A última carta

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Mãe, tudo bom por aí?
Sei que tem tempo que não escrevo. É que essa correria da vida, sabe como são as coisas.
Lembra de quando eu era moleque que tinha aquele troço chato de querer fazer xixi toda noite? Então, sabe que o péssimo hábito de acordar de madrugada para fazer xixi voltou. Tem uns três meses que tô assim de novo e tá ruim de parar. É um saco isso, porque acordo já com o treco quase saindo. E também de quebra vem uma sede sobrenatural.

A razão da minha carta, é que faz uns dias, quando acordei numa dessas vontades loucas de urinar. Corri para o banheiro e já ia voltar para a cama, quando lembrei que ia sentir sede e fui para a cozinha beber água. No caminho, ao passar pela varanda, notei uma coisa esquisita.
O vizinho do bloco em frente havia fechado a varanda dele com papelão, algo que é expressamente proibido pela convenção do condomínio. Fui até a cozinha, peguei a água e voltei pra varanda, afim de ver melhor. A noite estava clara porque havia lua cheia e eu fiquei na varanda pegando um vento, quando notei uma coisa estranha que confesso, me deu um certo arrepio. No quarto, ao lado da varanda fechada com papelão estava uma mulher me olhando. Ela estava no escuro, de modo que foi difícil notá-la, e só vi porque ela se mexeu.

Aliás, ela se mexeu bem bruscamente, quando notou que eu olhava pra lá, meio que se escondendo atras de uma grossa cortina. Fiquei estático como pedra, porque naquela altura da madrugada, eu não tinha nem certeza se tinha visto mesmo ou dei uma sonhada em pé.
Fiquei ali e notei que ela estava olhando pelo cantinho do outro quarto, que estava com a janela entreaberta.
Dei de ombros. Bebi minha água e voltei para o meu quarto.
No dia seguinte quando acordei, passei pela sala em direção à cozinha e notei que as duas janelas estavam fechadas com película escura.
Tomei meu café lembrando daquele bizarro apartamento em frente ao meu. Sua história era no minimo curiosa. O morador anterior foi um síndico que deu o maior desfalque de todos os tempos no nosso condomínio. Ele praticamente quebrou o caixa do condomínio, e na noite que seria confrontado numa assembléia para explicar seus desfalques, ele fugiu.

Enfiou tudo no carro e partiu para nunca mais aparecer. Somente a esposa dele ficou no apartamento, e quando questionada ela dizia a mesma coisa: Também tinha sido enganada e abandonada pelo safado. Durante meses, essa mulher zanzou pelo nosso condomínio, sempre de madrugada, como um espectro errante. Chegava a dar medo. Ninguém sabia ao certo onde ela ia e nem de onde ela vinha, mas ela sempre aparecia de madrugada e nunca, jamais, em tempo algum, apareceu na varanda. A última pessoa que vi naquela varanda, era o marido safado que desviou quase que meio milhão de reais.

Depois de um tempo, ninguém mais viu a mulher. O apartamento vivia fechado e pelo estado de sujeira na varanda, parecia abandonado.
Tempos atrás, algo mudou. Um dia a janela estava aberta. Depois, apareceu aquele papelão enorme na varanda. E então mais alguns dias depois apareceu a tal mulher no escuro. Concluí o óbvio. Havia se mudado alguém pra lá. Certamente a esposa do sindico safadão não tinha aguentado a pressão de todo mundo olhando de viés pra ela, e saiu fora. Deve ter alugado o imóvel, o que explicava o tempo que ele ficou largado.

Naquela noite antes de dormir, cheguei na janela pra olhar e estava tudo fechado. O papelão ainda fechava a varanda, impedindo a visão la de dentro. Deitei, liguei meu Netflix no celular e fiquei vendo filme até altas horas, quando uma fome inesperada começou a me corroer por dentro.
Levantei e fui na cozinha. O menu da madruga: Pão com ovo e maionese ou miojo com atum?
Dado o preço do atum, fui de pão com ovo e maionese mesmo. Enquanto o pão aquecia na chapa e meu ovo estalava na frigideira, cheguei na janela da área e… Porra, tava ela lá, paradona, na janela olhando para meu apartamento como uma estátua.
Aí deu cagaço. Uma noite beleza, mas duas?
Peguei o pão, meti o ovo frito dentro, taquei maionese em cima e apaguei a luz. Corri pra varanda. Sentei na rede e fiquei ali, olhando pra ela. Novamente, ela se escondeu assim que cheguei na varanda. Mas eu estava ligado. E continuei ali.

Mas naquela madrugada, como eu não tinha dormido, eu “tava com a macaca”. Então eu fiquei ali pra ver que merda era aquilo, comendo meu pão com ovo no escuro. Eu já meio que podia antecipar, e como previ, ela apareceu na greta da outra janela, me olhando.
Ela sempre com a mesma roupa, que parecia uma camisola verde, ou um vestido verde. A escuridão e a dificuldade em enxergar não permitiam uma maior precisão. Mas fiquei ali.
Ela também, paradona como uma estátua, provavelmente segura que eu não conseguia enxergá-la. Então, sabe como é essa coisa de zoeiro. Dei um tchauzinho. E assim que ela se ligou, ela logo se escondeu atras da cortina. E aí não apareceu mais.
Acabei meu pão, escovei os dentes e pulei na cama, tentando não pensar nela.

Mas no dia seguinte, olhei pela janela assim que despertei. As janelas antes entreabertas na madrugada estavam fechadas. As plantas mortas e amarelas nos vasos da varanda, açoitadas pelo vento já quente, eram a única coisa que se moviam atrás do papelão.

Levei meus afazeres naquele dia normalmente e durante a noite, eu olhava de hora em hora para saber que horas a vizinha nova ia abrir a janela, mas a janela estava sempre fechada. A casa toda fechada. Era sexta-feira e eu pensei que talvez a “esquisita da madrugada” (o apelido dela) tivesse viajado ou estava na balada. Talvez fosse justamente isso, alguma adolescente que voltava da balada e ficava na varanda, talvez fumando um beck. E isso explicaria ela se esconder dos vizinhos.

Fui dormir e tradicionalmente fiz meu percurso para beber água três da manhã. Olhei pela varanda e ainda estava tudo fechado. Senti falta daquela bizarra vizinha. Mas fui beber água. Quando passei de volta, gelei. A janela tava aberta. No tempo que eu fui pegar a água, a janela dos dois quartos haviam sido abertas.
Me cagando, cheguei de fininho na janela da área. Olhei pra lá e ela não estava lá. Somente a cortina se mexia em função do vento canalizado entre os dois blocos.
Fiquei ali, de butuca lá, esperando que ela aparecesse, ou passasse pela sala. Ela sempre no escuro, era difícil enxergar, até porque agora já não me ajudava o fato de ser lua nova e o condomínio em contenção de despesas, apagando as luzes do jardim na madrugada.

Ela não estava lá. Eu esperei muitos minutos e nada. Então, novamente aconteceu uma coisa que meu coração quase saiu pela boca. Deram um soco na minha porta da cozinha. Eu quase tive um troço, quase deixo o copo cair.
Caminhei em silêncio até a porta.
Alguém havia socado minha porta. Que merda é essa? Três e dez da manhã?
Olhei pelo olho mágico mas não dava pra ver nada. Tava tudo escuro. Puta que pariu. O coração quase saindo pela boca, eu tava todo arrepiado. Comecei a perguntar feito doido:
-Quem é? Quem está aí? -Mas não tive resposta.

Fiquei olhando pelo olho mágico, apenas a escuridão, mas algo me dizia que tinha alguém ali, alguém malocado no escuro. Então deu um estalo. Quase me caguei. Vi a luz esverdeada do elevador iluminando o corredor. Alguém tinha chamado o elevador para o meu andar? E então, na fraca luz do elevador que iluminou o corredor, eu vi. Ali estava ela. Parada no corredor. Igual uma estátua. Eu fiquei mudo. Mordi a bochecha com tamanho cagaço. Já saía lagrima dos meus olhos.
Mas o horror foi ver a mulher andando, passo a passo, de costas, sempre de frente para a minha porta, num ritmo que hora parecia lento, em câmera lenta, hora parecia fora do tempo certo, meio rápido. Ela entrou no elevador e ele fechou a porta. A escuridão voltou.
E só restou o silêncio.
Voltei para a varanda, mas ela não apareceu lá. As janelas antes abertas agora estavam fechadas.
Deitei-me com medo. Aterrorizado. Fiquei pensando em que merda era aquela. Uma maluca? E se eu tivesse aberto a porta? Por que ela não disse nada? Como ela sabia a senha do meu bloco?
Custei a dormir.
Quando acordei, vi um homem gordinho na varanda dela. Ele estava segurando um jornal e fumando um cigarro.
-Opa! – Acenei da varanda, sem nem me ligar que estava de cueca samba canção.
-Bom dia! – Ele acenou de volta.
-O senhor é o novo morador?
-Não. Sou corretor. – Ele gritou.
-Ué. Mas não alugou?
-Não. Tá fechado pra alugar ainda. O senhor tem interesse? Vim tirar as fotos.
Nem consegui responder. Me bateu uma tontura, uma tremedeira. Eu acenei negativamente. E dei tchau. O gordinho careca que era um clone do Danny DeVitto acenou e voltou a ler o jornal na varanda.
Desde então, passei o dia a pensar na madrugada. Como será? E agora?
Resolvi escrever isso, para caso me aconteça alguma coisa…
Hoje se ela bater na porta, acho que vou abrir.

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1 comentário em “A última carta”

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