Elke: Perdemos a rainha do bizarro

É ruim fazer post sobre pessoas que morreram. Hoje acordei tendo o dissabor de descobrir que a Elke Maravilha morreu. Elke era de uma certa forma a rainha do conceito de bizarro.
Quando eu era pequeno, tinha medo da Elke, porque ela sempre me pareceu uma bruxa. Cansei de vê-la e cresci esperando a cada domingo um novo visual, sempre mais bizarro e extravagante que o anterior. Por isso ela é e sempre será a rainha do bizarro, um bizarro positivo, que impressiona, que chama a atenção. Podem falar o que quiser, mas ela tinha uma noção de palco foda e era uma boa atriz.

HANSENIASE/ONU
Quando era adolescente e Elke já era uma senhora idosa (que muita gente achava que era uma drag queen) eu achei uma foto dela jovem em uma antiga revista que comprei num sebo (acho que era a Status) e eu fiz uma pegadinha com meus amigos, com a seguinte pergunta bem tipica de um bacuri da sétima série na hora do recreio: “Você comeria a Elke Maravilha?”
Era engraçado ver a cara de espanto, horror e até nojo dos meus amigos quando eu diante das negativas, dizia que eu comeria. E com o complemento: Na hora!

-Que nojo!
-Tu é viado?
-Tá maluco?

Mas então eu desdobrava do bolso minha foto dela:

Não é essa, não tenho mais a tal foto, mas é dessa época
Não é essa, não tenho mais a tal foto, mas é dessa época

-Ôoooo!
-Claro que como!
-Como agora! Como até a roupa dela!

No fundo, todos se espantavam ao perceber que debaixo de toneladas de pancake e pintura, daquela maquiagem extravagante e sempre pesada com as perucas bizarras, estava uma mulher bonita. Mas não só bonita. Elke era muito inteligente e simpática pra caramba.
Elke Maravilha , nome de batismo de Elke Grunnupp, nasceu na Rússia, em 1945. Chegou ao Brasil ainda criança com os pais, para morar em Minas Gerais. A jovem sempre chamou atenção pela ousadia e irreverência no modo de se vestir. Aos 18 anos esta postura já era percebida e também gerava problemas; ela chegou até ser agredia nas ruas por conta de seu estilo irreverente e peculiar.

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Seus múltiplos visuais lembravam uma camaleoa, no melhor estilo David Bowie. E digo mais, não duvido que os vizuais bizarros da Lady Gaga sejam “inspirados” pelo jeito Elkie de ser.

Elke-Maravilha

Ela começou a trabalhar como modelo e manequim aos 24 anos. Desde os 20, já morava sozinha no Rio de Janeiro, onde trabalhou como secretária trilíngue, bibliotecária e bancária. Essas funções a ajudaram a bancar a faculdade de Letras. Mas sua forma esguia, distribuída por seu 1,80 m logo começou a chamar a atenção nas passarelas. A carreira lhe proporcionou intimidade com a estilista Zuzu Angel. É famosa a história de sua prisão, em 1971, por desacato. Ela se alterou no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, ao ver cartazes com a fotografia de Stuart Angel Jones, filho de sua amiga Zuzu Angel. Só foi solta depois de seis dias após a intervenção de amigos da classe artística.

A vida dessa mulher dava uma série. Ela morou em diversos países e teve oito casamentos, com homens de diversas nacionalidades. Fez três abortos, fruto de seus três primeiros casamentos. Elke não tinha o desejo de ser mãe; a atriz se julgava rebelde demais para assumir a maternidade e considerava que jamais poderia educar uma criança de forma digna. Contou em algumas entrevistas que tomava pílula anticoncepcional. Sobre sua vida amorosa, a artista fez algumas revelações para o programa “ De frente com Gabi”, no SBT em 2013. “Tive oito casamentos e o mais curto durou 2 meses, porque ele era psicopata. Eu acordava de madrugada e ele estava no sofá, vestido de Elke, com uma faca na mão”, contou a Marília Gabriela. No mesmo programa ela revelou que experimentou crack mas que gostava mesmo é de birita.

A mulher era muito doida. Eu sempre pensei que um dia, talvez pudesse fazer um filme de ficção científica e chamá-la para o elenco. Mas não consegui. Uma pena.

RIP Elkie

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2 comentários em “Elke: Perdemos a rainha do bizarro”

  1. Eu nunca ligava muito pra ela, até que um dia desses assisti no Youtube a participação dela no extinto programa Provocações da TV Cultura, apresentado pelo finado Abujamra. E é incrível ver como essa mulher tinha amor pela vida, pelas boas coisas da vida. Sempre de bom humor, sempre contagiando todos à sua volta.

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