O despachante da morte – parte 1

Ele chamava Gilberto, mas todo mundo só chamava aquele cara de Gil. Gil tinha 47 anos e trabalhava numa repartição anexa ao tribunal de contas. Seu trabalho era conferir seis assinaturas por contrato, verificar cada página em busca de erros e por fim, desferir seis carimbadas diferentes e encaminhar para o setor seguinte, o do Carvalho, que então preparará os contratos para o setor de arquivamento.

Era isso e nada mais. Por 23 anos, 48 dias e 18 horas ele apenas verificou, corrigiu, carimbou e encaminhou.

Gil tinha o que nós todos consideraríamos uma vida meio medíocre. Ele viveu com a mãe dele, uma velha doente até que ela morreu caindo no chuveiro e acertando a cabeça no vaso sanitário. Desde então, ele passou a ser sozinho naquela casa velha e escura. Suas namoradas eram as mulheres das paginas centrais de revistas masculinas e seu passatempo era ler. Ele gostava especialmente de ler sobre fungos e esporos raros. E seu divertimento de final de semana se resumia a um interessante passatempo: O radioamadorismo.

Entretanto, Gil não falava no radio. Apenas ouvia. Ele passava horas e horas sintonizando e varrendo as faixas em  busca de conversas.

Eventualmente, ele sa√≠a de sua baia e caminhava pelo corredor que fedia a cigarro. No caminho at√© a cafeteira no fim do corredor, ele ia olhando aqueles cartazes feios colados nas paredes. Aqueles peda√ßos de fitas adesivas amareladas com bolinhas de poeiras ecrostadas ao longo de anos, aquela velha lixeira encardida que testemunhou tantos e tantos funcion√°rios p√ļblicos passando ali desde a era Vargas.

Ao chegar na cafeteira viu que o Carvalho e o S√©rgio Bastos do segundo andar discutiam futebol. Gil se aproximou em sil√™ncio e ficou ali, com aquela cara sorridente, balan√ßando a cabe√ßa em sinal positivo, doido para ser enturmado no assunto. Mas ningu√©m lhe dava a menor pelota. Gilberto n√£o sabia, mas seu apelido na reparti√ß√£o era “homem adstringente”, porque bastava ele chegar, os grupinhos se dissolviam imediatamente e cada um voltava a sua mon√≥tona rotina de torturas aos quais algu√©m muito c√≠nico, deu o nome de trabalho.

Sem amigos, sem colegas e sem parentes conhecidos, Gil terminava seu dia sempre da mesma forma. Tomava um caf√© na cafeteria do outro lado da rua. Pegava os trocados e caminhava a passos lentos para o ponto do √īnibus, onde esperava por v√°rios minutos at√© vir um mais vazio que o levasse para casa.

Gil era t√£o solit√°rio que um dia teve a sensa√ß√£o que n√£o se lembrava a √ļltima vez que havia falado com algu√©m. Suas √ļnicas palavras trocadas em muitos dias eram com o “Seu Mineiro”, um para√≠ba que lhe atendia na cafeteria. Mas h√° muito, Seu Mineiro sabia de cor e salteado o que Gil iria pedir e t√£o logo avistava a figura baixa com o guarda-chuva sob o bra√ßo se encaminhando pra l√°, j√° se adiantava, providenciava o expresso de sempre.¬† Gil era ignorado at√© mesmo pelo cara do cafezinho.

Gil tinha um segredo.

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Mona Lisa remake

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Provavelmente o quadro mais famoso do mundo √© a Mona Lisa, do g√™nio Leonardo Davinci. O padr√£o de formas geom√©tricas que comp√Ķe este quadro j√° est√° t√£o arraigado na cultura popular que talvez esta seja a forma mais facilmente reconhecida, ao lado da imagem cl√°ssica de Jesus, Mickey Mouse e o logo da Coca-Cola. Aqui …

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