Crônicas do sangue

NOTA: Este post tem trilha sonora que eu mixei só para este post, com algumas trilhas épicas e sons de foley. Você pode ler com ou sem som, mas recomendo com som. Se você lê na velocidade que eu leio, vai ser legal, se lê mais depressa ou devagar, pode ficar meio estranho. Mas ainda assim, vale como experimento. Espero que curta.

Quando finalmente amanheceu, e a noite escura deu lugar a um céu nublado, o vento frio prenunciava com seu triste lamento o cruel espetáculo que se descortinaria nos campos.
Eles estavam em pé de guerra desde antes do mais velho de todos nascer. Havia tantos anos que as duas casas se odiavam, que diziam as lendas, ninguém sabia exatamente o porquê, já esmaecido pela bruma do tempo.
As pessoas do povo da lua negra tinham seus alfarrábios e escritos antigos, que davam conta de roubos de terra, morte, pilhagem. Todas as desculpas que também tinham as lendas e contos ancestrais do povo da casa Valdurga. Cada um defendia sua verdade como a realidade única, e a tensão entre as duas casas só fez aumentar com a passagem do tempo. A ferida era cuidadosamente deixada aberta nas caçadas, quando um eventual cavaleiro de uma das casas delineava a sombra de um outro nas colinas. As casas permitiam que somente os cavaleiros se matassem, afinal, eram talhados para isso desde a primeira infância.

Tantos anos de disputas, de vinganças, de crueldades conduziu a um tempo em que se desconhecia a paz. A longínqua paragem onde edificaram os reinos os isolava de todo o resto, de modo que as casas viviam unicamente afim de se aniquilarem.

Os primeiros sinais de que chegaria o dia derradeiro surgiram discretos. Somente um dos sábios conseguiu perceber. Era qualquer coisa no vento, no cheiro da noite. Ele disse ao rei da casa Valdurga que sentiu um fraco perfume de morte no vento, mas ainda não tinha certeza. A certeza só veio mesmo quando o pessegueiro amanheceu sem folhas e nem frutos. Havia secado da noite para o dia, o que era o prenúncio da morte que se avizinhava.
Ainda assim o rei Valdurga ignorou os sinais do mestre. Talvez, em seu íntimo desejasse que nada daquilo fosse verdade. Desejava em seu leito que as profecias que lia desde a infância fossem relacionadas a um descendente do longíncuo futuro.

Mas quando aquele dia cinza cobriu o céu de tristeza, os empregados vieram acordá-lo com tom solene. O rei foi até a murada para ver com os próprios olhos.
Conforme os escritos antigos, o campo estava repleto das aves negras da morte. Abutres aos milhares voavam em círculos no céu. Outros tantos vagavam em saltos desengonçados pelos imensos gramados da planície.

O rei não disse nada, mas o povo precisava de uma resposta. O rei apenas voltou à casa real e ordenou que lhe servissem comida, pois tinha fome.

Do outro lado do rio Vslack, aos pés do monte Gorum o rei da casa da Lua Negra ouvia em silêncio a tenebrosa mensagem de um de seus gurus. O guru, um velho encarquilhado e pálido, com a pele que mais lembrava a de um lagarto, a barba branca a cair-lhe pesadamente sobre o peito. As vestes sujas e fedorentas denunciavam que o guru havia saído da caverna da montanha Gorum depois de vinte e oito anos de reclusão.
-É chegada a hora, meu senhor. -Ele sentenciou com os olhos cegos e a boca já sem dentes. O corpo cambaleava, fraco, apoiado num cajado torto, repleto de fungos.

-Você está certo disso? -Perguntou o rei da Lua Negra, apontando-lhe o dedo.
O velho apenas balançou a cabeça. Os cabelos empaçocados de gordura fétida pouco se moveram.

-Quem atacará primeiro?
-O âmago da montanha me diz, ó meu rei… Que a casa que atacar primeiro… Será o vencedor. -Ele disse, com a voz, já num fio trêmulo.
Então para espanto de todos na sala do trono, o velho decrépito desabou no chão.
Houve um tumulto. O rei chegou a se levantar do trono. Os guardas correram.
-Está morto, senhor! – Sentenciaram.

Todos então se voltaram em olhares fixos para o trono. O rei olhou o corpo. Levantou-se e desceu as escadas de mármore frio. Chegou até o corpo fedorento caído em meio ao piso.
-Vocês, chamem o ministro da Guerra. Mandem-no para os meus aposentos. Estarei esperando na biblioteca. – Ele disse.
O rei então se virou e saiu.

Na casa Valdurga, enquanto o rei comia seu dejejum, três conselheiros o convenciam de que a guerra era inexorável.
-Eu não sei. – Ele disse com a boca cheia de frango.
-Os sinais são claros, meu senhor! – Disse o conselheiro mais velho.
-Meu rei, lembre-se da profecia que diz que a primeira que atacar seria a casa vencedora. Se não esmagarmos, seremos esmagados.
-E a árvore? A árvore morreu, meu senhor! Está na profecia! – Falou o outro conselheiro. O Rei da casa Valdurga continuava a comer, sério, sem olhar nos olhos dos conselheiros.
Houve um silêncio entre eles, e os conselheiros apenas se entreolhavam, sem saber o que se passava na mente do velho rei.
-E então? O que faremos, milorde? – Perguntou o conselheiro mais velho.

-Mandem um batedor. Veja como estão as coisas do outro lado do rio. -Ele disse, socando a mesa.

Horas depois, um soldado cujo nome é irrelevante, atravessou a floresta dos carvalhos e cruzou o rio Vslack na passagem Niggon. Ele era um batedor experiente, treinado para reconhecer rastros e mover-se sem deixá-los.
O batedor atravessou o rio e escalou a encosta do Gorum, afim de verificar se na outra face da montanha havia sinal de preparação para a guerra.
Não era uma subida fácil. A montanha quase cobrou seu preço quando as rochas em que ele se agarrava precariamente se soltaram. O corpo do batedor girou no vazio e por um instante ele se viu adentrando o reino dos mortos. Felizmente, uma raiz no caminho de sua mão serviu para que ele se agarrasse.
Cansado, suado e sujo, o batedor finalmente chegou ao paredão liso e escorregadio do qual podia ver à distância segura o castelo da Lua Negra.
Um homem duro, forjado com sangue e aço, um homem que não hesitaria em se lançar para a morte, se assustou pela primeira vez na vida. Seus ouvidos treinados podiam escutar as batidas dos tambores ecoando no costão.
Lá em baixo, um exército monumental deixava os portões do castelo. Não era uma falange. Era uma coisa impressionante, com soldados de infantaria marchando na frente, com suas alabardas. Eles eram seguidos de cavaleiros, Torres de combate, e após minutos de estupefação, seu coração quase parou quando ele vislumbrou ninguém menos que o próprio rei da Lua Negra.

O batedor voltou-se. Precisava descer aquela montanha o mais rápido possível. Na afobação, deixou que pedras soltas caíssem. Essas pequenas pedras não fariam grande diferença se o destino não estivesse conspirando para a fatalidade. Uma das pedras girou no vazio e atingiu uma rocha enorme que pendia junto a um ressalto cerca de dez metros abaixo no costão. Essa pedra sim, quando despencou, provocou uma pequena avalanche.

Lá em baixo, em meio a marcha, um dos soldados notou a nuvem de pó subindo do costão. As pedras se soltavam e antes que ele pudesse gritar e apontar sua alabarda para o enorme rochedo, uma gigantesca massa de rocha despencou na direção deles. O exército se espalhou como formigas.
Lá no alto, esgueirando-se entre fendas, o batedor lamentava-se de sua má sorte. Temia ter sido visto.

Ele desceu a montanha o mais rápido que pôde. No desespero, deixou para trás todos os ensinamentos dados aos batedores de não deixarem rastros. Precisava correr. Encontrou o cavalo amarrado junto a árvore que havia deixado, perto da passagem, junto ao rio.
Quando ele finalmente desamarrou as cordas de couro e saltou sobre o animal, sentiu o aço quente penetrando-lhe as costas. Foi um fisgão que lhe doeu como um choque.
-Iáááá! – O batedor gritou açoitando o pobre animal.
Ele ouvia o som das flechas cruzando o ar. Uma delas passou bem perto de sua cabeça.
O cavalo saltava por entre as pedras do rio.
Uma chuva de flechas cortou o céu. Mais de dez delas encontraram suas costas já feridas.

Atingido pelas setas o cavalo entrou em desespero e já não obedecia qualquer comando. Só restou ao infortunado batedor agarrar-se à cela e torcer para que o cavalo escolhesse o melhor caminho.

O sangue correu-lhe na garganta. Respirar queimava. As flechas tragavam-lhe o pouco que restava de vida. Já não sabia mais onde estava. Tudo era confuso, escuro e frio. O cavalo também ferido corria desbragadamente, sacudindo-o como se fosse um mamulengo.
Ele não chegou vivo à fortaleza da Casa Valdurga.

Quando os soldados da murada viram o cavalo correndo em disparada vindo da floresta dos carvalhos, abriram os portões. O cavalo corria pela planície repleta de abutres, produzindo uma gritaria entre as aves tenebrosas.
O próprio rei desceu para ver o batedor com as costas recobertas de flechas. Ao seu lado, o conselheiro levantou a cabeça sanguinolenta do batedor morto.

-É um aviso, milorde. Mataram-no e mandaram este pobre diabo aqui como um aviso! -Disse o conselheiro.

-Preparem o exército! Agora! – Gritou o rei, sacando a espada e levantando-a no ar. Mulheres correram com as crianças chorando no colo. Os homens gritaram em frenesi, socando o peito. A casa Valdurga estava em guerra!

Já caía a noite quando os guardas da murada da fortaleza soaram as trombetas do alarme. Ao longe, no meio da floresta as milhares e tochas do exercito da Lua Negra formavam um espetáculo tão belo quanto aterrador. O frio era cortante.

Quando a madrugada se abateu sobre eles, os tambores de guerra começaram a entoar sua batida constante.
A Casa Valdurga não ficou atrás. Seus tambores de guerra também soaram por trás dos enormes portões fortificados.

Esses portões, quando abriram, deixaram passar uma legião monumental de soldados paramentados com armaduras de combate, espadas e lanças. Atrás vinham os cavaleiros aboletados em corcéis brancos, imaculadamente brancos, a cor da Casa Valdurga. E junto deles, os sábios, as torres e do mesmo modo, o próprio rei em pessoa e sua consorte, cujo nome já me escapa às memórias, embora sua beleza esteja ainda indelevelmente marcada nas minhas mais profundas memórias.

Um novo dia raiava com o prenuncio da guerra. Nas muradas, as mulheres, os velhos e as crianças, guardados apenas por um miserável contingente de guardas. Todos os homens capazes de empunhar uma arma na Casa Valdurga haviam saído, armados para a planície. Eles cresceram sabendo que esta manhã um dia chegaria.

Os tambores batiam no compasso dos corações. Os dois exércitos perfilaram-se na planície. E então os tambores pararam.

Não houve negociação de praxe naquele tempo. Houve apenas uma certa hesitação. O exército negro de um lado, o branco do outro.

Todos esperavam alguma coisa. No ar, milhares de abutres assistiam ao espetáculo grotesco ávidos pelo desfecho sangrento.

Foi um dos soldados que avançou primeiro. É difícil dizer de qual lado ele era, pois tão logo ele começou a correr, foi seguido por uma multidão.
O aço se chocou em meio ao gramado. Espadas e lâminas giraram no ar. Lanças voaram e flechas eram disparadas para todos os lados.

Um soldado Valdurga decepou a cabeça de seu oponente, num só golpe, mas não viveu tempo suficiente para ver o oponente da lua negra cair com sua armadura preta no chão de terra. Uma lança atravessou-lhe o visor da armadura matando-o instantaneamente.
Era uma confusão de tilintar de espadas lanças, escudos e lâminas. Machados e martelos de guerra eram brandidos uns contra os outros. Os gritos eram aterradores e o som confuso do aço sendo massacrado era tão alto que anulava o grito gorgolejante dos infelizes, que em poucos minutos estavam mortos, caídos pelo chão em pequenos montes sangrentos de carne e ferro retorcido.

E então surgiram os cavaleiros, unidos aos seus cavalos como um só indivíduo de brutalidade ímpar. Esses brandiam no ar longas armas formadas de correntes e bolas de aço. Os cavalos saltavam os montes de mortos, pulando de lado e atingindo seus infelizes oponentes no solo, explodindo elmos e afundando crânios.
Ao fundo, em meio à carnificina, Surgiam as grandes torres de combate, puxadas por unidades de cavalos bem fornidos de proteções metálicas. As torres tinham grandes e pesadas rodas de madeira, e sobre elas centenas de arqueiros disparavam massas desorganizadas de flechas contra o inimigo. Os dois exército dispunham dessas fortalezas móveis de combate. Á volta das grandes torres, soldados especializados evitavam as escadas. Mantendo-as à salvo de ataques de infantaria. Mas as torres tinham um problema. Por serem tracionadas por manadas de cavalos de guerra, as torres só se moviam em linha reta. Era preciso uma organização via corneteiro do mestre dos cavalos para que a torre parasse, as manadas de tração fossem realocadas para que ela girasse em seu eixo e mudasse de direção. Em compensação, a torre uma vez rompida sua inercia, se movia em velocidade constante esmagando e destruindo tudo que estivesse à sua frente.

Os arqueiros da Casa Valdurga dispararam flechas de fogo para destruir uma das torres da Lua Negra. Em pouco tempo a enorme torre estava em chamas. Assustados, os cavalos de tração se soltaram, balançando a torre flamejante. Os soldados que lutavam abaixo mal podiam ver devido a nuvem de fumaça. Quando a primeira torre da Lua Negra ruiu, explodindo em fogo no meio do campo de batalha os dois lados sofreram com o impacto. Arqueiros corriam pegando fogo. Toras flamejantes esmagaram cavalos.

Agora a Casa Valdurga estava em vantagem, com duas torres de combate, contra só uma da Lua Negra, que vinha sendo atacada sem piedade pelos cavaleiros Valdurga, que miravam nos cavalos de tração ao invés de tentar derrubar a torre em si. A fortaleza de madeira, aço e pedras resistia bravamente, com arqueiros disparando monumentais nuvens de flechas sobre os cavaleiros abaixo.
Atrás das linhas de ataque o rei da Lua Negra orientava seus soldados. Ele então disse alguma coisa no ouvido de sua rainha. Ela correu em seu corcel negro para a floresta densa e escura de carvalhos atrás deles.

Do outro lado, junto aos portões da fortaleza Valdurga, o Rei orientava seus sábios.
-Usem a magia, cães!

Os sábios embrenharam-se no combate, correndo e diagonais no meio das flechas, lanças e espadas.
Um deles foi morto logo de cara por uma alabarda, que o perfurou o peito.

Mas outro conseguiu se ocultar no meio do combate, tornando-se invisível.
Ele avançou em meio a carnificina e chegou aos pés da última torre negra. O bruxo então invocou palavras ancestrais e a roda da Torre se partiu. A torre balançou violentamente. Houve uma explosão e o eixo, formado por uma enorme tora de carvalho se quebrou. Pedras caíram. A torre balançou para a frente e para trás.
Vendo que a monumental arma de guerra iria sucumbir, os arqueiros saltaram para a morte. Lá em baixo, os cavaleiros erguiam suas lanças para espetar os que caíam. Os que caíam eram empalados às dezenas.
Porém, ao usar a magia, o bruxo foi reconhecido pelos bruxos da Lua Negra. Bolas de fogo foram invocadas. Logo, o último bruxo da casa valdurga torrava aos berros, feito uma cabra no espeto.

Um soldado veio correndo na direção do portão.

-Milorde! Milorde!
-Sim, homem! Fale! – Gritou o rei do alto de seu cavalo.
-Perdemos os bruxos, milorde!
-Danação!
-Acalme-se alteza! A Casa da Lua Negra perdeu suas torres!- Apontou um dos conselheiros.
-Onde está a rainha? – Perguntou o rei.
-Ela estava aqui ainda agora… Onde está a rainha, comandante? – Perguntou o conselheiro.
-Eu, eu não sei, meu senhor!
-Malditos! Ninguém estava tomando conta da rainha? Achem ela, cães! Tragam-na para dentro dos portões! Rápido! – O rei gritava, nervoso.

Uma pequena falange partiu em busca da rainha, deixando o rei e sua guarda real sozinhos.

Enquanto isso, no meio da planície, os cavaleiros se matavam em um frenesi assassino. Já restavam poucos. O sangue se derramava sobre os torrões de terra, produzindo uma lama grudenta e escura no campo de batalha. As torres da Casa Valdurga avançavam, forçando o exército da Lua Negra a recuar para a floresta.

-Estamos vencendo! -Eles estão fugindo! – Comemorou o rei da Casa Valdurga! – Avancem! Sem clemência! Matem todos os malditos! – Ele gritou, brandindo a espada.

Então, antes que pudesse se dar conta, sentiu uma pancada seca nas costas, que o derrubou do cavalo.

-Derrubaram o rei! – Gritou um dos soldados junto a murada.

O rei Valdurga estava caído, tentando se levantar, mas não era fácil dado o peso da armadura.
Sobre ele saltou uma mulher. Ela tinha um comprido punhal. Espetou-o entre os pequenos vãos da viseira da armadura.
Os soldados correram para cima dela e a mataram com espadadas. A mulher foi esquartejada ali mesmo.
Um bolinho de soldados agarrou o rei e arrastaram-no para junto ao portão.

O conselheiro saltou do cavalo e correu até o rei, que se debatia no chão.

-Está bem, milorde? – Ele perguntou assustado, ordenando aos soldados que lhe dessem espaço.

Mas o rei não respondia. Com algum trabalho, conseguiram remover-lhe o elmo.
Para espanto de todos, o rei da Casa Valdurga já estava morto. Um buraco triangular em sua testa produzia uma pequena cachoeira de sangue. A estocada do punhal da rainha da casa da Lua Negra havia sido certeira.

-Ele está morto! O rei está morto!

Os poucos soldados da guarda real que ainda estavam vivos, os arqueiros no alto das torres e os cavaleiros que saltavam pilhas de corpos no campo de batalha ouviram a tronbeta ecoar na planície. Todos olharam assustados para os portões da casa Valdurga.

Uma coluna de fumaça densa surgiu por trás dos muros.
-O castelo está pegando fogo!

-O que é aquilo, general? – Perguntou o rei da Lua Negra em meio a floresta.
-Eu não sei, milorde!
Um dos bruxos veio até eles.

-O Rei da casa Valdurga caiu! Eles estão botando fogo no castelo para evitar a invasão!
-Vencemos! – O corcel negro empinou e o rei de armadura negra levantou sua espada no ar.
-Vencemos!!! – Gritaram os soldados acuados na floresta.

Na praça, o velho sorriu os dentes amarelos.

-Xeque Mate! – Ele disse, sem disfarçar seu ar de superioridade.
O outro velho não disse nada. Apenas olhou o tabuleiro. As peças espalhadas. Ele balançou a cabeça.
-Rainhazinha filha da puta!

Eles recolheram as peças do xadrez. Guardaram na caixa e se levantaram da mesinha de cimento sob a frondosa árvore da pracinha.
-Você venceu hoje, Rui. Mas amanhã eu vou à forra! Pode escrever!
O outro idoso só deu uma gargalhada. Bateu nas costas do amigo, colocou a boina e os dois foram embora.

-Estou com fome!
-Vamos ali tomar um caldo de cana, Rui. Quem perdeu paga!

FIM

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22 comentários em “Crônicas do sangue”

    • A propósito, somente agora pude ler o texto com calma, e, tendo lido os comentarios antes, consegui me sincronizar muito bem com a trilha sonora… O interessante da minha experiência foi somente ter percebido ser uma partida de xadrez no fim do texto (momento surpresa hahaha). Não que eu não conheça e não tenha jogado a ponto de reconhecer, mas é que o mergulho na história e na imaginação das cenas foi TÃO grande, que essa experiência só poderia dar nisso =)

      Bravíssimo, Philipe! Parabéns

  1. Nossa! Falar que não deu muito certo pra mim seria diminuir o erro. A verdade é que pra mim deu muito errado. Dei play na trilha sonora e comecei a ler. Quando estava já no final da batalha eu já sabia que estava mais à frente do que devia, já que a trilha sonora reproduzia o som de um cavalo galopando. Quanto terminei de ler voltei lá pra cima para ver onde estava a trilha e ainda não tinha chegado nem na metade!!!

    Mas eu sei que eu é que estou fora na normalidade. Eu leio rápido demais…

  2. Cara… simplesmente fantástico como tudo o que você escreve, genial… e quando pensamos que o Philip não tem mais nada para criar aparece você nos brindando com algo incrível…genial mesmo, parabéns.

  3. Muito boa, durante a narrativa, visualizava claramente o xadrez, graças as referências de movimento. O sincronismo do áudio é impressionante, basta ler em voz alta, em ritmo de gumpcast, rsrsrs.

    Não canso de admirar e elogiar sua capacidade!
    Parabéns!

  4. Ainda não li pois estou no cel e com pouco tempo, mas vi nos coments que esse experimento audioliteral deu certo para alguns e errado pra outros pois a velocidade de leitura difere muito nas pessoas. Por outro lado temos aqui um produto promissor: Muita gente deixa de ler bons livros pois não conseguem se concentrar e vivencializar a estória, e uma trilha sonora bem alinhada pode contribuir para uma melhor imersão no universo – eu fico aqui imaginando uma trilha para alguns capítulos finais de A Caixa -.
    Com o advento de novas tecnologias como o google glass ou cameras que captam nossos olhos e um software especifico isso pode se tornar equelibrado com qualquer velocidade de leitura. Eu ia precisar reler Harry Poter e Cemitério Maldito: fato!

    • Muito boa a ideia de usar essa tecnologia!!!
      Terminei de ler ainda faltando 2min de trilha…rs Mas achei muito bom o conto, só achei que vc poderia ter dado nome ao batedor e à rainha kkkk E como assim “mamulengo” no meio de uma batalha medieval?rsrs Não notei as referências ao xadrez pois infelizmente já perdi 2 oportunidades de aprender isso. Gostei do final 😀

  5. ” (…) longas armas formadas de correntes e bolas de aço.”, chamadas mangual.

    No mais, a história é ótima, principalmente para mim, que adoro jogar xadrez tanto quanto adoro histórias que “rodam imagens” na minha mente!

    Estava sentindo muita falta destes contos… Que venham mais!

  6. Que lindo, experiência sensacional. Aparentemente leio mais rápido do que a trilha sonora e a princípio não fechou muito bem, mas fui diminuindo a velocidade quando começou o barulho de cascos de cavalo eu percebi que deveria ler mais devagar pra fechar com a trilha. Ótimo, deu certinho lá pelo final.

  7. Acabei de ler o texto e os comentários e o áudio ainda tava em 14 minutos .__. Acho que eu leio rápido demais XD Mas foi muito louco *-* Suspeitei que era xadrez quando você disse que os cavalos tavam se deslocando de lado, mas tive certeza quando você falou das torres XD
    Mas que ideia genial! *-* Você sempre surpreende, e faz coisas incríveis! Queria te conhecer ao vivo, me sentiria absolutamente feliz sendo sua amiga…

  8. Caramba cara, que sensacional!!! A experiência com o audio não deu muito certo para mim, lí muito rápido.

    Cara que sensacional essa história, estou muito feliz em ter todos esses contos pela frente para ler hahahaha

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