A busca de Kuran – As montanhas

Enquanto andávamos, eu pensava nas palavras dele. Leonard havia me dito quem era Kuran, mas eu ainda não conseguia entender.
Minha cabeça estava confusa demais para conseguir juntar o monte de informações que ele me passou. Kuran era apenas um nome, usado pelos magos da ordem de Leonard para se referir a um gênio, que até aquele momento eu não sabia exatamente o que era, e que por alguma razão mística que eu também não consegui compreender direito, estava ligado a tal adaga que ele havia me mostrado na barraca dias atrás.
Embora todos chamasse Kuran de Kuran, o nome do gênio não era aquele. Leonard disse que não poderia me contar o nome do gênio, sem que eu passasse a poder controlá-lo, o que certamente causaria grandes problemas, pois eu ainda não estava preparado.
Os uigures já andavam, puxando os camelos reclamões pelo deserto enquanto minha cabeça retornava constantemente às lições que Leonard me dava. Eu sentia que quanto mais tempo passava perto de Leonard, mais consciente da minha natureza eu me tornava.

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A busca de Kuran – O deserto mostra suas garras

-Falta muito? – Perguntou Joseph.
Leonard não respondeu. Apenas olhou o mapa e a bússola, tentando se localizar. Agora estávamos num mar de areia que se espalhava para todas as direções ao nosso redor. Não dava para ver o horizonte. Eu sentia que alguma coisa não estava certa. Havíamos andando pelas areias escaldantes o dia todo e naquele dia, por ordem de Leonard, nós não paramos para descansar ao meio dia.
Eu percebi que os Uigures pareciam deprimidos, já não nos olhavam mais nos olhos. A morte de dois homens e o sacrifício de um dos camelos havia realmente afetado a moral deles.
Percebi que para os Uigures a morte do camelo tinha sido muito mais que uma desgraça ocasional e passageira. Era um sinal de que nos aproximávamos do começo do nosso próprio fim. Eu temia que eles estivessem certos. Pela expressão preocupada de Leonard, ele também.

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A busca de Kuran – O primeiro passo no desconhecido

Eu estava atrás da pedra em forma de bola, e por isso os membros do grupo não viram quando eu me virei e dei de cara com… Aquilo.

Era um homem velho, de aparência decrépita, que estava me olhando fixamente. A esquálida mão agarrada firma no meu braço. Ele vestia um manto preto e não parecia feliz. O misterioso velho fez uma coisa ainda mais estranha que sua aparência. Ele falou sem mexer a boca. Ele falou dentro da minha cabeça.

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A busca de Kuran – A água mortal

Havia anoitecido e continuávamos nossa jornada silenciosa em direção ao coração do deserto. Leonard havia pedido para que o Profeta não cantasse. Também retiramos os sinos dos camelos. Era importante que não atraíssemos a atenção.

Caminhar com os camelos na escuridão absoluta do deserto era muito mais difícil do que poderia parecer. Embora a lua colaborasse surgindo por trás de finas camadas de nebulosidade que eventualmente a circundavam e espalhavam seus fracos raios em uma difusa luminosidade que apenas nos deixava ver a linha do horizonte, seria fácil errar o caminho ou dar um passo em falso e despencar do alto das enormes dunas. Andar sem saber por onde poderia nos conduzir direto à morte. Tínhamos apenas uma lanterna de querosene, das quatro usadas na expedição.Não poderíamos usar as tochas como na caravana principal, pois elas atrairiam a atenção na escuridão quase absoluta do Taklimakan.

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A busca de Kuran – Os primeiros dias no deserto da morte

Minha vista estava embaçada. O ar parecia não querer entrar nos meus pulmões. O cansaço me fazia pensar em desistir a cada novo passo.
Já era o terceiro dia em que caminhávamos, quase que nos arrastando como uma gigantesca cobra pelas areias escaldantes do Taklimakan. Eventualmente, eu me aproximava de um ou outro no decorrer de nosso caminho. Num certo momento, emparelhei com Ivan Ulvaeus, um homem estranho de cerca de trinta e oito, quarenta anos, que segundo Allan me contou, era um ex-combatente, que vivia na Suécia. Ele nascera em um lugar chamado Reiquejavique, na Islândia, no meio do gelo. Ele era meio esquimó e talvez por isso tivesse uma aparência tão peculiar. Os olhos rasgados, uma permanente expressão nada feliz. Ivan estava sempre de cara amarrada e só vi este homem sorrir uma única vez, para uma foto. Allan conhecia Ivan graças à fama dele, que o precedia. Segundo Allan me contara, Ivan era um homem mau, que não hesitaria em matar alguém que se colocasse em seu caminho. Mas ele era igualmente confiável e fiel. Havia dado provas de sua amizade a Leonard antes.
“Tome cuidado com ele!” – Me alertou o tradutor Allan Laforet.
A língua era uma barreira brutal, mas o vento que nos açoitava a carne com pequenos e cortantes grãos de areia era tão hostil que a barreira linguística se reduzia. Estávamos todos irmanados na desgraça.
Ivan olhou pra mim com seus olhos pequenos, agora ainda mais miúdos por estarem apertados para conter a claridade.
Olhei pra ele e sorri.
-Vento desgraçado, né? – Comentei.
Ele apenas olhou pra mim, depois olhou para a frente e seguiu, puxando o camelo. Obviamente, não entendeu nada. Mas não praguejou, como costumava fazer. E interpretei aquilo como um bom sinal.

Puxávamos e instigávamos os camelos através de montanhas enormes de areia o dia inteiro. Era um trabalho hercúleo, que nos levava todos à exaustão. Em alguns lugares as areias estavam excessivamente fofas, e afundávamos mais do que gostaríamos, o que exigia de nós, principalmente dos camelos, um esforço ainda maior. Isso baixava tremendamente nossa velocidade. Eu mal conseguia respirar, mas notei que os cameleiros Uigures não apenas faziam tudo que fazíamos com facilidade, como faziam cantando, e nas paradas de descanso, eles desarrumavam os camelos, preparavam a comida, montavam as cabanas, enfim, eram os primeiros a sair do descanso e os últimos a entrar. E quase nunca perdiam o bom humor.

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A busca de Kuran – A maldição de Taklimakan

Allan deu uma golada no copo de uísque. O copo esvaziou e ele foi até o outro lado da mesa, buscar mais.

Eu fiquei ali, pensativo. Seria um aviso a misteriosa frase daquele velho? Todos os meus sentidos me diziam que eu não deveria me arriscar naquele lugar poeirento. Mas agora eu estava em Markit e não havia muito que pudesse ser feito.

Tentei entender a visão daquele velho chinês. Aquela aventura parecia completamente sem sentido para qualquer pessoa que não fizesse parte da expedição. Certamente que ele pensava que nós eramos um bando de malucos cheios de dinheiro, vindos sabe-se lá de onde, do outro lado do planeta para sair andando desembestados enfrentando toda sorte de perigos num deserto onde não havia nada além de areia, dunas e pedras.Eu não podia culpar o velho por nos achar idiotas. Certamente, despreparados para enfrentar o deserto.

Neste ponto da jornada, eu ainda não sabia várias coisas. E principalmente, não conhecia os meus colegas de aventura. Apenas havia feito amizade com Allan, que me parecer ser gente boa. Mas havia muitos outros que conheci superficialmente naquela noite. De longe, sentado na cadeira de madeira, eu olhava um a um tentando detectar algum sinal que indicasse experiência. Muitos homens da expedição me pareciam velhos demais. Petrus, por exemplo. Embora demonstrasse grande vigor, eu não sabia se ele aguentaria até o fim naquela imensidão. No entanto, preferi guardar pra mim os meus pensamentos negativos do que compartilhá-los com outros membros da equipe. Uma das coisas mais importantes da aventura eu fui aprender depois, no decorrer da jornada, que era de manter um pequeno caderno de notas sempre ao alcance da mão. Ali eu colocava meus pensamentos e dividia, mesmo que com o papel, minhas angústias. Foi graças a este bloco, hoje um montinho carcomido de papel amarelado que está quase virando pó, que eu pude guardar os nomes e alguns dados de cada um dos componentes da expedição. Como eu era ruim para nomes, acabei usando o recurso da caderneta para poder me comunicar mais facilmente.

A formação original que conheci naquela primeira noite em Markit era:

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A busca de Kuran – A viagem

Quando dei por mim, eu estava sentado junto à janela, embarcado num trem rumo ao Rio de Janeiro.

Leonard era um cara estranho. Falava pouco. Mas quase sempre, o que ele falava estava certo. Eu não sei dizer o que foi exatamente que me fez confiar naquele desconhecido e largar meu mundinho para trás. Passei tantos anos lendo os livros do Julio Verne e aventuras de gibis que me ver protagonizando minha própria aventura pessoal trazia um gosto diferente do que eu estava acostumado.  Era um misto de medo e curiosidade. Eventualmente, enquanto o trem balançava em suas espaçadas e ruidosas serpenteadas pelos caminhos de ferro, eu apertava o rubi azul no meu bolso. Eu esperava que ele ficasse quente ou realizasse qualquer proeza novamente. Inúmeras vezes me perguntei se não estava sonhando, se não havia sido drogado com a bebida da festa ou se tudo aquilo não passava de um sonho muito louco. Tive medo de acordar a qualquer momento com o raio do sol entrando pela janela do quartinho. Talvez por isso eu me mantivesse acordado enquanto todos no vagão pareciam dormir pesadamente.

Leonard dormia ao meu lado. A cabeça caída para trás, a boca aberta, rocando feito um javali raivoso. Olhando assim ele não parecia tão sóbrio e elegante.

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A busca de Kuran – Como eu conheci Leonard

É engraçado escrever sobre alguém tão importante. Durante anos eu hesitei se deveria fazer isso ou não. Hoje, após pegar o maldito exame e ler o que havia nele, sinto o bafo frio da morte resfriar meu pescoço e como nunca, a vontade de contar aquilo que vivi esteve tão forte no meu coração. Mas eu não faria isso a toa.

Eu não perderia meu tempo contando sobre minha relação com Leonard, nossa história juntos e todos os problemas e apertos que passamos juntos se não fosse algo absolutamente necessário para que meu sobrinho entenda porque tomei certas decisões. E torço para que as decisões que ele venha a tomar depois disso sejam as corretas.

Se Leonard estivesse aqui hoje, com toda razão não iria gostar que eu contasse certas coisas sobre ele e sobre nossa amizade. Leonard foi muito mais que um simples amigo pra mim.

Hoje eu olho pela janela da universidade onde há muito dou aulas e me pego lembrando de como eu escapei da morte. E escapei da morte muitas vezes.

É difícil de acreditar nisso até mesmo pra mim, quando me olho no espelho e vejo aquela múmia com o qual me encontro diariamente pela manhã.

Enquanto penso como escreverei a minha aventura, sentado no silêncio do meu gabinete, minha mão velha e cheia de rugas e manchas tenta segurar a caneca com o chá fumegante. Refletindo da superfície do líquido eu vejo o lustre. E meu Deus, como o reflexo treme!

Mas houve um tempo, muitos e muitos anos atrás, quando eu ainda não tremia feito uma vara verde e não era este monte de ralos cabelos brancos, rugas, pés de galinha e manchas.  Um tempo em que eu era jovem, inocente, crédulo e forte.

Minha vida seria normal como a de qualquer pessoa comum se eu não tivesse conhecido aquele homem. Aquele dia amanheceu com os fortes raios de sol do verão entrando pela janela sem cortinas. Era um amanhecer como muitos outros, mas eu acordei diferente. Geralmente, eu acordava bem disposto e animado, mas naquele dia, tudo parecia estranhamente mais triste. Levantei para ir trabalhar ainda morrendo de sono. Eu era ajudante de uma floricultura. Eles me chamavam de auxiliar geral, mas a verdade dos fatos é que eu era um carregador de merda. Eu pegava sacos de esterco e levava para os clientes de bicicleta. A merda do boi era usada como fertilizante nos jardins dos ricaços.

Nunca fui rico. O pouco dinheiro que eu ganhava era sempre usado para comprar algumas roupas, pagar o aluguel do quartinho onde eu me hospedava, e eventualmente, comprar um gibi. Eu comia numa pensão ao lado da floricultura e minha vida se resumia a ir do quarto pra loja e da loja pra pensão e então da pensão para o quarto. Só nos domingos, eu ia a missa. Nunca fui religioso. Eu ia a missa só para ver as meninas. O domingo era o dia em que eu me permitia algumas coisas diferentes como tomar um sorvete, ir na praça e eventualmente tomar um banho no rio. Mas o mais comum era que eu pagasse um ingresso para ver os filmes na matinê.

Mas voltando ao fatídico dia em que conheci Leonard, eu estava na floricultura e enquanto empilhava uns sacos de esterco, ouvi uns passos vindo do interior da loja. Com o canto do olho reparei que uma mulher muito bonita tinha entrado na loja. Seu Epaminondas, um português muito sério e sisudo, que era o dono da Floriocultura Bragança se apressou em atender.

Ela falava baixo e pelo tom da voz dela eu percebi que tinha dinheiro. Mulheres de dinheiro sempre falavam pra dentro. Ela pediu a seu Epaminondas um arranjo floral muito caro que havia na vitrine. Ele a tratou como se tratasse uma rainha. Epaminondas era um velho odioso e ríspido que diariamente me xingava de todos os impropérios que uma mente maldosa poderia criar. Dizia que eu era molenga, que eu era fraco e burro.

Eu odiava aquele desgraçado maldito e quando ouvi pela primeira vez o velho falar como se falasse com uma rainha, mal pude acreditar. Eu vi ele ser gentil pela primeira vez na vida.

Eu olhei para trás e lá estava a mulher, enfiada num belo vestido de veludo preto. Ela esperava que seu Epaminondas retirasse o arranjo enorme da vitrine. E então ela olhou pra mim e sorriu.

Acho que foi a primeira vez na minha vida que uma mulher daquele porte me sorriu. Eu fiquei sem saber o que fazer. Sorri de volta, meio sem graça.

Nem sei quanto tempo passei perdido no meio dos olhos verdes daquela mulher. Eu sentia que ela estava me vendo por dentro. Era uma sensação estranha, como cair num buraco escuro.

Só acordei do transe quando os tradicionais gritos do senhor Epaminondas ecoaram na loja.

-Wilson! Wilson, seu molenga!

-Hã? Sim, sim senhor? – Eu respondi indo até o balcão.

-Leve o arranjo até o carro da senhora Grutzmann!

-Sim senhor! – Eu respondi. Peguei o arranjo do balcão. Era mesmo pesado para uma mulher. Ela ficou em silêncio durante todo o tempo, apenas me olhando com aqueles olhos verdes penetrantes.

Agradeceu ao senhor Epaminondas com a tradicional voz baixa. Estendeu-lhe as notas de dinheiro e saiu da loja, como uma sombra silenciosa, voando baixo atrás de mim.

Ao sair, notei um carro preto, muito bonito parado à frente da loja. Não lembro mais a marca nem o modelo, mas era um daqueles que só os ricos tem. A porta se abriu e saiu um homem de quepe. O homem deu a volta no carro e pegou o arranjo de flores de minhas mãos como se ele pesasse uma pluma.

O homem não disse nada. Apenas acondicionou o arranjo no porta-malas do carro.

Enquanto ele guardava o arranjo, a senhora Grutzmann olhou novamente pra mim e tornou a sorrir. E então ela falou comigo.

-Obrigada… Menino.

A palavra “menino” na frase daquela mulher tão deslumbrante que parecia ter saído da tela do cinema penetrou como uma faca no meu peito. Custei um pouco a notar que ela me estendia um papel dobrado. Ela agitou a mão e eu notei. Era uma nota de grande valor, dobrada ao meio.

Agradeci com a cabeça e enfiei a nota no bolso.

O chofer da senhora Grutzmann chegou perto de nós e abriu a porta de trás do automóvel. Ela entrou, ele retomou seu lugar à direção e ambos partiram. Só tive coragem de colocar a mão no bolso e apertar a nota quando o carro preto dobrou a esquina.

Era uma nota de cem. Fantástico! Com aquilo eu poderia comer no melhor restaurante da cidade e ainda sobraria dinheiro para comprar rou0pas novas.

E foi então que as coisas começaram a ficar estranhas. No meio da nota, havia um pequeno papel dobrado. Nele, escrito com caneta tinteiro, um endereço. Mas até aí tudo bem. O problema era o que havia do outro lado. Era um bilhete pra mim.

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Zumbi – Parte 16

-David? – Ela sussurrou na escuridão.
Não houve resposta. Apenas o som do vento soprando lá fora. Era um vento frio que entrava levantando poeira pela casa. A porta começou a bater com a ventania.
Alice viu os clarões no céu. Uma tempestade se anunciava.
-David? David? – Alice tateou em busca do zumbi, mas notou que a cama dele estava vazia.

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