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Boneco – Lobisomem Sinistro Parte IV

February 9th, 2008

Olá pessoal. Aqui estou eu novamente com a quarta e última parte do passo-a-passo da construção do boneco “Lobisomem Sinistro”. Se você chegou agora, não se preocupe. Clique aqui e acompanhe a parte I. Para ver a parte II, clique aqui, e para ver a III clique aqui.

Só lembrando que devido a alta quantidade de imagens eu vou usar o clássico “leia mais” e vou hospedar as imagens no Photobucket, o que vai obrigar quem não conseguir visualizá-las a usar nossa gambiarra: Clique aqui e depois entre com o endereço www.mundogump.com.br no campo lá e pronto. Elas deverão aparecer.

Bom, conforme vimos na parte I, eu resolvi esculpir um boneco de um lobisomem. Estruturei e comecei a esculpir. Na parte II vimos a blocagem dos músculos, a cabeça, a criação do detalhamento e acabamento da pele e tal na parte III eu assei o boneco no forno e pintei.

Agora na parte IV eu vou dar o acabamento no boneco já pintado. A peça está quase pronta. Só falta colocar os pêlos que recobrem o boneco.

Esta parte é crucial para o projeto, porque ele foi concebido justamente para testar a técnica de aplicar pelos num boneco.

Inicialmente eu planejava colocar pêlos de coelho no lobisomem. Depois de peregrinar pelo centro do Rio (saara) em busca de pêlos, eu finalmente encontrei um lugar que vendia isso. è uma loja que fica na Rua da Conceição, perto da esquina com a Senhor dos Passos. A loja chama-se “Casa da pelúcia” ou algo assim. Fica no numero 19. Lá, eu descobri que esta loja vende até cabelo humano! Se você quer fazer uma roupa de chewbacca é lá que tem que procurar. Tem pelúcia de todos os tipos, cores e tamanhos que você puder imaginar. Bem legal, apesar de ser espremida e tumultuada. Eu dei azar de ir lá na véspera do carnaval, quando a loja tem o maior movimento.

Bom, eu descobri que lá tem o pelo de coelho, mas era caro pra dedéu. As conclusões que eu tirei a partir disso foram:

Só tem duas peles de coelho na loja e são caras demais para o que eu quero, que é fazer teste: 39 reais cada. (por este preço eu compro três coelhos, minha vó mata eles e cozinha, eu como, ela seca a pele, me dá e ainda sobra uma grana pra comprar a sobremesa!)

De qualquer forma é lá que tem.
A conclusão que eu cheguei é que:
1- Trabalhar com pêlo de verdade só compensa para peças comissionadas ou com garantia de retorno que suplante o custo. (tipo vender no ebay para o mercado internacional)
2- Dependendo da escala, não compensa, já que os pêlos de coelho são compridões pra danar. Isso é problemático, porque vai dar diferença na espessura do pêlo com relação a escala do boneco. Assim, compensa fazer o boneco grande.
3- Existem pelos mais finos. Como o pêlo de chinchila e arminho e que funcionam melhor para peças menores. Porém, quanto mais fino o pêlo, mais caro é.
4- Toda estrutura de pêlos (todos os animais de pêlo em geral) possuem dois tipos de pêlo: O pelo comum e o subpêlo.
O pelo comum é o que vemos. O subpêlo é um pelo mega-ultra-fino que fica por baixo. É ele que realmente isola o frio. O subpêlo é que é ideal para colocar na miniatura. Mas é bem mais difícil de trabalhar com o subpêlo, uma vez que ele é muito, muito fino mesmo.
5- Em função do custo e da dificuldade, achei melhor tentar com pelúcia para ver se rola. O problema é que pelúcia é um pêlo acrílico. Com isso, ele (eu acho) vai derreter no forno. Assim, ele tem que ser aplicado APÓS assar a peça. Mas no caso de pêlo de verdade, eu acho que ele suportaria o calor do forno. Mas não tenho certeza. Tem que fazer testes e experimentos antes. Meu medo é o pelo acrílico iniciar uma ignição e pegar fogo na peça. Talvez usar um soprador térmico seja mais garantido.
6- Tive uma idéia sobre onde obter pêlo legal para cobrir esculturas. No brechó. Todo brechó tem estolas e casacos de pele do tempo do onça. Alguns em péssimo estado de conservação, com mofo, rasgados, sujos, etc. Como estão em mal estado, talvez a pessoa tope te vender. É bem capaz de sair mais barato (pela quantidade e tipo de pêlo) do que comprar o pelo de coelho lá da casa das pelúcias; Mas acabei não indo, porque a idéia de usar pelo de seres vivos me pareceu meio cruel. Vamos tentar o pelo sintético. Aí se não der certo, a gente tenta algo real.
- Só um adendo: Eu sou totalmente, absolutamente, contra a morte de animais para a retirada dos pêlos. A parada de matar os coelhinhos pra isso foi brincadeira, valeu? Sobre usar casacos de pele velhos e comidos por traças em bechós eu acho valido porque é um destino bem mais honrado usar os restos mortais dos animaizinhos em uma obra de arte do que deixar estragando no fundo de um baú de brechó. Mas mantenho minha posição de que matar animais para retirar o pêlo é uma filhadaputice sem tamanho e todos os que usam casacos de pele feitos de filhotinhos de foca, arminho, raposa e etc mereciam perder um bom naco de pele para ver se é bom. A começar pela Gisele Bunchen que embora não precise de mais dinheiro do que já tem, aceita desfilar roupas de pele verdadeiras para os figurões das maisons francesas.

De volta ao lobisomem:

Como o pelo de bicho de verdade era caro demais, resolvi dar uma chance ao destino e comprei um pedaço de pelúcia mista. Até que engana bem, saca só:

Isso tem quase um metro e me custou 8 reais.

Agora vou explicar a técnica que eu usei para colocar o pêlo no lobisomem: Eu pego dois recipientes. Um com água e um vazio. No vazio eu coloco cola cascorez do rótulo azul.

A cola cascorez é uma cola polivinílica que depois de seca fica transparente. Ela é bem grossa e vira um verdadeiro plasticão depois de seca. Por isso é importante a água. Com ela eu vou diluir a cola. Com um pincel de sacrifício (um velho pincel de pintura que não uso mais, caso a cola o destrua) eu misturo água na cola. Não pode ser muita água. E nem muita cola. Eu misturo no olho, mas acho que a proporção é de três partes de água para uma de cola.

Após misturar bem o resultado é uma espécie de água branca. Com esta água eu pinto o boneco começando (isso é importante!) de baixo para cima. A parte mais baixa do lobisomem é a pata. Então é por aí que eu começo. Tem que ser assim porque a ordem da colocação dos pelos afeta o resultado final.

Após passara cola na pata (sempre passando empequenas quantidades) eu começo a cortar os pelos da superfície de pelúcia. (não pode pegar a base onde elas estão costuradas, porquê isso dá na pinta que é pelo fajuto) . Não adianta querer correr e pintar ele todo de cola porque ela vai secar antes de conseguir colar o pêlo.

Aliás, vou te falar: Isso é um trabalho de Chinês, meu amigo. É um SACO colar pelinho por pelinho no bicho. Inviável mesmo. Leva um tempão mas depois, com a prática, a coisa vai acelerando.

Para facilitar o processo, a melhor coisa é pegar esta água de cola diluída e com outro pincel mais grosso, molhar a pelúcia na área que você vai cortar.

Com ela molhada, os pelos ficam regulares, se aglomeram em mechas e fica mais facil de trabalhar. Quer dizer, é quase o único jeito de trabalhr, já que cortar a pelucia com os pêlos secos faz um estrago na casa. Voa fiapo para todo lado, uma farinha fina de pelinhos flutua no ar. É por isso que para trabalhar com os pelos tem que ser com a janela fechada e o ventilador desligado. Senão ferra tudo.

A lógica parece um pouco com a lógica de cortar cabelos. Geralmente o barbeiro ou cabelereiro tem que molhar o seu cabelo antes de cortar, né?

Então você molha a pelúcia e com uma tesoura AFIADA (não adianta tesoura cega) você corta os pelos no tamanho que deseja. Atente para o detalhe que é necessário cortar pelos em diferentes tamanhos. Tudo do mesmo tamanho vai fazer o boneco parecer alguém vestido numa roupa de gorila.

Com uma pinça de depilação eu retiro a mecha de pelos molhados de água com cola diluída e levo até a parte do boneco em que vou colar.

Com a ajuda de um instrumental (não use as mãos. O calor da mão seca a cola e o pelo gruda no seu dedo, fazendo uma nojeira danada) vou prendendo na superfície da peça, pressionando os pelos contra a escultura.

O instrumental ajuda a espalhar os pelos e não deixá-los muito acumulados. Depois que eles aderem, eu volto na pelúcia, molho mais uma mecha, pego a tesoura, corto, pego a pinça, levo até a área diretamente acima de onde coloquei a primeira camada de pelos e aplico. Veja no esquema pra ficar mais didático:

 

Então este processo é repetido à exaustão. Para cada perna. E assim, depois de umas quatro horas de total sofrimento com pelinhos, cola, tesoura água, pinça e instrumental, as duas pernas estão cobertas e pêlo.

O passo seguinte é aplicar os pêlos no torax do bicho. Eu começo cortando a pelúcia numa baixa. Isso retira os fiapos bem grandes, deixando a pelúcia num tamanho baixinho que lembra o cabelinho do falcon. Com a tesoura afiadona, eu consigo cortar bem rente ali uma camada pornográficamente fina de pelinhos. (isso tem que ser feito com os pelos secos, porque nessa escala, molhados eles viram um creme) E com esses pelinhos finos eu vou cobrindo a maior parte do corpo. Este tipo de pelo mais fino é aplicado de um modo diferente. Eles não entram uns sobre os outros como as escamas de um peixe, do jeito que eu fiz nas pernas. Eles entram lado a lado, peenchendo a área do corpo com pelos bem finos. Só então, eu venho aplicando cola pura com um pincel e vou colando os tufos de pelos um pouco maiores em lugares esparsos.

Isso gera um desequilibrio de consistência na estrutura dos pêlos. Isso significa que eles parecem mais tufos, ficam naturais e geram contraste com os fios menores. Essa aparência de tufos confere um grau de realismo maior do que se eu apenas seguisse com o método de aplicação dos pelos em escamas. O lobisomem é uma pessoa transformada num híbrido de gente e bicho. Se fosse um cachorro, leão, urso ou coisa assim, aí eu ia no método de escamas nele todo. Mas este jeito misto é bom porque permite que certas áreas fiquem sem pêlo, permitindo ver a pele por baixo. Parece que ele está transformando, com certas áreas crescendo mais que outras.

Com os fios compridos cortados no maior tamanho possível, eu aplico na região do peito, alto do tórax e pescoço. De vez em quando eu aplico um pouco do líquido de água com cola diluída para me permitir manipular melhor os pelos, “penteando” eles na direção que eu quero.

Nos braços eu uso uma solução de pelos bem curtinhos, com pelos grandões nos antebraços. E novos pelos curtinhos na mão e nos dedos. O segredo é quebrar a uniformidade.

Tem que ter paciência e aplicar tufo a tufo. Levei umas seis horas direto para cobrir o boneco todo. Quando terminei deixei ele secar naturalmente, já que o secador tende a fazer a pelúcia encolher. Só usei o secador no modo quente em alguns pontos, para “grudar” os pelos e deixar o boneco com mais forma.

No interior das orelhas usei uma outra técnica inspirada na dica do meu amigo Renato:

“Uma vez fiz uma peça em durepoxi (Um Alce) acho que cheguei a te enviar (tem lá no meu orkut)
Os pêlos ficaram bem realistas, comprei pincéis desses bem vagabundos em lojas de 1,99 (2 reais uma cartela com 6) cortei bem os pelos e fui triturando com a tesoura depois peneirei virou tipo um pó mas se olhasse com uma lupa era micro pêlos passei cola de isopor que é transparente e fui pincelando com esses pêlos moídos e tirando o excesso ficou bacana, inclusive dá pra fazer camadas diferentes de colorações tipo pêlos brancos dentro das orelhas e mais escuros próximo a boca”

Assim, eu cortei um pincel velho aqui e usei os pelos mais claros no interior das orelhas.

Os bigodes foram feitos com pelo de porco. O pêlo de porco geralmente é bem grosso e pode ser encontrado facilmente em trinchas. Escolhi pelos mais finos e pretos, que cortei no tamanho que queria e com uma gotinha de cola minúscula aplicada com o instrumental dentro do orifício do bigode, eu prendi o pelinho.

Aqui está o resultado final.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É isso aí.

Espero que vocês tenha gostado. Queria agradecer aos leitores e amigos que me apoiaram neste projeto. Queria agradecer também a paciência de vocês de esperarem eu concluir o passo-a-passo.

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Até a próxima.



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