O pedinte

· · 6 min de leitura
man g6ab609562 640 | Ciência | mendigo, robôs, Textos

CENA 1 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

Plano geral de uma praça. Lugar bonito, embora não haja muita gente. Uma senhora vem passando, andando lentamente.

A idosa senta-se num banquinho da praça.

Close na idosa. Olhar perdido.

Pequenos inserts de detalhes da velha. A mão trêmula apóia-se numa bengala antiquada.

CENA 2 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

Uma criancinha passa num velocípede. A câmera acompanha.

A criança olha para a velha.

Close na idosa. Olhar fixo na criança. A velha sorri.

Close nos olhos da criança.

Plano médio da praça. A criancinha se afasta com o velocípede até sair do enquadramento.

CENA 3 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

Entra pela lateral do quadro um mendigo, roto, sujo, cabelo desgrenhado. Barba e cabelos enormes e amassados.  A Câmera acompanha.

O mendigo senta-se ao lado da velha.

Plano médio  da praça. A velha e o mendigo estão sentados com o olhar perdido, olham para a frente.

A velha vira a cabeça para o mendigo.

O mendigo olha para a frente, fixamente. Ele tem o olhar perdido.

VELHA: Quanto você quer para sentar em outro banco?

O mendigo olha para a velha.

MENDIGO: Trinta.

VELHA: Vinte.

MENDIGO: Vinte e oito.

VELHA: Vinte e cinco.

MENDIGO: Fechado.

A velha abre uma pequena bolsa, já fora de moda e retira um bolinho de notas. Ela entrega ao mendigo.

O mendigo pega o bolo de notas e guarda no bolso.

CENA 4 – EXTERIOR – PRAÇA – DIA

O mendigo levanta e sai. A Câmera se mantém fixa.

A velha tem o olhar perdido. Close no olhar da velha. Expressão fria. Ela fita o vazio.

CENA 5- EXTERIOR – RUA -DIA

Musica incidental. Mendigo caminha pela rua.

Planos diversos do mendigo andando por ruas e becos.

Mendigo desce pelas escadas do metrô.

CENA 6- INTERIOR – METRÔ – DIA

Há um velho sentado num banco. Ele espera o metrô.

Close no olhar do velho. Tem os olhos perdidos.

Mendigo entra pela lateral do quadro e se senta-se ao lado do velho.

Mendigo olha fixamente para a frente. O velho idem.

Velho vira-se para o mendigo.

VELHO: Você poderia sentar em outro lugar?

MENDIGO: Depende.

VELHO: Quanto?

MENDIGO: Quarenta e dois.

VELHO: Pago dez.

MENDIGO: Quarenta e dois.

O velho hesita.

MENDIGO: Quarenta e dois.

VELHO: Vinte.

MENDIGO: Vinte e cinco.

VELHO: Fechado.

O velho mexe na pasta. Pega um bolo de notas e entrega ao mendigo. O Mendigo guarda as notas no bolso, levanta-se e sai. A Câmera permanece fixa no velho.

CENA 7 – EXTERIOR – RUA – TARDE

Musica incidental. Mendigo caminha pela rua. Passa em locais desertos. Corredores, escadas, ruas desertas.

CENA 8 – EXTERIOR – RUA – NOITE

Plano geral de uma avenida. Carros passam na frente de bares e restaurantes. Pessoas comendo, se divertindo.

Mendigo surge ao fundo. Caminha pela avenida. Para em frente a um bar e olha as pessoas comendo. Algumas pessoas param de falar, olham para ele e tornam a conversar como se ele fosse invisível.

O mendigo olha para o lado e sai do enquadramento.

CENA 9- EXTERIOR – RUA – NOITE

Uma prostituta está encostada num poste.

O Mendigo surge e para ao lado dela.

A prostituta tem o olhar perdido. Close no olhar da prostituta.

Ela olha para o lado. O Mendigo está ali, parado.

PROSTITUTA: Qual é?

O mendigo não responde. Ele tem o olhar parado. Olha para o infinito.

PROSTITUTA: Ei.

O mendigo olha para a prostituta.

PROSTITUTA: Tá me atrasando a vida, meu. Dá pra ser ou tá difícil? Tá espantando a clientela, mermão.

MENDIGO: Faço pra você por trinta reais.

PROSTITUTA: Porra, trinta? Não dá pra negociar não?

MENDIGO: Não.

PROSTITUTA: Ah, vai se foder. Olha, só tenho quinze aqui, mas tem este vale do motel. Tá dando desconto de 50%, tá afim?

MENDIGO: Tá bom.

A prostituta pega o dinheiro na bolsinha de couro vermelho. Junta o papelzinho do motel e entrega ao mendigo. Ele coloca o dinheiro no bolso e sai. A prostituta volta a olhar para o vazio.

CENA 10 – EXTERIOR – BECO ESCURO -NOITE

O mendigo entra num beco escuro. Caminha com dificuldade entre latões de lixo e tranqueiras espalhadas pela rua.

Vai até uma porta. Pega uma chave do bolso e abre. A luz ilumina o beco. O mendigo entra.

CENA11 – INTERIOR – CORREDOR -NOITE

O Mendigo caminha por um corredor cheio de canos e cabos. É um lugar diferente, com aparência que lembra o interior de um submarino.

O mendigo vai até o centro de uma câmara. Ele fica parado, olhando para o vazio.

Surge um jovem. O Jovem para em frente ao mendigo.

O mendigo não olha nos olhos do jovem. Olha para a frente. Olhar fixo.

O Jovem estende a mão. O Mendigo enfia a mão no bolso e retira o dinheiro. Entrega ao jovem.

JOVEM: Total?

MENDIGO: 65 mais um vale motel com desconto de 50%.

JOVEM: Hummm. Tá bom. Ontem foi melhor hein?

MENDIGO: Zonas mais rentáveis no setor 15.

JOVEM: Tá. Eu sei. E a taxa da bateria?

MENDIGO: Bateria em 22%.

JOVEM: Tudo bem. Por hoje chega. Vou aproveitar para fazer a atualização do firmware, beleza? Pode entrar em modo de hibernação.

O mendigo fecha os olhos. O rapaz mexe nas costas do mendigo. Retira um cabo preto que estende até uma tomada.

O Jovem abre um notebook e digita algumas coisas. Pluga um cabo usb do computador nas costas do mendigo. No notebook surge uma barra de download que começa a carregar.

Ele levanta da cadeira, olha para o robô parado no meio da sala. Apaga as luzes, sai e fecha a porta. A câmera fica.

FIM

Sobem os créditos finais.