A busca de Kuran – O encontro com o demônio

Quando finalmente abri os olhos, vi que estava deitado na sala dos ossos. Estava escuro. Um pouco adiante, cerca de uns seis metros de onde eu estava deitado, vi Petrus e Richard conversando. O Lampião estava com eles. Petrus convencia Richard de que aquilo que ele vira não era exatamente uma assombração, mas o médico parecia em estado de choque.

Fiquei ali parado vendo as sombras dançando assustadoramente na sala dos ossos. Leonard estava na parte mais escura da sala, tateando alguma coisa que não consigui ver.

-Ai meu pescoço. – Eu disse, sentindo a forte torcicolo causada pela posição que fiquei quando perdi os sentidos.

Tão logo os meus amigos me viram acordando, voltaram na minha direção.

-Tá tudo bem, Wilson? Perguntou Petrus, me estendendo a mão para levantar.

-Sim. Tô legal… – Eu disse.

-E aí, garoto? – Disse Leonard, com seu jeito sempre sério e vagamente impessoal de ser.

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A busca de Kuran – O templo da morte

Quando Carlos e Richard se aproximaram o suficiente para ouvirmos, eles gritaram:

-Achamos um templo! Dentro da montanha!

Petrus me olhou em silencio. Imediatamente, ouvi o pensamento dele:

“Gaap está lá.”

Nós nos juntamos a eles e corremos pelo paredão de rocha até sua face menos atingida pela erosão.

Quando me deparei com a entrada do templo,fiquei completamente impressionado. A rocha havia sido escavada na forma de uma grande cruz, estando a porta do templo no centro da cruz.

-Eu vou ter que registrar isso para a posteridade. – Eu disse, já pegando a câmera. Corri para me distanciar o suficiente afim de realizar um bom registro. Eu nunca havia sonhado em ver algo assim antes.

A busca de Kuran - O templo da morte
O templo havia sido talhado na rocha de maneira que não havia nenhum sinal da escavação. A sensação que nós tínhamos era que algo havia cortado a pedra como se ela fosse manteiga e gravou em baixo relevo imagens muito antigas, que a erosão e o vento do deserto se encarregavam de apagar. A porta do templo estava a cerca de uns oito metros de altura do chão do platô. Não havia nenhuma escada, recortes na pedra ou outra forma de acessar a parte inferior do recorte da cruz.  Quando voltei até o grupo, encontrei Petrus e Carlos Refacho conversando sobre a origem milenar daquela construção.

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A busca de Kuran – O diamante sangrento

Eu estava andando a pé no meio da planície. As pedras rolavam sob meus pés. Eu não sabia o que fazia andando descalço pelo deserto e quando dei por mim já estava longe. Não havia sinal do acampamento ou coisa parecida. Uma luz difusa iluminava o céu e não havia som do vento ou qualquer outro. Eu sentia medo e frio.

Olhei ao redor em busca de alguma pista que indicasse onde eu estava, mas tudo que vi eram as montanhas, bem perto de mim.

Um brilho fraco atraiu minha atenção. Eram diamantes. Milhões deles espalhados por todos os lados no chão.

Abeixei-me e peguei um. Seu brilho era espetacular.

Subitamente, vi o pé retorcido e carcomido na minha frente. Me levantei e dei de cara com ele novamente. Era o Guardião.

-Eu avisei para sair do meu deserto, verme!  – Ele rugiu com os olhos injetados de ódio.

Mas diferente da outra vez, eu estava bem mais calmo, bem mais seguro.

Levantei-me e olhei pra ele, bem nos olhos.

Eu não disse nada. Não tive coragem de perturbá-lo ou despertar a sua fúria. Mas mantive-me onde estava, olhando para ele.

O Guardião abriu sua mão magra e ossuda e eu vi que ele tinha um corte no dedo. Do corte, pingou uma gota de sangue que girou no ar até atingir o diamante no solo. O velho soltou uma gargalhada maníaca e estourou numa nuvem de fumaça preta que desapareceu diante dos meus olhos. O diamante no chão estava vermelho.

Eu me abaixei para pegar, mas então…

– Não! – Ouvi o eco distante de uma voz conhecida. Era Leonard.

-Leonard? Leonard? É você? Cadê você?

Mas não ouvi resposta. Eu continuei olhando para o diamante e não o toquei. Afastei-me lentamente e então tudo escureceu. Me senti caindo, caindo. Até que levantei num pulo. Eu estava no saco de dormir. A luz do sol entrava pela fresta da barraca.

“O sol está no céu!” – Pensei.

Ao sair da barraca, vi as pessoas levantando o acampamento. Aquela era a primeira vez que eu apagava de forma tão pesada em muitos dias. Saí da barraca e  vi que Suleiman vinha em minha direção. Dele, recebi uma caneca com chá fumegante.

-Gan bei! – Eu disse, erguendo a caneca.

-Wilson, yakshee dos! – Ele disse. E então saiu.

Allan estava ao lado, sentado na areia, amarrando o cadarço das botinas.

-O que ele disse?

-Disse que você é um bom amigo. -Respondeu Allan.

Entendi que aquela era a forma de Suleiman me pedir perdão por me abandonar com as aranhas. Tomei o chá bem quente sentindo na pele o vento frio que soprava das montanhas.

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A busca de Kuran – As montanhas

Enquanto andávamos, eu pensava nas palavras dele. Leonard havia me dito quem era Kuran, mas eu ainda não conseguia entender.
Minha cabeça estava confusa demais para conseguir juntar o monte de informações que ele me passou. Kuran era apenas um nome, usado pelos magos da ordem de Leonard para se referir a um gênio, que até aquele momento eu não sabia exatamente o que era, e que por alguma razão mística que eu também não consegui compreender direito, estava ligado a tal adaga que ele havia me mostrado na barraca dias atrás.
Embora todos chamasse Kuran de Kuran, o nome do gênio não era aquele. Leonard disse que não poderia me contar o nome do gênio, sem que eu passasse a poder controlá-lo, o que certamente causaria grandes problemas, pois eu ainda não estava preparado.
Os uigures já andavam, puxando os camelos reclamões pelo deserto enquanto minha cabeça retornava constantemente às lições que Leonard me dava. Eu sentia que quanto mais tempo passava perto de Leonard, mais consciente da minha natureza eu me tornava.

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A busca de Kuran – O deserto mostra suas garras

-Falta muito? – Perguntou Joseph.
Leonard não respondeu. Apenas olhou o mapa e a bússola, tentando se localizar. Agora estávamos num mar de areia que se espalhava para todas as direções ao nosso redor. Não dava para ver o horizonte. Eu sentia que alguma coisa não estava certa. Havíamos andando pelas areias escaldantes o dia todo e naquele dia, por ordem de Leonard, nós não paramos para descansar ao meio dia.
Eu percebi que os Uigures pareciam deprimidos, já não nos olhavam mais nos olhos. A morte de dois homens e o sacrifício de um dos camelos havia realmente afetado a moral deles.
Percebi que para os Uigures a morte do camelo tinha sido muito mais que uma desgraça ocasional e passageira. Era um sinal de que nos aproximávamos do começo do nosso próprio fim. Eu temia que eles estivessem certos. Pela expressão preocupada de Leonard, ele também.

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A busca de Kuran – O primeiro passo no desconhecido

Eu estava atrás da pedra em forma de bola, e por isso os membros do grupo não viram quando eu me virei e dei de cara com… Aquilo.

Era um homem velho, de aparência decrépita, que estava me olhando fixamente. A esquálida mão agarrada firma no meu braço. Ele vestia um manto preto e não parecia feliz. O misterioso velho fez uma coisa ainda mais estranha que sua aparência. Ele falou sem mexer a boca. Ele falou dentro da minha cabeça.

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A busca de Kuran – A água mortal

Havia anoitecido e continuávamos nossa jornada silenciosa em direção ao coração do deserto. Leonard havia pedido para que o Profeta não cantasse. Também retiramos os sinos dos camelos. Era importante que não atraíssemos a atenção.

Caminhar com os camelos na escuridão absoluta do deserto era muito mais difícil do que poderia parecer. Embora a lua colaborasse surgindo por trás de finas camadas de nebulosidade que eventualmente a circundavam e espalhavam seus fracos raios em uma difusa luminosidade que apenas nos deixava ver a linha do horizonte, seria fácil errar o caminho ou dar um passo em falso e despencar do alto das enormes dunas. Andar sem saber por onde poderia nos conduzir direto à morte. Tínhamos apenas uma lanterna de querosene, das quatro usadas na expedição.Não poderíamos usar as tochas como na caravana principal, pois elas atrairiam a atenção na escuridão quase absoluta do Taklimakan.

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A busca de Kuran – Os primeiros dias no deserto da morte

Minha vista estava embaçada. O ar parecia não querer entrar nos meus pulmões. O cansaço me fazia pensar em desistir a cada novo passo.
Já era o terceiro dia em que caminhávamos, quase que nos arrastando como uma gigantesca cobra pelas areias escaldantes do Taklimakan. Eventualmente, eu me aproximava de um ou outro no decorrer de nosso caminho. Num certo momento, emparelhei com Ivan Ulvaeus, um homem estranho de cerca de trinta e oito, quarenta anos, que segundo Allan me contou, era um ex-combatente, que vivia na Suécia. Ele nascera em um lugar chamado Reiquejavique, na Islândia, no meio do gelo. Ele era meio esquimó e talvez por isso tivesse uma aparência tão peculiar. Os olhos rasgados, uma permanente expressão nada feliz. Ivan estava sempre de cara amarrada e só vi este homem sorrir uma única vez, para uma foto. Allan conhecia Ivan graças à fama dele, que o precedia. Segundo Allan me contara, Ivan era um homem mau, que não hesitaria em matar alguém que se colocasse em seu caminho. Mas ele era igualmente confiável e fiel. Havia dado provas de sua amizade a Leonard antes.
“Tome cuidado com ele!” – Me alertou o tradutor Allan Laforet.
A língua era uma barreira brutal, mas o vento que nos açoitava a carne com pequenos e cortantes grãos de areia era tão hostil que a barreira linguística se reduzia. Estávamos todos irmanados na desgraça.
Ivan olhou pra mim com seus olhos pequenos, agora ainda mais miúdos por estarem apertados para conter a claridade.
Olhei pra ele e sorri.
-Vento desgraçado, né? – Comentei.
Ele apenas olhou pra mim, depois olhou para a frente e seguiu, puxando o camelo. Obviamente, não entendeu nada. Mas não praguejou, como costumava fazer. E interpretei aquilo como um bom sinal.

Puxávamos e instigávamos os camelos através de montanhas enormes de areia o dia inteiro. Era um trabalho hercúleo, que nos levava todos à exaustão. Em alguns lugares as areias estavam excessivamente fofas, e afundávamos mais do que gostaríamos, o que exigia de nós, principalmente dos camelos, um esforço ainda maior. Isso baixava tremendamente nossa velocidade. Eu mal conseguia respirar, mas notei que os cameleiros Uigures não apenas faziam tudo que fazíamos com facilidade, como faziam cantando, e nas paradas de descanso, eles desarrumavam os camelos, preparavam a comida, montavam as cabanas, enfim, eram os primeiros a sair do descanso e os últimos a entrar. E quase nunca perdiam o bom humor.

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