Confundido com bandido pela PM: Quase dancei sem música, comi capim pela raiz, abotoei o paletó de madeira… De novo!

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É incontestável. A maturidade traz consigo vantagens e desvantagens em ficar velho. Não sei em que categoria está a perene sensação de que eu “estou no bônus”.
Veja, eu já passei uns apertos… Mais que a maioria das pessoas normais passa.

Eu já quase morri numa geladeira, já quase morri jogado da Torre do Niterói Shopping, já fui perseguido por um maníaco numa brasília creme, uma maluca (atualmente foragida por homicídio) já teve atração fatal por mim, Já quase morri torrado um motel, já quase morri esmagado por uma onda gigante, já quase caí dum penhasco dormindo ao volante, já escapei de batida de carro, de atropelamento, já quase fui triturado debaixo do motor dum caminhão, já tive um tumor no lugar onde o sol não brilha, já tive fuzis dos marines dos EUA apontados na minha cara numa confusão de aeroporto pós 11 de setembro, Já desmaiei de tanto comer e caí de cabeça no box do banheiro, já quase morri de fome e exaustão, já fui confundido com olheiro da polícia por traficante em morro, já soube que meu sósia estava jurado de morte na cidade aqui do lado (e por isso não vou lá), já tive em avião que eu achei que ia cair (e as comissárias tb), já quase morri baleado num assalto, já me ferrei de tanto jeito esquisito que realmente, a única conclusão viável é que eu estou no bônus.

Hoje aconteceu mais uma.

Saí apressado para pegar o Davi na escola. Meu estudio (como sabe quem acompanhou a saga de como consegui e perdi um estudio, e como consegui outro estudio bem melhor) fica em Niterói (Vice City) que é uma cidade-satélite da cidade do Rio de Janeiro, separadas por uma ponte (que por acaso é um dos lugares onde eu ja quase morri duas vezes) enorme. Niterói está espremida entre Rio e São Gonçalo, onde abundam a violência e por isso sofre diretamente com isso. É normal a gente acordar com o banco do lado de casa sendo explodido, a gente nem liga mais quando esta vendo Tv e rola uma rajada de metralhadora na rua. Sim, metralhadora.
De vez em quando o transito engarrafa porque o BOPE, a CORE, a PM, e sei la mais quem está fazendo “operação” dando rasante de helicóptero por cima dos morros. E tem morro para caramba aqui, véi.
É GTA. Mas na real, é mais violento que GTA, pq aqui na minha cidade, você segue o aplicativo e pode ser metralhado só porque você foi “lá”. Entrar errado, cair num lugar desconhecido, pode fazer a diferença entre estar encarnado e desencarnado. Rola uns negócios surreais demais aqui. 

O Grau de violência a que estamos submetidos é tremendo, e tão surreal que as pessoas que moram por exemplo, no Canadá, simplesmente não conseguem entender. É inútil explicar, porque você vai passar por mentiroso. Aqui o bandido pode te matar se ele quiser seu dinheiro, carro, seu celular, sua mulher, seu tênis, ou só porque estava “afim” de matar. A violência é em grande parte um reflexo da falta de profissionalismo dos narcotraficantes como eu já comentei aqui. 

É de se esperar que num ambiente assim, a polícia haja com um misto de desconfiança e dureza, pois a morte rodeia os caras como parte do trabalho deles. Não por acaso, no Rio as mortes de policiais atinge números alarmantes, e felizmente vem caindo, mas chegou a assustadores 371 policiais assassinados em 2017. Em contrapartida, a polícia do Rio é a que mais mata. Está, como dizem aqui, “passando o rodo em geral”. Entre janeiro e maio, as forças de segurança do estado foram responsáveis por 731 mortes, ou quase 5 por dia. Com isso a polícia aqui chega a maior taxa de letalidade em 21 anos.
Assim, é importante contextualizar essa situação de violência por todos os lados. O carioca vive com medo. Tem medo do bandido, do assaltante, do traficante, do miliciano, e claro, medo da polícia. O volume de casos em que os agentes das forças de segurança do Rio se “confundem” e matam inocentes por aqui é enorme. É um dos ingredientes do pânico.

AwesomeScreenshot Policiais ficaram de deboche diz mulher de m sico morto pelo Ex rcito JORNAL O TEMPO 2019 07 03 19 07 73 | Aventuras | aventura, bandidos, crime, morte, rio, violência

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Uma furadeira, um guarda-chuva, um simples saco de pipoca, um carro da mesma cor do que tinha sido reportado com bandidos, podem fazer a polícia entrar em modo “larga o aço”. Com o policial mal remunerado, mal treinado, e mal aparelhado, temendo pela própria vida 24h por dia, qualquer situação dúbia pode não dar tempo de discernir sobre “a mãe de quem que vai chorar”.

É um ambiente maluco.

Saí do estudio apressado. Enquanto fechava o portão, vi passar uma viatura da PM à toda. Pensei:

“Nossa, que bom, estão patrulhando a área”.

Fechei o portão normalmente e peguei o carro pra ir pra escola. Daí eu estava indo pra escola do Davi apressado quando notei que atrás de mim, na estrada de terra, a uma boa velocidade, em meio a nuvem de poeira que meu carro levantava, surgiu o girolight de um carro de polícia. Calculei que deviam estar indo junto com o primeiro. Mas como o caminho estava em obras, sem espaço para dois veículos, acelerei para chegar no ponto em que os policiais poderiam me ultrapassar. Estranhei quando eles também reduziram.
Como eles reduziram, imaginei que iriam para o posto policial na entrada da rua e voltei a acelerar. Daí os caras colaram o carro na minha traseira e deram dois toquinhos na sirene. Entendi que era pra eu parar. Parei.
Eles pararam e nada aconteceu. Fiquei esperando. Nada. Como eu estava com pressa e eles não fizeram nada (deviam estar puxando minha placa no sistema, com certeza) eu fiz menção de andar. Daí pularam dois policiais do carro. Um com uma metralhadora e outro com uma pistola.

A escola é foda. Você aprende a fórmula de Bhaskara, você aprende Log, Prosopopeia, Éclise, Mol, Nox, aprende até a capital da Suazilândia (è Mbabane), mas ninguém te diz como você deve agir quando tem um policial com uma metralhadora apontada na sua cabeça, atrás do seu carro gritando “coisas”. Abrir o vidro? Abrir a porta? Levantar os braços?  Botar as mãos na nuca? Pegar os documentos? Rezar?
Eu não tinha a minima ideia do que eu deveria fazer. Diante dessa situação incomum, reagi de uma maneira estranha. Eu abri o vidro e comecei a rir.
O policial estava com medo. Vi nos olhos dele. O dedo no gatilho da metralhadora. O outro atravessou a rua e ficou perto do muro com as duas mãos na pistola.
Assim que botei a cabeça para fora da janela e olhei pra trás notei que ele viu minha cara de nerd-pai-de-família e ficou aliviado na hora. (Ele e eu, lógico.)

Eu disse:

– Desculpa policial,  eu acelerei pra vocês me passarem.
-Você tá maluco? Tá maluco? Tá fugindo de que ô porra?
-Eu não tava fugindo, eu estava indo buscar meu filho na escola.
-Você quase levou tiro! – Ele disse, baixando a arma.

Sem saber o que dizer, eu falei:

– Obrigado!  – Depois me senti retardado por ter agradecido.
-Vai, pode ir. – Ele disse, balançando o cano da arma na direção da rua.
Daí eu vi no carro da frente uma velha num fusca,  que tava quase cuspindo a dentadura dela de pânico.

Saí devagarzinho com meu carro pensando nesses casos em que o cara é confundido e se ferra. Fiquei pensando, e se eu não fosse branco? E se nesse sol danado eu estivesse de boné?

Hoje quase que foi a minha mãe que chorou.
Hoje bateu na trave. Hoje.