Viajando sem drogas

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É impressionante o poder da mente humana.
Nós temos a fantástica capacidade de viajar, de sair por aí em devaneios semi-delirantes, indo onde nenhum outro pensamento jamais esteve. Muitas pessoas precisam de drogas e instrumentos artificiais que libertem sua mente das garras cruas do real. Mas eu preciso confessar que bastam duas coisas para que eu viaje imediatamente:
1-Cheiros
2- Musica

Viajar no tempo é algo delicioso e fantástico. Quer saber como? Pegue lápis de cera. Junte um punhado deles nas mãos e cheire!
Sim, pode parecer estranho cheirar lápis de cera, mas basta fechar os olhos, sentar confortavelmente e dar uma bela cafungada em uma caixa de crayons para imediatamente nossa mente apagar as contas, a política, as fofocas e o trabalho e imergir num turbilhão de lembranças do passado.
Ah, como era bom aqueles dias do primeiro período onde sua obrigação maior era fazer trabalhinhos como pintar com os dedos ou desenhar de lápis de cera.
Eu consigo lembrar dos meus amiguinhos, do pátio e das brincadeiras de rodar pneu. Correr por dentro de manilhas e pular do alto do escorregador pensando que era o Super-Homem.
A mente volta até a fila, cada um com a mão no ombro do colega para poder ir ao refeitório merendar. A pracinha, a bicicleta azul. Os passeios na casa da minha avó. Ir no Museu Mariano com a minha mãe.
Impressionante como certos perfumes conseguem se associar às memórias.
Não há quem duvide disso. Perfumes e lembranças são coisas fortes que se unem na nossa mente e ficam lá, armazenados como um local seguro para onde fugir nos momentos de estresse. Quem não se lembra de um perfume que marcou sua adolescência? Seja aquele perfume de uma ex-namorada, o cheiro do sótão da casa da avó, ou mesmo o cheiro que determinados restaurantes tem. Vivaldi – Vivaldi – Inverno

A música é algo capaz de ir além. Não só constrói laços de lembranças como nos remete a viagens plenas, delirantes, distantes. A música clássica me fascina de um modo específico. Eu escuto aquilo e na minha cabeça vão se construindo imagens e gradualmente essas imagens tomam um sentido, uma direção eminentemente visual de construir uma história.
Me vejo em carros, cruzando estradas, em navios cercados por tempestades revoltas, em castelos em chamas. Me vejo descendo em labirintos fantasmagóricos, templos imponentes encravados na selva tropical. Vejo furacões atingindo a costa, ondas enormes surgindo no mar. Peixes descendo fundo na escuridão.
Vejo leões perseguindo antílopes, dragões lutando no céu, planetas colidindo em explosões cuja mente humana não poderia conceber. Vejo rios se enchendo, peixes saltando corredeiras, raízes se entranhando na terra, árvores arrsicando-se no vazio na beira de penhascos. Vejo dinossauros entrando em lagos, insetos caçando, mulheres correndo em campos de girassóis.
Vejo pássaros decolando, serpentes se esgueirando, nuvens passando. Vejo o brilho branco da bomba atômica, do cogumelo espacial e da morte, que nos abraça mais cedo ou mais tarde.
Vejo o nascimento, as crianças abrindo os olhos, o sorriso de uma menina, um doce brilhante na vitrine.
Vejo o céu, ouço o mar. Sinto o vento. Tudo roda. Vejo a luz que surge por entre os galhos das árvores, a névoa que ilumina a selva no amanhecer, as pedras frias dos rios subterrâneos, o calor causticante do interior dos vulcões o brilho rosa do alvorecer. A explosão de luzes no céu, a aurora boreal. As flores de abril, o vazio espacial. Os cometas, as luas, os planetas gigantes de gás.
Eu penso nos tapetes persas, nos atronautas, e seus trajes espaciais. Vejo os guerreiros da África e os índios pescadores. Eu penso nos botos cor-de-rosa, nas pinturas de Rembrandt, nas armas, em quartéis. Eu peso nas despedidas, nas partidas e nos bordéis. Eu penso nas esculturas, nas dobraduras e nos golpes de picéis.
Eu penso em tudo isso, e quando a musica acaba, estou aqui novamente, pronto para clicar novamente no play.

16 comentários em “Viajando sem drogas”

  1. Que legal! Também viajo pacas ouvindo música clássica, principalmente do período impressionista. Recomendo ouvir um prelúdio de Claude Debussy chamado “A catedral submersa” e o “Jeux d’eau” de Maurice Ravel. É realmente incrível como esses compositores conseguiram criar imagens por meio da música.

  2. O engracado da viagem da musica é justamente essa, mas lendo a sua sequencia de visoes sobre que vc lembra ao escutar determinadas musicas fico tambem imaginando a musica sobre isso tudo que vc falou e tenho certeza q cada um conseguiria visualizar uma sequencia de imagens com um mesmo som de maneiras completamente diferenes. Abracao Philipe.

  3. Adoro 4 Estações. Isso me lembra a época da faculdade, nas madrugadas intermináveis estudando, tendo Vivaldi ao fundo. Música clássica sempre me ajudou a concentrar para determinadas situações: estudar, desenhar, desligar de um dia puxado para relaxar a mente… adoro.

    Só pra zoar, quer dizer que voce é viciado em lápis de cera? Seu drogado! Utilizando produtos químicos para dar onda… só falta falar que faz carreirinha com pó de giz. auhauhauha

    Abraços!

  4. Philipe, adorei os dois post, sobre a música (maravilhosa!) e sobre Você visto de perto. Uma das coisas que mais me impressionam na Ciência é essa capacidadade que ela tem de nos mostrar o quanto somos complexos e maravilhosos. Adoro quando você fica “científico”. Muito bom mesmo.
    Uma semana iluminada!
    :ohhyeahh:

  5. Que OTIMO post. Serio, philipe, fiquei muito nostalgiado com essa musica. Lembrei-me de minhas madrugadas do 3o ano colegial, momentos em que eu madrugava estudando fisica e quimica para o vestibular.
    E quanto aos cheiros, perfumes em geral sempre me fazem uma ponte ao passado: seja pelos seus parentes, professora do primario ou ex-namoradas.
    Alias, cabe ainda um terceiro tipo de memoria, a visual/local. Por exemplo, caso, supostamente, eu fique sem acessar ao teu site ou ir a algum lugar que, hoje, considero rotineiro: apos um longo periodo, ao voltar a ter contato com tais experiencias, estes referenciais lembrar-me-ao do atual momento, tais como cheiros ou musicas.
    Enfim, muito boa sua materia. Pode contar comigo quando voce lancar seu livro!

    Abracos!

  6. Não há dúvida de que o cheiro é o que mais marca. Por exemplo, eu tenho duas irmãs nos estados unidos: uma tá lá desde o início de 2008, a outra foi vai fazer quase um mês. Essa que foi agora levou um pote de Capuccino que minha mãe faz (e passou na alfândega! uahau) pra tomar com a outra irmã. Elas se encontraram e quando a que tá lá há mais tempo abriu o pote e saiu aquele cheiro, ela disse que na hora veio muito nítido na mente as tardes em que a gente não tinha o que fazer e ia tomar capuccino na cozinha.. ela quase chorou ahuehaue

    enfim, vc deveria experimentar uns incensos com a música la soñadora da enya que dá uns baratos legais 8D

  7. Fazer pipa, o gosto da cola de café-de-bugre (uma frutinha colante). Soltar a pipa. o cheiro do carretel de linha “40”, novinho! jogar bolinha de gude, brincar de esconder, de “romeu”(forma-se um grupo todos segurando na ponta de uma cinta. quem lidera faz uma pergunta que começa com uma determinada letra, Quando alquem acertar ele grita “ROMEU’, todos saem correndo e quando ele conseguir pegar a pessoa que acertou ela tem que se lembrar qual era a palavra, senão leva cintada!)
    DEVIAM MONTAR O MUSEU DO CHEIRO E DAS LEMBANÇAS! rsrss!

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