A primeira vez que matei alguém

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Não foi uma só vez, é verdade. Mas a primeira vez que você mata uma pessoa, é como dizem, um passo no abismo. Uma vez que seu corpo despenca no abismo do qual já não há mais volta, não faz diferença uma morte, duas, três. No meu caso, três.

Quer dizer, três até agora,mas ainda sou jovem, e ainda posso matar mais, até porque, ninguém eventualmente acreditaria num assassino que conta como faz seu truque. Isso é como a mágica. Um mágico pode até fazer um truque mostrando como ele faz, impressionando sua audiência ao ponto em que que se revela ser tudo parte de outro truque. É o truque dentro do truque.
O grande lance da morte dentro da morte, é que ninguém leva a sério uma verdade hoje em dia quando ela é estatelada na cara da pessoa.

Sempre há um por trás, um mistério, um truque, uma saída. São eufemismos da era da mentira. Ninguém que fale “matei e foi assim, tintim, por tintim” é levado a sério. Pensarão ser conto, pensarão ser ARG, pensarão ser maluquice. Dirão que surtei, que estou fazendo piadas mórbidas. Ninguém acreditará realmente numa confissão óbvia, afinal aprendemos que o mundo pode ser tudo menos óbvio. Hollywood nos ensinou um respeito pelos assassinos, e impôs uma certa elegância aos que se tornam o “lobo do Homem”, elegância do qual um simples ceifador já não pode prescindir. Ninguém acredita, não importa o que você fale. Esse texto, absolutamente verdadeiro, é uma confissão. Eu matei mesmo o maluco. Só que eu sei que ninguém vai acreditar, o que é estranhamente divertido.

Então aqui está o relato de como eu matei o primeiro dos três filhos da puta que já extirpei da face da Terra.

Dar nomes seria inútil, uma vez que o estelionatário desgraçado tinha vários. Eu  conheci como Adalberto. Era editor. Ele gostava de ficção cientifica e tinha uma pequena revista dedicada a isso. Se há uma verdade que posso evocar aqui é que nunca fui, efetivamente, com a cara dele. No entanto, dinheiro não tem cara e quando a gente precisa, – eu era recém casado – a gente apela, faz qualquer negócio. Recém casado sempre precisa de dinheiro. Então foi assim que comecei a vender desenhos para ele. Eu era ilustrador, e aos trancos e barrancos fiz as artes para suas revistas.

Inicialmente tudo parecia bem, tudo estava tranquilo. Eu fazia as artes, o filho duma égua maldito aprovava ou reprovava. Na pratica, reprovou absolutamente todas, sem antes ficar dois minutos me elogiando para amaciar o ego. “Gente esperta”, sabe como é. Eu saquei na primeira arte que vendi a ele como ele operava. Enchia meu trabalho de elogios, e depois começava com sugestões, que logo se descambariam para exigências e depois criticas. Lá pela quinta imagem ao qual alterei tantas vezes que mudei completamente o briefing e depois segui alterando e alterando sem parar, até praticamente voltar ao que era a primeira versão apresentada, comecei a perder o saco com aquilo. Parecia esquizofrênico.
Comecei ali a colocar os clássicos “bois de piranha” nas artes, porque vi que ele tinha vontade de ser ilustrador, mas sendo completamente incompetente para tal, me fazia trabalhar para ele como se eu fosse uma ferramenta em suas mãos.

Eu, por minha vez, que só pensava na porra do dinheiro para pagar a conta atrasada, ficava com aquele gosto ruim na boca de permanecer sem saber quantas alterações inúteis levaríamos fazendo ate finalmente eu receber meu pagamento.

No inicio a estratégia do boi de piranha deu certo. Eu em paralelo comecei a buscar outros clientes de ilustração para finalmente me desvencilhar do Adalberto. Infelizmente não funcionou muito bem o meu plano. Como não aparecia nada, tentei me manter com a revista de Sci-fi nacional. Ela se chamava Fantastic 2000, e era uma versão 100% nacional da mais antiga revista de ficção científica brasileira, a Fantastic, dos anos 50.

O problema todo começou realmente quando na hora de pagar ele não pagou. Inicialmente alegou problema no banco. Depois disse que estava “resolvendo”. Eu ligava pra São Paulo, pagando interurbano, a minha esposa enchendo a porra do saco, dizia “que eu virava noite trabalhando e não via um puto”, ficava indignada que eu estava gastando com ligação pra São Paulo, pra ser enganado…E ele seguiu me enganando.

Às vezes, Adalberto me ligava, dizia que as pessoas comentavam da bela capa, das espaçonaves, que todo mundo era meu fã. Que leitores escreviam para sugerir artes e que os autores me queriam nas capas de seus livros. Da revista de sci-fi de periodicidade bizarra que nunca entendi se era mensal ou quinzenal, mas que durante um tempo, foi semestral, ele passou a encomendar umas capas de livros. Ema em sua maioria livros de bolso, ilustrados em tinta acrílica e eventualmente guache.  Ele vivia insistindo para que eu imitasse o Frazetta e o Benício. Acabei ficando ate amigo do Benício, de tanto que copiei.

Pedia muitas artes, cerca de quatro ou cinco para cada livro e delas escolhia uma, que eu iria refazer feito um escravo desgraçado até perder as forças e eventualmente ele, do nada, mudava para uma das outras imagens e foda-se. Detalhe que nem recebia as que ele não usava e muito menos a que usava. Era loteria saber se receberia ou não os poket books.

Volta e meia, recebi apenas a metade do valor combinado, com desculpas de que estava “tentado liberar o dinheiro”, de que “pagou pensão à ex-mulher” e a grana acabou, ou que estava “esperando receber da distribuidora”, problemas de “encalhe”, frete, as eternas negociações com publicidade. Sempre mostrando uma cenourinha para o burrão aqui continuar.

Quando eu ameaçava desistir, jogar a toalha, aparecia um dinheiro na minha conta. Caía e já era tragado pelo saldo devedor… No dia seguinte, ele me ligava, solícito, como quem espera um agradecimento sincero por ter recebido um pagamento atrasado quase trinta dias depois.

Fui perdendo o saco com aquele cara. A relação que em um momento foi de amizade, azedou.
Certo dia eu estava consertando um armário quando ele ligou. Estava animado. Adalberto José disse que estava feliz, porque um novo autor, promessa do futuro havia aparecido. Um conto com aliens, com outros planetas, era um novo Asimov. Sua empolgação era contagiante, e diante de tudo isso,novamente refiz a arte, já sabendo que não receberia tão cedo.

Eis que uma ideia me ocorreu. Um dia, antes de enviar a arte que ele havia pedido, perguntei se ele podia me pagar antecipado. Adalberto ficou irado diante de tal insubordinação. Como assim pedir pagamento antecipado por um desenho, por “uma coisa que você faz de olhos fechados de tão fácil”?

Eu disse que sem pagamento não faria e o lembrei de nossos “atrasados” que ele sempre esquecia e me pedia para enviar um email com o “cálculo”. Era uma manobra esperta para evitar a discussão. Lembrei também que o banco e a empresa de luz não queriam tão pouco saber da distribuidora e nem da agência de propaganda que não pagou a ele. Ema-ema-ema, meu chapa.

Adalberto então percebendo que eu estava prestes a mandá-lo para a puta que pariu, mudou o tom. Entrou em um nível conciliador e disse que me pagaria metade e que era só eu mandar a imagem para ele ajustar o layout da capa da revista, enquanto isso ele conseguiria o resto da grana.

Ele jurou que só precisava acertar o layout, que estava atrasado no cronograma e coisa e tal, que ia viajar… Que tinha uma grana para receber e toda aquela ladainha que um safado sabe dizer para tirar o amiguinho como otário.
Posso ser bobo, mas se tem uma coisa que eu sei fazer é reconhecer um filho da puta.
Assim, deixei que ele fizesse seu movimento para que eu fizesse o meu. Dito e feito, conforme prometera, naquele mesmo dia o dinheiro da metade da arte entrou na minha conta. Depósito em dinheiro.

Imediatamente refletindo sobre aquilo, notei que a estratégia dele era pagar apenas a metade e me entubar mais um calote, para somar junto com os demais calotes dos desenhos atrasados, no buraco sem fundo que só aumentava, chamado “Dívida externa” lá em casa.
Então, o que eu fiz foi criar a arte conforme combinado, mas em vez de enviar exatamente a imagem de capa em alta resolução, enviei uma imagem de baixa resolução com marca d´água em cima. Era a imagem combinada, onde se via tudo, a nave, os monstros, o planeta,  o herói e claro, um monte de “PHILIPE KLING DAVID” em cima. Assim que eu mandei, olhei o relógio, esperando pela “explosão”.
Não deu outra! Ele ligou puto. Putaço, aliás. Estava literalmente espumando de raiva.

Obviamente que não por eu ter mandado uma arte que lhe permitia fazer o “layout” mas não daria para publicar, e sim por eu ter sacado sua malandragem e ter dado uma sacaneada em cima.
Assim, ele disse que ou eu mandava a versão final ou nunca mais ilustraria para a editora dele. Baixou o chefão no pedaço.
Humildemente eu respondi a ele que seria fácil mandar a arte sem as marcas d´água em cima, bastaria que ele pagasse a segunda parcela daquela arte e que dali em diante trabalharíamos com a filosofia do Mc Donald´s. “Pague primeiro, lanche depois“.

Em seguida, eu o lembrei do buraco sem fundo dos atrasados, e ele começou a me chamar de tudo que é nome, baixou o barraco e desceu do salto. Rodou a baiana, e não só me disse que não ia me pagar porque eu era “otário mesmo”, mas que “se um dia por ventura me encontrasse, me pagaria em ‘socos'”.  Engoli em seco a ameaçazinha babaca e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele bateu o telefone na minha cara.

Existem duas coisas que você não pode fazer comigo. Uma delas é bater o telefone na minha cara. A outra não vem ao caso, mas diga-se de passagem que é a causa da segunda morte que levo nas costas.

Meu ódio se resumiu a dar um soco na mesa, pensando principalmente nos atrasados que eu nunca mais veria e que eram uma boa grana. O tempo passou, e a coisa esfriou. Logo, vi a revista nas bancas com outro otário, digo, ilustrador trabalhando pra ele.
Mas o mundo é mesmo uma caixinha de surpresas! Um belo dia, estou no grupo de discussão da Sociedade dos Ilustradores Brasileiros quando noto um nome ali. E que coincidência…  É justamente o carinha que está ilustrando para o mau caráter do Adalberto José!
Assim, como quem não quer nada, me aproximei e elogiei suas duas capas anteriores, dizendo que gostei muito do estilo. Ele agradeceu meio sem graça, pude perceber pela sua escolha cuidadosa de palavras. Certamente que Adalberto – nas horas vagas quando não estava se escondendo de oficiais de justiça – já havia se encarregado de destruir o meu filme com todos que podia. Marcamos um chat para falar de arte de ficção cientifica. Foi no ICQ.
O rapaz, chamado Guto, apareceu la conforme combinado. Papo vai, papo vem, autores, livros, trocamos umas dicas de portfolio e agências de ilustradores em NY, eu perguntei pra ele, batido, se ele estava recebendo do Adalberto.

Negativo.

Não estava. O moleque disse que estava ate achando “estranho”, porque o banco havia feito uma confusão e travado a conta do Adalberto, e que depois ele também teve problemas com um anunciante, empresa de calças Jeans de São José dos Campos…

Se tem um troço trágico na vida da gente, é ver um moleque bobo caindo no mesmo buraco em que você já caiu antes. E teimando em cair.

Eu contei a ele. Já havia passado pela mesma conversa. Só que comigo a empresa era de turismo, o banco também tinha travado a conta dele… O Guto não acreditou. Não queria acreditar, e por mais que eu desse detalhes de toda minha via crucis na mão daquele ridículo, o Guto não aceitava. O Guto chegou a soltar, em sua absoluta inocência, que Adalberto o prevenira que eu ia atras dele tentando desmotivá-lo para voltar a ocupar o sagrado lugar na capa da revista. Disse que eu estaria desesperado pela minha perda de sucesso e que eu “puxaria o tapete” dele. Jogo bem jogado, é importante que se diga. Adalberto José era filho duma égua manca e leprosa, mas era acima de tudo, um espertão.

E lá fomos nós. Me despedi cordialmente de Guto mesmo notando um ar de repulsa por parte dele.

“Quer saber, que se foda Guto, Adalberto e aquela revista de merda”  – Pensei. Toquei minha vida. Acabou que não foi difícil arrumar outro cliente porque dei sorte. Logo depois uma editora apareceu, e ela tinha muita demanda de capas de romances. Era pouco mas era no volume que eu ganhava e eles pagavam bem certinho. Jamais atrasaram.

Assim, continuei meu caminho, esperando que Guto aprendesse a lição batendo cabeça sozinho.
Eis que passado coisa de quase um ano… Quem aparece usando minhas artes (aquelas que não havíamos usado nos livros) nas capas de outros livros? Se você chutou Adalberto José, o filho gordo duma águe manca aidética, acertou no milhar.
O filho duma puta tinha tudo planejado. Eu realmente nunca tinha me ligado naquela necessidade de tantas capas diferentes para os mesmos romances, mas ali ficou claro depois, ele ia ter tipo seis capas para cada livro, usaria uma e guardara cinco artes na manga. Artes que ele nunca pagou…

E foi assim, apenas por causa disso, que liguei pra lá tentando falar com ele e novamente para avisá-lo que eu ia mover uma ação para impedi-lo de usar meu material, que fui chamado de burro, de otário ouvi que nunca veria dinheiro e que ele faria o que quisesse com meus desenhos “incluindo enfiá-los no meu cu” , e que se eu quisesse era só ir lá para receber a divida em porradas, o que se seguiu de uma nova batida de telefone na cara.

Reagi apenas com uma frase. “Se fodeu, gordão”.

Ainda não havia, naquele tempo, o advento da rede social, o que tornava a nossa vida um pouco mais difícil. No entanto,  nunca foi tão complicado assim de achar umas fotos do Adalberto em eventos nerds (os primórdios deles) de RPG e de quadrinhos, onde em dois deles, ele tinha tentado rachar um stand com um Fanzine onde até o famoso Groovies trabalhou.

Achei fotos dele, marquei bem a cara do sujeito, e depois de algumas ligações quando minha esposa estava trabalhando, levantei direitinho o endereço da editora. Novidade: não era onde ele dizia ser.

A revista tinha apenas uma caixa postal como endereço. Mas apurei que o verdadeiro endereço era em Osasco, numa rua cujo nome era tipo Tafarel (o famoso goleiro), uma coisa assim. Já me esqueci afinal, ja tem quase uns vinte anos isso.
Então, comecei meu plano que culminaria com a morte do filho da puta.
Convenci minha esposa de que havia uma oportunidade de ilustrar para a revista Super Interessante (e de fato, naquele momento havia mesmo) e que eu tinha uma reunião marcada com o diretor de arte da revista, o Alceu Nunes que havia morado em Niterói na juventude e tínhamos amigos em comum. Assim, consegui usar uma parte da bufunfa com os livros da editora para viajar para São Paulo.

Claro que ate hoje ela nem sonha que eu matei o maluco. Em vez de comprar uma passagem aérea, comprei uma de ônibus. Eu precisava economizar. Com a grana que restou consegui alugar um 38 bem velho do porteiro do meu prédio, o seu João, um velho maluco que aliás, era uma temeridade aquele sujeito ter uma arma. 38 irregular, obviamente.

Com o 38 carregado, embarquei no ônibus da madrugada rumo à Rodoviária do Tietê. Chegando em São Paulo, coloquei meu portfólio gigantesco e trambolhudo num guarda-volumes e em vez da Editora Abril, parti para Osasco.

Antes de sair da rodoviária, realizei uma parte do meu plano. Comprei uma calcinha de renda cor de rosa. Tamanho GG. Também comprei umas bijuterias, e uma camiseta. A moça colocou tudo num saco plástico que meti na mochila.
Demorei a achar o endereço da revista. Era um sobrado. Em frente tinha um bar, e ali eu me encostei. Parece ate piada mas é serio, diante do bar, uma placa no segundo andar do sobrado indicava ser ali a sede dos Alcoólicos Anônimos.

Fiquei ali de campana, por algumas horas e eis que vi chegar um puta dum carrão importado e descer… Ele mesmo. O pulha do Adalberto José.  Desceu da caminhonete enorme, reluzente, (o que me deu um ódio extra por saber que nela estava também um pouco do dinheiro que ele me devia) sacou um bolo enorme de chaves do bolso e abriu o portãozinho. Ele entrou, subiu as escadas e fechou o portão metálico atras de si. Fiquei ali do bar vendo o movimento. Comprei uma coca cola litro. Bebi tudo. Também comprei duas garrafonas de água litro. Meti as duas na mochila.

Já era de tarde, quase umas seis horas quando a papelaria “Três meninas” começou a fechar. Essa papelaria ficava numa esquina bem debaixo do sobrado da editora. Em contraste, o bar estava ficando mais e mais cheio de pinguços. Aliás, o lugar era cheio de sindicatos para todo lado, o que garantiu um bom suprimento de cachaceiros na região.

Saí do bar e andei para o lado, parando diante dum daqueles sindicatos e esperei. Logo, notei que a porta se abriu, ele saiu carregando uma caixa media, de papelão. Parecia pesada. Calculei que devia ser o encalhe da revista ou parte dele.

Adalberto levou a caixa até a caminhonete, tirou a cobertura da caçamba e colocou a pesada caixa la dentro.   Percebi que era a minha chance. Ele se virou. Pensei em sacar a arma e dar um tiro nele pelas costas, mas tive medo porque o bar tava cheio, embora a rua estivesse semi-deserta. Vi que ele fechou a lona, voltou para o sobrado mexendo nas chaves. Era a chance.
Atravessei a rua e me esgueirei até a caminhonete. Já era noite. Retirei a lona e entrei na caçamba. Depois cobri a passagem com ela. Passou um tempo que durou mais ou menos uns vinte minutos senti a porta do carro abrir. Ele entrou. A caminhonete ligou e saiu. Eu ali, no escuro, pensando se na hora H eu teria mesmo coragem de meter um balaço naquele filho da puta.
A caminhonete andou sem parar por quase uma hora. Eu já não aguentava mais. O bafo quente e o cheiro de óleo diesel ali me deram um enjoo horripilante. Felizmente, a caminhonete parou. Desligou o motor. Ouvi a porta abrir.

Peguei a arma, pronto para acertar o balaço na fuça do filho da puta assim que ele descobrisse a caçamba para pegar a caixa, mas isso não aconteceu. Ouvi passos ecoando. Era ele indo embora. Lentamente, tirei a lona de corino e olhei ao redor. Era um tipo de estacionamento. Uma parte parecia estar em obras. Talvez fosse a casa dele. Não sei.

Vi o Adalberto pegando umas ferramentas. Ele assoviava uma melodia tranquilamente. Fiquei em pé na caçamba com a arma em punho. Apontada para o filho da puta.
Ele estava pegando pá e enxada que estavam encostadas numa parede. Tinha também um facão desses de abrir mato. Esperei que ele se virasse. Fiquei em silêncio. Eu apenas esperava. Quando ele se virou, ele deu um pulo. Parecia até que levou um choque. Inicialmente  – eu tenho certeza absoluta disso – que ele não me reconheceu. Achou que fosse um assalto.

-Quê? Quê?…. Ele gemeu, sacudindo com as mãos pra cima.
Eu apontando aquela porra na reta da cara dele. Não ia ter como errar.
-Vim receber aquele dinheiro em porradas que você prometeu, lembra seu balofo de merda? – Eu indaguei, mas a verdade é que não foi exatamente isso. Eu tava com a adrenalina a mil de modo que tomei tanta coca-cola naquele bar, que mal faço ideia do que foi que eu disse ali, na verdade. Eu tava era doido para socar um tiro na cara dele. E ele sabia disso. Ele sabia que tinha se fodido e por isso, até que ele foi bem esperto.

Tentou dizer que ia pagar…

Mandei tomar no cu. Agora não tinha mais volta. O ódio em mi havia aflorado de forma irremediável. Era a primavera do caos no meu espírito.

Ele não disse nada. Ficou parado de olhos baixos. Como uma criança travessa sendo repreendida pelo pai.

Então eu desci da caçamba da caminhonete. Apontei a arma e mandei ele entrar no carro. Ele obedeceu, serio como um robô. Fui ate a parede, peguei o facão e joguei na caçamba.
Notei como ele estava ofegante. Minha esperança era que ele tivesse ali um ataque cardíaco de susto e eu pudesse ir embora, mas nada. O maldito entrou no carro. Dei a volta e sentei ao seu lado.
-Vamos.
-Pra onde?
-Vamos. Vai dirigindo aí.

Durante todo o percurso ele nada disse. Agia conforme eu mandava, porque ele sabia que eu não estava brincando quando saí do conforto da rua Joaquim Távora em Icaraí, para a puta que pariu de Osasco afim de dar fim a uma barata na forma de gente que era melhor nem ter nascido.

Ele dirigiu normalmente, o radio estava ligado falando notícias. Eu com a arma apontada para o bucho dele.
E assim, aquele desgraçado dirigiu. Mandei ele tocar para Campinas. Era de noite, mas havia muito movimento. À medida em que andávamos, eu via os lugares pensando em como eu poderia desovar aquele cara. Mas nenhum lugar parecia apropriado. Continuamos a viagem. Foi uma noite longa.
Ele pegou a estrada para Campinas. Andamos horas e horas.
Devia ser quase umas três e meia da manhã quando a caminhonete do cara chegou perto duma ponte. Mandei encostar. Ele obedeceu. Apontei um recuo na estrada perto dum barranco, mandei meter a caminhonete lá. Assim foi.
Desci do carro, mandei ele descer. Ele desceu. Mudo. Cabisbaixo.
Olhei para os lados e a rodovia estava absolutamente deserta. Não via nada, nem carro, ônibus ou caminhão.
-E agora? – Ele gemeu entre dentes. Notei que ele estava reunindo coragem para lutar. Engatilhei a arma e meti na cara dele. Eu ia puxar aquele gatilho, juro pra você. Nunca quis tanto uma coisa.
Mas diante da arma na fuça ele recuou. Eu tirei a mochila, passei pra ele. Mandei tirar as roupas. Eu estava com pressa, não queria que nenhum motorista de caminhão me visse. A caminhonete oculta pelo mato alto da beira da estrada ajudava a manter a discrição.

Ele ficou de cueca. Mandei tirar a cueca. Ele tirou. Estava tremendo. Fazia um frio do caralho e o sereno castigava. Eu já estava ficando ensopado.
Mandei botar a calcinha. Ele estranhou, mas colocou. Mandei colocar o colar. Ele colocou. Mandei ele andar até a beira da ponte sobre o que naquela hora, eu pensei ser um rio mas depois vi que era uma represa.
Ele  fez tudo conforme mandei. Era uma visão patética. Um gordo horrível de calcinha rosa com uns balangandãs feios pra caralho no pescoço. Ele tentou balbuciar desculpas… Mandei calar a boca. Ele choramingou.
-Morre igual macho filho da puta! – Eu berrei, com a arma na cara dele.
Apontei a beirada de concreto da ponte.
-Deita aí.

Ele ameaçou querer correr e eu fiz que ia atirar. Ele estancou no ato. Percebi claramente que ele estava na esperança de ser só um susto. Uma “cobrança” mais exagerada. Ele realmente, no fundo no fundo, acreditava que ia sair daquela vivo.
Mandei deitar e ele deitou. Lá em baixo, a escuridão da água. Me distanciei um metro e meio e disse:

– Morre!
Apontei a arma na têmpora dele. E então esmaguei o gatilho com força. A arma estalou e…

Foi assim que eu estourei a primeira cabeça da minha vida. Headshot!

Sem música, sem comemoração, sem nada. Só aquele estalo seco como uma bombinha de festa junina, que ecoou no barranco e me deu um susto, mas era mesmo igual uma bombinha, só que mais potente.

Estourei a cabeça do filho da puta num pipoco só, à queima roupa. Era o terceiro tiro que eu dava na vida. Um dia eu conto os outros dois. Foi lá na casa do Pedro Steele, um amigo meu da juventude.

Mas tiro, tiro mesmo, em gente, era o primeirão e foi logo o famoso headshot. Esperei ali. O corpão pendente dos dois lados da mureta da ponte.
Pra garantir, dei mais dois. Vi que mesmo na pouca luz que emanava daquele céu estranhamente alaranjado, o sangue não escapava do corpo dele como um spray, troço muito comum nos filmes e tal. Era mais como a água de um bebedouro. Pareci uma nascente de sangue a sair do buraco nas costas do maldito.

Caso esteja curioso, não veio ABSOLUTAMENTE NENHUM remorso. Não senti merda nenhuma. Nada. Só uma especia bizarra de alivio. “Menos um filho da puta no mundo”.

Em seguida, fui ate o carro onde peguei o facão. O facão era importante no projeto. Mas só me dei conta de sua real importância bem depois.
Voltei até a beira da estrada, e cortei as duas mãos dele fora. Joguei as mãos no saco plastico da loja de calcinhas.

Depois eu ia cortar a cabeça, mas olha que merda… Eu vi uma luz na estrada.

Era um caminhão que estava vindo. Assim, larguei aquela merda toda ali mesmo na ponte e corri esbaforido para o matagal.

Esperei passar o caminhão, que passou feito uma bala. Felizmente ele não viu porra nenhuma, ao que parece. Passou batido.
Voltei la e acabei de cortar fora a cabeça dele.

Precise dar três porradões com o facão do Jason, pra arrancar a cabeça. A mureta ficou toda cagada de sangue. O cara escorria feito um porcão no matadouro. Peguei a cabeça pelos cabelos. Era curiosamente pesada. Olhei aquela face desfigurada (porque eu errei um dos porradões com o facão e acertei bem na fuça dele) puxei uma cusparada na cara dele. Pela dívida, sabe como é.
Joguei a cabeça pra dentro da sacola da loja.
Depois, empurrei o corpo sem cabeça nem mãos pra dentro da represa (que eu achava que era um rio). Era pesado como um boi. Precisei de uma força sobre-humana para girar o corpo flácido por cima da mureta. Ele caiu num giro e em seguida bateu na água num estrondo altíssimo. Olhei ao redor e só havia a garoa maldita e os grilos como testemunhas.

Agora eu era um assassino e isso era até um pouco empolgante.

Voltei com o saco contendo as mãos e a cabeça do Adalberto para o carro. Amarrei com cuidado e vi, na luz interna, se estava vazando. Não estava. Na mochila peguei as garrafas de água e voltei ate a mureta. Joguei água pra dar uma lavada na sanguinolência. Me livrei das garrafas no “rio”. Recolhi as roupas, o relógio e a carteira. Joguei tudo na caminhonete. Saí com o carro dele. Agora o passo seguinte era dar fim ao carro.
Prosseguindo viagem, fui com ela pela estrada. Em um momento, peguei um caminho que me pareceu promissor. Andei uma meia hora em estradas vicinais até uma especie de estrada de fazenda. Segui por ali. Logo a estrada deu lugar a uma outra, bem esburacada e que rapidamente se tornou um percurso dificílimo de terra, todo acidentado, com pedregulhos enormes. Pelo avançar da hora, logo iria amanhecer e eu precisava me livrar do carro. Quando passei num açude, fiz um lançamento espetacular do saco da loja. As mãos saíram voando do saco e afundaram no açude, todo verde.
Depois continuei ate achar o lugar perfeito, oculto por morros altos cheios de mata atlântica. Eu posicionei a caminhonete no barrancão. Recolhi as roupas e joguei no banco do carona. Só fiquei com a carteira e o relógio, tirei os documentos do carro também. Fuçando no porta-luvas em busca de alguma coisa para tirar do veículo, encontrei um maço de dólares! Dólares! O filho duma puta que prometeu me pagar com porrada, tinha um MAÇO DE DÓLARES no carro. Nem contei, não dava tempo. Eu já estava bem longe, em algum buraco rural que não faço nem ideia de onde seja.

Joguei a grana na mochila, e achei também uma garrafa com thinner. Ela estava cheia, talvez fosse para a obra, sei lá. Taquei thinner no carro todo. Cheguei a ficar tonto com o cheiro. Porra como fede aquilo.

Limpei a direção com ele, encharquei os bancos, o painel, e depois, com muito cuidado, já com meio corpo para fora do carro, ( o freio de mão impedindo que descesse o morro), usei o isqueiro da caminhonete pra tacar fogo num papelzinho. Quando eu soltei o freio de mão, o carro começou seu lento deslizar para frente. Joguei o papel fumegante no banco. E vi formar uma imensa duma bola de fogo que acelerou ladeira abaixo até adentrar um matagal fechado. Pesadão, ele entrou como uma locomotiva inflamada pelo matagal adentro, e bateu la em baixo. Fiquei uns minutos vendo o fogo consumir o carro, depois o matagal e só então começar a pegar na árvore.
Resolvi que eu tinha que picar a mula dali. Corri com a mochila las costas pela estrada de chão até quase desmaiar. O sol estava raiando.
Havia um serio problema no meu plano, que era: Eu não tinha como sair daquela porra de lugar miserável.
Assim, me restou caminhar pra caralho pela beira da estrada. Pelo menos eu tinha dinheiro. Andei pela estrada até que achei um caminhoneiro parado com o caminhão no acostamento. Eu cheguei na cara-dura e disse a ele que meu carro tinha quebrado há quilômetros dali, se ele teria como me dar uma carona. Ele concordou, disse que me levaria ate um posto, mas não poderia voltar comigo até o carro. Concordei, óbvio, até porque não havia carro, hehe.

Fomos no caminhão até o posto. Ali eu desci e ele seguiu viagem. Eu tomei café. Comi um misto quente com coca-cola. Naquele tempo eu tomava Coca-cola pra caramba. No posto de gasolina me livrei discretamente da carteira e dos documentos na lixeira, e com um orelhão eu consegui pedir um táxi, (que me cobrou os olhos da cara) pra me levar ate São Paulo. Mas era o tudo ou nada.

De táxi eu fui até a rodoviária. Peguei meu portfólio no guarda volumes e entrei no primeiro ônibus para voltar pra casa. No caminho um puta dum susto. Na marginal, um carro de polícia parou o ônibus e um PM entrou. Ele foi olhando um a um. Eu me cagando dele mandar abrir a mochila, já que tinha um puta dum tresoitão ali. Ele olhou um a um. Suando frio, olhei bem dentro da cara do PM. E eles desceram. Agradeceram o motorista e seguimos viagem para o Rio. O cagaço dos PMs dentro do ônibus foi tão foda que só em Resende eu comecei a sentir que tudo daria certo.  Provavelmente eles deviam estar procurando muambeiros, sei lá.

Desci na Rodoviária de Niterói. Fui direto pra casa de táxi, para evitar riscos. Ali entreguei a arma ao seu João, embrulhada numa camisa.
-Cobrou o viado? – Ele me perguntou sorrindo com aqueles dentes amarelo-ovo.
Eu apenas sorri enigmaticamente e estendi um bolinho de dólares (U$ 200) sobre o balcão da portaria, junto com o relojão.

-Ah garoto! – Ele riu. Pegou rapidamente o bolinho e o relógio durado, tão cafona que parecia ser do Chacrinha, e enfiou dentro do uniforme.

Voltei pra casa como se nada tivesse acontecido. Tomei um banho, sentei, desenhei um pouco, tirei um cochilo. Minha esposa chegou e quis saber como fora na Editora Abril. Inventei meia duzia de lorotas, disse que a reunião tinha sido boa, que eu também tinha ido na National Geographic… Mas que não tinha nada fechado, que iam me ligar. Ela entubou.
Talvez você esteja se perguntando a razão da bijuteria, de eu ter cortado as mãos, a cabeça e ter mandado ele meter uma calcinha. Era para complicar a identificação do corpo. E funcionou lindamente aliás.

Foi assim que eu matei o primeiro dos três filhos da puta na minha vida. Quando eu puder eu conto os outros casos. Dizem que depois que você “perde o cabaço do gatilho” começa a matar direto. Posso dizer que isso faz um certo sentido…

NUNCA DEVA PARA O ILUSTRADOR

 

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17 comentários em “A primeira vez que matei alguém”

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