O experimento Carlson – Parte 10

Carlson ficou alguns minutos observando o majestoso lago que se ocultava no interior da cratera. Sua visão vasculhou os rochedos, em busca de algum movimento, mas nada parecia fora do lugar. A visão sempre acabava por girar por entre pedras, reentrâncias e rachaduras, e voltar para o lago azul.
Começou a descer com cuidado. Se por um lado escalar o rochedo colocou sua vida em risco, a descida não seria menos perigosa. Uma pedra solta poderia significar um escorregão, um giro no ar e uma morte certa nas gargantas que prendiam a água lá em baixo.
A descida foi mais lenta do que ele esperava. O dia já começava a se tornar o final da tarde em uma velocidade assustadora. Com o período útil de pouco menos da metade de um dia da Terra, a exploração do planeta misterioso produzia uma desagradável e perene sensação de urgência.
Apesar de tudo, Morten Carlson já se sentia mais habituado ao planeta e seus humores estranhos. Ele sabia que o dia tinha que ser bem aproveitado num prazo de quatro horas úteis, duas que antecediam o calor infernal. Então, o calor durava cerca de uma hora, uma hora e quarenta minutos mais ou menos, e dali vinham mais duas horas que antecediam o por do sol e a noite opressiva, quando tudo se tornava tão frio que andar sem proteção poderia significar a morte. Dentro dessa exígua janela de tempo, havia também o imprevisível fator climático, as tempestades, ventanias… As noites estavam durando quase o mesmo tempo do dia. Isso significava que o planeta estava num potencial período de Equinócio. Na Terra, isso acontece somente duas vezes no ano.

O Equinócio da Terra ocorre em função da inclinação do eixo ao redor do qual o planeta gira sobre si mesmo, que é de 66,5 graus em relação ao plano da sua rotação em torno do Sol. Essa inclinação faz o astro iluminar um hemisfério por menos tempo durante o outono e o inverno. No início da primavera se dá o equinócio – dia em que a rota do Sol se alinha com o equador. Então, a parte iluminada passa a ser maior durante seis meses.

Talvez o planeta misterioso tivesse em um “equinócio” permanente.

Morten observou uma espécie de prainha dominando uma das faces do lado direito do lago. Logo, encontrou uma via de descida que terminava num rochedo afiado. Era incrível como na medida em que descia, a umidade se tornava mais e mais presente. Já estava escurecendo. Havia seguramente menos de quarenta minutos para o breu total, já que dentro da cratera escurecia ainda mais rápido, porque os paredões faziam sombra.

Morten Carlson optou por passar a noite protegido pela enorme rocha de bordas afiadas. Seria mais seguro so continuar a descida no dia seguinte.
Ele estava prestes a se acomodar atrás da rocha quando algo chamou sua atenção. A pedra era em grande parte cheia de furos. Buracos com cerca de três centímetros de diâmetro que desciam para dentro da pedra. Eram centenas deles. Carlson olhou ao redor e lentamente foi reconhecendo-os. Pareciam, uma espécie de pedra-pomes, mas com buracos mais espaçados.
Lembrou-se imediatamente de sua ex-namorada Sylvia.
Sylvia encarava qualquer parada: Filme de terror, acidentes, barata doméstica, doenças tropicais. Nada parecia incomodar Sylvia, com exceção de uma coisa que era seu ponto fraco, seu horror máximo. Uma coisa estranha chamada “tripofobia”. Qualquer superfície repleta de orifícios lhe causava um verdadeiro surto de ansiedade. Uma simples esponja, uma colmeia, um chocolate aerado, queijo suíço com muitos furos… Superfícies com sementes ou buraquinhos, fosse o que fosse, causavam verdadeiro desespero nela. Morten observou aquele lugar e pensou que Sylvia cairia dura na mesma hora se estivesse ali com ele.
Sob as luzes do traje, os buraquinhos pareciam ainda mais horríveis. Morten tentou ver dentro deles, mas não viu nada porque eram buracos profundos. Uma formação geológica sem dúvida intrigante. Chuva ácida talvez?

Ainda curioso, Morten enfiou o dedo num dos buracos e notou algo incomum. Havia uma espécie de “muco” no interior dos buracos.
Foi aí, enquanto ele examinava a gosma que revestia o buraco que algo absolutamente nojento ocorreu. Ele sentiu que alguma coisa estava roçando em seus pés. Morten virou a cabeça e a luz iluminou o chão. O que antes era um monte de buracos nas pedras agora estava repleto de vermes compridos e esverdeados, que lentamente iam saindo desses buracos, como cobras cegas, movendo-se de um lado para outro, tentando possivelmente encontrar comida. Ele se levantou enojado e notou que estava cercado daquelas coisas, que iam saindo dos buracos e se espalhando pelo chão, numa desgraçada visão do inferno. Morten saltou por cima daqueles minhocões, que se recolhiam rápido quando eram pisados. Quase caiu. Os seres vermiformes não eram muito agressivos à primeira vista, mas seu perigo real logo se tornou claro. Ao serem pisados, eles secretavam muco escorregadio pela ponta do que era a “boca” e se recolhiam rápido de volta para os buracos, puxando o corpo com impressionante velocidade. Um escorregão poderia ser fatal na beira do rochedo.

Assim, Morten andou lentamente. Era preciso aguentar aquelas minhocas rastejando sobre suas botas até chegar na parte mais alta onde não havia buracos. Ajustou-se como foi possível numa reentrância cuidadosamente examinada a priori, para não ter surpresas nojentas novamente. Dali do novo “cafofo”, Morten iluminou os vermes. Eram milhares, literalmente milhares deles, lambendo a umidade das rochas. Moviam-se como os tentáculos das anêmonas. Morten ficou pensando se ali estava um único indivíduo ou uma colônia. Talvez fosse um só, com essas coisas se sacudindo para fora da pedra. Talvez fosse uma espécie com parentesco do bicho subterrâneo gigante da planície, o grande “comedor de baratões”.

A breve chuva de meteoros o distraiu de seus pensamentos. Riscos esverdeados começaram a cortar o céu sem parar. Era um, depois logo outro e mais dois. E então, muitos mais, e chegou uma hora que começou a aparecer tantos riscos no céu que Morten começou a de fato se preocupar. Os reflexos verdes no lago completamente preto eram espetaculares. Uma das mais incríveis imagens que ele já tinha visto na vida. O frio era muito menos intenso do lado de dentro da cratera. Tirou a luva e tocou na rocha. Algo interessante: ela estava emanando um pouco de calor.
Como sempre fazia, Morten dedicou seu pouco tempo desperto olhando as bizarras constelações e as estrelas cadentes em profusão. Certamente, o planeta estava atravessando uma nuvem de detritos espaciais. A fome havia voltado com força total. Morten tornou a comer um pouco da mistura. Com a barriga cheia e com a pedra emanando um calorzinho delicioso, ele apagou.

Quando Morten Carlson despertou de seu sono sem sonhos, percebeu que no lusco-fusco do amanhecer os vermes já haviam retornado para suas tocas escavadas na pedra. Como seria possível aquelas minhocas cavarem na rocha dura? Possivelmente alguma forma de reação química secretada, ajudaria a desmineralizar a pedra e permitir que dentes raspadores gradualmente escavassem a passagem até a superfície. Devia levar centenas de anos para um verme conseguir atravessar uns poucos centímetros de pedra.

A descida, agora sob a luz do sol, já permitia um avanço melhor. As afiadas rochas deram logo espaço para acumulados de pedras metamórficas em aglomerados instáveis. Porém, com um pouco de prática e equilíbrio, não foi difícil chegar até a prainha.
As águas absolutamente cristalinas estavam bem ali, ao alcance da sola das botas. Não ventava dentro da cratera, de modo que a água parecia quase um espelho, refletindo os enormes paredões de pedra. Moorten contemplou aquele lindo espetáculo da reflexão enquanto pensava que certamente os baratões estavam chegando perto da cratera para usar suas probóscides e sugar água que devia estar minando lentamente por baixo das paredes da cratera, talvez por fissuras na rocha. Possivelmente, os baratões deviam armazenar a água em algum lugar no interior das carapaças, e assim podiam vagar por muito tempo pelo deserto plano, voltando sempre na cratera para se “reabastecer”. Outra forte possibilidade, é que a planície fosse cheia desses lagos, dentro de crateras e os animais errantes migravam de uma para outra num ciclo migratório eterno, tal como os Gnus das planícies do Serengeti, lá na Terra.

Quando chegou perto do lago, percebeu uma enorme massa pegajosa de algas na periferia do lago. Era uma gosma verde bem nojenta. Ele caminhou pela praia até uma área sem as algas. Não ventava dentro da cratera, de modo que a superfície mais parecia um espelho. Era lindo. Um espetáculo da natureza. Algum tipo de laje calcária que ajudaria na limpidez da água. Era possível ver vários metros para dentro do lago, devido a sua cristalinidade.
Sua vontade era de tirar o traje e dar um mergulho, até porque o calor subia rapidamente, à medida em que o sol avançava para o sol de meio dia. As sombras dos paredões estavam se reduzindo a cada minuto.

Morten desacoplou a mochila e estendeu o pequeno tubo do sistema de filtragem de água. Como o sol estava refletindo no visor do lcd do computador do traje, Morten deu às costas para o lago e ativou o espectrômetro do filtro e aguardou os resultados.
Após alguns minutos, surgiu o primeiro resultado: A água era extraterrestre. Morten já sabia que isso aconteceria, porque havia sido bem treinado em análises de água no Buraco.
Para um leigo, toda água é água, mas a verdade é que no cosmos existem cerca de 18 tipos de “água” diferentes. Era importante analisar bem a água, porque da salvação para um explorador sedento, ela pode também seu seu decreto de morte. A água pode conter radiação, fluidos perigosos diluídos, bactérias, pode conter traços anormais de substâncias toxicas dos mais variados tipos.

O aparelho mostrou um contador na tela. Enquanto a barrinha ia se completando, o computador do traje executava diferentes varreduras na amostra de água sugada pelo tubo da mochila. Morten sabia que a água era extraterrestre pelos níveis de deutério. Toda molécula de água é composta por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio, mas a composição química desses átomos pode variar. O hidrogênio comum, mais abundante na Terra, é formado por apenas um próton, com duas variações, chamadas de isótopos. Uma delas, o deutério, possui um próton e um nêutron, e a outra, mais rara, possui um próton e dois nêutrons e é conhecida como trítio. O mesmo acontece com o oxigênio. O mais comum, chamado oxigênio 16, tem oito prótons e oito nêutrons, mas existem também o oxigênio 17 (com nove nêutrons) e o oxigênio 18 (com dez nêutrons). Todos eles podem se combinar em 18 composições químicas diferentes para a água.
O marcador do deutério era especialmente bom porque sua quantidade permanece estável mesmo ao longo de bilhões de anos.
Felizmente o deutério no lago não iria prejudicá-lo por seu índice. A água do nosso planeta contém cerca de 0,017% de deutério. No lago da cratera, esse valor era de 0,053%, conforme o indicador mostrou, com uma bolinha verde ao lado.

Com base nos valores de isótopos, Morten especulou que talvez aquele meteoro que vagou por tempos imemoriais na escuridão do espaço atravessou a nuvem de Oort, onde se revestiu com uma imensa massa de gelo. Esse gelo formou uma crosta no núcleo de metal, que ao derreter no impacto formou o lago.
Em seguida, o computador começou a fazer as outras análises: As características físico-químicas e microbiológicas, de alcalinidade total, cloretos, dureza total, pH, ferro, amônia, cloro, oxigênio, turbidez, cor, coliforme fecais e totais. Aparentemente tudo estava saindo perfeito na análise da água do lago.

Morten Carlson estava tão entretido com as analises da água que não notou uma estranha ondulação perturbar a superfície da água.
Alguma coisa o agarrou e puxou com extrema violência para dentro do lago. Agora ele era puxado para o fundo por uma força descomunal.

CONTINUA

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1 comentário em “O experimento Carlson – Parte 10”

  1. Pelo amor de Deus, posta as outras partes. Se eu morrer antes de ler até o fim você vai ficar com remorso. E olha que eu ando com umas dores no peito que não sei não, viu?

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