Zishe Breitbart e os antepassados do Super-Homem

Ontem, tomado de assalto por uma miserável gripe, passei o dia entrevado na cama sem conseguir me levantar. Até ir ao banheiro foi meio penoso. Mas com tudo isso ainda consegui levar o Davi para buscar a mãe dele no trabalho, e dali fomos tomar uma sopa. Aqui no alto onde moramos faz muito frio e o tempo tinha mudado com a chegada de mais uma frente fria.
Tomamos a sopa no lugar de sempre e caçamos rumo de ir dormir. O Davi, coitado, capotou rapidinho. Seguir o exemplo dele era o que eu almejava até tomar um banho quentão, que ao invés de me relaxar me deu uma animada. Vai entender essas coisas do corpo humano, né?
Deitei na cama e saquei o tablet: “vamos ver o que tem de bom no Netflix“.
Acabei esbarrando num filme que só me interessou – confesso- pela capa. Um tal de Invincible.

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Eu só resolvi ver mesmo (não curto ler sinopses, nem as ultra-resumidas do netflix) porque dei de cara com o nome do diretor e dele eu sou fã: Werner Herzog.

Certamente que Werner Herzog é um dos maiores diretores de cinema do mundo, embora me intrigue como ele faz certas coisas meio malfeitas em seus filmes, de uma forma aparentemente proposital enquanto parece se empenhar num nível sobre-humano em alguns aspectos que muitas vezes até passariam batido do publico. De uma certa forma acho legal isso e é o que me lembra que cinema também e arte. Claro que para olhos acostumados a blockbusters de Hollywood com efeitos caindo para todos os lados e explosões piroclásticas e reviravoltas de roteiros Syd Field, o cinema de Herzog pode parecer chato. Normal, quem só toma Fanta Uva vai fazer cara de vômito até se tomar Romanée Conti.

Pra começar achei o filme Bom. Bom com letra maiúscula mesmo. Herzog tem umas paradas que ele faz em seus filmes que eu acho maneiro: Ele não dá Migué na audiência. Explico: Em “O enigma de Kaspar Hauser”, que conta a história de um sujeito cujos pais são um mistério e que foi criado numa espécie de torre de castelo, sem ver ninguém. Nem a pessoa que trazia a comida ele via, pois ela só aparecia quando ele estava dormindo… Kaspar só foi ver outro ser humano pela primeira vez em sua vida na véspera em que foi retirado de seu estreito e limitado habitat sem janelas, e foi largado, em pé, com botas e um bilhete misterioso na mão no meio de uma cidade. Para fazer este personagem com graves problemas decorrentes de sua construção limitada de mundo, sem linguagem e com uma compreensão fragmentada do que o cercava, Herzog encontrou Bruno S. – uma pessoa cuja história de vida fora quase tão estranha e sofrida quanto pode ter sido a de Kaspar Hauser. Bruno S, que morreu em 2010, era um filho não desejado de uma prostituta. Tendo sofrido freqüentemente abusos da própria mãe na infância, ele passou parte da sua vida internado em hospitais psiquiátricos.

Bruno S. Interpreta Kaspar Hauser
Bruno S. Interpreta Kaspar Hauser

Tal qual Kaspar Hauser, Bruno S. tinha sequelas visíveis e apesar delas, virou músico autodidata, que, ao longo dos anos desenvolveu a habilidade considerável sobre o piano, acordeão, metalofone e sinos. Bruno tocava nos jardins, realizando baladas estilo do século 18 e 19 nos finais de semana, para sustentar-se financeiramente, e trabalhava como motorista de empilhadeira em uma fábrica de automóveis. O cara foi descoberto pelo Werner Herzog no início dos anos 70, quando o diretor trabalhava num documentário. Herzog com seu olhar afiado identificou que Bruno S. daria um excepcional Kaspar Hauser, mesmo sem nenhuma – zero, rosca, nada – de experiência de atuação. O resultado, que podemos ver em O enigma de Kaspar Hauser é algo que eu considero um sucesso tão, mas tão épico, que pode ser confundido com um fracasso.
Isso porque Bruno S. Devido a sua falta de habilidade em atuar era ele mesmo o tempo todo. Mas ora bolas, ali estava então uma verdade! Se o Kaspar Hauser era alguém que mais lembrava um manequim de loja, o resultado final devia estar quase com precisão germânica. Mesmo assim, Herzog foi criticado por chamar Bruno para o papel principal. Diferente de diretores americanos, que chamariam por exemplo Dustin Hoffman para fazer um autista em Rain Man, Herzog não optou por “usar um lápis pintado para dizer ao espectador que aquilo é uma caneta”. Um lápis jamais será uma caneta. Mas uma caneta, por sua vez, jamais será um lápis. Desse modo, uma vez que Werner Herzog não colocou Bruno S. para declamar um Hamlet, e sim interpretar alguém que tinha sequelas muito similares às dele, acho que o diretor até que mandou bem.
É isso que eu digo quando falo que Werner Herzog não é dado a aplicar Migués na audiência. Outro truque batido que se usa, (até em novelas) é a cena do piano em que o personagem faz caras e bocas, olhos fechados e a câmera só mostra as mãos sobre as teclas em close (e obviamente são as de um dublê pianista profissional).
O que poderíamos esperar de W.Herzog? O pianista é o ator mesmo que toca de verdade. E vou te dizer: TOCA MUITO.

Enquanto o fortão de Hollywood (vide capitão América) é fortalecido digitalmente, Herzog traz o homem mais forte do mundo daquele ano (Jouko Ahola) para ser o personagem principal do filme. Como seria de esperar – isso é quase um clichê da crítica – disseram que o Jouko é fortão mas trabalha mal. Eu discordo. Não achei que ele trabalhou mal. Realmente o cara não era um ator calejado, e em muitos momentos ele parece completamente fora do clima da cena, mas ao pensar sobre elas, percebo que Herzog sabe que toda decisão traz consequências. Você não pode ter tudo. Ter o homem mais forte do mundo no seu filme e esperar que ele ainda seja um prodígio de atuação, seria pedir demais da sorte.

Por que Juko Ahola e não um fisiculturista? Porque Herzog queria um cara que fosse forte, e não malhado.
Por que Juko Ahola e não um fisiculturista? Porque Herzog queria um cara que fosse forte, e não malhado.

Alem disso, se olharmos o roteiro, o cara era um bruto, alguém que nasceu certamente com uma deficiência genética de super muscularidade (temos posts sobre isso aqui) era ferreiro de um vilarejo no meio do nada. Dá pra esperar que não seja um Brucutu?

Enfim chegamos ao cerne deste post, que é o personagem Zishe Breitbart.
O filme me impressionou, até porque a história é vendida como uma história real. Achei tão “macho” o cara de revelar para a plateia em frenesi quase composta somente de nazistas que ele era judeu que eu precisava verificar se isso aconteceu mesmo.

De fato, Zishe Breitbart existiu. Veja uma foto do verdadeiro Zishe aqui:

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Ao ler sobre Zishe, vi que o filme de Herzog é quase totalmente ficcional, apesar de tratar de um cara que existiu.
Ao pesquisar a vida do Zishe, me espantei, porque eu não esperava que ele fosse realmente tão forte. A verdade é que – possivelmente temendo parecer exagerado – Herzog não mostrou quase nada do que Zishe realmente fazia em seus shows. Era impressionante! Quase algo na linha do Super-Homem se exibindo.

Breitbart realizou turnês extensivas na Europa e nos Estados Unidos com o Circo Busch, onde ele fazia um ato de força temático ligado ao seu antigo trabalho como um ferreiro. Ele entortava barras de ferro em torno de seu braço em padrões florais, mordia correntes de ferro e arrebentava-as e ainda quebrava ferraduras ao meio com as mãos!
Como um showman, Breitbart conseguia segurar dois cavalos chicoteados, puxava um vagão de carga cheio de pessoas com seus dentes e apoiava pesos enormes, tais como automóveis carregados com até 10 passageiros, enquanto estava deitado de costas. Ajudantes quebravam pedras em seu peito com marretadas. Ele também levantou um bebê elefante, e ao mesmo tempo que segurava o elefante, ele subiu uma escada. Zishe levantou uma roda de trem com uma corda entre os dentes, enquanto três homens estavam sobre a roda.

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Breitbart levou um dos feitos mais populares entre os homens fortes da época e fez parte de seu ato. Durante o “túmulo de Hércules”, uma ponte foi construída sobre o peito e os animais pesados, como um touro, ou um elefante, desfilaram sobre as placas. Mas Breitbart deu um passo adiante mesmo quando apoiou um globo da morte em seu peito enquanto dois homens perseguiram um ao outro em motocicletas lá dentro.

O povo, claro, ia à loucura.

Zishe também era intelectual e escreveu um dos primeiros cursos de como ficar forte, que foi muito vendido por correspondência naquele tempo.

Mas será que Zishe foi mesmo quem desencadeou a gênese de Kal El, o Homem de aço dos quadrinhos? É possível que sim.

 

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Muitas teorias têm surgido para explicar como dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, conceberam o Superman. Alguns estudiosos têm relacionado o “Homem de Aço”, que apareceu pela primeira vez em Action Comics # 1 (Junho de 1938), com obras como a de Friedrich Nietzsche “Assim falou Zaratustra”, e outras, como a de George Bernard Shaw “Man and Superman”.

Vários historiadores judeus também já relacionam o Superman ao Golem, uma criatura poderosa que era formada de argila e trazida à vida pelo rabino cabalista do século 16 Judah Loew, a fim de defender a comunidade judaica de Praga de ataques anti-semitas.

Superman, como esta teoria, era uma versão do Golem do século 20, um super-herói inventado quando o povo judeu enfrentou outro grave ameaça: o nazismo.

Mas de todas as teorias especulativas em torno da criação do Super-Homem, uma influência extremamente provável é a desse cara. A própria apresentação de Zishe lembrava muito dos feitos do Superman. Anunciado, nos cartazes de circo – não raro com o NOME de Super-homem, dizia-se que ele conseguia parar locomotivas.
Zishe usava uma capa em seu show e aparecia com as feições trabalhadas de um astro de cinema da época, principalmente o cabelo ondulado milimetricamente esculpido e em poses de braços cruzados diante do tórax EXATAMENTE como anos depois faria o futuro ídolo dos quadrinhos.
Zishe ainda realizou suas façanhas que desafiavam a morte em 1923 e 1924, em Cleveland e Toronto, JUSTAMENTE AS CIDADES DE Siegel e Shuster, e justo na época em que eles eram dois meninos impressionáveis de nove anos.

Poderia até ser tudo uma soma de coincidências, ou talvez Zishe e sua imagem mítica estivesse impregnada no fundo da mente dos dois criadores do personagem mesmo.

Yixing Breitbart, o hebraico “Iron King,” foi uma sensação de primeira página no pós Guerra da primeira grande Guerra. Ele tinha mesmo – como aparece no filme de Herzog – uma presença física impressionante, mas em alguns momentos projetava um trejeito suave, quase feminino, e por isso muitas vezes ele foi comparado ao ídolo do cinema mudo Rodolfo Valentino.

Como o cordato e bem-educado Clark Kent, ele não tinha medo de mostrar seu lado frágil e quase infantil. Certa vez ele confessou a colunistas de jornais que ao andar em estradas de terra, ele tentava não pisar nas minhocas. Breitbart tinha também um lado muito estudioso – o que difere em grande grau do personagem brucutu da obra de Herzog. Seu maior orgulho era inclusive (como não se orgulhar? Como???) da sua biblioteca de 2.000 livros sobre história romana antiga. Além disso, ele estava profundamente orgulhoso de sua fé judaica, falando em iídiche do empreendimento sionista na Palestina e lhe fascinava recriar o imaginário arcaico do Sansão Bíblico.

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Nascido em 1883 e criado em Starovitch, o bairro proletário e tristemente decadente de Lodz, na Polônia, Yixing (Siegmund ou Sigmund em alemão) Breitbart aprendeu a humilhar os anti-semitas locais através da força bruta. Aos 13 anos ele deixou o trabalho de ferreiro e se juntou a um circo judeu que passava pela cidade. Logo ele tinha desenvolvido uma reputação como um showman poderoso e inventivo. Suas primeiras acrobacias incluíam quebrar pedras no peito com marretas, lutar com ursos de verdade e até ser enterrado em caixões sem ar. Sempre, ele saia ileso, para grande espanto de seu público. (Suspeito que posteriormente ele pode ter sido também uma referência para Houdini, que era filho de judia, mas não consegui ter certeza disso)

Nem tudo eram flores. Breitbart tinha detratores que duvidavam de suas proezas hercúleas e acusavam-no de utilizar artifícios “ciganos”.
No entanto, quando os céticos tentaram duplicar suas façanhas, se ferraram, acabaram com as mãos ensanguentadas deixavam cair bigornas e iam para o hospital com caixas torácicas rachadas.

O Sansão moderno, rapidamente se tornou uma lenda em todo o lugar. Sua imagem estampava as bolsas que vendedores ambulantes ofereciam em Varsóvia. Artistas de rua começaram a fazer cover dele, alegando serem “O segundo Breitbart”, e até mesmo em teve um “Terceiro Breitbart”.
Era a prova do sucesso. Até hoje cerca de duas dezenas de canções de realejo iídiche e poloneses falam de suas proezas (alguns dos quais ainda eram cantadas nas ruas de Lower East Side de Manhattan, no final dos anos 1920 e início dos anos 1930).

Breitbart manteve as multidões hipnotizadas com suas proezas e seu repertório circense. No começo, ele entortava barras de ferro com as mãos; depois, elas estavam enroladas em torno de seu braço esquerdo em sete equidistantes voltas. Ele também torceu barras de metal em formas de castiçais e tranças, deleitando todos os judeus de sua audiência.

Breitbart havia se casado com Emilie Ester Weitz, a filha de um rabino alemão, e os dois tinham adotado um filho, Ossi. Em 1922, ele aproveitou os ganhos substanciais de suas apresentações em Dortmund, Munique, Breslau, e Praga para comprar uma propriedade pródiga fora de Berlim e mudou com sua família pra lá. (ou seja, esqueça todo o background de família pobre do filme do Herzog. É pura ficção)

Em 31 de dezembro de 1922, Breitbart começou um compromisso de três meses, em Viena. Ao meio-dia, em frente ao Teatro Ronacher em Johannesgasse Square, uma carruagem enfeitada com ouro e verde, puxada por dois cavalos Schimmeln brancos surgia. Descendo da carruagem pomposa, Breitbart jogou fora sua capa de cor safira azul para revelar o traje deslumbrante de um gladiador romano.

Colocou a cinta de metal presa ao cinto na corrente que prendia aos cavalos, ele então puxou a carroça transportando 40 passageiros em pé do outro lado da praça. A multidão aplaudiu loucamente. Ele se tornou uma sensação instantânea. Jornalistas relataram que os olhos das mulheres “brilharam” com a menção de seu nome … e atletas profissionais estavam “escaldados” por suas aptidões físicas sobre-humanas.

Muitas das façanhas de Breitbart eram puros clichês de atletismo com inspirações óbvias na estética de época de Pedro, o Grande, com um toque do Velho Testamento. Breitbart também apresentou uma infinidade de habilidades “super-humanas” novinhas em folha. Ele mordeu correntes como se fossem biscoitos de sal. Ele sofreu golpes de porretes, pedras foram quebradas contra seu corpo e o peso de um automóvel, conduzido em uma rampa atingiu em cheio o seu o peito reluzente.

Mas nem todas as façanhas eram reais. Showman, ele recorria sim a diversos “Migués” para parecer mais forte do que realmente era (antecipando os truques do Houdini de certa forma).

Por exemplo, para fazer o público acreditar que ele poderia transcender os limites do corpo humano, Breitbart adulterava alguns elos das correntes que o prenderiam, de modo que elas ficassem fragilizadas e se rompessem mais facilmente. Ele conseguia sobreviver aos golpes bigorna porque sabia preparar seu corpo, contorcendo o torso inferior, e usando o apoio de um pequeno pedestal colocado sob suas costas. O peso do automóvel (jogado de uma rampa sobre ele em um show) foi desviado com uma série de rápida e concentrada de chutes para a direita além de algum tipo de mecanismo oculto pelas tábuas que atenuava o impacto.

O público não só foi enganado, mas estava encantado. A presença de Breitbart era formidável em matéria de sex-appeal, e os shows eram complementados por atos inovadores, timming perfeito, atuações dramáticas, iluminação teatral e tudo isso colocava o cara em mundos separados de seus concorrentes.

Um deles, Harry Steinschneider (ou melhor, Erik Jan Hanussen), – finalmente apareceu o cara da capa do filme!
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Este era um mentalista judeu que estava aparecendo no teatro Ronacher de Viena na mesma noite que rolavam os espetáculos de Breitbart. Com inveja do que Breitbart conseguia fazer com o público, o mentalista que era um engenhoso criador de truques concebeu um plano para ofuscar o Super-homem judeu.
Ele encontrou uma costureira judia desempregada de 19 anos, chamada Martha Kohn. O cara a treinou para duplicar as façanhas de Breitbart de força sobre-humana. Como Breitbart, a moça magrinha e tímida arrebentou corretes com os dentes, dobrou barras de aço e aguentou golpes de marreta, além de bancar uma ponte por onde um enorme carro de boi passou.

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Parecia que alguém finalmente tinha descoberto as malandragens do Breitbart.

Hanussen convidou a rainha Martha Farra ao rival Apollo Theatre. Mas ao invés de desacreditar o Superman judeu, a competição reacendeu a fama de Breitbart em Viena, e a batalha real entre os dois mordedores de ferro dominaram o noticiário. Devotos fanáticos do fortão judeu chegaram a atrapalhar os shows da moça no Apollo, assobiando e cantando o nome de Breitbart. Alguns até mesmo treparam no palco e saíram no braço com membros da equipe do “místico” prepotente. A imprensa favorecia principalmente Breitbart como um artigo genuíno, descartando Hanussen como “um intruso com ciúmes”.

Os confrontos cresceram em intensidade. Finalmente, em 4 de Fevereiro de 1923, Hanussen publicou um desafio de quatro partes para Breitbart no principal jornal de Viena, Der Tag. Declarando o mordedor de ferro uma “desgraça pública”, ele ofereceu-se para depositar 10 milhões de coroas na conta caridade pública de Banco Mariahilf se Breitbart poderia usar os dentes para cortar uma corrente de ferro da escolha de Hanussen.
Hanussen acrescentaria outros 10 milhões extras se a rainha Martha Farra não conseguisse suportar a cama de pregos de Breitbart e a bigorna colocada em seu peito. E ainda, ele ofereceria outro milhão de coroas à doação se a “donzela italiana” não pudesse repetir o mesmo truque de Breitbart com a pedra, ou se Hanussen não conseguisse encontrar 20 não-atletas capazes de deformar barras de aço do homem forte e folhas de ferro planas.

Breitbart, que na época tentava melhorar a sua imagem por ter repórteres observando as filmagens de seu filme, O Rei de Ferro, recusou-se a aceitar o desafio. Em vez disso, ele entrou com uma ação de difamação contra Hanussen, que, em seguida, o contra-processou. No final das contas, o tribunal criminal de Viena multou Breitbart em 250.000 coroas por ter dado umas bifas nos bastidores em Hanussen, que levou a pior na justiça, sendo expulso da Áustria para os próximos 10 anos por calúnia.

Harry Steinschneider dançou
Harry Steinschneider dançou

No verão de 1923, escoteiros americanos do circuito BF Keith vaudeville convidaram Breitbart e sua equipe para atuar nos EUA e no Canadá. Para o ferreiro da empobrecida Lodz, fazer turnê na América, inundado de dinheiro, significou o triunfo final.

Mesmo antes do “Superman judeu” chegar em Manhattan, O New York Times apelidou o “Super-homem de todos os tempos.” O Brooklyn Times, o New York Telegraph, e New York Star destacaram o cara em seus shows. Os editoriais hebraico-americanos se referiram a ele como “o super-homem de destreza física e perfeição.”

Breitbart não decepcionou. Críticos descreveram sua estreia no Teatro Orpheum em Brooklyn em 08 de setembro de 1923 como “eletrizante”, tendo “levantado a casa” e “quebrou todos os recordes.” Cinco dias depois, o The New York Evening Mundial relatou com orgulho que “o maior atleta do mundo pediu a cidadania dos EUA e em breve será um dos nossos”.

No outono de 1923, Breitbart virou manchete em shows de variedades de BF Keith em Providence, Buffalo, Toronto, Cleveland, Chicago, Pittsburgh, Baltimore e Washington, DC. The Cleveland Notícias delirou que ele era “mais interessante do que a Torre Eifel.” Em Nova York, durante a época de Natal, ele se apresentou diante de 85.000 espectadores no Hipódromo, em seguida, “o maior teatro do mundo”, quebrando todos os recordes de público anteriores. Em fevereiro de 1924, ele partiu em uma segunda turnê, se exibindo em mais de 12 cidades norte-americanas, com compromissos de retorno em Baltimore, Pittsburgh, Chicago e Cleveland, onde os seus promotores o exibiram com a alcunha de “o Superman of the ages”.

Em Detroit, o Dr. Morris Fishbein da Associação Médica Americana ficou horrorizado ao ler que o homem forte estava defendendo um regime alimentar de vegetais crus e alertando os americanos que a ingestão de muito leite e carne estava pondo em risco a sua saúde. Acusando Breitbart de “anti-americanismo”, Fishbein entrou com uma enxurrada de protestos à Secretaria de Cidadania e Imigração, que foram arquivados em vários escritórios de Washington, DC.

Enquanto isso, em Nova York, o mentalista Erik Jan Hanussen ressurgiu com uma nova “Rainha Marta Farra”, e o duo vienense foi agregado ao “Homem de Ferro” programado no Hipódromo. Breitbart agora concordou em encarar o desafio de Hanussen.

Mas uma coisa estranha aconteceu durante os ensaios: O mordedor de ferro e o Mentalista descobriram um terreno comum. Em meio a uma crescente admiração de um pelo outro, a antipatia visceral entre eles praticamente desapareceu. Então, de repente, Hanussen inexplicavelmente desapareceu, e Breitbart tomou a deprimida “Rainha Marta Farra” sob sua asa. (Mais tarde, ela foi morar com um fabricante de caixas de papel no Queens, acabando no escanteio.)

Em 1924, Breitbart aproveitou seu status de celebridade para levar ao mercado de massa a ideia da construção muscular. Seu escritório de Nova York tornou-se um centro para o envio de aulas semanais de musculação por correspondência e “Muscle metros de Breitbart” em Skinny wannabes Jack Dempsey. O endereço para encomendas era simplesmente “Superman-Nova York.”

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Em agosto de 1924, Breitbart, agora já um cidadão americano, voltou para a Europa, possivelmente para escapar de ser perseguido nos EUA por publicidade enganosa.

Durante a execução em Varsóvia, ele recebeu uma convite do Radziminer Rebbe, rabino-chefe da Polônia, que deu a sua aprovação a Breitbart e também uma bênção.

Mas bênção poderia muito bem ter sido uma maldição. Durante uma apresentação em julho de 1925, em cidade polonesa de Radom, um prego enferrujado que Breitbart bateu através de uma placa de madeira, perfurou seu joelho esquerdo, resultando em uma infecção ferrada!

Naquele tempo era brabo, mermão. Mesmo doente e seriamente comprometido pela infecção que já se espalhava em seu sangue, o gerente exigiu que o “super-homem” completasse todos os próximos shows já contratados. Isso foi fatal.

Logo, o homem forte estava tão gravemente doente que precisou ser levado às pressas para Hospital Charité de Berlim, onde a perna dele foi amputada. Em 12 de outubro de 1925, depois de nada menos que 10 operações sucessivas, o “Superman” morreu.

O funeral de Breitbart foi uma cerimônia ortodoxa, e teve a participação de milhares de judeus, sendo falada em iídiche e na língua alemã, bem como estava repleto dos gentios do mundo do circo e do teatro de variedades.

Apesar de ter morrido devido a um miserável prego enferrujado, as empresas lucrativas de Breitbart e suas façanhas lendárias sobreviveram a ele. Embora os jornais mundiais publicassem longos obituários, o Instituto Breitbart de Cultura Física continuou a emitir lições por correspondência com mensagens pessoais supostamente assinados por seu fundador falecido e faturou alto, até que em 1931, a Comissão de Comércio Federal descobriu a fraude e ordenou que o instituto parasse e cancelasse todas as atividades comerciais.

Em Varsóvia, os irmãos de Breitbart Gerson e Yosef, ambos artistas itinerantes, independentemente começaram a tentar ganhar dinheiro pegando carona na fama ainda presente do irmão famoso.

Dessa forma, podemos ver que a história do Super Homem contada por Werner Herzog serve muito mais para despertar nossa curiosidade acerca desse personagem histórico do que realmente para informar sobre ele. Em “Invencibile”, Breitbart morre em 1933, depois de viajar a pé a partir de Lodz para Berlim, onde ele trabalhava como um homem forte em um cabaré de Erik Jan Hanussen, que estava sempre infestado de nazistas.

Na verdade, Breitbart nunca trabalhou para Hanussen, e o mentalista nunca atuou num cabaré, boate, ou sala de música.

Apesar de ter dado umas viajadas na história, o Herzog fez com precisão o retrato de um Breitbart que era um artista sensacional de vertente popular e um judeu orgulhoso que inspirou crianças em busca de herói.
Estariam entre essas crianças os futuros criadores do Super-Homem? Talvez sim.

Se assim for, devemos oferecer um arco póstuma ao “Superman of the Ages”, Yixing Breitbart, por inspirar a criação do mais famoso super-herói dos gibis.

Os predecessores do Super Man

Embora Sishe Breitbart e o seu filme tenham sido a mola propulsora deste post que ficou meio grande, é impossível não citar os que vieram antes dele. Sim existiram outros “super-homens” antes do super-homem judeu.

Contenha os impulsos de imaginar YMCA ao olhar para esta foto aqui:

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Este cara todo pimpão aí que parece saído da capa do CD do Pet Shop Boys foi o defensor mais famoso do movimento da Cultura Física, e é considerado oficialmente o primeiro fisiculturista mundialmente famoso. Seu nome, Eugen Sandow.

Sandow (nascido Friedrich Muller) era prussiano e fugiu de casa quando jovem para se juntar a um circo itinerante, onde ele usou a ginástica e acrobacia que ele aprendeu lá para endurecer e modelar seu corpo. Você há de convir que ficar nesse shape aí antes de inventarem os shakes, os comprimidos de proteína, os anabolics e a bomba, era sinistro.

Depois que o circo foi à falência, o cara tornou-se o aluno de um fisiculturista profissional e assim ele aprendeu os macetes para aperfeiçoar seu físico. Ele adotou o nome artístico de “Eugen Sandow” e começou a excursionar pelas salas de música belga e francesa como “homem forte” e estátua viva. Em 1889 Sandow ganhou fama em Londres, interrompendo a rotina de dois homens fortes profissionais conhecidos, quando levantou ambos (o que me parece ter servido de inspiração para a cena do circo no filme do Herzog).

Isso levou a reservas em toda a Inglaterra para sua turnê de elevação, flexão, e poses, que durou quatro anos.

Em 1893 Sandow viajou para os Estados Unidos. Durante uma apresentação, ele chamou a atenção do promotor Florenz Ziegfeld, que assumiu o comando da carreira de Sandow e trouxe-o para Chicago, onde se tornou o Sandow headliner na Feira Mundial de 1894. Neste momento, o showman realizava proezas de força que eram tanto “migué” quanto eram realidade. Na maioria das vezes, Sandow realizava as façanhas vestindo apenas uma tanguinha escrota, de modo que nenhuma fraude engenhosa era possível. Sua combinação de apelo sexual e atos inegavelmente reais de força arregimentaram legiões de fãs. Sandow fez uma turnê nacional e em 1894 fez um curta-metragem em cinetoscópio de quatro minutos “Sandow, o Hércules Moderno”, em que ele posou, flexionado e esticado, mostrando sua musculatura excessivamente bem desenvolvida. O filme exibido nos circos e feiras cimentou o status de Sandow como um ícone do músculo e força.

Em 1897 Sandow começou o que ele pensava ser verdadeira missão: reformar todos os corpos da humanidade.

Ele queria abolir o chassi de frango da face da Terra.

Em Londres, ele abriu o Instituto de Cultura Física, um ginásio e um centro para ensinar os Britânicos novas formas de dieta e exercício, para que todos, e não apenas Sandow, pudessem ficar fortões e serem capaz de as mesmas façanhas. O Instituto foi um imediato sucesso. Após outros Institutos abertos, e em dois anos o fitness era uma mania nacional, tanto no EUA quanto no Reino Unido. Numa altura em que as preocupações britânicas sobre “degeneração racial nacional” estavam atingindo novas alturas, e quando os americanos foram tomados com os temores de “esgotamento nervoso racial”, Sandow aparecia com uma solução.

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Em 1898 ele fundou a “Revista Sandow de Cultura Física”, que combinava artigos sobre saúde e musculação com a ficção. As imitações da Revista de Sandow começaram a se popularizar, mas foi ela que manteve a liderança no campo de Cultura Física.
Sandow organizou primeira competição de fisiculturismo do mundo, no Royal Albert Hall em 1901, com a presença de milhares de pessoas e julgado por Sandow e até o criador do Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle.

Sandow era esperto e foi também – ao que se sabe – o criador do “Clube das mulheres”. Sandow era muito popular com as mulheres. Durante anos, ele realizou shows de strip privado para as mulheres… Mas como tipicamente acontece, não só pra elas, mas para “Eles” também. Ele realizava umas “audiências privadas” para o príncipe alemão Friedrich Wilhelm. Sandow foi objeto de um cartão-postal-celebridade da empresa fotográfica Rotary, a principal fabricante do cartão de celebridades da época. E Sandow se tornou um ícone de marketing disputando holofotes com ninguém menos que Theodore Roosevelt e o explorador Henry Stanley.

Sandow forneceu um modelo para outros bodybuilderes e empresários do segmento físico seguirem. Nos Estados Unidos, a principal força era o performer Bernarr Macfadden, que criou a Macfadden Publications, que produziu inúmeras revistas e artigos até 1992. Macfadden foi diretamente inspirado a imitar Sandow após vê-lo executar sua performance na Feira Mundial de Chicago.

Nosso Super homem judeu, Zishe Breitbart, também foi inspirado por Sandow. Outro dos antepassados do Super-homem foram Angelo Siciliano, mais conhecido como Charles Atlas, que inclusive colocava uma foto de Sandow em seu espelho do quarto como inspiração.

A imitação generalizada de Sandow é compreensível. Ele era popular entre todas as classes. O sujeito, como muitos que vieram no rastro dele, fez uma quantidade considerável de dinheiro a partir do movimento fisiculturista -apesar de realmente acreditar na Cultura do Físico, Sandow era antes de tudo um empresário agressivo que apareceu como o “melhor exemplar da raça branca”, na exposição do Museu Britânico de 1901 chamado “As raças do mundo”.

Por anos, Sandow foi apontado como o ícone da masculinidade idealizada. É compreensível que muitos fisiculturistas até hoje tentam imitá-lo, e até mesmo superá-lo.

A associação entre a musculação e super-humanidade foi repetidamente impregnada na ficção popular. Super humanos na ficção popular, não começaram com a musculação de Sandow, é claro – Heróis com habilidades sobre-humanas já apareciam em produtos culturais ao longo do século 19.
Mas é inegável que a moda que ele ajudou a propagar deu um gás nisso aí. A mania do fisiculturismo levou a uma onda de super-humanos com a estética bodybuilderes se tornar preponderante na ficção popular. O próprio Sandow apareceu como um personagem de romances baratos, já em 1894, e em 1899 sua revista estava funcionando regularmente com ficções envolvendo caras fortões que lutavam contra o crime, pavimentando a via por onde o Super-Homem mais tarde reinaria no panteão de heróis pós modernos, representações repaginadas dos deuses clássicos da antiguidade.

Entretanto, outros personagens heróicos com força sobre-humana tinham lugar cativo na literatura popular antes Sandow: o romance “Detetives Old Sleuth”, em 1872, e “Cap Old Collier”, em 1883, são descritos como heróis capazes de lançar malfeitores para o ar como se fossem travesseiros, além de manter bandidos corpulentos desesperados acima de suas cabeças com uma só mão.

Era o tempo dos proto-super-homens.

Eugene Sandow, Zishe Breitbart e tantos outros, foram elementos importantes para a compreensão da dimensão humana e da força física, foram igualmente ícones da coragem e da força de vontade, e influenciaram diretamente e indiretamente muitos elementos constituintes da cultura ocidental, construindo pontes que ligaram a realidade a fantasias e generalizações.

Ganharam muito dinheiro neste processo e marcaram seus nomes na história.

Se você aguentou ler até aqui, você está de parabéns.

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2 comentários em “Zishe Breitbart e os antepassados do Super-Homem”

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