Três grandes decepções da minha vida

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A vida da gente é uma espécie de sopa onde entram vários ingredientes. Felicidade, amigos, brigas, situações engraçadas, tristes, relações sociais de todos os tipos, sexo e decepções entre dezenas de outros ingredientes. A mistura desses ingredientes em proporções aleatórias conduz para uma percepção de que a vida de um não é igual a do outro. Só isso pode explicar que muitas vezes dois irmãos que viveram a maior parte da vida numa mesma família tenham visões de mundo completamente diferentes.

Um dos ingredientes mais interessantes da minha vida, foram as minhas decepções. A maior parte das pessoas tenta a todo custo construir uma vida sem isso. Afinal, decepção é uma erva amarga na vida da gente. Mas à medida em que envelhecemos, começamos a mudar nosso paladar e certas coisas que achávamos horrível quando piás (cerveja, por exemplo) começam a parecer bem melhor. E é talvez pelo fato de que estou ficando velho que começo a rememorar certos episódios altamente decepcionantes da minha infância. Vamos a eles:
O dia em que enterrei meu tesouro

Eu sempre fui fã de filmes de piratas. Sempre desejei ardentemente encontrar um tesouro numa ilha tropical e tornar-me milionário. Um dia, esta oportunidade apareceu. Eu estudava numa escola de Três Rios enquanto morava com meus avós. Um dia, a escola passava por uma daquelas olimpíadas escolares e vi um caminhãozinho descarregar um monte de caixas no fundo da escola. Estiquei o olho para ver o que poderia ser aquilo e notei que aquelas caixas estavam cheias de medalhas. Uau! Medalhas de ouro, mané!

No fim do dia, naquela algazarra da saída entrei na fila para que carimbassem a minha caderneta. Durante a fila, a turba desorganizada percebeu que o inspetor havia ido ao banheiro, colocando um garoto mais velho para segurar o pessoal no portão. Imediatamente surgiu um motim. Ninguém reconheceu a autoridade do garoto e o caos se instalou bonito. Centenas de garotos invadiram a secretaria. Eu estava no meio. Eu não era muito de fazer grandes merdas, mas eu era conhecido como “o cabeça” das maiores maluquices.

Eu apenas falei para o Marcos Paulo (o mais encapetado entre os delinqüentes dali) que havia uma “arca do tesouro” cheia de moedas de ouro lá nos fundos da secretaria.

Pronto. Só precisei disso para que no minuto seguinte, TODOS os moleques da escola saíssem correndo para a rua com os bolsos cheios de medalhas de ouro. Entre eles, eu, o pirata!

Corri para a casa da minha avó com meu tesouro. Mas tão logo cheguei lá com minhas medalhas, fui logo mostrando pra minha vó e contando como eu era um pirata esperto. Fui recebido na base da porrada.

Minha vó me meteu o couro porque sabia que eu, totalmente néscio em matéria de esportes, não teria  condições de ganhá-las. Eu não era o Michael Felps para ganhar tantas medalhas de ouro. Daí que minha avó concluiu que eu roubei a escola e a porrada comeu com vontade. Não adiantava eu alegar que era apenas mais um dos que recebeu sua “parcela” no grande saque do ano à secretaria. Minha vó brigou comigo, me deixou de castigo sem poder ir ao cine Rex ver os Goonies, e o pior, me obrigou a voltar na escola e devolver as medalhas.

Eu enxuguei as lágrimas e retornei com meu passinho de urubu cansado de volta para a escola. Os bolsos cheios de medalhas de ouro. Eu me sentia o pirata mais burro do mundo. Eu sabia que seria o único zé mané de toda a escola que iria voltar lá pra devolver as medalhas.  Eu sabia que seria crucificado como único culpado pelo saque dos moleques todos que fizeram a mesma coisa que eu. No caminho, comecei a pensar um plano alternativo, uma saída para minha situação.

Mudei de direção. Fui até a linha do trem e escavei com as mãos um buraco fundo. Me certifiquei que ninguém estava olhando. Então, peguei as medalhas de ouro do bolso. Eram umas seis, e joguei ali. Cobri com terra cuidadosamente e até reconstituí o matinho sobre o buraco. Olhei em volta para ter certeza que ninguém havia me visto enterrando o tesouro. Memorizei cuidadosamente quantos passos eu precisava dar de uma árvore até a linha do trem. Dali eu contei quantos dormentes tinham ( dormente é aquela madeira que fica debaixo do trilho)  até a rua.

Limpei as mãos e voltei para casa. Minha vó quis saber se eu havia devolvido. Eu não disse nada. Apenas olhei para baixo. Ela concluiu que eu havia levado uma senhora esculhambação na escola e estava sem graça. Não fui ver os goonies, mas passei aquela tarde desenhando o “mapa” do meu tesouro.

O tempo passou. Um mês, dois, três, quatro meses. Um ano, mais um… Todo dia, indo pra escola eu passava perto da linha do trem e pensava no meu tesouro enterrado. Veio as férias, mais um ano, outras férias. Um dia, vi na televisão a propaganda do odissey. O odissey era um videogame que parecia ter um teclado. O conjunto dava uma ilusão de superioridade tecnológica sobre o meu atari, presente do Tio Zé Carlos. O atari foi um dos presentes inesquecíveis da minha vida. Então eu tive a brilhante ideia de resgatar meu tesouro e vender para o hominho do “compro ouro” que tinha na praça da autonomia. Com certeza aquele monte de medalha de ouro me daria grana para comprar videogames, não só para mim como um para cada irmão.

Peguei o meu mapa cuidadosamente escondido numa página central de um livro da Barsa lá na casa da minha avó. Nem era preciso do mapa, pois ao longo de vários e vários meses, eu rememorava cada detalhe daquele dia, e ficava pensando quando seria o fatídico dia de reencontrar o tesouro.

Mas pegar o mapa fazia parte da “aventura”. Peguei o mesmo, fui até a rua, contei os passos, contei os dormentes, cheguei no local. Comecei a cavar.

Nada.

Não havia nada. Apenas uma terra nojenta.

Eu fiquei muito puto. O ódio me subiu a cabeça. Tive vontade de jogar uma pedra no primeiro desgraçado que eu visse pela frente. Eu não queria acreditar. Cavei o mais fundo que pude em busca das medalhas de ouro. Cavei até achar uma pedra grande. Aí concluí que estava cavando no lugar errado. Voltei na rua, olhei no mapa. Contei os passos, contei cada um daqueles dormentes desgraçados e ali estava o buraco. Um buraco cheio de …ferrugem.

Eu tive vontade de chorar. As medalhas não eram de ouro. Eu havia sido enganado. Me senti ludibriado pela escola. Onde já se viu, dar medalha de ouro falsa para os esportistas! Um absurdo.   E o pior do pior era ter apanhado da minha vó por causa daquele monte de lata vagabunda.

Naquele dia, eu decidi que a romântica vida de bucaneiro não era mesmo pra mim.

O dia em que eu passei de ano. De um ano para o outro – Episódio 1

Esta é triste. Eu tinha ficado de recuperação na quarta série. Recuperação de Matemática. Recuperação é uma merda. Você vê todos os seus amigos saindo de férias e você lá. Tendo que ir pra aula. E o pior, todo mundo pensa que você é burro, afinal, “os inteligentes passam direto”.  Pra mim, ver meus amigos saindo de férias não mudava muito a minha vida, porque simplesmente não tê-los me eximia da inveja de ver aquele bando de (com licença? ) FILHOS DA PUTA indo passar as férias em Cabo Frio.

Então, estudei pra caramba, ralei para aprender aquela maldita taboada do nove. Arme e efetue, esses nomes que parecem provenientes das mentes mais doentias dos torturadoes do DOPS. A minha professora de Matemática era uma carrasca que faria o Freddy Krueger parecer uma freira.

Quando eu finalmente consegui obter a nota mínima para passar de ano, lembro disso como se estivesse acontecendo bem agora, minha mãe olhou meu boletim e falou:

-Philipe, vai lá e fala com a coordenadora que eu quero que você repita de ano.

Sim, meu amigo. A minha própria progenitora, com meu boletim -carta de alforria nas mãos, me mandou voltar e PEDIR (olha o grau da humilhação humana) para repetir. Eu caminhei para a scretaria como quem acaba de levar um tiro na cabeça. Me sentia muito pior que apenas um burro. Me sentia um proto-burro falido. Nem sequer competência para repetir a quarta série eu tinha. Minha mãe, cheia das boas intenções, teve que me mandar na secretaria comunicar que ela queria que eu repetisse. O objetivo da estranha situação era que nós iríamos mudar de cidade e minha mãe prevendo que a próxima escola seria mais forte achou melhor que eu entrasse com um ano de defasagem.

Eu entrei na secretaria e pedi para repetir. Pela cara da coordenadora, ficou claro pra mim que aquela era a maior burrice do universo, mas quem era eu para apitar alguma coisa sobre o meu destino? Ela imediatamente anotou meu nome num bloco e entregou a secretária.

Quando mudamos, a escola para a qual eu fui era bem mais fraca que minha escola anterior, o que significa que eu joguei um ano escolar no lixo.

O Dia em que eu passei de ano. De um ano para o outro – Episódio 2

Este foi o ano da Juliana do sutiã de bolinhas. Era a sétima série. Aquele foi o ano em que eu conheci meu amigo-irmão-padrinho de casamento-parceiro de ideias malucas Paulo Rogério. Eu tinha outros grandes amigos, como o Elvis, também conhecido como Magoo, o Fabio Guaraldi, que corria bem na educação física, o fábio Tardivo, que tinha aquela voz de locutor e era alto pra caramba, o Ryan, um cara muito doido que gostava de assustar a vizinha crente usando um isqueiro e um spray de Baygon. A turma era muito legal. As meinas, principalmente, eram bem bonitas. Mas…

Eis que eu fique de recuperação em Matemática. Na sétima série, eu já havia me habituado com a maldita recuperação de Matemática, porque desde a segunda eu vinha ficando de recuperação (sempre em Matemática).

Então, depois de muito estudar, ralar feito um desgraçado em monômio, binômios e polinômios, eu me ferrei. Fui pegar o boletim e ali estava a maldita letra I, de insuficiente.

Nunca gostei muito da letra I. Ela tem aquele ridículo pinguinho em cima, como se fosse uma bola. Eu acho que inconscientemente, sempre detestei o i por causa do seu pinguinho. O I não é uma letra séria. É a única letra que fica displicentemente brincando com aquela bolinha. Veja o A por exemplo.

O A fica lá, concentradão, pernas abertas. Base fixa. Rígido. Mas e o i? O i teima em ficar com aquele chapéu ou bolinha na testa. Parece o Ronaldinho Gaúcho das letras.

Aquele i era de INSUFICIENTE.

Tudo que eu precisava. Mais uma chancela desgraçada para ostentar na minha testa. Eu não era SUFICIENTEMENTE bom para passar para a oitava série. Isso significaria não só ter que estudar aquele monte de coisa tudo de novo, mas o que é pior, ver os meus amigos mudarem de série, de camisa. Eles passariam a estudar de manhã. Eu ficaria fodidamente limitado com um bando de pirralhos de tarde, como um mongol. Aquilo somado com a decepção do maior veto de todo o universo, produziam uma estrutura dramática incomum para minha biografia escolar de pseudonerd.

Eu estava deprê. Passei as férias numa fossa do caramba. Quando finalmente estava para começar o ano, minha mãe recebeu a circular de compra de material. Ali no documento estava bem claro para qem quisesse, ver: Philipe Kling David – 8 serie B.

Eu não podia acreditar. Deus havia intercedido por mim. Algum milagre do universo, talvez o próprio Dom Bosco em pessoa, havia me salvado. Meus pais se animaram. Todos começamos a fazer planos eufóricos sobre esta “segunda chance”.

Meu pai falou comigo para eu meter a cara, tirar excelentes notas logo de cara, pois se depois disso a escola descobrisse o erro, ele processaria a escola alegando que se eu tirava nota boa na oitava série, teria que ter sido aprovado na sétima.

Aquilo tudo fazia um grande sentido pra mim. Comprei a camiseta verde da oitava série. Fui com a minha mãe comprar todos os livros e material.

No primeiro dia de aula, eu fiquei tenso. Toda vez que alguém vinha na porta da sala, eu achava que ia dar merda. Tentei sentar no fundo, de modo a não ser visto. Não despertar suspeita.

Ao fim do primeiro dia de aula na oitava série, eu me sentia liberto. Tudo dera certo. Eu estava mesmo com meus amigos. Não pagaria de burro e finalmente havia testemunhado um milagre legítimo. E útil.

No dia seguinte, cheguei cedo. Sentei no meu lugar lá atrás. Começou a aula de português. Uma a uma, as disciplinas se sucederam e tudo corria normalmente. Até que…

Até que apareceu uma pessoa na porta da sala com um papel do computador.

-Quem é Philipe Kling David aí? – Perguntou o careca bigodudo.

Imediatamente inúmeros dedos acusatórios apontaram na minha direção.

O cara entrou na sala já falando:

-O que você tá fazendo aqui na oitava série com este uniforme? Você é repetente!

… (pausa dramática)

repetente, repetente, repetente REPETENTEEEEEE!

A voz tornou-se um eco mas logo eu percebi que não era a minha mente. Era a turma inteira batucando nas mesas e gritando aquela desgraçada verdade. Eu era um maldito repetente de merda tentando dar um golpinho de quinta categoria. A escola, para se esquivar do “erro de digitação”, me acusava de tentar me infiltrar clandestinamente na oitava série.

Levantei cabisbaixo e saí de sala, ao som de “REPETENTE, REPETENTE, REPETENTE”. No caminho, notei o sorriso de satisfação de Allysson, do Bruno Torres e de tantos outros. No meio daqueles olhares notei a expressão de pena de umas meninas. A expressão de pena apunhalou meu coração com uma dor cem mil vezes pior do que os gritos daqueles tapados.

O sonho acabou. Eu voltei a usar a camiseta amarela. Um ano depois de sofrer o veto histórico da minha geração, eu voltava aos holofotes do escarnio popular com a bombástica história do “repetente clandestino”, como fiquei sendo conhecido a partir dali.