Saudades do festival de plágios e versões na música brasileira

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Certa vez, Abelardo Barbosa, o imortal Chacrinha, deu ao mundo uma de suas grandes pérolas do conhecimento. O Criador do Bordão Terezinha-Uh-Uh escrachou uma verdade insofismável que dizia:

“Na televisão, nada se cria, tudo se copia”

Chacrinha estava coberto de verdade. Mas sua frase poderia ter se expandido para além dos limites televisivos. Natural do Rádio, Abelardo Barbosa era um homem que sabia que nas músicas, principalmente nas décadas de 60,70, 80  a música estava repleta de versões e plágios descarados de sucessos internacionais. E claro, isso continua depois da morte do Chacrinha.
Quando digo que sinto saudades de certas musicas plagiadas, digo com a maior convicção que posso ter no meu peito. É mil vezes melhor ouvir uma versão de musica que é boa do que uma tentativa de algo novo que resulte numa bosta.

Eu já falei aqui antes de musicas – especificamente do Roberto Carlos – que parecem ser plágios dos mais descarados (não vou dizer que é porque o Robertão gosta muito de colocar o advogado processador dele para trabalhar).
No Brasil, o “rei” Roberto Carlos já perdeu em todas as instâncias um processo por direitos autorais. A música “O Careta”, composta por Erasmo Carlos e Roberto Carlos é um plágio de ‘Loucuras de Amor’, música de Sebastião Braga, feita em 1985. Que feio, hein majestade?

Mas se a gente olha para trás, veremos um pancadão de musicas que são tão, mas tão vergonhosamente iguais que chega a dar medo! Algumas são puras versões, quase com a mesma letra, inclusive. Quer ver um exemplo de versão que pouca gente sabia que era versão até hoje? Essa famosa do Sidney Magal:

Tá aí o Magal, todo pimpão, exalando feromônios por todos os seus poros sensuais. Quem diria que essa musica é uma chupada quase ípsis litteris do Sucesso dum argentino, um tal “Sabú”. Note a semelhança:

O volume de versões é impressionante. Há umas versões que são clássicas, e por alguma razão que me escapa, certas musicas parecem feitas quase que propositalmente para depois virarem versões pelo mundo todo. Uma dessas musicas base que imploram por uma versãozinha é este clássico do melodrama aqui:

Os caras do The four Voices cunharam quase que uma pedra angular das versões, com mais de 40 variantes dela em todo o globo. No Brasil essa melô grudenta ganhou fama nas vozes (note a interpretação teatral) de Luan e Vanessa, que quase se pegavam no palco a cada apresentação.

É muito bão, né gente? Essas musicas tocavam no radio sem parar, embalando diversos romances adolescentes.

Nem a Elis Regina escapou de cantar versão. Ela tirava onda com “Fascinação”:

…Que era musica de mesmo nome do Fermo Dante Marchetti, aqui cantada por Nat King Cole:

Dificílimo dizer qual melhor versão, porque a musica é linda e tanto Elis quanto Nat cantam com maestria. Pra mim deu empate.

Mas enquanto muitas musicas a gente sabe de cara que só podem ser versão, porque a letra cai nuns “buracos” e se resolvem com umas rimas que não tem “lé com cré” (o caso de Astronauta de Mármore que veremos mais à frente) outras parecem tão naturais que chega a ser um choque descobrir que são versões. Exemplo, o sucesso da era Collor, o lambadeiro “Chorando se foi”, do Kaoma, que tocava até nas bugigangas do Paraguai:

Toda vez que toca isso me lembro do Collor correndo com aquelas camisetas escrotas cheio de jornalistas otários indo atrás.
Veja se parece:

De volta ao pop, que chupou com vontade por aqui, temos a tal musica que eu falei, cuja letra deixava verdadeiras hipóteses conspiratórias na minha cabeça quando eu era moleque (pra piorar tinha disco voador no clipe!) que é a Astronauta de Mármore, do Nenhum de nós. Versão devidamente oficializada de Starman, do Bowie:

Aqui a original:

Não deixe de ver este post onde os integrantes do Nenhum de Nós contam como foi a história dessa versão.

Há musicas que você não acredita que são versões, porque de tanto ouvir, acabamos nos acostumando com elas. Veja só a musica do Sílvio Santos, “Ritmo de festa”. Sim, ela também é versão, meu chapa! Vai Sílvio!!!

Ó aí a original:

Há inúmeras outras versões de grandes sucesso que a gente nem imagina que são versões de musicas estrangeiras (veja outras neste post).

Veja, não há absolutamente NADA ERRADO numa versão. A versão, geralmente é feita com AUTORIZAÇÃO expressa do autor. Geralmente, as gravadoras que desembaraçam essas questões legais. Se a versão tem a desvantagem de não ser uma musica completamente original, ela tem uma série de vantagens, que começam no fato de que raramente se faz versão de musica que não deu certo. Há um certo mistério (que hoje a Neurociência se esforça para desvendar) no que faz com que uma musica seja um sucesso e outra não. As Versões tiram proveito de musicas que se mostraram com potencial para o sucesso. O resultado são musicas que ja eram boas ou promissoras “na gringa” chegando aqui com grande potencial melódico, que estouram em (previsíveis) grandes sucessos.
Tipo “Quem de nós dois”, da Ana Carolina, que tocou tanto no radio que enjoou, mostrando-se um megasucesso.

E fez sucesso na versão do José Augusto:

Vê a original aí:

Mas e o plágio?

Já o plágio é outro lance. O plágio é uma chupada sem vergonha e muito menos autorização do trabalho de alguém. No Brasil temos diversos casos de plágio, mas a sacanagem não é prerrogativa dos brasileiros. No exterior o plágio musical come solto há séculos. Um bom exemplo de plagio é a partitura de George Martin para a canção “All You Need Is Love”, dos Beatles (1967), que contém melodias de diversas canções tidas como sendo de domínio público, incluindo “In the Mood”, escrita por Joe Garland e Andy Razaf. Tudo bem que a música era de domínio público, só que o arranjo de Glenn Miller utilizado não era, e foi por isso que a gravadora EMI foi obrigada a fazer um pagamento de royalties a KPM Publishing em julho de 1967.[wp_ad_camp_5]
Outro caso emblemático diz respeito ao entrevero envolvendo a famosa banda inglesa Led Zeppelin. A letra da música “Whole Lotta Love” foi copiada da canção “You Need Love”, de Willie Dixon de 1962. Só em 1985, Dixon entrou com um processo de violação de direitos autorais, resultando num acordo extrajudicial. Mais tarde, as edições do álbum Led Zeppelin II passaram a creditar Dixon como co-autor. Nada mais que o justo, né?
Os casos são muitos, eu ficaria só citando eles o dia todo aqui e não chegaria nem à metade. Há casos em que gringos vem aqui “beber na fonte”. Por exemplo, no refrão da música “Taj Mahal” de Jorge Benjor, que acabou sendo plagiado por Rod Stewart em 1978, em “Do ya think I’m sexy?”.
Rolou processo, lógico. O cantor inglês acabou conseguindo contornar o caso na justiça e tudo resolvido amigavelmente depois que Rod Stewart doou os lucros provenientes da canção para a UNICEF.

Raulzito chupador

Meu mundo caiu no dia que descobri que Raulzito era mestre em chupar o trabalho alheio. Eu, como fã declarado de Raul Seixas o tinha como uma locomotiva de genialidade musical. Foi triste constatar por meio deste artigo que tudo que eu pensava era só uma idealização. Não deixei de gostar do Raul de seu jeito loucaço e de suas canções, principalmente as originais dele mesmo, mas depois de vê-lo copiando na maior cara de pau o trabalho alheio, tive uma dimensão muito mais próxima de um ser humano. Sabe aquele defeito moral que te faz gostar ainda mais de um personagem? Aconteceu isso comigo.

Raul Seixas Saudades do festival de plágios e versões na música brasileira

Raul copiou diversas musicas. A maioria dos plágios ele negava, mas uma ou outra assumia de peito aberto. Como em “Rock das Aranhas”, uma música tradicional americana que tinha sido gravada por Jim Breedlove em 1958, e posteriormente por Elvis Presley. Ao ser indagado sobre o caso, Raul Seixas disse: “Meti a mão! ‘Killer Diller’ é uma música que adoro, e peguei o arranjo, ficou bonito e ninguém notou!!! “.

Raul supostamente teria feito aquela obra prima chamada ” Eu nasci há dez mil anos atrás”, que supostamente seria uma versão de “I Was Born 10.000 Years Ago” do Elvis. Pra ficar ainda mais complicado o lance, a música não é de autoria do “Rei do Rock”, é sim uma música de domínio publico americana gravada por ele.
Paulo Coelho, o “co-autor”, ao ser questionado pela imprensa sobre o assunto, desconversou, mas depois afirmou que Raul prestara tributo a seu ídolo maior. Como se fosse Raul o único responsável pela fraude.

Segundo o artigo do Barata Chichetto:

Uma banda que Raul também parecia adorar a ponto de copiar era The Beatles. “Peixuxa” tem a abertura idêntica a “Obladi-oblada”, do White Álbum. “Back in the U.S.S.R.” do mesmo disco e “Get Back” foram picotadas e juntas formaram “O Dia da Saudade”. E um outro caso que merece uma historinha: “S.O.S.” é uma cópia descarada de “Mr Spaceman” do Byrds e teve uma outra versão, com uma letra um tanto diferente, dois anos antes, em 1972, que tinha o nome de “Objeto Voador”, gravado pela dupla jovenguardista Leno e Lilian. […]
Mas o suprassumo é realmente quando a cópia é de músicas que já eram plágio, como foram os casos de “Loteria de Babilônia” e “Gita”. A primeira tem um final que é um felatio de “How Many More Times” do Led Zeppelin que já tinha sido devidamente boqueteada de “The Hunter”, um antigo blues de Albert King. Particularmente não acredito que Raul tenha se baseado na cópia do Led, mas na original, de King. Já “Gita”, foi originalmente composta por Bobby Russel com o titulo de “Honey I Miss You” que os Rolling Stones chuparam e chamaram de “No Expectations”.

fonte

Ver o cara chupar o trabalho alheio na cara dura não faz com que deixemos de gostar da figura dele. Mas é um pouco triste. Sobretudo se lembrarmos de sua frase célebre, na época vista como zoação, e que talvez fosse apenas a mais límpida e cristalina verdade:

“Sou tão bom ator que finjo ser cantor e compositor e vocês acreditam.” 

Veja aí uma lista de musicas potencialmente chupadas pelo Raulzito:

 

1. The Byrds – “Mr Spaceman” / “S.O.S.”

2. Jim Breedlove – “Killer Diller” / “Rock das Aranhas”

3. Peter And Gordon – “Willow Garden” / “A Beira do Pantanal”

4. Elvis Presley – “My Baby Left Me” / “A Verdade Sobre A Nostalgia”

5. Domínio Público (Spiritual) – “Working On The Building” / “Gospel”

6. Elvis Presley – “I Was Born About Ten Thousand Years Ago ” / “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”

7. Albert King – “The Hunter” / Led Zeppelin – “How Many More Times” / “Loteria da Babilônia”

8. The Beatles – “Back in the U.S.S.R.” e “Get Back” /
“O Dia da Saudade”

9. The Beatles – “Obladi, Oblada” / “Peixuxa”

10. Bobby Russel – “Honey I Miss You” / The Rolling Stones – “No Expectations” / “Gita”

11. Simon & Garfunkel – “Bridge Over Troubled Water” / “Ave Maria da Rua”

12. Carl Perkins – “Honey Don’t” / “Rock do Diabo”

Fonte: Cópia Infiel: Ato 1: Raul Seixas e o Dolo de Ouro http://whiplash.net/materias/biografias/163133-raulseixas.html#ixzz3VEYoQrTW

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37 comentários em “Saudades do festival de plágios e versões na música brasileira”

  1. Quer um caso de versão tripla? Em 1990, os argentinos do Soda Stereo lançaram um de seus maiores sucessos, chamado “De Musica Ligera”. Assim, em 1996, o Paralamas do Sucesso fez uma versão com tradução literal dessa música, que se chama “De Música Ligeira” do álbum Nove Luas. Mas, para apimentar o negócio, o Capital Inicial pegou a letra original, modificou algumas coisas e lançou o grande hit-mela-cueca “A Sua Maneira” no começo dos anos 2000, que é a versão mais famosa das três no Brasil!

    • Outra dessas versões duplas é Blower’s Daughter, do Damien Rice. A Ana Carolina e o Seu Jorge lançaram a versão deles (É isso aíiiiiii) e a Simone também (Então me diz), na mesma época.

    • Com o detalhe que o Capital Inicial jamais contou a verdade até hoje que ficou evidente por causa da Internet. SODA ESTÉREO, através dos seus representantes legais, advogados e manager, tentou reivindicar os direitos autorais durante anos e jamais foram atendidos por esta banda de plaggiadores, que já copiou diversas musicas sem honrar e nem sequer mencionar os autores.

  2. Excelente post, não sabia de várias destas. Uma que soube recentemente que era versão e me surpreendeu é Marvin, do Titãs. Eu tinha certeza que era do Nando Reis até ouvir Patches, de Clarence Carter. Pra não fugir da tradição, a original é melhor que a versão!

  3. A música de Gianluca que virou versao com Ana Carolina teve outra versao brasileira, pelo cantor brega José Augusto. As duas versões possuem letras em português completamente diferentes.

  4. Tem aquela que tocava no começo do antigo programa de auditório do Silvio Santos, que era tipo: Pedro de larara laralara laralaralaralararara… A Sônia Lima ra lara laralara…
    Essa foi chupinhada da música Those where the days, de Mary Hopkin

    • Cara eu acho que essa da Mary também é versão, de uma musica que se não me engano é peruana ou colombiana. Uma vez um amigo me disse, mas esqueci o nome.

    • Na verdade essa versão da Mary Hopkin já é uma versão de uma música muito popular no leste europeu… Não sei o nome em russo, mas se procurar por “By the long road russian” acha fácil…

      🙂

  5. Sou fã do Raul, mas não sou um fanático que leva tudo ao pé da letra, que tem cavanhaque, usa bota por cima das calças e anda na rua fazendo trejeitos tal como o Raul fazia. Acho que isso é falta de personalidade e de amor próprio. Faltou mencionar que a música Metamorfose Ambulante (sim, Metamorfose Ambulante) é um plágio da With A Little Help From My Friends do Joe Cocker.

  6. Cara, foi muito legal relembrar essas musicas, sendo chupadas ou não, mesmo assim marcaram nossos momentos de uma forma ou de outra.
    Só lembrando: Roberto Carlos também cantou fascinação.

  7. Cara, relembrar essas músicas que marcaram momentos em nossas vidas foi muito bom. se pra voce (que é piá) já foi nostálgico, imagina para nós coroas. Foi muito legal. Só lembrando: Roberto Carlos também cantava fascinação, naqueles seus famosos shows de fim de ano na “globo”. Não sei se gravou também.

  8. A melhor versão da musica Those Were The Days chupinhada pelo Silvio Santos ( na minha opinião) foi feita pela banda Turisas. https://www.youtube.com/watch?v=RCubsJtkxY0. Metal na veia!

  9. A respeito das músicas do Raul, me chamaram a atenção duas coisas:
    1- em alguns casos ele copiou até uma boa parte do arranjo, sem medo nenhum;
    2- em quase todos os casos, se me falassem que a do Raul era a original, eu até poderia acreditar. Basicamente as originais de verdade (especialmente as mais estilo rock cru, anos 60) tem tanto a cara e o jeito, as vezes até a forma de cantar dele, que são elas que parecem versões. Achei isso especialmente curioso.

    Adorei o post!

  10. Esta menção a música do Dixon que o Led “copiou”, talves seja a mais impactante, tendo em vista a banda ser um mito.
    Mas tem uma que você se esqueceu, daquele cantorzinho cearense Fagner, a música Romance no Deserto, que fez tremendo sucesso, é uma cópia escancarada de Romance in Durango, do célebre Bob Dylan.

    • Chamar Fagner de cantorzinho e citar bob dylan é piada de péssimo gosto, esse gringo é um dos seres de voz mais ridícula no universo que cometeu algumas das gravações mais mal feitas da história da música, tanto que é ruim de encontrar a versão da música na voz desse cidadão quem tentar no youtube vai se deparar com um monte de covers, acho que quem ouviu não teve coragem de postar de tão ruim, meu ouvido não aguenta, o máximo que eu engulo ouvir é cover do guns e do kansas, se ouvir a voz do cabra esse gringo fecha a boca de vergonha e poupa nossos ouvidos para sempre de sua voz, a versão em português não é do Fagner e sim do Fausto Nilo que deu uma consertada na letra original que é de um contador de historinhas que tentou mais nunca conseguiu fazer uma música direito, as letras não cabiam nas melodias.

  11. Excelente post… Como sempre Philipe.
    Sempre me vem a mente, quando leio ou escuto algo sobre plágio/versão autorizada, a introdução de “Always Somewhere” do Scorpions e “Simple Man” do Lynyrd Skynyrd… Como é que pode ser tão idêntica assim?
    Abraços.

  12. Philipe, você citou a música do Kaoma aí como versão, mas já ouviu a versão da Jennifer Lopez da mesma música?

    https://www.youtube.com/watch?v=t4H_Zoh7G5A

    Queria até saber se deram os créditos… Hahahaha

  13. A “versão” cantada pela Elis é a primeira letra que essa música recebeu em qualquer idioma embora outro cantor brasileiro a tivesse cantado antes, antes da letra em português era somente uma música instrumental, a versão em inglês cantada pelo Nat King veio depois e não casa tão bem com a melodia quanto a verrrsão brrasileira, vamos combinar que ninguém chegou nem perto da interpretação da Musa tupiniquim.
    Quanto a chorando se foi o grupo perdeu um processo por plágio e se desfez(não sei o que Collor tem a ver com isso), mas quem moveu o processo foi Marcia Ferreira, autora da versão devidamente autorizada em português já em rítmo de lambada juntamente com o membro dos Los Karjas.
    A música da Ana Carolina tem uma versão anterior em português do José Augusto que aliás é bem melhor.

  14. E a grande banda brasileira Legião urbana que chupinhava sem dó as músicas de fora que muita gente não conhecia aqui na época, além do Renato Russo plagiar até os trejeitos do Morrissey e as danças do vocalista do Joy Division Ian Curtis.

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