Zumbi – Parte 12

Alice andou para trás, assustada. Ela sentia um misto de horror, pavor e desapontamento.

David Carlyle Deu apenas mais um passo e parou. Ele olhou para ela com seu olhar vazio. E então virou-se, voltando a adentrar a floresta. Alice viu o zumbi caminhar com seus passos sempre vacilantes até sumir entre as folhagens.

Só então ela respirou. Percebeu que estava ofegante, havia ficado contraída, sem respirar dado o medo. Ela olhou os cadáveres dos lobos. Um tinha a cabeça esfacelada, de onde descia uma fina cascata de sangue pela trilha.

Alice correu para a acabana. Ela entrou e trancou-se lá. Sentou na cama e chorou.

Ela chorou por vários minutos. Aquele era o pior dia de sua vida. Lembrou dos lobos, e do pavor que sentiu quando as balas acabaram e os animais a alcançaram.
David havia salvado sua pele, como fez outras vezes, mas nada a havia preparado para descobrir que ele agora era um dos mortos vivos antropófagos que se espalham lá fora a cada dia.
Por alguma razão ele conteve sua natureza e não ousou atacá-la.
Sua cabeça era uma confusão completa. Em alguns momentos, Alice se pegava agarrada em pensamentos como o de que talvez David não fosse um zumbi. Talvez estivesse apenas muito machucado, muito desidratado pelo sol. Talvez tivesse desmaiado na cachoeira, caído e batido a cabeça numa pedra. Quando ela achou que ele estava morto, na verdade estava apenas com hipotermia. Ao ser colocado na pedra quente, o corpo de David recuperou o preciso calor necessário para a vida humana e ele despertou, sem que ela estivesse ali para ajudá-lo. Talvez David tenha vagado perdido pela floresta buscando uma forma de retornar à cabana…

Mas esses pensamentos não duravam o suficiente. Eram pequenas tábuas de salvação no qual ela desesperadamente se agarrava, apenas para ficar alguns segundos sentindo uma coisa que era boa, para em seguida desabar, aos prantos num sofrimento terrível de perceber que agora estava sozinha.
A tarde já ia longe e os raios alaranjados do por do sol adentravam pela janela da cabana.
Alice sabia que ela precisava sair daquele lugar ermo, repleto de criaturas selvagens e agora com um zumbi nas vizinhanças.
Mas naquela altura, seria loucura sair da cabana, percorrer a trilha até a administração do parque, onde estava o carro. Alice conhecia bem aquelas coisas. Eles ficam mais ativos durante a noite.
Alice olhou a garrafa de vinho vazia no chão da cabana, perto da pia. Agora, tudo naquele lugar lhe lembrava de David.

Ela não resistiu e voltou seus pensamentos para David. Lembrou-se da noite feliz que passaram juntos, de pileque por causa do vinho. Lembrou da tórrida noite de amor em frente a lareira.
Voltou a pensar no David Zumbi. Era óbvio que ele realmente estava morto. Dava para ver em sua expressão perdida, vazia. Ele agora era apenas mais uma daquelas criaturas sem vida que vaga na escuridão em busca de gente para comer.
Mas zumbis não usam ferramentas. Em todo o tempo que viveu fugindo da contaminação, ela nunca tinha visto um zumbi usar uma arma, mesmo sendo um pedaço de pau de enxada.
Aquilo era realmente estranho. Mas ainda mais estranho era o fato de que David tinha lutado contra os lobos, mas não avançou sobre ela com um ataque mortal.
Alice até podia entender que um zumbi atacasse os lobos, que saltavam sobre ela. É um mecanismo básco, presente em todos os animais da natureza. Quando um predador hierarquicamente superiror detecta que outros predadores inferiores na cadeia alimentar obtiveram uma boa presa, ele parte para cima e afasta os “subalternos”, para se satisfazer com o serviço já adiantado. Era assim com os ursos e com os leões nas savanas africanas. Este comportamento é descrito em praticamente todos aqueles manuais de caça que Alice leu no curso. O que não faz o menor sentido é o zumbi fazer isso e fugir para a floresta em seguida.

Alice olhou pela janela. A noite já começava a cair e os últimos raios do por do sol sumiam atrás da montanha, refletindo o tom violeta do céu na superfície do lago. A jovem viu que a cabana já estava imersa em quase total escuridão. Pensou em acender a lareira, mas a madeira estava do lado de fora. Além do mais, a luz da lareira poderia atrair David.
Ela se conscientizou que iria passar a noite naquela cabana. Sem arma. Sem tranquilidade.
Lembrou que os corpos dos lobos jogados na trilha perto da cabana certamente iriam apodrecer e atrairiam animais carniceiros para perto. Mas já era tarde, e sair para pegar aqueles cadáveres e se livrar deles seria um desafio. Tudo que ela podia fazer era trancar bem a porta, usar uma cadeira para firmar a tranca. Se houvesse um jeito de colocar uma tábua nas janelas, ela se sentiria mais segura. Mas não havia tábua nem ferramentas. A cabana tinha duas janelas, que não eram muito grandes, mas que permitiriam ao zumbi meter-se por ali para atacá-la.
Alice foi até o armário e pegou os fósforos. Com eles iluminou durante poucos segundos o ambiente, para procurar as velas. Ela havia visto uma caixa de velas em algum lugar da cabana.
Minutos depois e cerca de vinte palitos gastos para iluminar, ela finalmente achou o pacote de velas, que estava perto da lareira.

Alice acendeu uma vela debaixo da mesa, de modo que a sombra do tampo, dificultasse a ver de fora o brilho da luz na cabana.

Ela vasculhou as sacolas de alimento em busca de algo para comer. Achou um vidro de maionese e uma lata de atum com tampa abre-fácil.
-Deus abençoe o cara que inventou esta merda! – Disse ela, abrindo a lata.
Havia também um pacote de biscoito cream cracker, que ela usou para passar a mistura de atum com maionese em cima. Ainda restavam duas garrafas de água mineral.
Alice sentou-se perto da cama, no chão. E praticamente oculta sob a mesa, comeu ávidamente.
Aquele tinha sido um dia cheio e os exercícios de correr na floresta, carregar o corpo de David de um lado para o outro, saltar na cachoeira, descer e subir a trilha da montanha a tinham deixado exaurida. Ela não havia comido ou tomado café da manhã e a fome era terrível.

Após comer o pacote inteiro de cream cracker com maionese de atum, e em seguida outro pacote de salgadinhos e mais duas barras de chocolate de sobremesa, Alice pensou em dormir. Ela removeu a vela, pegou o colchão da cama e jogou sob a mesa. Apagou a vela e tentou dormir. Sentia-se mais segura escondida sob a mesa.

Levou um tempo para que conseguisse dormir e antes de pegar no sono e se entregar, Alice ficou pensando na razão que levou David a não atacá-la. Zumbis não recusam carne. Ela lembrou-se de tudo que ele havia dito na viagem sobre como os homens de branco queriam que ele fosse uma cobaia para testar o comportamento do virus em seu corpo. Talvez ele fosse mesmo diferente.
Alice ficou pensando naquilo e finalmente relaxou, até que dormiu.

-Vai se foder seu babaca! – Berrou Edson, socando a porta do trailer.
Edson estava puto. Aquela era a terceira vez que o trailer parava por falta de combustível na mão de Michael.
-Porra, esta bosta bebe pra caralho! Como que eu ia saber, Edson? Agora a culpa é minha?
-É! Você que só pegou um galão de gasolina. Porra, você tinha que ter pego mais.
-Mas foi o máximo que tinha no latão porra!
-Então você tinha que ter me avisado, seu inútil. Agora por causa dessa sua babaquice, olha onde a gente está. Olha ao redor. Tá vendo cidade? Tá vendo estrada? Não. Só mato. Mato, caralho!
-Você que é um babaca. Você devia ser grato pelo que eu fiz por você, seu otário!
-Ah, olha aí como que você é! Basta uma discussão para jogar na minha cara essa sua mania de gratidão eterna.
-Se você tivesse me salvado daquelas merdas lá, eu pelo menos seria grato e não falaria assim com você.
-Tá bom, tá bom. Não fode, baixinho de merda. -Resmungou Edson.
-Do que você me chamou?
-Ah, não enche, cara. O que eu quero saber é: E agora? E se aqui nesse matagal do caralho tiver um monte de zumbis? Esses caras vão cercar o trailer e não demora vão entrar aqui e comer a gente. E aí? E aí? E aí? E aí? E…
-Porra, para de repetir esta merda! Parece vitrola enguiçada. Eu não sou surdo. Estou pensando aqui no que vamos fazer. Pelo mapa, deve estar perto, cara.
-Ah, não. Meu Deus… Querido papai do céu! Não deixa este deficiente mental resolver sair no meio do matagal para procurar a sede do parque! – Disse Edson juntando as mãos e olhando para o céu fingindo rezar.
-É a única coisa que podemos fazer, Ed. Ou é isso ou vamos ter que passar a noite aqui, em plena floresta. – Disse Michael, pegando a escopeta.
-Pelo menos estamos seguros no trailer, cara.
-Seguros o caralho! Se esses bichos estiverem lá fora, não tarda vão cercar a gente aqui. E uma vez cercados, não teremos como fugir. Eles vão começar a gritar daquele jeito e virão em cada vez maior numero. – Disse Michael, mexendo na mochila.
-O que você está fazendo?
-Pegando água, umas frutas e barras de cereal. – Respondeu Michael.
-Porra cara. Que merda. Tu tá falando sério mesmo, né?
-É o único jeito. Pelos meus cálculos estamos a uns 800 metros, talvez um quilômetro e meio da sede do parque. Toma, pega a lanterna. – Disse Michael para Ed, lançando-lhe a lanterna de xenon.
-Calma aí. Eu concordei com esta ideia maluca de ir me esconder nas montanhas até que a zumbizada morra de vez. Mas como vamos fazer com o porrilhão de comida aí atrás?
-Uma coisa de cada vez! Cara, vamos salvar nossa pele. Amanhã, com luz, a gente monta um plano e volta aqui com cuidado. Certamente que na administração do parque, eles tem os barcos que meu pai usava para pescar no lago… Certamente tem combustível lá no galpão dos barcos. Vem. Qual você vai querer? A HK , o M16 ou o FN 2000?
-Me dá o FN, que o M16 me dá bolha aqui, ó. Esquenta pra caralho na coronha. Tá carregado?
-Tá tudo carregado.
-Ok. Calmaí que eu vou pegar o sobretudo.
-Porra… Lá vai ele.
-Que foi, cara?
-Tu não vai na boate não, Ed. Vamos sair no mato, cara.
-Meu, olha só. O sobretudo é preto, a roupa é toda preta. O que eu não quero é que os zumbis lá fora me vejam.
-Tá bom, bota logo essa merda aí e vamos. Quanto mais a gente demora, mais vulneráveis vamos ficando.

-Bora! No três. É um… É dois…
-Três! – Gritou Michael. Os dos homens saltaram do trailer e saíram correndo pela floresta.
-Me segue. – Falou Michael com a voz rouca.
Os dois iam iluminando o caminho com as poderosas lanternas militares.
Subitamente Michael fez um movimento com a mão fechada. Ed. Parou e ficou ao lado dele, apontando a lanterna e a arma para a floresta ao redor deles.
-Que foi? Viu alguma coisa?
-Não, nada. Estamos na trilha. Olha… Passou um carro aqui recentemente. Veja as marcas na lama… Estão bem nítidas.
-Bora baixinho?
-Baixinho é a puta que te pariu!
-Vamos, não querio ficar dando mole pro azar aqui no meio do mato.
-Por aqui. Vem. – Disse Michael, correndo com a arma em punho e a lanterna apontada no chão.
-Ei… Calmaí. – Sussurrou Ed.
-Hã?
-Eu vi alguma coisa.
-O que? O que foi? – Disse Michael, apontando a lanterna para a floresta.
-Onde?
-Ali… – Disse Ed, apontando o facho numa área específica.
-Você viu?
-Parecia uma pessoa. Estava atrás da árvore, olhando pra nós. Eu apontei a lanterna e ela se escondeu.
-O que a gente faz? Gritamos?
-Shhhh! E se for um zumbi?
-Porra, acho que se fosse um zumbi, já teria vindo pra cima da gente.
-Você acha que ainda está lá.
-Eu acho que está abaixado ali atrás daquela moita. Perto daquele tronco.
-Vamos lá. Vem, me dá cobertura. – Sussurrou Michael.

Os dois homens saíram da trilha com as armas apontadas na direção do mato.
-Michael… – Sussurrou Ed.
-Que?
-Sua ideia de trazer a escopeta foi estúpida hein?
-Porra, não tira minha concentração, Ed. Se não tem nada melhor pra falar fica quieto, caralho.
-Tanta arma melhor no trailer, vai pegar logo esta porra ruim pra caralho pra recarregar. Tsc, Tsc…
-Cala o caralho da sua boca, faz favor!
-Shhhh! Ok, ok!
Os dois avançaram pela lateral da trilha, se aproximando cada vez mais da árvore. As lanternas apontadas no tronco.
-Olha, tem mesmo alguma coisa ali. -Apontou Ed.
Os dois deram mais dois passos.
Subitamente uma cabeça levantou do meio da moita.
-Ahhhh! – Ed Levou um susto.
-Puta que pariu!
Era a cabeça de um pequeno veado da floresta. Ele ficou ali por dois segundos, olhando na direção da lanterna, o que dava a ele um aspecto fantasmagórico com a luz refletida nos olhos do animal.
O veado saltou para a escuridão e os dois ouviram o animal se metendo no mato ao longe.
-Nossa. Achei que meu coração ia parar.
-Hahaha. Cara, que foda. Por um instante achei que pudesse ser um zumbi. O Veado nunca passou tão operto de virar purê. Vem, vamos voltar para a trilha.

Os dois retornaram para a trilha. Continuaram a seguir os rastros dos pneus.
Quase uma hora depois, quando eles finalmente chegaram à administração do parque, viram os carros estacionados.
-Ed, olha só isso.
-As marcas eram desse aí. O outro está com os pneus carecas.
-É uma lata velha. – Disse Michael, apontando a lanterna na direção do carro de Don e Shirley.
-Michael, eu acho que essas pessoas estão por aqui, cara…
-Onde? – Perguntou o baixinho, apontando a escopeta para os arredores.
-Eu ouvi algo vindo dali. – Apontou Ed.
-Ah, deve ser outro bicho. Aqui está cheio de bicho, cara. Vem, vamos pela margem do lago. Se não me engano, a cabana central é por ali.
Os dois avançaram pela estradinha de paralelepípedo, em direção a construção. Era uma cabana enorme, de madeira em estilo chalé.
-É aqui, Ed. – Disse Michael, iluminando a placa da administração.
-Hummm. Maneiro.
-Acho que podemos passar a noite aqui. Será que está trancada? Me dá cobertura.
-Ok.
Os dois subiram o pequeno lance de escadas que dava na varanda de madeira que circundava a administração.
– Puta merda. Trancada. E agora? O que a gente faz? – Disse Ed.
-E se a gente atirar na fechadura? Talvez abra. – Questionou Michael.
-Não… Vai atrair a atenção… Deve ter zumbi por aqui, cara. Tu viu os carros lá fora… – Ed estava preocupado com o barulho no mato.
-Eu vi. Mas e agora? – Michael ficou pensativo.
-Cara… Não olhe agora, mas ou o veado gostou da gente, ou tem mesmo alguma coisa dando a volta na cabana. Eu vi o movimento do mato.
-Já sei. Tinha antigamente uma barraca de madeira aqui perto, fica na beira do lago, perto da oficina dos barcos. Lá eles guardam as ferramentas. Deve ter um pé de cabra, uma coisa assim lá.
-Ok… Vamos, mas vamos com cuidado. Não estou gostando dessa sensação.

Os dois saíram da sede da administração e foram pela estradinha lateral, que levava até o lago.
Minutos depois, chegavam na cabana de ferramentas.
-Olha Michael. – Sussurrou Ed. Enquanto apontava com a lanterna.- A cabana está trancada com corrente.
-Tô vendo…
Subitamente, a porta foi esmurrada. Os dois homens levaram um susto.
-Socorro!
-Quem está aí? – Gritou Michael.
-Tira a gente daqui. Socorro!
-Cara é uma voz de mulher. – Sussurrou Ed.
-Vocês estão presos aí dentro?
-Sim, dois malucos prenderam a gente aqui. Cuidado, eles estão armados.
-Porra, Michael, então deve ser eles que eu vi no mato, cara.
-Calma, Ed. Calma, cara. Temos que soltar esses caras.
-Quantas pessoas tem aí dentro, senhora?
-Meu nome é Shirley. Só estamos eu e meu marido.
-Senhora, eu vou ter que arrombar. Afaste-se para o fundo da barraca com o seu marido, ok?
-Tá, tá bom! Vem, Don. – Disse Shirley.
-Senhora?
-Sim moço. Pode falar.
-Fica bem longe da porta. Eu vou ter que atirar, ok?
-Tudo bem.
Michael pegou a escopeta e apontou na direção da corrente.
-Ok, vai ser no três. Um… Dois….

Michael disparou um tiro. O som do tiro ecoou ao longe. A corrente que prendia a porta da barracão caiu.
Edson abriu a porta e apontou a lanterna lá pra dentro.
No canto da parede, abatidos, fracos e com uma expressão de sofrimento estava Don e Shirley.
Os dois homens entraram no barracão de ferramentas. Ajoelharam-se perto dos dois que estavam junto À parede.
-Vocês estão bem?
-Água. Água! – Gemeu Don.
Michael abriu a mochila e ofereceu uma garrafa de água para o homem, que mamou com vontade no gargalo da garrafa.
Shirley bebeu água e comeu uma maçã.
-Muito obrigado, moço. Muito obrigado. – Ela dizia entre dentadas famintas na fruta.
-Quem fez isso com vocês? – Perguntou Ed.
-Tem um casal… Um casal de doidos, cara. Eles vieram aqui, bateram na gente… O cara tentou estuprar minha mulher, véio. – Disse Don, entre goles de água.
-O que?
-É ou não é, Shi?
-É verdade. Eles são loucos. Pegaram nosso rifle, prenderam a gente aqui dentro e fugiram.
-Vocês foram mordidos? Vocês estão feridos?
-Não, não. Estamos bem. Eu… lutei com eles. Veja, eles dispararam aqui. Olha o buraco no chão. Então deram o fora e prenderam a gente.
-Eles não devem ter ido longe, porque tem dois carros lá fora. – Disse Michael, apontando para trás com o polegar.
-Tem zumbi por aqui?
-Não. Tá tudo tranquilo por estas bandas. – Respondeu Don, secando a última gota de água na garrafa.
-Meu Deus, Don, olha só este trabuco! – Disse Shirley, apontando a arma na mão de Ed.
-Sim, senhora. É uma FN 2000, bullpup.
-E vocês? Quem são? – Perguntou Don.
-Nós somos sobreviventes. Estamos vindo de Oklahoma… – Respondeu Ed.
-Ah… Nós somos de Madison.
-Não conheço.
-Fica a umas duas horas daqui, pelo leste. Pega a interestate e vai pra lá. – Disse Don, apontando.
-E como estão as coisas por lá? – Questionou Michael.
-Acabou tudo. Os bichos comeram todo mundo. Algumas pessoas conseguiram fugir. Estamos na estrada tem uma semana e meia. A gente tem acampado. Então viemos para o parque, porque aqui parecia mais seguro que nas cidades.
-As cidades viraram um inferno, senhor…
-Don. Muito prazer. Esta é Shirley.
-Prazer Senhora. Eu sou o Michael e este aqui é o Edson.
-Olá. – Disse Shirley, apertando a mãos dos dois.
-E Oklahoma?
-Toda tomada também. As pessoas se refugiaram como puderam, mas gradualmente os refúgios foram caindo um a um. Tentaram de tudo, barricada de fogo… Dinamite, nada deu jeito. Nós dois trabalhávamos numa loja de armas. Metemos a mão no estoque, roubamos um trailer e demos no pé.
-O futuro agora é incerto. – Disse Shirley, comendo o último pedaço da maçã.
-Futuro, Senhora? Não existe mais futuro. – Ed riu.
-Só há o presente. E nada mais. – Completou Michael.
-A comida… Vai chegar uma hora que irá acabar. Os sobreviventes ainda estão pilhando os mercados, lojas, etc. Mas muita coisa já não tem mais. – Disse Don. E em seguida completou: – Vai chegar uma hora em que estaremos como os homens das cavernas. Lutando para poder comer.
-…E para não ser comido. – Completou Michael.
Todos riram. Um riso nervoso, meio sem graça.
-Então é por isso que vocês vieram pra cá.
-Aqui poderemos caçar. Há água limpa, e em abundância, peixes, aves… Um ser humano pode passar o resto da vida aqui, vivendo da caça e pesca.
-Mas parece que as outras pessoas também pensaram nisso. Hein?
-Você se refere aos desgraçados, né?
-Sim. Como eles eram?
-São um casal. Eles não tem muita idade. Parecem meio birutas. O cara vestia uma roupa estranha, toda branca.
-Toda branca? – Michael se assustou.
-Sim… Tipo de um macacão branco. Até os coturnos eram brancos. Um cara estranho.
Michael e Ed se entreolharam assustados. Don notou a expressão no rosto deles.
-Que foi?
-Os caras de branco… Eles matam geral.
-Hã? O que?
-Você nunca viu?
-Não, não sei do que vocês estão falando. – Disse Don.
-Os caras de branco surgem do nada. Eles vem com caminhões enormes, também brancos. E de helicóptero. Eles descem e pegam as pessoas. Levam ara os caminhões e vão embora. Os sobreviventes das cidades tem mais medo deles do que dos zumbis.
-Dizem que eles matam os velhos e os doentes. – Comentou Ed.
Shirley estava perplexa de ouvir aquilo.
-Eles fugiram…- Ela disse. -…E trancaram a gente aqui. Eles não devem estar muito longe. Mas o perigo é…
-Eles chamarem os outros. – Previu Michael.
-Exatamente! Eles vão avisar os outros e em pouco tempo, este lugar vai encher de homens de branco, e então a gente vai ó… – Disse Ed, batendo com a palma da mão aberta sobre a outra mão fechada.
-Eles não estão muito longe, porque a moça que estava com ele veio aqui hoje à tarde. Ela veio sozinha. Ela chegou aqui perto, nós vimos pela greta da soleira da porta. E então ela voltou correndo. Não é amor? – Perguntou Don para a Shirley.
-É verdade! A Vadia veio até aqui. Acho que para conferir se a gente estava vivo ainda. – Disse Shirley com ódio.
-Porra, impressionante. O mundo acabando e os humanos se sacaneando. – Comentou Michael para Ed, que apenas acenou positivamente com a cabeça.
-Nós temos que achar esses caras. – Disse Michael.
-Nós vamos achar. E não vai sobrar sobreviventes! – Disse Ed segurando ostensivamente o FN 2000. EM seguida, Michael virou-se para Don e perguntou:
-O senhor sabe usar uma arma deste tipo?
Don sorriu para o estranho: – Claro meu chapa!

Longe dali, no sopé da montanha, em plena escuridão da madrugada, Alice acordou assustada. Levou algum tempo para entender onde ela estava. O ruído alto das batidas atraiu sua atenção. Quando ela finalmente recobrou os sentidos, viu que a porta da cabana estava sendo atingida violentamente. Ela ouviu um gemido gutural do lado de fora.
“Ah, não! David voltou!”

Continua

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16 comentários em “Zumbi – Parte 12”

  1. A história ta legal mas o tamanho do texto deixou a deseajr :/
    Espero que vc lance outro hoje.

    Philipe, vc ja ouviu falar de um jogo chamado Dead Space 2? Um sobre infestação alienigena, acho que vc deveria joga-lo, bem a sua cara.
    Eu tenho ele e curti bagarai

      • o dead space 1 termina com um monstro gigante, no 2 você mata sua namorada na sua mente,
        e eu acho que o cara ta falando que ta muito pequeno o texto, e também, tenta botar só “continua” porque como eu vi nos posts da parte 10, você anda muito ocupado, então se você deixar continua amanhã e não postar no outro dia, tem gente que fica com raiva, eu fico desapontado e cresce muito mais a ansiedade. fora isso, gostei da adição de personagens, e a história ta mto boa.

  2. Quem será na porta, David Zumbi? Don Viadinho e os outros três? Um zumbi? Esse continua amanhã é tortura. Pena que tá acabando, parece que esse conto virou minha droga predileta. Muito bom

  3. Espero que o Don morra logo de vez, lentamente de preferencia, a historia esta excelente, parabens! De qualquer modo, Philipe conhece um livro (ou jogo) chamado “Metro 2033”? Esse seu conto “apocaliptico” me fez pensar nisso. Você bem que poderia escrever algo do tipo, uma historia em um mundo devastado pela guerra e etc… Outro ponto de referencia é a serie de jogos “Fallout”.
    Se já tiver escrito algo do tipo, me perdoe. Mas como sou relativamente novo no Mundo Gump não custa perguntar hehe. É divertido ler uma historia do tipo e pensar “Ok, isso poderia acontecer a qualquer momento”. Pense comigo é mais facil ver uma bomba atomatica varrendo metade do planeta do que um zumbi procurando por cerebros frescos…
    Como Dmitry Glukhosky diz: “Fear The Future”

    • É verdade… Eu gostaria muito de escrever algo nesta linha. Já viu “estrada mortal” ou estrada qualquer coisa assim? Lembra um pouco o livro de Eli, mas é MUITO mais triste e sinistro. Conta a história de um pai e um filho sobreviventes de um mundo sem vida. Triste PRA CARALHO.

      • Sim, lembro que vi esse filme com meu pai um tempo atras. Mas não consigo me recordar de como era o final ou boa parte do filme (minha memoria é horrivel). Serio, recomendo fortemente que você leia o “Metro 2033”, conheci a historia atraves de um jogo de computador do mesmo nome, depois descobri o livro. Mas só agora o ganhei de presente da namorada. O livro não fala só sobre mutantes, radiação, tuneis abandonados, alucinações, fantasmas ou formas de vida que evoluiram e se tornaram superiores a humanidade (vide Homo Novus), o livro se foca muito na mente humana e nas sensações que o protagonista esta passando, na mente de uma pessoa que vive em um ambiente que predomina o medo e o instinto de sobrevivência. É um livro trabalhoso, que no fim te deixa um gosto meio amargo na boca, mas que levanta muitas questões e sem duvida vale apena. Outra coisa interessante, o livro possui um mapa de todo o sistema de Metro (Nomes russos, levando em conta que a historia se passa em Moscou, mas tudo bem). Poderia servir de uma boa fonte de inspiração para um de seus futuros contos.
        Obs: Uma continuação também foi escrita “Metro 2034” mas infelizmente ainda é inedita no Brasil, como grande parte dos livros que eu gostaria de ler ¬¬

      • cara, eu vi esse filme, o nome original é apenas “the road”, não sei como fica em port. é muito foda mesmo, e pensar que é algo extremamente possível de acontecer, dói ainda mais. (também achei O livro de Eli ‘parecido’, pois ambos lidam com o mesmo tema de mundo destruido, mas the road é melhor)

  4. Rapaz, estava tão ocupado que só consegui ler o conto agora.

    No começo pensei que você tinha sido bonzinho com ela, mas o final mostrou que não temos como prever o que você planeja – e isso é bom!

    Bóra ler a parte 13!

    .faso

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