A insustentável leveza do bolso e a educação

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Eventualmente ocorre uma pergunta feita nos comentários que me gera muitas reflexões e idéias para responder. Isso é o que eu acho de mais legal no universo dos blogs.

Sem a interlocução eu não pensaria certas coisas. Este é um post sobre isso. Sobre uma pergunta e sobre a minha vida. Queria agradecer a Caroline por me perguntar. Eu espero sinceramente que minha resposta te ajude. Caso não ajude, tudo bem. Ela me ajudou.

Caroline Daronch disse:

Oi Philipe!
Tbm me interesso por coisas estranhas!

Faço psico, quero trabalhar com web designer tbm…lokura…

Mas, me diz uma coisa, o q tu faria de diferente? Vc se arrepende de ter feito Psico?

Tem alguma sugestão pra me dar sobre um curso de design?

Abraço
Carol

OI Caroline.
Eu nunca me arrependi de ter feito faculdade de Psicologia. A faculdade me ajudou a entender melhor o ser humano, e isso me ajuda diariamente em uma série de coisas.

Nós estamos condicionados desde pequenos a estudar para entrar nas boas escolas, entrar nas boas escolas para ingressar nas boas universidades e fazer os cursos que dão dinheiro para trabalharmos na área e ficarmos ricos.
A educação de um modo geral é clientelista no Brasil. Ela atende interesses financeiros. Isso é certo? É assim que deveria ser?

Não sou eu quem tem que responder a estas questões, mas a academia que lida com a questão da educação como objeto de estudo. Eu sempre encarei o estudo como algo pra minha vida, e não para o meu bolso.

Nunca na minha vida tomei as decisões visando uma profissão. Escolhi Psicologia porque queria saber mais sobre o ser humano.

Comecei a trabalhar com design de um modo totalmente auto-didata. Eu não estudo para trabalhar. O trabalho é uma conseqüência do estudo e as duas coisas andam tão juntas que é impossível pra mim separar o que é estudo e o que é trabalho. Minha vida foi pautada sempre em conhecer mais, pesquisar coisas novas e fazer diferente. È interessante, porque tenho muitos amigos designers que ficam procurando nos catálogos e revistas importadas idéias interessantes para fazerem igual ou parecido. Eu leio as mesmas revistas, compro os mesmos livros e vasculho a net, procurando encontrar algo que eu não faça igual.
Não estou dizendo que meu jeito de viver é certo.
Para muitas pessoas, o melhor modo de vida é o mais simples, onde se estuda para passar no vestibular e entra-se numa faculdade para trabalhar. Depois, por imposição do mercado, essas pessoas podem voltar para a academia em busca de um título de pós graduação latu ou stricto sensu. Não por uma curiosidade ou investigação, nem mesmo por uma motivação de inovação, mas por uma imposição do mercado. São milhões de pessoas seguindo a vida dominados pelo capital.

Também não estou dizendo que eles estão errados. Talvez eu seja um bizarro no mundo. Um idiota Gump sonhador que vive a vida de um jeito diferente. Na contra-mão do capital.
Em muitas situações da minha vida eu me deparei com dilemas. Ou fazia um serviço chato que ia dar dinheiro ou fazia um trabalho maneiraço que não ia dar nada além de gastos e dor de cabeça, mas que eu estava afim.
Eu SEMPRE faço o que eu estou afim. Pode ser a Rainha da Inglaterra me mandando fazer a coisa chata com uma caixa de ouro na mão. Sem tesão, não há solução.
Eu sou refém do meu próprio prazer.
Antes que alguém me aponte o dedo acusatório e grite: “Anti-profissional!” Eu gostaria de dizer que o segredo da vida não está em se fazer o que gosta, mas sim em gostar do que se faz.

Claro, já fiz coisas chatas na vida. Eu sempre tento encontrar um lado bom nas coisas chatas, de modo que elas fiquem boas. Isso explica porque eu faço compras e tiro as sacolas do porta-malas com uma mão só. A Nivea fica morrendo de raiva de me ver pegar de uma em uma as sacolas.
O que ela não vê é que há uma brincadeira escondida neste ato. E isso torna a coisa chata e maçante de descarregar o carro em algo um pouco mais divertido.
E assim é com tudo. Por isso, raramente faço o mesmo caminho. Eu evito a rotina. E entre uma coisa boa e uma ruim, eu fico com a boa. Mesmo que ela dê mais trabalho ou tenha mais risco.

Nem sempre isso é bom. Eu poderia ter muito mais grana do que eu tenho hoje se vivesse só em busca de grana.
Mas eu sou feliz, porque eu vivo em busca de aventura.
Um amigo meu, o Gustavo, um dia me disse que ele não entendia como é que eu conseguia viver de arte.
Nem eu sei.

Eu não sei te indicar um curso bom de design. Isso ia envolver uma profunda reflexão sobre o que é um curso bom. Seria o que te prepara para o mercado? Pra ganhar dindim? Seria o que te estimula a inovar?
Seria qualquer um, uma vez que o interesse parte do aluno e a busca é algo constante? Eu não sei bem em que momento da história a formação teórica se separou da prática.
O maior perigo da formação tradicional é o sujeito achar que acabou. Que está pronto. Que está formado.

Como alguém vira um ator?
Como se vira um escritor?
Como se vira um pintor?
E um piloto de corridas?
E um cartunista?
E um mágico?

A formação é importante. Seja ela como for. Eu acho que a busca vem de dentro.

4 comentários em “A insustentável leveza do bolso e a educação”

  1. Caaara…achei esse post muito, mas muito interessante. Em parte por que tive uma conversa bem parecida com o meu pai, acerca de carreira e dinheiro, uma vez que eu quero cursar música. E sim, música, violino eeee, uma possível vida dura, por ter pouco dinheiro. Mas, é bem o que você disse. É o que me agrada, e vou me sentir muito bem fazendo isso. Não me importo em morar embaixo de uma ponte, se ao menos eu tiver na conciência de que fiz algo que eu realmente vou aproveitar pra vida toda e não algo que simplesmente vai me dar dinheiro.
    Enfim, adimiro o modo com que você enfrenta e vê a vida. É preciso muita coisa pra ir assim, sem medo de ser feliz, por mais dificil que seja.
    Obrigado pelas palavras.
    Até mais

  2. Ótimo encontrar pessoas que partilham da mesma opiniao. É desanimador ver tanta gente que nao se preocupa em ser feliz com o que faz, e sim com o que ganha.

    Eu estudei em boas escolas religiosas e particulares, fiz um excelente curso técnico em uma escola conceituada, e comecei um curso superior… e hoje eu sou MECÂNICO INDUSTRIAL… po… eu podia ser economista, psicologo, administrador… mas eu ADORO o que eu faço!!

    Desmontar/reparar uma turbina a gás, um compressor de hidrogenio, sistemas hidraulicos… po… sou amarradão nisso…

    Trabalho com prazer, ganho o suficiente! E vivo bem com o que ganho…

    Até porque, nao quero da vida nada além de uma esposa e filhos, uma casa, um carro,um cachorro, e uma graninha pra passear de vez enquando… 🙂

    Um abraço, e continue assim com o blog. tá otimo!

  3. olá philipe,
    eu tambem sempre tive a idéia de que crescer era sinonimo de ganhar dinheiro e “se dar bem na vida”… ha uns 5 anos atrás comecei a questionar isso e viver a vida de um modo um pouco diferente, e posso dizer que sou completamente feliz! fico com pena daquelas pessoas que passam o dia inteiro pensando em como passar uma boa imagem pros outros, pra pagar pau pro chefão usando o novo terninho, comprar o carro da onda, assim como o PC de ultima geração… nada disso importa na vida de uma pessoa se ela não faz o que realmente GOSTA..

    by the way, fiz 2 meses de ciencia da computação, e nesses maçantes 2 meses , só me perguntava o que diabos eu ia tirar de proveito pra minha vida tudo aquilo… ficar atrás de uma tela de computador o resto da minha vida nao era o que eu queria… essas e muitas outras somam-se as razões pelas quais hoje sou muito feliz com o que faço e com o que tenho…

    PS: hoje estou no 4o semestre de psicologia, e desde o 1o semestre eu venho nutrindo a idéia de que muita coisa que se ensina na faculdade de psicologia deveria ser ensinada no ensino fundamental, assim como no médio. olha quantas pessoas tiveram que estudar logaritmos no colégio e hoje em dia se verem um na frente não sabem nem como começar. muita coisa da psico é a vida da pessoa… coisa que ela vai levar pra sempre…

  4. eu to quase terminado o ensino medio e acho q design é meu curso
    so q eu nao sei por onde começa
    por isso queria saber como vc ccomeçou e virou design pra eu ter uma ideia
    abraços

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