Situações desagradáveis

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seringa campanha doador | Aventuras | Aventuras

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Volta e meia eu acabo passando por algumas situações bastante desagradáveis. Uma coisa que me deixa puto é ser desmentido. Sobretudo quando estou com a razão.

Isso aconteceu na segunda-feira, quando eu fui com a primeira dama ao médico. Ela tinha que fazer uma punção na tireóide e estava com medo. Aquela já era a quarta punção -inútil- que a médica dela mandava fazer.

Pra quem não está por dentro do que é isso, imagina deitar numa maca e um cara com aparência sádica pegar uma seringa com um agulhão maior que o indicador do Padre Quevedo e enfiar aquilo na sua garganta e ficar xuxando aquilo lá, para chupar um caldinho, enquanto outro pressiona um ultrassom no outro lado do seu pescoço. Anestesia? Hein?

Então, aquela era a quarta vez que a tia Nivea passava pelo suplício e eu junto. Desde meu episódio do Homem Pássaro que eu não suporto nem clínica, nem consultório nem hospital. Mas marido é pra essas coisas, então eu vou com ela, amarradão para ficar segurando na mão dela enquanto rola a agulhada.

Isso por si só já é uma situação desagradável. Imagine agora que a sala onde é feito o exame é do tamanho (sem exagero) de um elevador. E estão ali: Eu, a Nivea mais dois médicos e o aparelho trambolhão do ultrassom.

Isso é uma situação ainda mais desagradável. Na segunda chovia horrores e fomos nós. Ela com o tradicional medinho de sempre: Medinho da agulhada, da dor e do resultado da biópsia.

Chegamos lá, tava lotado. Não tinha onde sentar. Acabamos ficando em pé, bem abaixo da televisão. Aquilo era uma coisa altamente incômoda, pois imagina uma sala de espera cheia de velhos e todos olhando pra você. Ok, não era pra mim, mas sim para a novela do Vale a pena ver de Novo que estava a centímetros da minha testa. Porém, não havia outro lugar naquele cubículo.

Pra piorar, eu estava com um guarda-chuva do Paraguai, desses de camelô, todo prateado, tamanho família. Eu apelidei ele de “parágua”, porque este é o nome do objeto em espanhol e porque tem uma piadinha com a origem do objeto (embora eu saiba que este parágua vem do Paraguai através da conexão xingling).

O troço é tão vagabundo, que em menos de uma semana após ser adquirido na porta do Banco do Brasil, ele estragou e não trava quando fechado. Isso significa que andar com o parágua é ficar na eterna luta com um troço tamanho família que quer abrir o tempo todo.  Guarda-chuvas gigantes não são feitos para salas de espera tão apertadas que você escuta o pensamento do cara ao lado.

Vou me abster de contar os dois pequenos acidentes ocorridos com o “parágua” ali. Mas você pode imaginar. Um foi quando ele tentou abrir. O outro foi quando uma dona tropeçou naquela merda enquanto eu lia distraídamente uma Veja de 1985 que estava mais estuprada que atriz pornô.

Horas depois, quando finalmente a Nivea foi chamada, eu me levantei todo pimpão pra ir com ela. Cheguei a entrar na salinha minúscula, mas a assistente me colocou delicadamente para fora, berrando a plenos pulmões que não podia ficar ninguém na sala além da paciente.

-Mas já é a minha quarta vez! -Tentei argumentar, sem sucesso.

Regras são regras. Eu não ia poder ver o show.  Resignado, eu me virei e voltei para meu lugar na apertada sala de espera (a esta altura, eu já tinha lugar).

Nisso, uma dona que estava ali do lado vira pra mim:

-Te expulsaram de lá, foi?

-É… -Eu disse com aquela cara de “te conheço?” pra acabar o papo. Mas a dona estava nervosa, pois seria a próxima e desandou a falar uma ladaínha que não tinha fim! Queria me contar o problema dela. Eu não estava nem aí pra ela, mas ela era insistente. E tudo que eu queria era apenas desfrutar daquele corpinho chupado da revista Veja, ali no meu colo.

-É a primeira vez? -Perguntou ela.

-A quarta. -Disse eu.

-Cruzes, coitada. O que ela tem? É tão sério assim? Você sabe se dói? É minha primeira vez… -A dona era uma metralhadora de perguntas e eu estava meio puto por perder o dia todo naquele consultório apertado como um dois de paus pra depois ser expulso do cubículo. Então soltei o verbo:

-Dói pra caramba!

-Mas e o  exame, ele é ruim? -Perguntou a dona.

– Ih, é uma desgraça! O cara saca um puta dum agulhão assim ó. (fiz o gesto) enfia na garganta da pessoa sem anestesia e fica futucando lá, e depois ele chupa um troço da sua garganta. Você não pode engolir senão corre o risco dele errar e acertar uma artéria. Enquanto isso, outro médico esfrega um ultrassom na sua güela, e isso com a agulha enfiada lá.

A dona não reagiu. Nem piscou. Ela ficou congelada, olhando para minha cara com um olhar fixo. Acho que deu um “pã” no windows dela. Nisso, me liguei que 99% de todos os da sala iriam passar por aquilo lá. Tava uma platéia me olhando. Todo mundo com a cara de “Pã! -Esta pessoa executou uma operação ilegal e será fechada”. E então eu continuei:

-Na última ela até chorou. É só esperar. Daqui a pouco vem ela, coitada.

Deu um silêncio sepulcral na sala de espera. Dali a menos de um minuto sai a Nivea rindo das piadas do médico.

Todo mundo olha pra minha cara, com um tipo de olhar inquisidor.

-Ja fez? -Perguntei a Nivea. Era a primeira vez que eu via a Nivea falar depois do exame, o que dirá rir. Nas três últimas ela saiu com a maior cara de choro, sendo que na anterior, ela chorou mesmo no elevador.

Aquilo pra mim era um erro da Matrix.

-Já sim. -Respondeu a minha mulher.

Nisso, a velha se viu num dilema em quem acreditar e entrou de sola no assunto:

-Dói muito, minha filha?

-Nada. Não dói nada. É uma agulhadinha de nada. A senhora nem vai sentir. É rápido. Super tranqüilo. É minha quarta vez e eu faço numa boa. É assim, tchum-tchum! Tranquilíssimo… Nem precisa de anestesia.

Nem falei nada. Levantei e saí. Eu concluí que é a minha presença que causa dor na Nivea. Só pode. Nas últimas vezes, era um suplício do caramba e agora isso. Saí largando uma sala de espera lotada de pessoas agora super animadas para um show de horrores.