Aventuras Urbanas – O passageiro da agonia – combo com duas!

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Eu acabei de escrever essa gumper-aventura aí em baixo e me lembrei de outra, ultra gumper!
Numa escala gumper de história escalafobética essa que eu vou contar leva dez estrelinhas piscantes, pois nem eu mesmo acredito que tenha acontecida. Mas o fato é que aconteceu.
O ano era 1994 e eu namorava a J*. Era uma namorada que eu arrumei em Três Rios, cidade de onde eu saí para morar em Niterói. Na época eu trabalhava perto da Central do Brasil e às sextas-feiras, saía ali daquela “fauna rica” e ia direto para a rodoviária.
Sabe como é namorar em outra cidade… Você começa a pegar o hábito e quando vê já tá “local” da rodoviária. Cumprimenta a servente, fala com o guardinha, chama o motorista pelo nome e o bilheteiro guarda sua passagem com a poltrona preferida por antecedência sem nem você pedir.

Então eu estava acostumado. Entrava no ônibus e já dormia antes mesmo dele sair da rodoviária. Só acordava lá em Três Rios, exatamente duas horas depois. É legal. É a sensação mais próxima que tive de uma abdução alienígena (efeito missing time) e de uma viagem interplanetária com animação suspensa.
Mas naquele dia, isso não aconteceu.

Eu até dormi, mas no meio da viagem acordei com uma puta falação atrás de mim. Toda hora as pessoas olhando pra minha direção. Eram duas mulheres que não pararam de matraquear a porra da viagem inteira. Falaram da novela, ( das sete, das oito, do especial da Globo…) de marido, uma deu conselho pra outra largar o marido que bebia. De doença, falaram da enxaqueca que uma delas tinha e das varizes da primeira. Falaram de tudo, meu. Até do preço do leite e de uma terceira mulher que fez histerectomia. Falaram também de filhos.
Era engraçado porque uma interrompia a outra toda hora. Frenéticas. Era uma conversa de comadre irritante que não tem como evitar não ficar ali, na frente delas ouvindo…
Quando o ônibus chegou, numa das mais demoradas viagens que eu já fiz até Três Rios, olhei para trás:
Para meu espanto, era uma só!
Só então que eu entendi que as pessoas olhavam espantadas presenciando o que se chama cisão total de personalidade – descrito por Isaías Paím em seu livro Curso de Psicopatologia – e o povão chama de dupla personalidade. Um fenômeno raríssimo.
Desci do ônibus e fui comentar o fato com o motorista.
– Cara, cê viu aquela mulher que ficou falando sozinha a viagem toda? Que doideira, meu!
– Pior não é isso. Pior é que ela pagou duas passagens. Dela e da outra – disse ele.

Surreal, né?

O outro caso de passageiro da agonia, se deu com meu avô. O vô Hugo. Não lembro exatamente quando foi, mas ele me contou uma certa vez, que numa viagem que ele fez de ônibus, sentou um velhinho ao lado dele. Era bem velhinho mesmo.
O velho dormiu na viagem e quando chegou no destino, não acordava. Meu vô tentou a todo custo acordar ele, até que percebeu, estupefato, que viajara com um cadáver.

O velho morreu no ônibus, do lado dele.