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Paulo agarrou Clóvis pelo braço. Ele não disse nada. Apenas apontou para o monitor.

Foi Clóvis que leu o diálogo entre ele e a amiga na Suécia e em seguida olhou para Paulo com os olhos arregalados.

-Fudeu! – Disse Clóvis com terror.- Mas cadê o nome dela?

-Não sei, cara. Não sei explicar. Não apareceu pra mim.

-Ué. Que estranho. Você tem certeza que essa dona aí não tá te zoando?

-Não não, ela nem conhece a Michelle. Lê aqui ó. – Falou Paulo apontando para a tela.

-Véio, isso é muito bizarro mesmo. Mas a teoria em que o nome surge na sua mente acaba de ir para o saco, já se ligou disso?

-Que mané ligar o quê, Malucão! A Michelle vai morrer cara!

-Sim, com certeza. Nós  temos que fazer alguma coisa. Mas antes temos que pensar. – Disse Clóvis mexendo no pequeno cavanhaque ruivo.

-Aqui na Lan House é que não vamos poder fazer nada, cara. Bora pra casa dela!

Os dois levantam-se e minutos depois estão na moto de Clóvis, voando pelas ruas escuras da cidade.Enquanto pilota feito um louco, Clóvis grita para Paulo suas ideias sobre o fenômeno do site misterioso.

-…Daí que eu acho que se o nome não apareceu pra você, é sinal que a morte não queria que você soubesse, saca?

-Mas por que será?

-Não sei, não dá pra ter certeza, Paulo. Mas eu penso que deve haver uma razão para que o nome não tenha aparecido pra você. Tudo até agora me levou a crer que há um motivo oculto por trás de cada nome que surge naquele site. Você não conhecia a priori nenhuma daquelas pessoas que morreram. É possível que seja assim. Acho que os nomes de pessoas conhecidas não são mostrados, para evitar que as pessoas tentem impedir o andamento do destino.

-Então isso significa que a morte não quer que alteremos o destino.

-Sim, meu amigo. Talvez não seja possível salvar a vida da Michelle. Ou…

-Ou o que, porra?

-Ou… Se a morte não quer que façamos isso é porque justamente podemos conseguir. Afinal, qual seria a razão para ela não te revelar o nome da Michelle se a morte da sua ex-namorada fosse mesmo irreversível?

-Cara… Malucão, faz sentido! Mete bronca nessa moto aí. Ela não corre mais do que isso não?

-Se segura!

-Caraaaaaaaaaaaaaaaalh*

Malucão acelera a moto feito louco, dirigindo perigosamente.

Minutos depois, os dois chegam na porta do prédio de Mchelle. É um prédio antigo, sem porteiro nem garagem, num bairro decadente perto do centro.

Eles tocam o interfone para o apartamento da moça.  Ninguém atende. Paulo está ansioso.

-Puta que pariu, cara. Atende, desgraçada!

-Calma, brother. Calma, assim você vai infartar, porra.

-Meu, a hora tá passando, cara! Olha aí. Ninguém atende nessa porra.

-Vamos ligar pra ela.

-Isso. Isso mesmo. – Disse Paulo sacando o celular. Digitou apressado o telefone da moça.

Chamou várias vezes, mas ninguém atendia.

-Caramba, ninguém atende, cara. Cadê a Michelle, pô?

Clóvis parecia pensativo.

-Não. Eu sei o que você tá pensando, Malucão. Mas ela tá viva, cara. Eu posso sentir, meu.

-Será mesmo? Tenho minhas dúvidas, meu amigo.

Nisso, o telefone celular de Paulo tocou.

-Caralho, é ela! Alô? Michelle?

Do outro lado, Paulo escutou a moça chorando e pedindo ajuda. Seguiu-se um barulho e os dois escutaram um tiro.

Paulo ouviu pelo telefone e Malucão escutou o tiro vindo do sexto andar do prédio.

-Alô? Alô? Alôô?

Paulo desligou o telefone. Malucão já começava a meter o ombro na porta de acesso ao prédio. Mas a porta não abria.

Paulo se juntou ao amigo. Bateram na porta, mas a desgraça era muito bem construída. Não parecia fácil de abrir.

Paulo então olhou em volta e viu um vaso de concreto no jardim. Clóvis e o amigo pegaram o vaso e lançaram-no contra o vidro da portaria, estilhaçando o mesmo em milhares de fragmentos. Os dois se esgueiraram pelo buraco.

-Bora! É no sexto andar.  – Gritou Paulo, subindo pelas escadas. Malucão correu no encalço do amigo.

Os dois subiram correndo pelas escadas. Subitamente, Malucão agarrou Paulo pelo braço. Paulo estranhou e ao olhar para o amigo viu Clóvis fazendo sinal de silÇencio, com o indicador na frente da boca.

Paulo Parou e os dois ficaram parados nas escadas entre o quarto e o quinto andar.

Eles ouviram então o som de passos, correndo lá no alto. Malucão olhou pelo vão da escada e viu as mãos de alguém subindo.

Os dois tornaram a subir correndo, em silêncio na direção do apartamento de Michelle.

Ao chegarem lá, viram a porta do imóvel aberta. Paulo olhou para o amigo já temendo pelo pior.

-Cara, liga pra polícia! – Disse ao Clóvis, entregando-lhe o celular.

Os dois entraram na sala e viram uma mancha de sangue vivo respingado antiquado piso de tacos. O sangue formava uma trilha que ia do corredor do andar, passando pela  sala, indo na direção da cozinha. Paulo foi andando em silêncio. Tampava a boca com medo do que poderia ver.

Ao virarem na cozinha, Paulo viu o corpo da Ex-namorada caído. A cabeça estava numa poça de sangue escuro. A blusa clara revelava a mancha escura de um tiro a queima-roupa, emoldurado por uma flor de sangue que escorria numa pequena catarata pela lateral do corpo. Paulo ficou arrepiado com aquela imagem horrenda.  Sentiu náusea. Uma estranha sensação que ia desmaiar. Olhou ao redor e viu uma faca de cozinha na mão dela, marcada de sangue.

Na outra, o celular.

Malucão chegou na cozinha e se deparou com a cena horrível. Apoiou o braço no ombro do amigo. Os dois ficaram alguns segundos olhando para a cena.

-Caralho, eu nunca mais vou esquecer esta porra.

-Vem, cara. Vamos sair daqui.

-Olha só pra ela, cara…

-Vem, velho. Vem pra cá. – Disse Clóvis, agarrando o amigo pelo braço. Paulo relutava e sair de perto do corpo. As lágrimas escorriam dos seus olhos com facilidade.

-Cara… Me larga. Me deixa em paz. – Disse, repelindo o amigo.

-Meu, o assassino, cara. Ele estava subindo pro terraço, véi. – Disse Clóvis. Paulo ouviu aquilo e pareceu sair de uma espécie de transe.

-Bora! Bora pegar o filho da puta!

Os dois saíram correndo pelas escadas acima. Ao chegarem no ultimo andar viram o janelão que dava para o terraço quebrado.

-Foi por aqui que ele passou. -Disse Paulo.

Os dois viram as manchas de sangue pelo chão.

-Ele tá ferido, cara. Olha só. -Apontou Malucão.

Os dois passaram pela abertura que dava para o terraço.

-Tá vendo alguma coisa?

-Não. – Disse Clóvis, apertando a vista na tentativa de enxergar alguém correndo no escuro.

-Olha lá! – Gritou Paulo, apontando para o prédio ao lado.

Malucão olhou e viu alguém saltando de um prédio para o outro.

-Para aí, filho da puta! – Gritou Malucão.O estranho respondeu com dois tiros na direção deles. Paulo e Malucão se jogaram no chão.

-Caralho! Você está bem?

-Tô. Ele errou.

-Vamos atrás! – Gritou Paulo, correndo na direção do sujeito.

-Calmaí, Paulo! O sujeito tá armado, cara. Vamos por aqui. – Disse Clóvis, apontando para a escada do prédio de Michelle.

Paulo voltou e os dois desceram as escadas saltando os degraus.

-Mais rápido. Mais rápido! – Gritava Paulo, aflito.

-Tô indo, porra! – Gemia Clóvis, esbaforido.

Ao chegarem no térreo, seguiram para a esquerda, na direção do prédio lateral.

Eles estavam se aproximando quando viram a porta se abrir e alguém passar correndo na escuridão.

-Ei! – Gritou Paulo. O sujeito disparou mais um tiro. Os dois esconderam-se atrás de uma pilastra.

-É ele. – Sussurrou Clóvis.

Os dois abaixaram-se e correram atrás dos carros.

Viram quando o homem saltou para dentro de uma caminhonete, que saiu em disparada.

-Viu quem era?

-Vi. Foi a baleia.

-Maldito.

-Bora!

-Bora pra onde cara?

-A moto, véi. Pega a moto! – Disse Paulo correndo para o local onde Clóvis havia parado a moto de cross.- Vamos atrás!

Paulo e Malucão sobem na moto. Eles saem em disparada.

Nas ruas escuras da cidade não há sinal da caminhonete.

-Porra, ele sumiu, cara. -Disse Clóvis.

-Ele conhece bem este lugar. Conhece cada quebrada.

-Eu tenho uma idéia cara. -Disse Clóvis.

-Então mete bronca na sua que eu tô sem nenhuma. – Respondeu Paulo.

Malucão deu um cavalo de pau com a moto e voltou.

-Porra, tá voltando pra onde?

-Pra casa.

-Pra casa dela?

-Não. Pra minha.

-Mas e o Cardoso cara? Que doideira é essa que você tá fazendo?

-Ele tá armado, bicho. A gente tá na desvantagem. – Respondeu, lacônico o Clóvis Malucão.

Paulo agarrou forte no banco da moto, que cortava o ar em alta velocidade.

Pouco depois eles chegavam no apartamento de Malucão. Mal entraram veio seu Alfredo, o pai de Clóvis.

-Meu deus do Céu, meu Filho! Onde você andou. Sua mãe está com labirintite de preocupação!

-Calma, pai. Agora não posso explicar. Depois eu explico, eu prometo.

-Não. O senhor vai explicar agora. Que história é essa de ser demitido? Isso é verdade, meu filho?

-Como o senhor sabe? – Questionou Malucão enquanto corria para o quarto. O pai, um velho careca que usava um antiquado pijama de flanela azul foi atrás.

-Uma moça do RH ligou pra cá. Ela falou com a sua mãe. Francamente, meu filho, que vergonha… – Disse o velho seguindo os dois na direção do quarto.

-Pai, dá um tempo. Eu preciso fazer uma parada aqui. Depois a gente conversa, tá? – Disse Clóvis, empurrando o pai para fora do quarto e fechando a porta.

Do outro lado eles ouviam o pai reclamão de Clóvis, dando lições de moral. Clóvis tentava segurar a porta, enquanto o pai forçava para entrar.

-Paulo, pega ali pra mim aquela lata? – Disse apontando para uma lata toda enferrujada no alto do armário.

Paulo pegou a cadeira, subiu e pegou a lata. Entregou ao amigo.

-Segura aqui a porta, meu brother.- Falou Clóvis, passando a porta para Paulo segurar. Do outro lado, seu Alfredo.

Clóvis abriu a lata e tirou um embrulho ali de dentro.

– Que porra é essa?

Clóvis desembrulhou com cuidado o embrulho e ali estava uma pistola prateada.

-Caralho!

-Eu nunca pensei que fosse usar isso, cara. – Disse Clóvis enquanto colocava balas na pistola.

Clóvis colocou a arma na cintura, puxou a camisa para fora da calça e deixou a arma oculta pela camisa.

-Bora. – Disse.

Paulo abriu a porta e seu Alfredo quase caiu no chão.

-Pois é um absurdo que o senhor seja demitido e só agora apareça em casa para dar uma explicação. É muita falta de consideração… – Dizia seu Alfredo, enquanto Paulo e Clóvis corriam pelo corredor na direção da rua.

Minutos depois os dois estavam novamente na moto, disparando a toda velocidade rumo ao desconhecido.

No caminho, Clóvis gritava para Paulo mais detalhes de sua teoria.

-Sabe, cara… Eu acho que era inútil tentarmos impedir a morte dela.

-Pois é, Malucão.

-Talvez seja até possível mudar o destino. Talvez até seja possível, mas as implicações disso seriam difíceis de mensurar. Sabe, eu li em algum lugar sobre o complexo equilibrio da vida. Para cada pessoa que entra deve haver uma que se vai. Se por acaso a pessoa predestinada não for, seria lógico supor que alguém será escolhido para ir no lugar dela.

-Faz sentido. Mas Malucão, pra onde nós estamos indo, cara?

-Para a casa do Cardoso.-Disse o jovem, jogando a moto numa curva fechada.

Pouco tempo depois, eles estavam chegando na frente da casa do chefe.

-Hummm. O carro não está aqui. – Disse Paulo.

A casa estava toda apagada.

-É. Ele não veio pra cá.

-Ele sabe que a gente o reconheceu.

-Ele não ia dar este mole. Além disso, ele sabe que a Michelle conseguiu feri-lo. O sangue dele ta na cena do crime. Ele não tem como escapar da polícia.

-Cara… Eu acho que sei pra onde ele foi.- Disse Malucão ligando a moto e saindo em disparada. No caminho continuava a conversa com o amigo.

-Foi pra onde?

-Ele tem uma casa de veraneio a uns 150 km daqui.

-Porra Malucão. Como você sabe disso?

-Todo mundo sabe, Paulo. Menos você. O Cardoso vive tirando onda que comprou a casa, que tem piscina, que faz churrasco e coisa e tal.

-Porra, como nunca ninguém me falou?

-É que ele só convida as secretárias, as meninas do segundo andar… Eu tava dando em cima de uma garota lá no departamento de arquivo e ela que me contou que o Cardoso tava chamando geral pra ir pra lá.

-Tá zoando? Isso depois de namorar a Michelle?

-Com certeza. Véi, segundo a menina do arquivo, até suruba ele fez lá. A Michelle foi a pessoa mais chifrada da paróquia.

-Agora está morta, coitada. -Disse Paulo com a voz embargada.

-Paulo, preciso te perguntar uma parada.

-Fala cara.

-Tu tem grana pra botar uma gasosa aí?  – Disse Clóvis indo na direção do posto de gasolina.

-Claro cara!

Após abastecerem, os dois aceleraram a moto na direção do suposto sítio.

-Mas como que você vai saber onde que é o sítio do cara, meu?

-Ah, xará. Lembra que eu falei que tava quase pegando a arquivista? Nós íamos sair, tava tudo acertado, mas ela veio num dos churrascos do Cardoso. Mas aí quando a mina viu o nível da parada, amarelou e me ligou, pedindo pra eu buscar ela. Acabou que eu vi onde que é o sítio dele. Já tem um tempinho isso, mas acho que ainda acerto o caminho. Chegando lá a gente dá um jeito.

Os dois caíram na rodovia. A madrugada estava fria e haviam poucos carros na estrada.

Algum tempo depois, eles chegavam no pequeno município de Engenheiro Floriano.

Clóvis parou a moto perto da praça. A cidade estava escura e deserta.

-É aqui? – Perguntou Paulo.

-Não… Acho que é entrando naquela rua ali, à esquerda, lá no final. Passa um riozinho e segue pela trilha.

-Então vamos lá.

-Se segura, que dali pra frente é cross!

Paulo agarrou firme na cintura do amigo. A moto disparou pela trilha no fim da rua e pulava feito pipoca nos buracos.

Após algum tempo saltando pela estrada, Clóvis parou a moto em frente a entrada de um sítio.

-Se não me engano, é aqui.

-Então vamos! – Disse Paulo, pulando da moto.

-Calmaí.

-Que foi? Por que você parou?

-Eu parei pra ligar pra polícia, cara.

-Pra polícia?

-É, meu. Veja, a Michelle tá morta, cara. A gente tava preso. Nós quebramos o vidro da portaria dela, e certamente que alguém viu a gente fazer isso.

-Ummm…-Gemeu Paulo. Malucão continuou:

-A gente deixou um monte de marcas na casa, Paulo. Você tem alguma dúvida que o Farias vai desconfiar da gente? Ela era sua ex-namorada, meu chapa.

-Puta que pariu. Desconfiar não, ele vai ter certeza que fui eu que matei. -Disse Paulo, caindo na real.

Malucão discou o numero do policial, mas o telefone não atendia.

-Porra, esse cara disse que atendia 24 horas.

-Inferno brasileiro duma figa. Bora. Somos só nós mesmos, meu.

Os dois correram para a casa grande, no centro do terreno.

-Será que tem cachorro?

-Acho que não. Vem, por aqui.

Os dois entraram por trás. Esgueiraram-se perto da piscina e viram a caminhonete parada nos fundos da casa.

-Ele tá aqui mesmo.

-Você é um gênio, Malucão.

Eles chegam na porta dos fundos. Na pouca luz que ilumina a entrada, Paulo distingue pequenas gotas de sangue.

A porta está aberta. Eles entram.

-Que estranho. – Sussurra Malucão.

-O que?

-A porta… Está aberta. – Ele diz.

Ocorre um estampido na escuridão da cozinha. Um clarão aparece perto da geladeira. Um som ensurdecedor ecoa na casa.

Em seguida, a luz da cozinha acende.Paulo olha pra frente e vê Cardoso segurando uma escopeta e sorrindo.

Malucão está no chão. Caído emborcado. Foi atingido por um tiro.

Paulo salta sobre o amigo.

-Malucão? Malucão, fala comigo, cara. Fala comigo! – Grita desesperado.

-Malucão respira com dificuldade. Olha para Paulo, os olhos injetados de pavor. Malucão tenta falar, mas não consegue. Tosse sangue. A cabeça dele cai para trás. Está morto.

-É, Paulinho… Agora é sua vez. – Diz Cardoso, recarregando a escopeta.

Paulo salta o corpo do amigo e corre pelo corredor, na direção da sala. Cardoso dispara a escopeta, mas e erra o tiro.

Paulo voa por cima do sofá e cai estatelado no chão.

Logo atrás, surge Cardoso com a arma em punho. Paulo nota que ele tem o braço ferido. Há uma meia amarrada no braço dele, empapada de sangue.

-Paulinho, Paulinho… Tá na hora da verdade, seu bostinha. – Disse apontando a arma para o jovem.

-Cardoso, você sabe que é uma questão de tempo até a polícia te pegar cara.

-Por isso que eu vou te matar e não quero saber de papo furado, sua bicha.

-Por que você matou a Michelle, sua baleia?

A pergunta parece desestabilizar Cardoso. Ele baixa a escopeta.

-Ela… Ela… Descobriu.

Paulo olhou assustado ao Chefe, que parecia falar sozinho.

-Descobriu o que eu fiz. O golpe. O seu trabalho, que eu copiei e apresentei na empresa… Ela não me perdoou. Eu pedi perdão, mas ela me disse que ainda gostava de você. De você, seu maldito! Seu merda! Seu verme! Eu dei tudo pra ela, dinheiro, jóias, roupas… Mas ela só pensava em você e nessa porcaria de vida miserável de analista de contratos que você tem. – Disse Cardoso, com expressão de sofrimento. Apontou novamente a arma para o jovem e continuou: – Aí… Aí eu fui na casa dela. Eu falei com ela. Eu tentei falar com ela, convencer ela… Sabe, eu gostava mesmo dela… Mas ela não quis, não me aceitou de volta. A gente discutiu. Ela me acertou com a faca da cozinha, e correu. Eu, eu, eu… Perdi a cabeça. Eu dei um tiro nela. E você? O que você foi fazer lá, seu puto?

-Eu… Eu… Não sei.

-Fala desgraçado – Gritou Cardoso disparando um tiro bem ao lado de Paulo. Um vaso chinês explodiu em milhares de cacos.-Eu sei que você tava dando em cima dela, seu escroto…

Paulo começou a olhar em volta. Viu que um bibelô de vidro em forma de bola estava caído bem ao lado dele. Do outro lado do sofá, a menos de dois metros, estava Cardoso, apontando a arma para Paulo no chão. Cardoso continuou:

-Vai, pode começar a implorar pela sua vida, Paulo. Vai ser melhor ver você se humilhar antes de morrer. – Disse o chefe, sorrindo com uma expressão assustadora.

Paulo começou a falar o que veio à sua cabeça.

-Pelo amor de Deus, chefe, não me mata! – Enquanto falava, lentamente pegou a bola de vidro. Ele sabia que não podia errar.  Num movimento rápido, lançou a bola de vidro na cara de Cardoso. No susto, o Chefe disparou, mas errou o tiro. Ao ser atingido pelo pesado bibelô ele caiu para trás.

Paulo levantou-se e correu para a porta da sala. Estava trancada. Ao olhar para trás viu que Cardoso estava levantado e já ia com a mão para pegar a escopeta. Paulo não pensou duas vezes, correu para as escadas, atrás do chefe.

Paulo subiu os degraus correndo feito louco, sem saber o que ia fazer em seguida. Outro estampido se seguiu. Paulo continuava a correr pelo corredor. O Chefe em seu encalço.

Paulo chegou num corredor que dava acesso a seis portas. Três de cada lado. No fim do corredor havia apenas uma janela.

Paulo correu e abriu a última porta.  Estava tudo escuro.  O Jovem deu um bico na porta e ao fechar, sentiu com a mão  que haviam diversas trancas ali. Paulo tratou de passar todas as trancas na porta. Ele ficou no escuro, em silêncio tentando pensar o que fazer. Viu uma fraca luminosidade entrando pela fresta do que parecia ser uma janela.

Em seguida correu até a janela. Estava coberta com papelão grosso, colado com fita crepe. Paulo arancou o papelão e viu que haviam barras grossas de aço fechando o acesso à janela.

-Puta que pariu.

Ele escutou o chefe correndo no corredor.

Em seguida, paulo ouviu um gemido abafado. Olhou atrás de si e viu graças à pouca luz da lua que penetrava no cômodo que o ambiente parecia um escritório. Havia um computador ligado com fotos pornográficas na tela. Paulo notou que uma parte do canto do quarto tinha uma espécie de grade, uma jaula. E havia uma mulher nua, toda amarrada ali dentro. Ela era loura e tinha a boca tampada com silver tape.

Paulo reconheceu a moça de imediato. Era a garota nova do café.Paulo tentou avançar para ajudar a moça, mas ela parecia em estado de choque.

Paulo olhou e viu, pelas paredes, centenas de fotos da moça nua. Cardoso era um torturador sádico.

Cardoso girou a maçaneta do quarto, mas a porta não abriu. Ele meteu o pé na porta, que tremeu com o impacto.

-Você tá aí, né filho da puta? – Gritou o chefe do lado de fora. Ensandecido de raiva.

-Paulo não sabia o que fazer. O quarto não tinha saída. A janela estava bloqueada pelas barras de ferro. De todos os quartos, havia escolhido o pior.

Cardoso parou de chutar e tentar derrubar a porta. Houve um súbito silêncio.

Numa fração de segundo, Paulo pensou que Cardoso pudesse ter ido buscar a chave daquela porta. Mas em seguida, percebeu que era uma armadilha e se jogou para o lado como um goleiro. Foi por um tris que o tiro não o atingiu. Cardoso havia desferido um tiro na porta. O tiro abriu um pequeno buraco na porta.

Em seguida, Paulo viu o cano da escopeta entrar pelo buraco aberto na porta e disparar uma segunda vez. Mas ele estava colado na parede, e fora do raio de ação do disparo.

-Eu vou entrar aí, seu merdinha! Você não me escapa! Hoje mesmo darei seus bagos para os porcos comerem!- Gritava Cardoso do outro lado da porta.Em seguida tornou a chutar e esmurrar a porta, que já dava sinais de querer ceder.

Paulo olhou em volta em busca de alguma arma, algo para bloquear a porta. Viu que havia uma cadeira caída no chão. Posicionou a cadeira sob a maçaneta, criando um bloqueio.

Cardoso tornou a disparar tiros contra a porta, abrindo mais e mais o buraco. Ele já estava quase conseguindo enfiar uma mão pelo buraco, para destravar a porta.

Paulo olhou para o lado e viu o computador com o site pornográfico. Paulo digitou http://azrael6174.com/ e

em seguida viu a tela preta. Ele apertou F5. A tela continuava preta.

Paulo olhou para trás. Cardoso enfiava a mão pelo buraco tentando alcançar a maçaneta. Paulo olhou em volta, viu uma caneta. Ele pegou a caneta e cravou com vontade na mão de Cardoso.

O chefe soltou um urro demoníaco do outro lado da porta. Conseguiu soltar a mão com a caneta atravessada para o outro lado.

Paulo voltou-se para o computador. Ali estava escrito um nome:

PAULO ROGÉRIO DA MOTTA JR.

Era ele. Azrael havia finalmente lhe dito que a sua própria morte era iminente. Paulo perdeu as forças. Percebeu que seria inútil lutar contra Cardoso.

Cardoso tornou a enfiar a arma pelo buraco aberto na porta. Com o buraco alargado estava cada vez maior o ângulo de alcance do tiro.

Paulo se lembra de Malucão falando sobre mudar o destino. As palavras do amigo morto ecoam em sua mente:

“…Para cada pessoa que entra deve haver uma que se vai. Se por acaso a pessoa predestinada não for, seria lógico supor que alguém será escolhido para ir no lugar dela.”

Paulo lembra do Pen drive do amigo. Mete a mão no bolso e lá no fundo sente o metal gelado.

Cardoso está enfiando a arma na direção ele. Paulo salta para o chão a tempo de escapar do tiro, que atinge a perna da escrivaninha. O computador desaba no chão. A tela está de lado. Paulo está deitado, atrás da mesa. Ele vira o monitor para ele.

Ao fundo, Paulo escuta Cardoso dando fortes trancos na porta. A porta está cedendo. Ela abre parcialmente, estourando a tranca, mas a cadeira sob a maçaneta ainda está contendo a porta no lugar.

Paulo enfia o Pen drive do “Gancho” no PC de Cardoso. Aquela é sua última chance… Cardoso começa a forçar a porta parcialmente aberta e a cadeira já dá sinais que não vai aguentar muito. Desesperada, a moça acorrentada e nua na jaula, assiste a tudo com os olhos arregalados.

Paulo lembra do comentário do Malucão sobre o hack que ele havia descoberto para invadir os sites pornôs. O jovem carrega o patch. O computadir tica uma musiquinha em .mid ridícula e um capetinha desenhado em ASCII surge na tela. Em seguida surgem os nomes de uns três russos. Paulo está aflito. O tempo está se esgotando. Ao fundo, o nome dele brilha na tela preta.

Surge uma pequena janela, similar a um terminal DOS. Nela, estava escrito:

INSERT URL HERE>

Paulo olhou para a porta mais uma vez. Cardoso estava entrando A cadeira finalmente cedeu.

Paulo Digitou o site http://azrael6174.com/ e clicou em ENTER

Surgiu uma pequena tela com carcteres desconhecidos. Parecia grego ou hebraico. A janela era curta.Ali estava escrito “PAULO ROGÉRIO DA MOTTA Jr.”

Paulo apagou aquele nome e escreveu:

“CARLOS EDUARDO MAGALHÃES CARDOSO” e em seguida clicou no enter.

O patch carregou uma tela de loading e uma barrinha lentamente surgiu na tela.

Cardoso entrou no quarto.

-Mas que merda é essa? …Quase indo pra terra do pé junto e vai ver sacanagem na internet? Pode começar a rezar, filho da puta!

Paulo olha para a tela. A tela preta pisca. Um novo nome surge. É Carlos Eduardo Magalhães Cardoso. O patch de malucão funcionou.

Paulo olha para o cano à sua frente. Cardoso está com o dedo no gatilho. Paulo espera que algum acidente ocorra. Uma parada cardíaca, uma embolia pulmonar, um derrame cerebral… Mas nada disso acontece.

O chefe não morre. Paulo fecha os olhos para o derradeiro momento.

– Chegou a sua hora moleque. Agora você não escapa!

Um estampido seco ecoa no quarto. O corpo de Paulo cai no chão.  O som gradualmente se torna abafado, e Paulo sente o cheiro da pólvora. Éle sente um aperto no peito e uma dor esmagando-lhe as costelas.

Paulo abre os olhos. Está sob o corpo de Cardoso.

-Ung! Ajuda aqui. Vai, levanta.

Vozes surgem no quarto. Paulo está atordoado. Não sabe o que aconteceu.

A primeira face que ele reconhece é a de um homem careca. É o inspetor Farias.

Em poucos segundos o quarto está cheio de policiais. Os homens soltam a moça presa na jaula.  Médicos e peritos estão no quarto, fotografando tudo, e recolhendo provas.

O detetive ajuda Paulo a se livrar do pesado corpo do chefe, que caiu em cima dele.  Paulo olha no chão, Cardoso está caído, em meio a uma poça de sangue, com um tiro no meio da testa.

Salvo pelo gongo! – Diz o detetive.

Ele está morto! Comenta o jovem, surpreso.

É… – Diz o detetive, chutando o corpo gigantesco do gordão. – Acho que sim.

-Boa pontaria, hein?

-Faço o que posso. – Disse o careca.

O detetive bate no ombro de Paulo e aponta para a tela do computador, no chão.

Paulo olha para o computador. O nome Carlos Eduardo Magalhães Cardoso apaga da tela.

-O site… – Diz Farias. -Então era verdade mesmo?

Paulo apenas acena positivamente com a cabeça.

-Venha, garoto. Vamos sair daqui. – Disse o policial, amparando Paulo.

Uma semana depois, Paulo está no Cemitério. Leva flores para os túmulos de Michelle, da Mãe e de Clóvis.

Paulo para na frente do túmulo do amigo. Ele lembra das palavras de Clóvis acerca do destino, da vida e da morte.

“…Podemos estar mortos em uma realidade paralela, ou mesmo nem existir…”

Aquilo conforta Paulo. Talvez, em milhares, talvez milhões de universos paralelos o amigo esteja vivo e nada daquilo tenha realmente acontecido. Paulo pensa sobre a morte, o destino e tudo aquilo que debatia com o amigo.

-Sabe cara… Até agora eu não sei se fui eu quem matou o Cardoso, ao digitar o nome dele no site, se foi você que me deu o pendrive do hacker ou foi o Inspetor Farias que deu o tiro. Agora eu estou sozinho e não tem ninguém para vir me falar aborinhas sobre realidades paralelas, mundos do cosmos ou mitologia grega…

Paulo fez uma oração e pediu a deus que iluminasse o destino do amigo no além, ou no que quer que houvesse após a vida.

Uma mão bateu no ombro de Paulo e ele se assutou.

-Hã?

Era um homem magro de óculos fundo de garrafa.

-Seu Paulo Motta?

-Sim.

-Meu nome é Cletus. Eu sou da SegCorp.

-Pois não?

-Estamos tentando falar com o senhor tem vários dias, seu Paulo. O senhor não atende o telefone… E o celular…

-Eu perdi o celular. Mas do que se trata?

-É que recebemos uma carta, da senhora Michelle, namorada do falecido senhor Cardoso Margalhães, lá do seu setor…

-O que?

-Pois é, senhor Paulo. Ela mandou uma carta para a diretoria, informando a verdade sobre o relatório de reestruturação da companhia. Os executivos gostariam de se reunir com o senhor para tratar deste assunto.

-Mas eu fui demitido.

-Injustamente, senhor Paulo. É por isso que se o senhor desejar, terá seu emprego na empresa novamente, mas dessa vez no cargo de Superintendente de planejamento.Olha, aqui está o ofício. Assine aqui, por favor. A reunião é dia dez, quarta-feira. Tudo bem?

-S…Sim. Tudo bem.  -Disse Paulo sorrindo.

O senhor Cletus cumprimentou Paulo e saiu. Paulo ficou ali… Em frente ao tumulo do amigo.

-Você tinha razão, Malucão. Nada neste mundo é por acaso, meu amigo.

O sol está se pondo. Aquele é o fim de mais um dia sem as pessoas que ele ama.

Paulo caminha para fora do cemitério. Quando passa entre dois grandes túmulos ele vê, ao fundo, parado com os braços cruzados um homem. É o executivo do sonho. Está de óculos escuros, tem os cabelos brancos, cavanhaque branco e a cara séria e compenetrada. Exatamente como nos pesadelos. O homem olha para ele de um jeito indecifrável e misterioso.  Paulo sente a boca seca. Uma dor de estômago forte e começa a suar frio.

O homem está ali, parado, como uma estátua. O olhar fixo nele. A expressão enigmática.

Paulo move a cabeça para frente, como num cumprimento.

O homem de preto repete o movimento, sem sorrir ou demonstrar qualquer emoção.

Paulo vira as costas e sai do cemitério. Pega um táxi para casa.

Já anoitece quando Paulo chega em casa. Abre a pasta dele de cartões. Ali está o cartão preto. O jovem saca um isqueiro do bolso e queima o cartão na pia.

Enquanto o cartão queima, a chama bruxurilante do fogo ilumina o banheiro. O jovem olha o próprio rosto iluminado no espelho. E sorri:

-“Acabou!”

FIM


Para cada pessoa que entra deve haver uma que se vai. Se por acaso a pessoa predestinada não for, seria lógico supor que alguém será escolhido para ir no lugar dela.
O Cartão Negro – Parte 7

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Paulo agarrou Clóvis pelo braço. Ele não disse nada. Apenas apontou para o monitor.

Foi Clóvis que leu o diálogo entre ele e a amiga na Suécia e em seguida olhou para Paulo com os olhos arregalados.

-Fudeu! – Disse Clóvis com terror.- Mas cadê o nome dela?

-Não sei, cara. Não sei explicar. Não apareceu pra mim.

-Ué. Que estranho. Você tem certeza que essa dona aí não tá te zoando?

-Não não, ela nem conhece a Michelle. Lê aqui ó. – Falou Paulo apontando para a tela.

-Véio, isso é muito bizarro mesmo. Mas a teoria em que o nome surge na sua mente acaba de ir para o saco, já se ligou disso?

-Que mané ligar o quê, Malucão! A Michelle vai morrer cara!

-Sim, com certeza. Nós  temos que fazer alguma coisa. Mas antes temos que pensar. – Disse Clóvis mexendo no pequeno cavanhaque ruivo.

-Aqui na Lan House é que não vamos poder fazer nada, cara. Bora pra casa dela!

Os dois levantam-se e minutos depois estão na moto de Clóvis, voando pelas ruas escuras da cidade.Enquanto pilota feito um louco, Clóvis grita para Paulo suas ideias sobre o fenômeno do site misterioso.

-…Daí que eu acho que se o nome não apareceu pra você, é sinal que a morte não queria que você soubesse, saca?

-Mas por que será?

-Não sei, não dá pra ter certeza, Paulo. Mas eu penso que deve haver uma razão para que o nome não tenha aparecido pra você. Tudo até agora me levou a crer que há um motivo oculto por trás de cada nome que surge naquele site. Você não conhecia a priori nenhuma daquelas pessoas que morreram. É possível que seja assim. Acho que os nomes de pessoas conhecidas não são mostrados, para evitar que as pessoas tentem impedir o andamento do destino.

-Então isso significa que a morte não quer que alteremos o destino.

-Sim, meu amigo. Talvez não seja possível salvar a vida da Michelle. Ou…

-Ou o que, porra?

-Ou… Se a morte não quer que façamos isso é porque justamente podemos conseguir. Afinal, qual seria a razão para ela não te revelar o nome da Michelle se a morte da sua ex-namorada fosse mesmo irreversível?

-Cara… Malucão, faz sentido! Mete bronca nessa moto aí. Ela não corre mais do que isso não?

-Se segura!

-Caraaaaaaaaaaaaaaaalh*

Malucão acelera a moto feito louco, dirigindo perigosamente.

Minutos depois, os dois chegam na porta do prédio de Mchelle. É um prédio antigo, sem porteiro nem garagem, num bairro decadente perto do centro.

Eles tocam o interfone para o apartamento da moça.  Ninguém atende. Paulo está ansioso.

-Puta que pariu, cara. Atende, desgraçada!

-Calma, brother. Calma, assim você vai infartar, porra.

-Meu, a hora tá passando, cara! Olha aí. Ninguém atende nessa porra.

-Vamos ligar pra ela.

-Isso. Isso mesmo. – Disse Paulo sacando o celular. Digitou apressado o telefone da moça.

Chamou várias vezes, mas ninguém atendia.

-Caramba, ninguém atende, cara. Cadê a Michelle, pô?

Clóvis parecia pensativo.

-Não. Eu sei o que você tá pensando, Malucão. Mas ela tá viva, cara. Eu posso sentir, meu.

-Será mesmo? Tenho minhas dúvidas, meu amigo.

Nisso, o telefone celular de Paulo tocou.

-Caralho, é ela! Alô? Michelle?

Do outro lado, Paulo escutou a moça chorando e pedindo ajuda. Seguiu-se um barulho e os dois escutaram um tiro.

Paulo ouviu pelo telefone e Malucão escutou o tiro vindo do sexto andar do prédio.

-Alô? Alô? Alôô?

Paulo desligou o telefone. Malucão já começava a meter o ombro na porta de acesso ao prédio. Mas a porta não abria.

Paulo se juntou ao amigo. Bateram na porta, mas a desgraça era muito bem construída. Não parecia fácil de abrir.

Paulo então olhou em volta e viu um vaso de concreto no jardim. Clóvis e o amigo pegaram o vaso e lançaram-no contra o vidro da portaria, estilhaçando o mesmo em milhares de fragmentos. Os dois se esgueiraram pelo buraco.

-Bora! É no sexto andar.  – Gritou Paulo, subindo pelas escadas. Malucão correu no encalço do amigo.

Os dois subiram correndo pelas escadas. Subitamente, Malucão agarrou Paulo pelo braço. Paulo estranhou e ao olhar para o amigo viu Clóvis fazendo sinal de silÇencio, com o indicador na frente da boca.

Paulo Parou e os dois ficaram parados nas escadas entre o quarto e o quinto andar.

Eles ouviram então o som de passos, correndo lá no alto. Malucão olhou pelo vão da escada e viu as mãos de alguém subindo.

Os dois tornaram a subir correndo, em silêncio na direção do apartamento de Michelle.

Ao chegarem lá, viram a porta do imóvel aberta. Paulo olhou para o amigo já temendo pelo pior.

-Cara, liga pra polícia! – Disse ao Clóvis, entregando-lhe o celular.

Os dois entraram na sala e viram uma mancha de sangue vivo respingado antiquado piso de tacos. O sangue formava uma trilha que ia do corredor do andar, passando pela  sala, indo na direção da cozinha. Paulo foi andando em silêncio. Tampava a boca com medo do que poderia ver.

Ao virarem na cozinha, Paulo viu o corpo da Ex-namorada caído. A cabeça estava numa poça de sangue escuro. A blusa clara revelava a mancha escura de um tiro a queima-roupa, emoldurado por uma flor de sangue que escorria numa pequena catarata pela lateral do corpo. Paulo ficou arrepiado com aquela imagem horrenda.  Sentiu náusea. Uma estranha sensação que ia desmaiar. Olhou ao redor e viu uma faca de cozinha na mão dela, marcada de sangue.

Na outra, o celular.

Malucão chegou na cozinha e se deparou com a cena horrível. Apoiou o braço no ombro do amigo. Os dois ficaram alguns segundos olhando para a cena.

-Caralho, eu nunca mais vou esquecer esta porra.

-Vem, cara. Vamos sair daqui.

-Olha só pra ela, cara…

-Vem, velho. Vem pra cá. – Disse Clóvis, agarrando o amigo pelo braço. Paulo relutava e sair de perto do corpo. As lágrimas escorriam dos seus olhos com facilidade.

-Cara… Me larga. Me deixa em paz. – Disse, repelindo o amigo.

-Meu, o assassino, cara. Ele estava subindo pro terraço, véi. – Disse Clóvis. Paulo ouviu aquilo e pareceu sair de uma espécie de transe.

-Bora! Bora pegar o filho da puta!

Os dois saíram correndo pelas escadas acima. Ao chegarem no ultimo andar viram o janelão que dava para o terraço quebrado.

-Foi por aqui que ele passou. -Disse Paulo.

Os dois viram as manchas de sangue pelo chão.

-Ele tá ferido, cara. Olha só. -Apontou Malucão.

Os dois passaram pela abertura que dava para o terraço.

-Tá vendo alguma coisa?

-Não. – Disse Clóvis, apertando a vista na tentativa de enxergar alguém correndo no escuro.

-Olha lá! – Gritou Paulo, apontando para o prédio ao lado.

Malucão olhou e viu alguém saltando de um prédio para o outro.

-Para aí, filho da puta! – Gritou Malucão.O estranho respondeu com dois tiros na direção deles. Paulo e Malucão se jogaram no chão.

-Caralho! Você está bem?

-Tô. Ele errou.

-Vamos atrás! – Gritou Paulo, correndo na direção do sujeito.

-Calmaí, Paulo! O sujeito tá armado, cara. Vamos por aqui. – Disse Clóvis, apontando para a escada do prédio de Michelle.

Paulo voltou e os dois desceram as escadas saltando os degraus.

-Mais rápido. Mais rápido! – Gritava Paulo, aflito.

-Tô indo, porra! – Gemia Clóvis, esbaforido.

Ao chegarem no térreo, seguiram para a esquerda, na direção do prédio lateral.

Eles estavam se aproximando quando viram a porta se abrir e alguém passar correndo na escuridão.

-Ei! – Gritou Paulo. O sujeito disparou mais um tiro. Os dois esconderam-se atrás de uma pilastra.

-É ele. – Sussurrou Clóvis.

Os dois abaixaram-se e correram atrás dos carros.

Viram quando o homem saltou para dentro de uma caminhonete, que saiu em disparada.

-Viu quem era?

-Vi. Foi a baleia.

-Maldito.

-Bora!

-Bora pra onde cara?

-A moto, véi. Pega a moto! – Disse Paulo correndo para o local onde Clóvis havia parado a moto de cross.- Vamos atrás!

Paulo e Malucão sobem na moto. Eles saem em disparada.

Nas ruas escuras da cidade não há sinal da caminhonete.

-Porra, ele sumiu, cara. -Disse Clóvis.

-Ele conhece bem este lugar. Conhece cada quebrada.

-Eu tenho uma idéia cara. -Disse Clóvis.

-Então mete bronca na sua que eu tô sem nenhuma. – Respondeu Paulo.

Malucão deu um cavalo de pau com a moto e voltou.

-Porra, tá voltando pra onde?

-Pra casa.

-Pra casa dela?

-Não. Pra minha.

-Mas e o Cardoso cara? Que doideira é essa que você tá fazendo?

-Ele tá armado, bicho. A gente tá na desvantagem. – Respondeu, lacônico o Clóvis Malucão.

Paulo agarrou forte no banco da moto, que cortava o ar em alta velocidade.

Pouco depois eles chegavam no apartamento de Malucão. Mal entraram veio seu Alfredo, o pai de Clóvis.

-Meu deus do Céu, meu Filho! Onde você andou. Sua mãe está com labirintite de preocupação!

-Calma, pai. Agora não posso explicar. Depois eu explico, eu prometo.

-Não. O senhor vai explicar agora. Que história é essa de ser demitido? Isso é verdade, meu filho?

-Como o senhor sabe? – Questionou Malucão enquanto corria para o quarto. O pai, um velho careca que usava um antiquado pijama de flanela azul foi atrás.

-Uma moça do RH ligou pra cá. Ela falou com a sua mãe. Francamente, meu filho, que vergonha… – Disse o velho seguindo os dois na direção do quarto.

-Pai, dá um tempo. Eu preciso fazer uma parada aqui. Depois a gente conversa, tá? – Disse Clóvis, empurrando o pai para fora do quarto e fechando a porta.

Do outro lado eles ouviam o pai reclamão de Clóvis, dando lições de moral. Clóvis tentava segurar a porta, enquanto o pai forçava para entrar.

-Paulo, pega ali pra mim aquela lata? – Disse apontando para uma lata toda enferrujada no alto do armário.

Paulo pegou a cadeira, subiu e pegou a lata. Entregou ao amigo.

-Segura aqui a porta, meu brother.- Falou Clóvis, passando a porta para Paulo segurar. Do outro lado, seu Alfredo.

Clóvis abriu a lata e tirou um embrulho ali de dentro.

– Que porra é essa?

Clóvis desembrulhou com cuidado o embrulho e ali estava uma pistola prateada.

-Caralho!

-Eu nunca pensei que fosse usar isso, cara. – Disse Clóvis enquanto colocava balas na pistola.

Clóvis colocou a arma na cintura, puxou a camisa para fora da calça e deixou a arma oculta pela camisa.

-Bora. – Disse.

Paulo abriu a porta e seu Alfredo quase caiu no chão.

-Pois é um absurdo que o senhor seja demitido e só agora apareça em casa para dar uma explicação. É muita falta de consideração… – Dizia seu Alfredo, enquanto Paulo e Clóvis corriam pelo corredor na direção da rua.

Minutos depois os dois estavam novamente na moto, disparando a toda velocidade rumo ao desconhecido.

No caminho, Clóvis gritava para Paulo mais detalhes de sua teoria.

-Sabe, cara… Eu acho que era inútil tentarmos impedir a morte dela.

-Pois é, Malucão.

-Talvez seja até possível mudar o destino. Talvez até seja possível, mas as implicações disso seriam difíceis de mensurar. Sabe, eu li em algum lugar sobre o complexo equilibrio da vida. Para cada pessoa que entra deve haver uma que se vai. Se por acaso a pessoa predestinada não for, seria lógico supor que alguém será escolhido para ir no lugar dela.

-Faz sentido. Mas Malucão, pra onde nós estamos indo, cara?

-Para a casa do Cardoso.-Disse o jovem, jogando a moto numa curva fechada.

Pouco tempo depois, eles estavam chegando na frente da casa do chefe.

-Hummm. O carro não está aqui. – Disse Paulo.

A casa estava toda apagada.

-É. Ele não veio pra cá.

-Ele sabe que a gente o reconheceu.

-Ele não ia dar este mole. Além disso, ele sabe que a Michelle conseguiu feri-lo. O sangue dele ta na cena do crime. Ele não tem como escapar da polícia.

-Cara… Eu acho que sei pra onde ele foi.- Disse Malucão ligando a moto e saindo em disparada. No caminho continuava a conversa com o amigo.

-Foi pra onde?

-Ele tem uma casa de veraneio a uns 150 km daqui.

-Porra Malucão. Como você sabe disso?

-Todo mundo sabe, Paulo. Menos você. O Cardoso vive tirando onda que comprou a casa, que tem piscina, que faz churrasco e coisa e tal.

-Porra, como nunca ninguém me falou?

-É que ele só convida as secretárias, as meninas do segundo andar… Eu tava dando em cima de uma garota lá no departamento de arquivo e ela que me contou que o Cardoso tava chamando geral pra ir pra lá.

-Tá zoando? Isso depois de namorar a Michelle?

-Com certeza. Véi, segundo a menina do arquivo, até suruba ele fez lá. A Michelle foi a pessoa mais chifrada da paróquia.

-Agora está morta, coitada. -Disse Paulo com a voz embargada.

-Paulo, preciso te perguntar uma parada.

-Fala cara.

-Tu tem grana pra botar uma gasosa aí?  – Disse Clóvis indo na direção do posto de gasolina.

-Claro cara!

Após abastecerem, os dois aceleraram a moto na direção do suposto sítio.

-Mas como que você vai saber onde que é o sítio do cara, meu?

-Ah, xará. Lembra que eu falei que tava quase pegando a arquivista? Nós íamos sair, tava tudo acertado, mas ela veio num dos churrascos do Cardoso. Mas aí quando a mina viu o nível da parada, amarelou e me ligou, pedindo pra eu buscar ela. Acabou que eu vi onde que é o sítio dele. Já tem um tempinho isso, mas acho que ainda acerto o caminho. Chegando lá a gente dá um jeito.

Os dois caíram na rodovia. A madrugada estava fria e haviam poucos carros na estrada.

Algum tempo depois, eles chegavam no pequeno município de Engenheiro Floriano.

Clóvis parou a moto perto da praça. A cidade estava escura e deserta.

-É aqui? – Perguntou Paulo.

-Não… Acho que é entrando naquela rua ali, à esquerda, lá no final. Passa um riozinho e segue pela trilha.

-Então vamos lá.

-Se segura, que dali pra frente é cross!

Paulo agarrou firme na cintura do amigo. A moto disparou pela trilha no fim da rua e pulava feito pipoca nos buracos.

Após algum tempo saltando pela estrada, Clóvis parou a moto em frente a entrada de um sítio.

-Se não me engano, é aqui.

-Então vamos! – Disse Paulo, pulando da moto.

-Calmaí.

-Que foi? Por que você parou?

-Eu parei pra ligar pra polícia, cara.

-Pra polícia?

-É, meu. Veja, a Michelle tá morta, cara. A gente tava preso. Nós quebramos o vidro da portaria dela, e certamente que alguém viu a gente fazer isso.

-Ummm…-Gemeu Paulo. Malucão continuou:

-A gente deixou um monte de marcas na casa, Paulo. Você tem alguma dúvida que o Farias vai desconfiar da gente? Ela era sua ex-namorada, meu chapa.

-Puta que pariu. Desconfiar não, ele vai ter certeza que fui eu que matei. -Disse Paulo, caindo na real.

Malucão discou o numero do policial, mas o telefone não atendia.

-Porra, esse cara disse que atendia 24 horas.

-Inferno brasileiro duma figa. Bora. Somos só nós mesmos, meu.

Os dois correram para a casa grande, no centro do terreno.

-Será que tem cachorro?

-Acho que não. Vem, por aqui.

Os dois entraram por trás. Esgueiraram-se perto da piscina e viram a caminhonete parada nos fundos da casa.

-Ele tá aqui mesmo.

-Você é um gênio, Malucão.

Eles chegam na porta dos fundos. Na pouca luz que ilumina a entrada, Paulo distingue pequenas gotas de sangue.

A porta está aberta. Eles entram.

-Que estranho. – Sussurra Malucão.

-O que?

-A porta… Está aberta. – Ele diz.

Ocorre um estampido na escuridão da cozinha. Um clarão aparece perto da geladeira. Um som ensurdecedor ecoa na casa.

Em seguida, a luz da cozinha acende.Paulo olha pra frente e vê Cardoso segurando uma escopeta e sorrindo.

Malucão está no chão. Caído emborcado. Foi atingido por um tiro.

Paulo salta sobre o amigo.

-Malucão? Malucão, fala comigo, cara. Fala comigo! – Grita desesperado.

-Malucão respira com dificuldade. Olha para Paulo, os olhos injetados de pavor. Malucão tenta falar, mas não consegue. Tosse sangue. A cabeça dele cai para trás. Está morto.

-É, Paulinho… Agora é sua vez. – Diz Cardoso, recarregando a escopeta.

Paulo salta o corpo do amigo e corre pelo corredor, na direção da sala. Cardoso dispara a escopeta, mas e erra o tiro.

Paulo voa por cima do sofá e cai estatelado no chão.

Logo atrás, surge Cardoso com a arma em punho. Paulo nota que ele tem o braço ferido. Há uma meia amarrada no braço dele, empapada de sangue.

-Paulinho, Paulinho… Tá na hora da verdade, seu bostinha. – Disse apontando a arma para o jovem.

-Cardoso, você sabe que é uma questão de tempo até a polícia te pegar cara.

-Por isso que eu vou te matar e não quero saber de papo furado, sua bicha.

-Por que você matou a Michelle, sua baleia?

A pergunta parece desestabilizar Cardoso. Ele baixa a escopeta.

-Ela… Ela… Descobriu.

Paulo olhou assustado ao Chefe, que parecia falar sozinho.

-Descobriu o que eu fiz. O golpe. O seu trabalho, que eu copiei e apresentei na empresa… Ela não me perdoou. Eu pedi perdão, mas ela me disse que ainda gostava de você. De você, seu maldito! Seu merda! Seu verme! Eu dei tudo pra ela, dinheiro, jóias, roupas… Mas ela só pensava em você e nessa porcaria de vida miserável de analista de contratos que você tem. – Disse Cardoso, com expressão de sofrimento. Apontou novamente a arma para o jovem e continuou: – Aí… Aí eu fui na casa dela. Eu falei com ela. Eu tentei falar com ela, convencer ela… Sabe, eu gostava mesmo dela… Mas ela não quis, não me aceitou de volta. A gente discutiu. Ela me acertou com a faca da cozinha, e correu. Eu, eu, eu… Perdi a cabeça. Eu dei um tiro nela. E você? O que você foi fazer lá, seu puto?

-Eu… Eu… Não sei.

-Fala desgraçado – Gritou Cardoso disparando um tiro bem ao lado de Paulo. Um vaso chinês explodiu em milhares de cacos.-Eu sei que você tava dando em cima dela, seu escroto…

Paulo começou a olhar em volta. Viu que um bibelô de vidro em forma de bola estava caído bem ao lado dele. Do outro lado do sofá, a menos de dois metros, estava Cardoso, apontando a arma para Paulo no chão. Cardoso continuou:

-Vai, pode começar a implorar pela sua vida, Paulo. Vai ser melhor ver você se humilhar antes de morrer. – Disse o chefe, sorrindo com uma expressão assustadora.

Paulo começou a falar o que veio à sua cabeça.

-Pelo amor de Deus, chefe, não me mata! – Enquanto falava, lentamente pegou a bola de vidro. Ele sabia que não podia errar.  Num movimento rápido, lançou a bola de vidro na cara de Cardoso. No susto, o Chefe disparou, mas errou o tiro. Ao ser atingido pelo pesado bibelô ele caiu para trás.

Paulo levantou-se e correu para a porta da sala. Estava trancada. Ao olhar para trás viu que Cardoso estava levantado e já ia com a mão para pegar a escopeta. Paulo não pensou duas vezes, correu para as escadas, atrás do chefe.

Paulo subiu os degraus correndo feito louco, sem saber o que ia fazer em seguida. Outro estampido se seguiu. Paulo continuava a correr pelo corredor. O Chefe em seu encalço.

Paulo chegou num corredor que dava acesso a seis portas. Três de cada lado. No fim do corredor havia apenas uma janela.

Paulo correu e abriu a última porta.  Estava tudo escuro.  O Jovem deu um bico na porta e ao fechar, sentiu com a mão  que haviam diversas trancas ali. Paulo tratou de passar todas as trancas na porta. Ele ficou no escuro, em silêncio tentando pensar o que fazer. Viu uma fraca luminosidade entrando pela fresta do que parecia ser uma janela.

Em seguida correu até a janela. Estava coberta com papelão grosso, colado com fita crepe. Paulo arancou o papelão e viu que haviam barras grossas de aço fechando o acesso à janela.

-Puta que pariu.

Ele escutou o chefe correndo no corredor.

Em seguida, paulo ouviu um gemido abafado. Olhou atrás de si e viu graças à pouca luz da lua que penetrava no cômodo que o ambiente parecia um escritório. Havia um computador ligado com fotos pornográficas na tela. Paulo notou que uma parte do canto do quarto tinha uma espécie de grade, uma jaula. E havia uma mulher nua, toda amarrada ali dentro. Ela era loura e tinha a boca tampada com silver tape.

Paulo reconheceu a moça de imediato. Era a garota nova do café.Paulo tentou avançar para ajudar a moça, mas ela parecia em estado de choque.

Paulo olhou e viu, pelas paredes, centenas de fotos da moça nua. Cardoso era um torturador sádico.

Cardoso girou a maçaneta do quarto, mas a porta não abriu. Ele meteu o pé na porta, que tremeu com o impacto.

-Você tá aí, né filho da puta? – Gritou o chefe do lado de fora. Ensandecido de raiva.

-Paulo não sabia o que fazer. O quarto não tinha saída. A janela estava bloqueada pelas barras de ferro. De todos os quartos, havia escolhido o pior.

Cardoso parou de chutar e tentar derrubar a porta. Houve um súbito silêncio.

Numa fração de segundo, Paulo pensou que Cardoso pudesse ter ido buscar a chave daquela porta. Mas em seguida, percebeu que era uma armadilha e se jogou para o lado como um goleiro. Foi por um tris que o tiro não o atingiu. Cardoso havia desferido um tiro na porta. O tiro abriu um pequeno buraco na porta.

Em seguida, Paulo viu o cano da escopeta entrar pelo buraco aberto na porta e disparar uma segunda vez. Mas ele estava colado na parede, e fora do raio de ação do disparo.

-Eu vou entrar aí, seu merdinha! Você não me escapa! Hoje mesmo darei seus bagos para os porcos comerem!- Gritava Cardoso do outro lado da porta.Em seguida tornou a chutar e esmurrar a porta, que já dava sinais de querer ceder.

Paulo olhou em volta em busca de alguma arma, algo para bloquear a porta. Viu que havia uma cadeira caída no chão. Posicionou a cadeira sob a maçaneta, criando um bloqueio.

Cardoso tornou a disparar tiros contra a porta, abrindo mais e mais o buraco. Ele já estava quase conseguindo enfiar uma mão pelo buraco, para destravar a porta.

Paulo olhou para o lado e viu o computador com o site pornográfico. Paulo digitou http://azrael6174.com/ e

em seguida viu a tela preta. Ele apertou F5. A tela continuava preta.

Paulo olhou para trás. Cardoso enfiava a mão pelo buraco tentando alcançar a maçaneta. Paulo olhou em volta, viu uma caneta. Ele pegou a caneta e cravou com vontade na mão de Cardoso.

O chefe soltou um urro demoníaco do outro lado da porta. Conseguiu soltar a mão com a caneta atravessada para o outro lado.

Paulo voltou-se para o computador. Ali estava escrito um nome:

PAULO ROGÉRIO DA MOTTA JR.

Era ele. Azrael havia finalmente lhe dito que a sua própria morte era iminente. Paulo perdeu as forças. Percebeu que seria inútil lutar contra Cardoso.

Cardoso tornou a enfiar a arma pelo buraco aberto na porta. Com o buraco alargado estava cada vez maior o ângulo de alcance do tiro.

Paulo se lembra de Malucão falando sobre mudar o destino. As palavras do amigo morto ecoam em sua mente:

“…Para cada pessoa que entra deve haver uma que se vai. Se por acaso a pessoa predestinada não for, seria lógico supor que alguém será escolhido para ir no lugar dela.”

Paulo lembra do Pen drive do amigo. Mete a mão no bolso e lá no fundo sente o metal gelado.

Cardoso está enfiando a arma na direção ele. Paulo salta para o chão a tempo de escapar do tiro, que atinge a perna da escrivaninha. O computador desaba no chão. A tela está de lado. Paulo está deitado, atrás da mesa. Ele vira o monitor para ele.

Ao fundo, Paulo escuta Cardoso dando fortes trancos na porta. A porta está cedendo. Ela abre parcialmente, estourando a tranca, mas a cadeira sob a maçaneta ainda está contendo a porta no lugar.

Paulo enfia o Pen drive do “Gancho” no PC de Cardoso. Aquela é sua última chance… Cardoso começa a forçar a porta parcialmente aberta e a cadeira já dá sinais que não vai aguentar muito. Desesperada, a moça acorrentada e nua na jaula, assiste a tudo com os olhos arregalados.

Paulo lembra do comentário do Malucão sobre o hack que ele havia descoberto para invadir os sites pornôs. O jovem carrega o patch. O computadir tica uma musiquinha em .mid ridícula e um capetinha desenhado em ASCII surge na tela. Em seguida surgem os nomes de uns três russos. Paulo está aflito. O tempo está se esgotando. Ao fundo, o nome dele brilha na tela preta.

Surge uma pequena janela, similar a um terminal DOS. Nela, estava escrito:

INSERT URL HERE>

Paulo olhou para a porta mais uma vez. Cardoso estava entrando A cadeira finalmente cedeu.

Paulo Digitou o site http://azrael6174.com/ e clicou em ENTER

Surgiu uma pequena tela com carcteres desconhecidos. Parecia grego ou hebraico. A janela era curta.Ali estava escrito “PAULO ROGÉRIO DA MOTTA Jr.”

Paulo apagou aquele nome e escreveu:

“CARLOS EDUARDO MAGALHÃES CARDOSO” e em seguida clicou no enter.

O patch carregou uma tela de loading e uma barrinha lentamente surgiu na tela.

Cardoso entrou no quarto.

-Mas que merda é essa? …Quase indo pra terra do pé junto e vai ver sacanagem na internet? Pode começar a rezar, filho da puta!

Paulo olha para a tela. A tela preta pisca. Um novo nome surge. É Carlos Eduardo Magalhães Cardoso. O patch de malucão funcionou.

Paulo olha para o cano à sua frente. Cardoso está com o dedo no gatilho. Paulo espera que algum acidente ocorra. Uma parada cardíaca, uma embolia pulmonar, um derrame cerebral… Mas nada disso acontece.

O chefe não morre. Paulo fecha os olhos para o derradeiro momento.

– Chegou a sua hora moleque. Agora você não escapa!

Um estampido seco ecoa no quarto. O corpo de Paulo cai no chão.  O som gradualmente se torna abafado, e Paulo sente o cheiro da pólvora. Éle sente um aperto no peito e uma dor esmagando-lhe as costelas.

Paulo abre os olhos. Está sob o corpo de Cardoso.

-Ung! Ajuda aqui. Vai, levanta.

Vozes surgem no quarto. Paulo está atordoado. Não sabe o que aconteceu.

A primeira face que ele reconhece é a de um homem careca. É o inspetor Farias.

Em poucos segundos o quarto está cheio de policiais. Os homens soltam a moça presa na jaula.  Médicos e peritos estão no quarto, fotografando tudo, e recolhendo provas.

O detetive ajuda Paulo a se livrar do pesado corpo do chefe, que caiu em cima dele.  Paulo olha no chão, Cardoso está caído, em meio a uma poça de sangue, com um tiro no meio da testa.

Salvo pelo gongo! – Diz o detetive.

Ele está morto! Comenta o jovem, surpreso.

É… – Diz o detetive, chutando o corpo gigantesco do gordão. – Acho que sim.

-Boa pontaria, hein?

-Faço o que posso. – Disse o careca.

O detetive bate no ombro de Paulo e aponta para a tela do computador, no chão.

Paulo olha para o computador. O nome Carlos Eduardo Magalhães Cardoso apaga da tela.

-O site… – Diz Farias. -Então era verdade mesmo?

Paulo apenas acena positivamente com a cabeça.

-Venha, garoto. Vamos sair daqui. – Disse o policial, amparando Paulo.

Uma semana depois, Paulo está no Cemitério. Leva flores para os túmulos de Michelle, da Mãe e de Clóvis.

Paulo para na frente do túmulo do amigo. Ele lembra das palavras de Clóvis acerca do destino, da vida e da morte.

“…Podemos estar mortos em uma realidade paralela, ou mesmo nem existir…”

Aquilo conforta Paulo. Talvez, em milhares, talvez milhões de universos paralelos o amigo esteja vivo e nada daquilo tenha realmente acontecido. Paulo pensa sobre a morte, o destino e tudo aquilo que debatia com o amigo.

-Sabe cara… Até agora eu não sei se fui eu quem matou o Cardoso, ao digitar o nome dele no site, se foi você que me deu o pendrive do hacker ou foi o Inspetor Farias que deu o tiro. Agora eu estou sozinho e não tem ninguém para vir me falar aborinhas sobre realidades paralelas, mundos do cosmos ou mitologia grega…

Paulo fez uma oração e pediu a deus que iluminasse o destino do amigo no além, ou no que quer que houvesse após a vida.

Uma mão bateu no ombro de Paulo e ele se assutou.

-Hã?

Era um homem magro de óculos fundo de garrafa.

-Seu Paulo Motta?

-Sim.

-Meu nome é Cletus. Eu sou da SegCorp.

-Pois não?

-Estamos tentando falar com o senhor tem vários dias, seu Paulo. O senhor não atende o telefone… E o celular…

-Eu perdi o celular. Mas do que se trata?

-É que recebemos uma carta, da senhora Michelle, namorada do falecido senhor Cardoso Margalhães, lá do seu setor…

-O que?

-Pois é, senhor Paulo. Ela mandou uma carta para a diretoria, informando a verdade sobre o relatório de reestruturação da companhia. Os executivos gostariam de se reunir com o senhor para tratar deste assunto.

-Mas eu fui demitido.

-Injustamente, senhor Paulo. É por isso que se o senhor desejar, terá seu emprego na empresa novamente, mas dessa vez no cargo de Superintendente de planejamento.Olha, aqui está o ofício. Assine aqui, por favor. A reunião é dia dez, quarta-feira. Tudo bem?

-S…Sim. Tudo bem.  -Disse Paulo sorrindo.

O senhor Cletus cumprimentou Paulo e saiu. Paulo ficou ali… Em frente ao tumulo do amigo.

-Você tinha razão, Malucão. Nada neste mundo é por acaso, meu amigo.

O sol está se pondo. Aquele é o fim de mais um dia sem as pessoas que ele ama.

Paulo caminha para fora do cemitério. Quando passa entre dois grandes túmulos ele vê, ao fundo, parado com os braços cruzados um homem. É o executivo do sonho. Está de óculos escuros, tem os cabelos brancos, cavanhaque branco e a cara séria e compenetrada. Exatamente como nos pesadelos. O homem olha para ele de um jeito indecifrável e misterioso.  Paulo sente a boca seca. Uma dor de estômago forte e começa a suar frio.

O homem está ali, parado, como uma estátua. O olhar fixo nele. A expressão enigmática.

Paulo move a cabeça para frente, como num cumprimento.

O homem de preto repete o movimento, sem sorrir ou demonstrar qualquer emoção.

Paulo vira as costas e sai do cemitério. Pega um táxi para casa.

Já anoitece quando Paulo chega em casa. Abre a pasta dele de cartões. Ali está o cartão preto. O jovem saca um isqueiro do bolso e queima o cartão na pia.

Enquanto o cartão queima, a chama bruxurilante do fogo ilumina o banheiro. O jovem olha o próprio rosto iluminado no espelho. E sorri:

-“Acabou!”

FIM


Para cada pessoa que entra deve haver uma que se vai. Se por acaso a pessoa predestinada não for, seria lógico supor que alguém será escolhido para ir no lugar dela.
O Cartão Negro – Parte 7

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