. Ele deve medir quase dois metros. Parece jogador de basquete. Está enfiado numa roupa estranha. Há tripas espalhadas ao redor. Aquilo não é gente. Definitivamente. Não é gente. Nem aquilo ali é cabelo. Parecem tentáculos. Mas que merda é essa?

Escuto um barulho. Um barulho baixo. É baixinho mas dá pra ouvir, em meio à profusão de grilos e barulhos dos insetos da noite. Esta vindo do braço de uma coisa de ferro no braço dele. Parece ferro… Não, alumínio. Não, não é alumínio essa merda! Tem umas coisas escritas nuns ideogramas uns traços… Faz pí-pirí-pi-pirí… Lembra ate um grilinho, mas acho que é algum tipo de comunicador. Essa merda deve ser um…

Caralho que porra é aquela. Que luz! Que luz. Caralho! É uma nave? Uma nave e esta chegando, descendo, esta descendo perto do pasto. Ai meu Deus do céu!

Abriu a porta. Saíram dois. Iguais a esse que eu atropelei. Eu estou abaixado, escondido no meio do mato, no meio das plantas. Eles estão procurando. Estão olhando meu carro. Como são grandes…

Eles vestem mascaras escuras de metal. Estão emitindo uns grunhidos, e fuçam o carro. Um deles pega o líquido brilhoso. Estão usando um aparelho. Ai caralho, estão vindo na minha direção. Tento relaxar. Só preciso ficar oculto no mato, eles não vão me ver no escuro. Nesse breu do caramba, claro que não vão!

Os dois estão pegando o bicho atropelado. Sobem com ele pelo barranco. Ele pesa muito. Estou ali, só olhando. Pena que não tenho o celular, ficaria rico filmando essa bosta. Eles levam o corpo para dentro da nave. Não é grande, mas é bem esquisita e assimétrica, de metal escuro. Sai uma fumaça dela, tipo um vapor.

Eu espero que a nave vá embora, mas ela não vai. Os malditos devem estar mexendo no defunto lá dentro, eu penso.

Quando alguma coisa agarra forte na minha perna eu quase tenho um troço. Olho para trás e o medo aumenta quando vejo que… Não tem nada. Parece um… um fantasma. Tem uma porra dum fantasma agarrando minha perna!  – Me larga! Me larga!

Não. Não, puta merda. Tá aparecendo agora. Apareceu do nada. É um deles. Me levantou como se eu fosse um saco de merda. Ele é forte e enorme. Estou suspenso no ar e ele anda, me erguendo pela perna. Eu tento olhar, mas só vejo aquela pata disforme dele, iluminada pela luz do farol do corsa que ainda resta. Ele caga para o que eu digo. Anda rápido me puxando,  na direção do carro estropiado.

Ele me joga no asfalto diante do carro. Eu estou machucado. Poucas vezes na vida me senti tão impotente.

Ele está fa-falando comigo, mas eu não entendo o que ele diz. É um grunhido, uns estalos. Um barulho assustador.  Tento me levantar. Em pé estou batendo no meio do peito dele. Ele tem uns dois metros ou mais. Vejo que ele tem coisas penduradas no pescoço e usa pouca roupa. Esta com a mascara escura que cobre a cara toda. Não vejo seu rosto. É só essa coisa preta achatada com duas fendas horizontais. Sei que é mascara porque a voz, grunhido ou seja la que merda é essa que ele vocaliza sai abafada.

Ele aponta pra mim. Eu estou com medo pra caralho. Me sinto indefeso.

Ele agarra meu pescoço. Começa a virar minha cabeça de um lado para o outro devagar. Está me olhando bem de perto. Sinto o cheiro dele. Cheiro ruim do caralho.

O barulho que ele faz parece o chocalho de uma cascavel.

Então ele é empurrado. Uma força poderosa agarra no meu braço. Dói muito. Tem outro ali. Eu não vi ele chegar, ele simplesmente estava lá. Apareceu do nada e me agarrou pelo braço. Um está agarrado no meu pescoço e o outro no braço. Estou ficando sem ar. O monstro que me agarra pelo pescoço finalmente me larga e me pega pelo braço. Cada um me segura num braço e parecem estar conversando.

Não, não estão.

Isso não é conversa. É briga! Estão brigando. Estão ficando agressivos. Vai dar merda!

Agora fudeu. Me largaram. Me jogaram no chão e eu caí deitado de costas.

Eles estão brigando. Caralho! Que coisa sinistra. Estão saindo na maior porradaria.  Um deles, aquele que antes me agarrava pelo pescoço, parece ser o mais forte. O outro é mais ágil. Estão se esbofeteando. Eu estou no chão. Começo a me arrastar para longe deles. Talvez eu consiga correr. Deixar os dois se fodendo na estrada. Vou de mansinho me arrastando para perto do barranco.

Eles tiraram as máscaras. Parece um ritual. As mascaras caíram no asfalto soltando uma fumaça. Parece um vapor. Um gás. Não dá pra ver bem, mas o que chama atenção mesmo é a cara!

Puta que o pariu! São feios de doer. É uma cara disforme com umas coisas pontudas. Uns espinhos. Deus me livre! Cada um é mais feio que o outro. Os olhos injetados amarelos parecem acesos. E tem essas coisas como tentáculos pontudos balançando na cabeça. Parecem cobras. Essa é a coisa mais horrível que eu ja vi.  O barulho estranho que emitem agora é dez vezes mais alto.

Caraca! O mais forte puxou não sei de onde uns ganchos. Uma coisa brilhante. Não deu pra ver direito. Meteu na barriga do outro. Cortou o bicho ao meio. Ele esta no meio de outra poça luminosa. Aquilo é o sangue dele. É igual ao do que eu atropelei. Verde. O cheiro chega aqui rápido. É um odor azedo que me faz querer vomitar. Mas não há tempo para frescuras. O grandão está cortando a cabeça do outro. Está vindo. Ah, não fudeu. Ele me viu. Está vindo. Vindo devagar. Está chegando perto. Ele vai me matar. Eles estavam brigando pra me matar. Só pode ser. Está vindo com o gancho na mão.

Eu me apresso em me arrastar pelo chão, mas o bicho tem pernas compridas. Está vindo. Só penso no meu filho. Olho ao meu lado, o garrafão do B33.

Eu agarro aquela porra e jogo em cima do monstro gigante com toda minha força. Emito um grito primal, um último espasmo de macheza antes de me ligar que posso ter me condenado à morte naquela loucura. Me jogo tal qual um dublê para o vazio do barranco.

O garrafão gira duas vezes no ar. O monstro ergue o braço com suas garras em forma de gancho, para se proteger do vasilhame plástico.

E aí explode.

É um clarão de uma explosão épica como nunca vi. Eu estou capotando barranco abaixo.  Caio estatelado numa touceira de mato densa que amortece a queda. Em seguida, assim que começo a voltar a ouvir, meu ouvido está zumbindo. Tá tudo rodando. Ai minha labirintite! Começa a chover. Não, não é chuva. É a coisa que brilha. É uma chuva brilhante como gotas de vaga-lumes que tinge uma área grande do pasto. São os pedaços do monstro.

Eu me levanto. Não consigo acreditar no que vivi. Vi a morte de perto. Começo a escalar o barranco, mas esta escorregadio. Há gosmas luminosas para todo lado. Vejo um pedaço da mão do bicho com aquelas unhas pretas. Depois um pedaço de tentáculo preto que segundos atrás pendia da cabeça horrível dele.

Ah não. Ah, não. Não pode ser. Eu olho pra cima e incrédulo o que eu vejo é uma outra nave. Outra nave descendo. Mas essa é colossal! Parece um prédio. Ela esta descendo e faz a primeira nave la do outro lado da pista parecer um fusquinha perto duma scânia.

Eu não vou ficar para ver no que vai dar. Preciso correr. Preciso fugir daqui. Mas não consigo. Estou fraco. Eu caí. Eu vou desmaiar. Acho que estou ferido. Estou perdendo sangue. Tem sangue na minha roupa…

Eu caio no asfalto. Estou muito fraco para reagir. Estou vendo um deles. Mais um. Mais uma daquelas porras. Saiu da nave grande. Esse é enorme. Meu Deus. Só pode ser alucinação. Isso não está acontecendo. Ele é gigantesco! Ele é quase o dobro! Deve ter quase quatro metros de altura. Tem uma capa. Está vindo. Está olhando os dois mortos pelo chão. Ele me viu. Está vindo pra cá. Vou morrer. Adeus, mundo.

Estou apagando. Está tudo rodando. Eu estou entrando em choque. Meu coração. Meu coração vai parar. Se fodeu, alien, não vai matar o que já está morto!

Não, não…

Ele parou. Ele parou na minha frente. Parece uma estátua. Está imóvel. As pernas abertas. Vejo a capa balançando com a brisa da noite.

Ele está. Ele esta se abaixando. Se abaixando. Vai me pegar. Não, não pegou. Esta indo… Indo embora. Ele… Ele fez uma reverência? Uma reverência pra mim?  Não, não posso acreditar. Há outros muitos. Estão pegando os mortos. Estão levando para a nave grande.

As naves, as naves estão indo embora. Uma luz forte. Cegante. Não consigo olhar. Ficou de dia. Por um segundo tudo pareceu de dia no meio do pasto. As naves estão altas no céu. Uma ao lado da outra. Estão subindo… Subiram. Estão alto agora e parecem estrelas. Há milhões delas no meu campo de visão. A escuridão já engolfou tudo novamente. E eu sinto frio. Eu olho pra cima, não há mais nada alem das estrelas.  Ainda estou tonto. Vontade de vomitar.

Tento me levantar mas não consigo. Fico sentado ali. Tem um pernilongo no meu ouvido zumbindo, mas não ligo.

Ninguém vai acreditar nessa porra…  Foda-se. Eu sobrevivi. E é isso que importa.

FIM

 

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16 comentários em “Encontro na estrada – Mais um sonho retardado pra coleção”

  1. Sonho, hein? Sei. Viajou legal. Que imaginação, hein?..hehe. Bom se os sonhos “sessem” sempre assim, né? Com essa profusão de detalhes. Mais uma bela estória para o “livro”. Adorei!

  2. Quando leio esses post’s fico com a concreta impressão que seu conteúdo cerebral é tão abrangente que até sobre um pingo d’água vc escreveria uma história. Sou mecânico, pintor automotivo, lanterneiro de pequenos amassos e prof pardal nas horas vagas e se morasse perto eu consertaria seu carro e em troca me ensinaria a escrever bem, lógico que eu iria morcegar para estender a nossa prosa enquanto efetuava a manutenção. Cultura é tudo! Eu leio muito e passar uma história ou fato vivido para o papel é um sonho que vou realizar antes de vestir o paletó de madeira.

  3. Wow…Fique embasbacado com a sua habilidade de conseguir se lembrar do seu sonho com tanta profundidade e ainda, conseguir escrever sobre ele com uma riqueza de detalhes que chegar ser insano! Que gump! Aliás, será que vai ter parte II? 😛

      • Hehehehehe, deixa eu adivinhar, a parte assustadora é sonho, todo o contexto e circunstancias são imaginação. Mais caraca mano, tu deu conta de 2, e sobreviveu a 3. Eles tinham que ter de dado uma arma ritualística, de preferencia uma Batleth Klingon.

  4. Cara, ontem eu também tive um sonho que me fez acordar e falar: “Putz, tenho que escrever isso!” Misture H.P Lovecraft, a série Sobrenatural, busca por objetos de valor antigos, tipo “Caçadores de relíquias”, fazendas do tempo da escravidão do interior do Rio e isso dá história !
    Espero que consiga passar para o papel o que senti e vivi no que sonhei…Foi um daqueles sonhos que apesar de assustador me fez ter vontade de continuar sonhando!
    Também acho que daria um bom RPG…
    E aí vc me escreve um conto baseado em sonho…

  5. Philipe, esta noite tive um sonho completamente induzido pelo seu!! hahaha
    Na verdade somente o desfecho é que foi algo diferente, ao invés de você ser abordado por seres não humanos em sua viagem de volta, você conseguia chegar ao destino com o líquido perigoso. Chegando ao local de trabalho, vc deveria entregar o material a um funcionário responsável – que não era nenhum dos dois citados aqui – que ficava em um laboratório a parte. Ele se chamava Paulo Zimbábue (… um outro sobrenome estranho que esqueci …) da Silva, e estava todo paramentado como um astronauta pois iria manipular o tal líquido… enfim… só que antes dele poder manipular o B33, você deveria assinar um termo no qual dizia que o reagente havia chegado seguro e que Paulo poderia manipulá-lo… enfim.. vc ficou super reticente – CLARO – mas no fim das contas, pelo bem maior do andamento do trabalho, resolveu assinar aquela m*rda! Quando o astronauta de laboratório foi abrir o galão – que no meu sonho se assemelhava mais a um extintor – fez algo errado no procedimento e uma explosão descomunal ocorreu, deixando Paulo instantaneamente em puras cinzas!! E o pior: td isso praticamente na sua frente, óbvio!! E pra coisa ficar ainda mais complicada, o responsável por isso era você, né?!! Afinal, td estava constado em papel!!
    Enfim, no fim do sonho que não teve um desfecho, você seria julgado pela morte de Paulo Zimbábue (…) da Silva!! hahahahahahahah
    Bom, como pode ver, foi um sonho completamente induzido, e sim, eu li o seu sonho antes de dormir!!
    Como é a primeira vez que comento por aqui, aproveito pra dar parabéns pelo blog que já acompanho há um bom tempo e admiro muito o seu trabalho, pesquisa e dedicação!! Como boa fã do blog, sofri calada quando vc o retirou do ar, vibrei como nunca quando ele voltou.. enfim… nada muito diferente dos que já comentaram por aqui!! haha
    Espero comentar mais vezes e ser mais participativa por aqui! E sem deixar de comentar que neste ano pretendo muito ser uma financiadora do patreon!! 😉
    Abraços!!

  6. Eu não duvido nada que isso pode ocorrer em sonhos, pois às vezes tenho sonhos que quando passo para o papel (tenho um diário dos sonhos) ocupa mais de 3 páginas. Mas meus sonhos ocorrem de uma maneira confusa, que às vezes eu tenho que descobrir a ordem em que sonhei pra anota-los em ordem e descobri onde foi que de um sonho, eu pulei para o outro.

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