O explorador

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Os carros buzinavam, presos num engarrafamento. O sol de meio dia já brilhava forte, marcando as sombras zenitais dos prédios da cidade. Era a hora do almoço, e as ruas estavam cheias.
Em meio a multidão, estava um homem, de 50 anos. Cabelos cuidadosamente arrumados. Ele tinha um antiquado pedaço de papel nas mãos. Ia olhando os números dos prédios e conferindo no papel. Finalmente, ele parou em frente ao 88 da Rua Bergerrac.
Ali estava a placa: “Star eletrônica”.
O homem entrou. Em meio a radios antigos, televisores de válvulas e telefones empoeirados, estava um velho. Ele também, atrás daquele balcão por tantas décadas, parecia tão obsoleto quanto os eletrônicos empilhados que o cercavam.

-Que é? – Disse o velho, enquanto lia um jornal.
-Eu quero uma correia de tração.
-Sabe o modelo?
-Um Voightlander, 665.

O velho jogou o jornal sobre a mesa. Olhou por cima dos velhos óculos embaçados.

-O que?
-Um voightander 665.

O velho deu de ombros. Balançou a cabeça negativamente.

-Nada feito, amigo. Não tenho. Esse saiu de linha tem uns trinta anos… Talvez mais. Mas hoje é seu dia de sorte! Semana passada chegou aqui uma velha Telefunken… O seletronic dela é de correia e eu acho que vai servir. A correia dela não é de couro como a do voightlander, mas acho que serve. É uma correia 27.

O velho abriu umas duas gavetas até chegar na terceira, que revirou tirando válvulas capacitores e uns pedaços de engrenagens enferrujadas. Finalmente, após um pouco de garimpagem, ali estava um saco plástico, de onde ele retirou a correia.

-E quanto é?
-Fechamos por cinquenta.
-Dou 45.
-48?
-47.
-47,50!
-Ok.

O velho pegou o dinheiro e estende-lhe a correia de borracha.
O sujeito enfiou aquela correia no bolso e saiu.
O passo seguinte foi caminhar pela calçada até um mercadinho.
Ele entrou na loja, e foi direto até a sessão de comida enlatada. Tirou uma sacola de pano, cuidadosamente dobrada do bolso, e começou a encher a tal sacola com algumas latas. Dali, o homem caminhou calmamente até a sessão de padaria. Através da vitrine, ele contemplou uma torta linda. Então, olhou ao redor e encontrou o que realmente procurava. “Bolo de nozes liofilizado”.
-Esse é pra acampamento. – Disse o homem do balcão.
O sujeito apenas assentiu com a cabeça.
-Pago aqui?
-No caixa, faz favor.
-Ok.
Ele pegou o bolo, enfiou na sacola e foi até o caixa. No caminho, passou em frente aos monitores de Tv. Ficou ali alguns minutos, admirando as notícias, assistindo a trechos de filmes aos quais nunca havia assistido.
Recolheu a sacola com as latas do chão e saiu. Foi direto para o caixa.

Minutos depois, ele saía do mercadinho, carregando sua sacola de pano, com varias latas de comida dentro. O homem andou pela calçada, até chegar num café. Ali ele tomou um expresso. Pediu também uma pequena vela cor de rosa, que jogou rapidamente dentro da sacola. Sentou-se numa cadeira na porta do café e perdeu boa parte do dia ali, simplesmente contemplando a vida passar.
Quando a terceira xícara de café terminou, ele levantou-se e foi até uma praça nas proximidades. Ficou olhando as crianças brincando. Algumas jogavam bola, outras apostavam corrida. Algumas andavam de bicicleta.

Ele atravessou a praça e andou por umas ruas. Ja caía a tarde quando ele finalmente chegou na casa antiga. Ali estava uma poça de lama no chão. O homem então abaixou-se, pegou a sacola com as latas e cuidadosamente retirou uma a uma. Perfilou as latas na borda da poça.
Então pacientemente, pegou cada lata e passou na lama. Em seguida, na terra. Removeu com carinho o excesso de detritos. Tornou a colocá-las na sacola.

Com alguma dificuldade, levantou-se e do bolso do paletó retirou uma chave enferrujada. Olhou para os lados, afim de certificar-se que ninguém estava a observá-lo. Não havia ninguém.
Ele entrou e trancou a casa, meio afoito.
O sujeito andou pela lateral da casa. Estava um matagal quase intransponível.
Foi até os fundos da velha casa, onde havia umas caixas de madeira empilhadas. Da maior delas, ele puxou uma maleta de couro bem carcomida.
Dela, ele tirou um traje amarelo de borracha grossa e uma antiquada máscara de gás. Após alguns minutos, ele já estava vestido com o macacão e ajeitava a máscara de gás sobre a cabeça, com certa dificuldade.
O homem então vestiu as botas de borracha e as luvas pretas.
Quando finalmente adentrou a casa, mais parecia um astronauta. Com uma lanterna, ele iluminou o caminho.
Era uma casa antiga, dos anos 60 ou antes. Havia alguns quadros caídos, e o piso estava comido por cupim. Os móveis estavam todos empoeirados e as janelas estavam trancadas com reforços de madeira.
O homem seguiu pelo corredor até chegar na porta de acesso ao porão. Ele abriu a porta e as dobradiças rangeram com um som tenebroso, que lembravam antigos filmes de terror.
Passo a passo, degrau a degrau, ele desceu cuidadosamente, até o porão.

Ali estava um antigo projetor de cinema e uma tela prateada, bastante escabufada. O homem ajustou a correia do projetor. Não demorou muito, finalmente conseguiu ligar o aparelho. Com um estalo, as imagens começaram a ser projetadas na tela. Ele parou e ficou admirando a obra através dos vidros embaçados daquela máscara de gás.
A cena era de desolação. Uma paisagem estéril. Um casarão em ruínas no fundo. Apenas uma árvore seca que balançava ao vento. A câmera, sempre fixa.
Uma cena assustadora e melancólica, que se repetia um loop infinito, sem som.
O homem andou até o centro do cômodo e retirou uma caixa do chão. Em baixo dela estava uma coluna em forma de tubo metálico escuro. O tubo surgia de um furo no chão de concreto grosseiro.
O homem fez algum esforço para ajustar e apontar o tubo para o projetor. Em seguida, ele foi até a escada e pegou a sacola, com os enlatados.
Andou até um alçapão, no chão do porão, juto da parede.
O homem então desceu pelo alçapão, e em seguida, fechou o mesmo atrás de si, com uma pesada batida que ecoou no túnel escuro abaixo dele.

O porão ficou em silêncio, iluminado apenas pelo velho projetor.

O homem desceu pelas escadas enferrujadas, até chegar no fundo, onde estava uma porta grossa. Ele socou a porta três vezes. Logo em seguida, uma luz vermelha na parede acendeu. Uma sirene tocou baixo. Quando ela finalmente parou, ouviu-se um estalo e a porta se abriu. Do outro lado estava uma mulher, também aparentando seus 50, 55 anos.

-Oh meu Deus! Você conseguiu? Você conseguiu! Tive medo que não voltasse. Sempre que você sai eu fico aqui… Rezando.
-Aqui está.
-Que isso?
-Feijoada. E ervilhas.
-Está bem sujo, né? – Ela diz.
-Você não imagina como está lá fora… Ele se limitou a dizer, já tirando o macacão.
Os dois se olham em silêncio.
-Você viu alguém? -Ela perguntou.
-Nada. Acho que não sobreviveu ninguém mesmo. -Ele disse, tirando as botas.
-Não perca as esperanças, Al.
-Tudo bem. Estou acostumado… A solidão já não me incomoda mais. Tantos anos, né?
-Será que um dia ainda veremos alguém? Deve ter sobrado alguém… Sei lá… Nas cavernas. Diziam que o presidente estava preparado… Não entendo. Aliás, nunca entendi o que aconteceu naquele dia, Al.
-Deixa pra lá, Suzy! Não tinha ninguém, mas limpei a fuligem das placas assim mesmo. Sem o rádio, nossa esperança agora é que alguém encontre as placas e venha direto pra cá.
-Eu sei.
-Ei! Anime-se, querida! Agora pelo menos podemos ver lá fora.
-Consertou? O que era com o periscópio?
-Um defeito. Agora já consertei.
-Eu te amo, amor. Só você para se arriscar lá fora, assim… Por mim.
-Enquanto ainda houver comida la fora, estaremos seguros aqui, meu amor…
-É um dia especial! Vou fazer a feijoada pra nós!
-Espere. Olha isso. -Disse ele, abrindo o pacote com o bolo.
-Que isso?
-Veja… – Ele acendeu a vela.
-Não… Ah, não!
-Parabéns pra você, nesta data querida…

fim

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23 comentários em “O explorador”

  1. hehehehe continho macabro, o perturbador é pensar que deve ter gente assim de verdade. Fico pensando no povo que prende os familiares nos porões, o que será que não falam pra manter o jogo? Me lembrou aquela história dos japoneses esquecidos em uma ilhota e que não sabiam do fim da segunda guerra…

  2. caraca, Philipe voltou aaeeeooo, tava sentindo falta dos contos e postagens do mundo gump, to enjoado de memes, olhava o mundo gump todo dia na esperança de posts novos,
    interessante o conto, o cara inventou um apocalipse pra mulher e manteve a mentira por 50 anos. o_O coragem vééi

  3. rsrs, será q tem gente assim? Como será q o cara conseguiu manter a serenidade deixando sua mulher no porão? Isso lembra a maluquice do filme A Vila q os anciões deixavam seus descendentes dentro de uma reserva falando q existiam monstros fora do cercado deles….Será q o cara q foi buscar comida em seu conto tinha algo parecido? Um medo ou sei lá, uma super proteção com sua mulher?

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  4. Philipe, já tá meio tarde e o dia tá acabando, mas quero te parabenizar pelo Dia do Escritor, parabéns por fazer a alegria de muitos leitores aqui!!!

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