O experimento Carlson – Parte 7

Morten apontou a arma para a coisa. Era um troço confuso e feio que se movia na direção dele lentamente, saindo de trás das pedras.
A assim que Morten se levantou com a arma em punho o bicho paralisou e mudou de cor. Assumiu o tom das rochas ao redor e pareceu tentar ficar “invisível”. Isso deu alguns preciosos segundos para que Morten desse uma boa olhada naquilo e avaliasse o que fazer. Correr? Atacar?

A criatura diante dele mais parecia um tipo de caranguejo abissal terrestre. Era grande, com diversas patas grossas, e tinha cerca de um metro e trinta de altura e sua cara horrível, embutida numa carapaça esquisita secretava um tipo de baba gosmenta.

O experimento Carlson - Parte 7

A “aranha do inferno”, como Morten o batizou, tinha certamente mais patas que um animal da Terra, mas o explorador não conseguiu contar. Ninguém naquela situação conseguiria. A adrenalina corria a mil em suas veias.  O bicho repleto de patas era recoberto do que pareciam ser crostas de pedra. Aquela forma de vida misteriosa, se estivesse naquela pose, congelado, seria facilmente confundido com as rochas espalhadas no sopé da cratera.
Não houve tempo para perguntas nem grandes análises. Morten disparou três tiros direto no bicho, que recuou quando foi atingido, soltando um sibilar estranho que lembrava muito o estrilar de um inseto rouco.

O animal recuou e tentou voltar para trás da pedra. Morten por sua vez também recuou tentando pegar distância. Ele sabia que não teria muitas chances se o bicho resolvesse tentar uma nova investida. Após os três tiros, só lhe restaria mais um. Felizmente, a arma de Ramsés estava ali. Não fosse ela, ele provavelmente teria sido o jantar.
A criatura ferida agora estava oculta atrás da pedra enorme.
Morten não esperou que ela se recuperasse para uma nova investida. Precisava sair dali o mais rápido possível. Talvez ela tivesse sido atraída pelo cheiro de decomposição emanado pelo traje de Ramsés.

Morten pegou a mochila, sempre com os olhos fixos na pedra.
Agarrou o pack de baterias e se afastou rápido, andando de costas, sempre com os olhos fixos na rocha. Foi até uma outra pedra enorme e se agachou perto dela. De lá, ficou olhando para o bicho. Lentamente, ele saiu de trás da pedra. Estava trêmulo, as patas pareciam vacilantes. Os tiros haviam ferido a criatura gravemente, a julgar pela forma como ela se movia.
O bicho foi até o corpo de Ramsés e começou a se abaixar sobre ele. Não dava para ver direito o que estava acontecendo ali, pois a distância impedia uma boa visão da cena. Talvez a aranha do inferno estivesse comendo o defunto. Pobre Ramsés, depois de uma morte lazarenta daquelas, sufocando dentro da própria roupa, ter seu corpo vilipendiado por um bicho que mais parecia ter saído dos pesadelos de um louco.

Talvez o animal se tratasse de algum tipo de necrófago. Nesse caso, os tiros nele poderiam ter sido apenas desperdício de balas, pois necrófagos não se interessam em lutar ou caçar, eles querem apenas comer criaturas já mortas, como os abutres na Terra.
Imediatamente, ao pensar sobre isso, Morten teve um choque. Um pensamento desagradável trouxe-lhe um gosto ruim à boca: “Necrófagos não andam sozinhos”.

De fato, era como se ele estivesse prevendo o que aconteceria em seguida. Gradualmente, mais e mais daquelas aranhas do inferno começaram a aparecer, vindas sabe-se lá de onde, surgindo por trás das pedras.
Morten Carlson notou que algumas rochas se mexiam e os bichos saíam delas. Notou então que essas criaturas viviam em buracos, como os siris que se enterram na areia e usavam as patas para fechar a “tampa” da passagem. Se as criaturas fossem caçadoras como algumas aranhas na Terra, ocultando-se no fundo de tocas e usando um chão falso para capturar desavisados ele facilmente teria sido comido. Sentiu-se estranho ao pensar em como ele foi imprudente andando na completa escuridão sem rumo certo para chegar na montanha.
O planeta inóspito já havia apresentado formas de vida bem estranhas até ali.

O sol já não estava mais a pino, e começava seu rápido mergulho para as proximidades do Horizonte. Com o dia passando tão rápido, sobrava pouco tempo para organizar um plano de sobrevivência. Morten estimou em pelo menos seis horas até a escuridão abissal chegar com seu negrume avassalador. O frio cortante viria junto e agora mais essa: Aranhas dos infernos andando por aí. A princípio eram só necrófagos mas numa situação de superpopulação dessas criaturas, não seria de estranhar que elas atacassem algo vivo para petiscar.

Os bichos estavam formando uma pequena montanha de perninhas e carapaças sobre Ramsés.  Eles brigavam entre si com barulhos assustadores. As aranhas dos infernos pareciam ser frenéticas, e isso indicava que elas eram ativas por um breve período de tempo em que o clima não era congelante e não havia um sol muito escaldante. Isso explicaria a razão pelo qual aqueles seres não comeram a carcaça do Ramsés durante a madrugada. Estavam provavelmente em modo de otimização de energia. Esperando a temperatura da superfície ficar mais acessível. Quando a temperatura começou a subir, o rochedo desabou, e as ondas sísmicas devem ter inibido as criaturas.  Morten sabia que ao mexer no corpo de um lado para outro abrindo o traje, devia ter espalhado o cheiro do corpo de modo bem mais amplo, despertando as aranhas do inferno.

Morten já estava bem longe para ser notado e partiu de volta em direção a cratera. Decidiu que iria passar as últimas horas de luz escalando o rochedo o máximo possível. Caminhou alguns quilômetros, sempre olhando para trás em busca de algum indício que os seres cheios de perninhas estavam vindo atrás, mas aparentemente, estava sozinho. O frio parecia ter chegado antes do previsto. Morten estava batendo dentes. E sentia-se muito cansado. Mais cansado que o costume. Talvez fosse o impacto de se ver diante de um bicho daqueles…

Toda hora era preciso parar para descansar. Chegou um momento em que Morten começou a pensar que talvez tivesse sido má ideia beber a água com gosto ruim. Estaria ficando doente?
O painel do traje indicou que sua temperatura corporal estava alta. Ele estava com febre. O frio que ele sentia era da febre. Não era só cansaço. Estava um pouco zonzo e algo parecia não estar certo. A visão de vez em quando ficava meio turva, meio confuso.
Poderia ser uma intoxicação pela fumaça dos fungos?

Ele estava no sopé da montanha e seria uma longa subida à frente. Morten reuniu suas forças e avançou passo-a-passo em direção às elevações. Buscou uma rota que exigisse menos esforços. Os raios alaranjados do pôr do sol já indicavam que a noite não tardaria a chegar.  Enquanto avançava, Morten se lembrou de uma passagem infeliz de sua vida na Terra, um episódio que ele não gostaria de ter em sua biografia, caso algum dia tivesse coragem de escrevê-la.  Mas se eventualmente, num fugaz episódio de insensatez resolvesse colocar no papel, Morten a chamaria de “E aí gostosa?”.
Tudo começou por causa duma simples pilha de controle remoto. O controle da Tv estava falhando e Morten concluiu que eram as pilhas do controle. Assim, caminhou até a esquina onde havia uma pequena lojinha para comprar. Enquanto esperava sua vez na fila para comprar as pilhas, conheceu uma moça muito bonita chamada Sylvia.

Com um corpo perfeito, e curvas que fariam qualquer homem enlouquecer, Sylvia logo o encantou. Ela havia acabado de se mudar par a cidade, para fazer um mestrado. Morten a convidou para uma vernissage e na semana seguinte estavam juntos.
Foi Sylvia que o apresentou aos exercícios. Até então, Morten era avesso a qualquer tipo de exercício físico. Sua filosofia de vida era estranha. Se baseava na observação da natureza. Para ele, animais que se exercitam muito morrem rápido. “ Veja o guepardo, super rápido. Super ágil, super musculoso. Mas sabe quantos anos vive um guepardo? Catorze. Catorze anos só! Agora veja  a tartaruga. Quase não se mexe. Veja quantos anos a porra do bicho vive! Cem? Cento e cinquenta? Exercício faz mal! Faz mais mal do que bem!”

Aqueles argumentos malucos irritavam Sylvia, que esculpia o corpo em dolorosas sessões de musculação semanais. Não foi rápido, mas ela o venceu pelo cansaço. Morten Carlson começou a frequentar a academia, primeiro como acompanhante, depois com treinos leves, para aumentar sua capacidade cardiorrespiratória. Antes que se desse conta, Morten tinha virado um atleta. Anos depois, essa capacitação física lhe daria vantagem nos treinos preparatórios do Buraco.
Mas a situação trágica se deu no fatídico fia em que ao chegar na academia, Morten viu Sylvia de costas junto a um bebedouro. Ele chegou por trás e agarrou a mulher pela cintura e roçou a bunda dela, com uma frase cafajeste em tom de brincadeira: “E aí gostosa?”. Ela tomou um susto e se virou.

Não era a Sylvia.

Era uma outra mulher com uma roupa parecida com a dela. A tal mulher fez um escândalo, ficou trêmula e quanto mais desculpas Morten pedia, mais a coisa ficava ruim. Logo, ele estava cercado de marombeiros fortões tentando se explicar para as pessoas. A moça chorava amparada por outras meninas da academia, alegando assédio, e o resultado ainda podia ficar pior:  A garota que ele confundiu namorava um figurão metido a lutador ligado à máfia russa.  Isso resultou, é claro, numa surra que culminou na fratura de duas costelas e uma perfuração pulmonar, dois dentes quebrados, um derrame no olho e dois meses de internação, além de uma experiência de quase morte.

Carlson parou novamente para descansar. O joelho doía horrores e o peito ardia.  O sol havia sumido completamente e o céu era um azul escuro, quase preto.
Ele precisava parar. Não ia dar para continuar a subida. O corpo pedia um descanso e há muito ele estava forçando seu organismo. A fome havia chegado com força total novamente.  Era preciso achar um novo abrigo do vento, que castigava ferozmente a face da montanha.
Ele encontrou um pequeno espaço numa estreita abertura entre duas grandes placas de rocha. Não era o ideal, mas dava para se recostar e tirar uma soneca sem o vento chicoteando em cima.
Sentou-se com as costas na pedra. Colocou a mochila do lado e bebeu um pouco da água. O gerador havia feito água com gosto bom novamente, o que foi um alívio. Talvez a febre fosse decorrente de alguma infecção, ou sabe-se lá, algum patógeno extraterrestre..
Abriu o caderno e ingeriu um quadradinho de gelatina polimérica. Engoliu rápido a espuma.

Minutos depois, sentiria uma maravilhosa sensação de saciedade. Bebeu mais um pouco de água e ficou ali, pensando no planeta misterioso e em sua aventura solitária.
Pegou a arma de Ramsés no bolso da perna e ficou observando. Lindo objeto bélico. Um projeto muito bem desenhado.  Ativou o laser da mira da arma e ficou brincando de apontar o poderoso facho de luz verde para o céu. O facho se perdia no vazio escuro entre as constelações.
Morten se lembrou das aranhas do inferno. “Bichos escrotos” – pensou. Talvez aquelas criaturas vivessem de comer os restos dos baratões mortos em suas migrações pela planície infinita.
Um meteorito cortou o céu num raio esverdeado.
O microcomputador de Ramsés havia carregado completamente a energia enquanto ele vasculhava o corpo do chinês, e antes de pegar no sono, Morten resolveu dar mais uma fuçada no dispositivo.
Ia acessando pastas sem saber do que se tratavam, tentando acessar arquivos, clicando aleatoriamente em botões de alerta com coisas escritas em chinês. Deu de cara com uma página toda incompreensível, escrita em outra língua incompreensível, mas que ele sabia: Aquilo não era chinês.
Parou e ficou refletindo sobre isso. O quão primitivo deve ser um humano aos olhos de um alienígena. Povos do mesmo planeta, da mesma espécie, que nem sequer falam a mesma língua.

Voltou a se concentrar no dispositivo, vasculhou um pouco pra cá, pra lá, e então, como num passe de mágica, clicou em alguma coisa que abriu uma imagem. Uma foto! Uma foto que falava por si. Era um corredor com paredes brancas, janelas pretas, uma porta ao fundo, um homem chinês de costas, uma pia preta lá no final.

O experimento Carlson - Parte 7

Seria aquela uma foto da base de Ramsés? Seria ele na foto? Se sim, como ele tiraria uma foto dele mesmo? Fazia pouco sentido. Assim, talvez aquele não fosse Ramsés e sim alguém de um grupo. Seria uma foto da versão do “buraco” na China? A resposta veio num segundo link. O botão levou direto a outra foto. Uma foto da vista de uma escotilha, no que parecia ser um quarto. Com vista para uma paisagem familiar.

O experimento Carlson - Parte 7

– Que filhos da puta! Eles já têm uma base aqui!

CONTINUA

 

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1 comentário em “O experimento Carlson – Parte 7”

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