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O pajé e a onça

May 19th, 2008

Já caía a tarde.

Aquele dia transcorrera normalmente até aquela hora, quando uma gritaria despertou a atenção de todos os índios. As mulheres da aldeia, que eram naturalmente escandalosas vinham fazendo um enorme fusuê. Elas choravam aos berros. Vinham correndo todas juntas dando um tipo de ataque histérico.

Ocorre que uma das crianças, ao voltar do banho de rio, havia sido atacada e devorada por uma onça. As únicas pessoas brancas que estavam naquela aldeia eram Orlando Villas Boas e o irmão dele, Cláudio.

Ao ver a confusão, eles saíram da Oca e tentaram saber o que ocorria. As índias em meio aos prantos histéricos contaram o fato para o líder deles. Imediatamente, o cacique mandou chamar o pajé. O tal pajé, um índio bem velho e rude, prontamente atendeu ao chamado e tomou conhecimento do que se passara. Elas contavam e ele apenas ouvia em silêncio profundo.
Então o que ele falou foi para que os índios cortassem um tronco e o posicionassem exatamente no centro da aldeia. Todos deveriam esperar por dois dias, enquanto ele iria se retirar. No dia determinado todos os índios deveriam estar pintados e perfilados, homens de um lado e mulheres de outro, formando uma fila comprida que ia da mata até o tronco no centro da aldeia. Feito isso, o cacique mandou cortarem o tronco e o pajé voltou para a oca. Orlando e seu irmão entreolharam-se acreditando que aquela era uma idéia excelente para acabar com o fusuê, voltaram para a oca principal.

No dia determinadio pelo pajé, na hora marcada, Orlando viu todos os índios, até as crianças arrumarem-se e perfilarem-se formando um tipo de corredor comprido que ia até o tronco. Eles não eram parte da tribo, mas aceitaram ficar naquele lugar, cedendo ao estranho ritual. Então Orlando conta que ficou lá por um longo tempo, em posição ereta até que suas costas doessem. Mas nenhum índio ousou sair da posição. O pajé ainda estava em sua casa.

Muito tempo se passou até que o pajé finalmente surgiu carregando um enorme tacape. Ele veio e prostrou-se no final do corredor, atrás do grosso e baixo tronco. E ali se manteve, imóvel, como toda a tribo.

Orlando estranhou. ele esperava um discurso ou uma história. Um cerimonial fúnebre, qualquer coisa. Mas não aconteceu nada. O velho índio lá ficou com o tacape na mão.

Foi quando Orlando tentava compreender a bizarra situação que ele ouviu um barulho no mato. E ante seu olhar de estupefação e a cara de medo de seu irmão que surgiu no meio da mata uma onça enorme. Ela andou lentamente na direção dos índios. Ela vinha em silêncio, com a cabeça baixa. Andou calmamente, atravessando o longo corredor de índios, índias, velhos e crianças. Todos no mais absoluto e solene silêncio. A onça veio até o pedaço de madeira no centro da aldeia e com carinho posicionou sua cabeça sobre o tronco. Fechou os olhos e lá ficou. O pajé levantou o tacape no ar e desferiu um único golpe na cabeça do animal, que morreu instantâneamente.

Os índios comemoraram. A criança havia sido vingada.
Orlando e seu irmão integraram a expedição Roncador-Xingu, criada em 1943 pelo governo Getúlio Vargas para desbravar o Brasil central. Desde então, Orlando contraiu malária 253 vezes e trocou a cidade pela selva. Após contribuir para a abertura das primeiras estradas em terras indígenas, Villas Bôas se redimiu ao criar o Parque Nacional do Xingu, tornando-se seu primeiro diretor em 1961. Orlando morreu sem entender o que se passou ante aos seus olhos, no meio da imensidão do Brasil.

Isto não é um conto. Isto é um fato real que o próprio Orlando Villas Boas contava com muitos detalhes até o dia de sua morte. Esta história ele contou no programa “Conexão Roberto D´Avila”, na TVE.

Naquele dia, eles eram os únicos homens que viram a cena e não sabiam como explicar. Todos os demais índios entenderam completamente o que havia se passado.



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