Cidade 40 – A cidade que “não existia” na Russia

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Ontem a noite resolvi ver um documentário (City40) antes de dormir e eis que me pego num bizarríssimo documentário sobre a Cidade 40, na Russia.

A parada é muito louca. Quando Stalin determinou que a União Soviética deveria constituir um poderio nuclear, dando seguimento à Guerra Fria, eles precisavam de um “lugar seguro” para trabalhar no desenvolvimento do arsenal atômico soviético. Assim, a cidade 40 foi criada. Ela nunca constou em nenhum mapa. Nunca apareceu em nenhum artigo de jornal, nunca foi citada na Tv, radio ou correlatos. Ela simplesmente não existe oficialmente até os anos 90!

É realmente intrigante pensar que um país consiga estabelecer um segredo capaz de esconder uma CIDADE INTEIRA do mundo, desde sua criação nos anos 40 até 1992.

Chelyabinsk 40

 

city40 Cidade 40   A cidade que não existia na Russia

Nesse incrível documentário (tem no netflix) os caras infiltram câmeras escondidas na cidade, porque somente os moradores de Chelyabinsk 40 podem entrar lá. Mais ninguém consegue adentrar o lugar. A cidade é praticamente uma prisão. Muros e guardas vigiam o perímetro 24/7 e pela cidade estão diversas placas com avisos: “não fale”, “nunca dê informações a estranhos”, “reporte pessoas desconhecidas”…

Graças a essa segurança toda, a cidade é uma espécie de super condomínio fechado, onde quem mora la não tem medo de violência ou criminalidade. crianças brincam na rua até meia noite. Mas apesar de toda a paz no interior da cidade, ela tem um problema seríssimo: essa cidade misteriosa é o lugar mais contaminado do planeta!

Chelyabinsk 40 tem diversos nomes. O mais conhecido deles é Ozyorsk. O local está entre os Montes Urais e a alguns quilômetros apenas da fronteira com o Cazaquistão. Ozyorsk só foi “descoberta” quando em 1992,  o presidente Boris Yeltsin assinou um decreto que permitia que cientistas e pesquisadores pudessem explorar a área, super contaminada com radiação.

Antes disso, a cidade secreta recebeu os nomes de Chelyabinsk-40 e Chelyabinsk-65, sendo que Chelyabinsk era uma referência ao centro administrativo mais próximo e os números representavam o código postal da localidade – essa era uma maneira comum de dar nome a cidades fechadas. A mais misteriosa dessas cidades era a cidade 40, porque o governo soviético realizava muitos experimentos radioativos secretos no local. Na década de 1940, a cidade foi escolhida como sede da “Mayak”, um centro de produção de material nuclear que foi mantido em segredo até 1990.

O lugar foi vendido para os cidadãos que habitam a cidade como um pequeno paraíso seguro, onde as lojas vendem todo tipo de produto, até mesmo leite condensado, uma verdadeira bizarrice de outra dimensão na década de 60 e 70 onde faltava de tudo na União Soviética. Lá nunca faltou nada. Frutas, os melhores chocolates, produtos importados, queijos diversos, presuntos… Tudo que um russo jamais viu em boa parte da sua vida tinha de sobra e muito barato nos mercados da cidade secreta.  No entanto, as pessoas que ali residiam viviam uma sensação de medo permanente. Devido ao local ser o centro nervoso das pesquisas nucleares, no auge da Guerra fria, havia uma paranoia sem precedentes com relação à espionagem. Assim, os moradores eram assediados por agentes da KGB o tempo todo se passando por potenciais espiões estrangeiros, na tentativa de determinar se alguém ali “era fraco”. Os relatos de execuções de suspeitos de abrir o bico circulavam entre sussurros.

Fiquei completamente fascinado e estarrecido com essa vida num lugar cuidadosamente construído para não existir. Como seria a vida daquelas pessoas?  Segundo o documentário, alguns poucos moradores tinham autorizações para sair de Ozyorsk, mas quando o faziam eram seguidos e permanentemente monitorados pelo serviço secreto. O medo era a tônica da vida daquelas pessoas.

Ainda mais bizarro é ver a história do local. Um belo dia, um operário ou cientista dava de cara com homens que o levavam, junto com suas coisas e família para longe. Essas pessoas simplesmente desapareciam, elas eram literalmente dadas como desaparecidas. Os parentes não tinham informações, não recebiam cartas nem qualquer informe. Um dia a família morava num lugar, no dia seguinte a casa estava vazia e ninguém mais era visto. Essa operação se deu milhares de vezes com cada um dos moradores de Ozyorsk. A sensação é de um lugar semelhante ao filme “A Vila”, só que em plena maluquice atômica. Mas de fato a pior coisa do lugar é invisível aos olhos.

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Ozersk

Quando a existência de Mayak foi oficializada, os registros já mostravam 21% de aumento na incidência de câncer, 25% de aumento nos problemas no nascimento e 41% de aumento nos casos de leucemia em toda a região de Chelyabinsk. Estima-se que 65% da população tenha sido afetada pela radiação.  A merda ainda podia ser pior: Devido ao sigilo absoluto imposto a todos, os médicos tinham que atestar que seus pacientes sofriam de uma “doença especial”, pois eram proibidos de mencionar a palavra “radioatividade” em seus diagnósticos.

O dia que deu ruim

Logicamente que não se cria uma cidade do nada nem se realiza tal operação abafa-a-todo-custo sem um bom motivo para isso, e o bom motivo era o arsenal nuclear. Para o arsenal russo, era preciso produzir armas a partir do Urânio-238 encontrado nas montanhas da região. Foi no ano de 1948 que o primeiro reator começou a funcionar, convertendo urânio em plutônio para enviar o material para os construtores das bombas.

Ao “modo russo”, de operar, todos os esforços da construção visaram otimizar a produção da matéria nuclear. Só que deixaram de planejar uma maneira adequada para descartar os resíduos. Isso somado a um ainda parco conhecimento dos riscos da contaminação radioativa, fez com que (olha o naipe da cagada) o rio Techa – que abastecia cerca de 40 cidades e vilas da região se tornasse um dos destinos dos resíduos nucleares.

Somente após três anos poluindo radioativamente o rio de onde captavam água para alimentação, banho e etc e tal, que  o governo soviético enviou pesquisadores para se certificar de que “a situação estava sob controle”. Obviamente as notícias não foram das melhores para o Kremlin.  Os cientistas descobriram que, em apenas uma hora, o rio emitia 25% da radioatividade liberada na região durante um ano inteiro. Essa constatação fez com que milhares de famílias precisassem ser realocadas de emergência.

Mas o problema persistia e o governo precisava encontrar um novo destino para os resíduos de sua produção nuclear. Foi quando, em 1951, o lago Karachay foi escolhido especialmente por não ter contato com qualquer outro rio ou nascente, o que fez com que os responsáveis imaginassem que o material depositado ali não se espalharia para outros lugares. Testes posteriores mostraram que a água do lago Karachay pode entrar em contato com o pântano Asanov, que também fica na região.

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Placas avisam que nadar ou pescar no lago é suicídio

Se isso já não fosse suficiente, outras grandes cagadas se sucederiam ali.

No ano de 1957, ocorreu uma explosão de um tanque, que dispersou de 50 a 100 toneladas de matéria de alto nível radioativo na atmosfera.   Essa explosão acabou contaminando milhares de quilômetros quadrados de território, agora conhecido como o Traço Leste Ural radioativo (EURT).

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EURT

Diante do problema, o que o governo fez? NADA. 

O assunto foi tranquilamente e secretamente encoberto, e poucos, dentro ou fora da Rússia estavam cientes do escopo completo do desastre até meados de 1980.

Depois, em 1968, o lago Karachay sofreu um período de estiagem e ficou seco. O leito virou um deserto radioativo, que com o vento… Dispersou poeira radioativa em uma área de 2,3 mil quilômetros quadrados, atingindo cerca de 500 mil pessoas. Nos anos 1990, cientistas descobriram que a taxa de radiação emitida pelo lago era suficiente para matar uma pessoa em uma hora.

Em 2003, as instalações da Mayak tiveram suas atividades revogadas. Hoje, o rio Techa contém pequenas quantidades de césio e o lago Karachay teve parte de seu leito coberto com concreto, mas ainda não é possível controlar a contaminação da população local e reverter os problemas foram causados durante tantos anos.

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De acordo com o senso de 2010, há 82.164 residentes em Ozyorsk. Um significativo numero de moradores trabalha em algo ligado à produção nuclear em Mayak. A planta em si abrange uma área de aproximadamente 90 km² e emprega cerca de 15.000 pessoas.

Enfim, é muito louco o lugar e sua história mais ainda. Recomendo o documentário “City40”.

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6 comentários em “Cidade 40 – A cidade que “não existia” na Russia”

  1. Eu até admiro os russos na sua engenharia e na construção de máquinas e outras coisas tecnológicas, mas essa frieza calculista com a vida dos seres humanos é imperdoável.

  2. Antigamente era engraçado.

    Hoje em dia quando se descobre algo novo (uma tecnologia, ou novo elemento químico), na maioria das vezes se tem o cuidado de analisar muito bem a descoberta pra descobrir quais os problemas que ela tem o potencial de causar.

    No século passado o pessoal metia a mão em tudo, distribuía isso pelo país todo e esperava dar a merda pra ver o que acontecia. Os EUA fez muita cagada assim, mas a URSS era especialista nisso. As vezes eu imagino que esse país era uma espécie de grande laboratório cheio de ratinhos, onde os cientistas, governo e forças armadas desempenhavam suas experiências.

    Já pensou se todo russo que foi – direta ou indiretamente – prejudicado por essas “peripércias” do governo resolvesse pedir reparo pelos danos causados? A Rússia falia de vez! =P

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