El Matador

Caetano de Jesus Paraños olhou fixamente para sua imagem no espelho. Ele ficava naquela situação durante intermináveis minutos toda vez que ia para o trabalho. Era um momento de ficar sozinho, de refletir e se concentrar. Caetano repassava mentalmente cada um dos movimentos treinados arduamente ao longo de 12 anos de profissão. Assim como seu …

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O despachante da morte – Parte 4

A morte é uma curva na estrada.

Morrer é só não ser visto.

Fernando Pessoa

Gil carimbava os documentos se sentindo completamente liberto daquela estranha maldição. Jurou para si mesmo que jamais abriria a boca sobre os insólitos fatos acontecidos naqueles últimos dias.

A cada hora que passava sem o maldito chiado, ele ficava mais e mais eufórico. De alguma maneira a morte talvez o tivesse esquecido. Ou quem sabe, aquele tivesse sido um breve surto psicótico seguido de algumas coincidências e agora ele estivesse voltando ao normal.

Alguém batucou na lateral da baia dele e Gil levantou os olhos. Antôio Carlos do DP estava ali com uma mocinha bem bonita.

-Gil, esta é a Rosana. Rosana este é o Gil.

-Rosana? -Disse Gil abrindo um sorriso para a menina.

-Sim. -Falou Antônio. -Ela será a nova recepcionista aqui do setor. Vai entrar no lugar da Lu. Que Deus a tenha.

-Pobre Lu. -Disse Gil.-Mas em todo caso, bem vinda, Rosana. Muito, muito pra, prazer em conhecer.-Gil gaguejava quando via mulheres bonitas.

-O prazer é meu doutor Gil.-Disse a moça, sendo levada pelo braço para outra baia pelo Antônio do DP.

Gil ficou ali tentando pescar no ar alguma fragrância do perfume da moça. Ele tinha esta tara estranha por perfumes e cheiros de shampoo. Além disso, tinha uma tara meio bizarra por calcinhas, mas isso é outra história.

Gil voltou-se para carimbar os documentos. Dali a uns instantes, resolveu tomar um café. Ele foi até a cafeteira e chegando lá viu que tinha acabado os copinhos de plástico. Uma das grandes desgraças numa repartição pública é quando os copinhos de plástico acabam. Ele desceu pela escada no fim do corredor para ir até o andar de baixo roubar alguns copinhos, quando ouviu o som abafado que vinha do cafezinho do primeiro andar. Gil pareceu ouvir seu nome e então parou para ouvir. Em silêncio começou a escutar o eco de risos, risos femininos e pessoas falando dele.

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O despachante da morte – parte 3

Gil apenas ouvia a morte falando na sua cabeça. Enquanto os homens desciam o caixão, e as tias velhas choravam copiosamente abraçadas, Gil ouvia e balançava sua cabeça afirmativamente. Tal qual uma vaquinha de presépio.
-Vamos lá, Gil. O serviço é agora. A encomenda precisa ser entregue.
Gil virou-se e saiu à francesa.
Caminhava a passos largos na direção da rua. O cemitério era extremamente silencioso e os passos dele ecoavam. Gil ouvia o som do vento. E gradualmente, à medida em que se aproximada da rua, os sons dos carros e buzinas começaram a surgir. O único som que ficava permanente era aquele chiado em seu ouvido.
-Vá até a próxima esquina e alugue um carro. -Disse a morte.
Gil obedeceu. Atravessou a rua e caminhou até a locadora. Ali alugou um carrinho popular.
Mal entrou no carro, ele disse:
-E agora?
-Dirija.
-Pra onde?
-Para São Paulo.
-Porra. Tem noção da distância de São Paulo?
-Cale a boca. Eu sei o que eu estou fazendo. Você vai pra São Paulo. Agora.

Gil ficou puto, mas obedeceu. O carro estava com o tanque cheio. Gil pegou a estrada e acelerou na direção da metrópole.
Enquanto dirigia, gil ligou o radio. Estava tocando uma musica sertaneja chata.
Os caminhões passavam rente a ele. Gil não era muito de dirigir. Ele tinha um fusca, mas vendeu para pagar o velório da mãe. Morrer custa caro.
Algumas horas de estrada e já era alta madrugada. Enquanto dirigia, Gil pensava uma boa desculpa para faltar ao trabalho na mesma semana em que havia chegado tarde. As pessoas acabariam desconfiando que havia algo errado, afinal ele era o mais pontual de todos.
Parou num posto e encheu o tanque novamente no cartão de crédito. Quando se deu conta do preço, ficou horrorizado. Teve vontade de sacar o revólver e pegar seu dinheiro de volta.
Retomou a estrada mais pobre e dirigiu por toda a madrugada até que os raios do dia começaram a surgir no céu, tingindo-o de cores entre o cor de rosa e o lilás.
Gil parou num posto para tomar café. Pediu um expresso e um misto quente.
Ao seu lado só os caminhoneiros.
Ele mastigava o misto quando o chiado retornou.
-Bom dia. -Disse a morte. Pelo tom de voz, Gil notou que a morte estava de bom humor.
-Bom dia. -respondeu ele.
A moça do café olhou pra ele e disse:
-Bom dia.
Gil sorriu achando graça da situação. A morte pareceu rir também.

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O despachante da morte – parte 2

Gil não podia acreditar no que aquela voz dentro da cabeça dele falava.

Outro serviço? Como assim? Já não bastava uma morte? Uma encomenda?

Mas a voz continuou com seu tom elétrico monocórdio, quase que como uma interferência ou linha cruzada de telefone:

-Anota aí. O novo endereço é um shopping. Fica na Vila Marina. Sabe aquele shopping novo? Chama-se Maison Pallace. Você vai até este shopping, ainda hoje. Assim que acabar o expediente. Chegando lá eu te digo o que fazer. Até lá.

A morte pareceu desligar. O ruído no ouvido dele diminuiu. Gil bebeu o café já frio em sua mão e fez uma cara de nojo. Ele detestava café frio.

Voltou para sua baia como se nada tivesse acontecido. Tornou a verificar os documentos e carimbá-los para expedição. Um ruído lhe chamou a atenção. As pessoas do seu departamento faziam a tradicional entrega de presentes. O amigo oculto. Gil se aproximou e apenas observou, como fazia todos os anos. Desde sempre que ele nunca era convidado para participar do amigo oculto. Talvez por ele ser oculto em sua existência triste. Talvez por ele não ter amigos. Ele via as pessoas felizes se abraçando. Eram presentes simples. Canetas, agendas, cds, perfumes. As pessoas em total congraçamento.

Luciana chegou com o presente para Cláudio. Ele abre o presente da menina. Os dois se abraçam. Gil nota que o abraço dos dois demora mais que o normal. Nota que Cláudio dá um beijo discreto no pescoço de Luciana.

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