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O dia em que eu quase morri no motel

February 9th, 2010

Tem tempo que eu não conto nenhuma dessas coisas da minha vida. Hoje eu estava lá no twitter e acabei conversando com o @e_d_e_n sobre zona do baixo meretrício.
Olha, não adianta tampar o sol com a peneira e se fazer de santo que você sabe bem do que eu estou falando. Estou falando de Zona. Puteiro, diversão ou Relax. As casas de diversões adultas, a casa da luz vermelha.
Curiosamente, eu nunca fui num puteiro na vida. Ora, Isso não é nenhuma vergonha, uma vez que eu também nunca havia tomado cachaça na vida até o Porto Cai na Rede acontecer. E minha mulher nunca mascou um chiclete em todos os dias de sua existência. Ou seja, querendo ou não, sempre tem alguma coisa em que a gente é virgem.

Eu, como todas as pessoas que não sabem o que é uma casa da luz vermelha, sempre imaginei que o lugar fosse aquele tipo de local com uma decoração meio decadente, estilo anos 40/50. Com mulheres maravilhosas e sensuais vestindo apenas langeries e plumas, se projetando lânguidas sobre as mesas de seus clientes, homens de porte, sérios, fumando charuto, bebendo conhaque e vestindo pesadas casacas escuras.
Esta idéia do que era uma zona terminou no dia em que meu irmão foi numa e me contou como era. O local era famoso como “rua da lama”, na cidade do interior na qual crescemos.
Hoje, dado a passagem inexorável do tempo, já não me lembro com a riqueza de detalhes que deveria lembrar da descrição do local. Mas o que ele contou foi um balde de água fria na zona de teledramaturgia Global que até então eu idealizava.

A zona da rua da lama era um lugar caindo aos pedaços, com uma escrota luz vermelha na entrada. O lugar ficava lá nos confins de uma rua que quando chovia, fazia completo jus ao seu nome. A rua começava nas proximidades da rodoviária, perto do rio que cortava a cidade e se estendia para grotões suspeitos e lugares que a mente humana não consegue conceber. Lá dentro, em meio a um ruído estourado de caixa de som velha, tocava um “funk melody” e sob as poucas luzes coloridas que piscavam na “pista”, que na verdade era um microscópico espaço aberto entre as mesas carcomidas, estavam se requebrando seres tão horrendos que fariam o Clive Backer ter pesadelos.

Meu primo (que não falarei o nome, mas que todos da minha família imediatamente saberão que é o Diogo, já que ele era o inseparável companheiro de farra do André) estava com ele neste dia. Eles disseram que foram na zona para “zoar”. Ora, eu nunca me imaginei indo numa zona “zoar” mas sim para dar uns amassos nas putas ultra-gatas das novelas e minisséries. Mas foi o que eles disseram. O lugar estava cheio de putas gordas e pelancudas. Para se ter uma idéia do naipe do local, a garota mais gata lá era magra como um esqueleto, careca como um fugitivo da FEBEM e ostentava uma desprivilegiada dentição em tom gema de ovo no qual faltavam um goleiro e dois atacantes.

Essa piranha mais gata de todas tinha um famoso piercing no umbigo que foi a única coisa do qual o Diogo teve coragem de se aproximar… E beijar. (patrocínio saquinhos de vômito Gump) Obviamente devo ressaltar que meu primo e meu irmão deviam estar em avançado estado de adulteração de combustível com álcool anidro para terem a coragem de depositar a boca naquele umbigo encardido.
Uma das coisas que mais me causou espanto foi a descrição que eles deram do copo da zona. Inicialmente eles pensaram que se tratava de um copo de vidro jateado, mas após alguns goles na cerveja choca e cara, descobriram que o copo estava apenas ensebado.

Ah, nada como uma viagem antropológica nas zonas do baixo meretrício de cidade pequena… É como um safari em que a morte lhe espreita a qualquer momento.

Eu já estava entregue a devaneios quando o Eden comentou que seria legal ilustrar um post assim com fotos. Então fiquei imaginando que tipo de problema poderia acontecer numa zona caso algum aventureiro lançasse mão de uma maquina fotográfica ou celular que tira fotos naquele ambiente.
Imagino que o tamanho do fusuê seja inversamente proporcional ao tamanho da cidade, já que em cidades pequenas, todo mundo se conhece e qualquer coisinha se torna motivo para grandes escândalos.
O fato é que isso me lembrou que quando eu era mais novo, naquela fase entre um adolescente e um adulto, havia na cidade um programa de radio com o curioso nome de “Sapeca Iaiá”.
O Sapeca Iaiá passava na rádio, na parte de manhã, logo cedo e era um programa muito bem bolado para desgraçar a vida das pessoas.
Imagine você que o Sapeca Iaiá contava quem tentou o suicídio, quem morreu, quem matou e por que. Ele contava podres que todo mundo queria esconder e para piorar, o pessoal dizia que o “Sapeca” colocava olheiros escondidos perto das entradas dos motéis, para divulgar queme stava indo com quem nos motéis. Eles chegavam a contar as placas dos carros.

Pessoalmente, eu nunca ouvi o Sapeca Iaiá contar as placas de carro que entravam nos 2 motéis da cidade, mas nunca duvidei de que eles pudessem realmente chegar neste ponto. O Sapeca começou como uma espécie de boletim criminal, mas que rapidamente evoluiu para uma espécie de coluna social podre da cidade. Então a galera comentava coisas do sapeca, que como era muito cedo, eu nunca sabia se era verdade ou não.
Mas naquele tempo em que eu estava começando a descobrir o sexo, motéis e tudo mais, o medo do “sapeca Iaiá” era foda.
O pior de tudo era que a minha namorada na época tinha uma tia idosa, que adorava ouvir a porra do sapeca Iaiá. Estava traçada a desgraceira que facilmente poderia se abater sobre a minha pessoa.

Na primeira vez que eu fui ao motel na vida, traçamos um plano que mais parecia uma operação de guerra. A operação envolveu uma peruca pra ela e uma bela grana pra mim. Ocorre que com medo de ser reconhecida e ficar “falada” na cidade, ela me obrigou a ir numa outra cidade, pegar um taxi lá e ir de táxi da outra cidade para o motel. Nem era tão distante, mas isso somado a peruca e óculos escuros dava um quê de emoção na parada.

Por minha insistência ela aceitou levar uma garrafa de Contini, um tipo de martini vagabundo de segunda linha que havia naquele tempo. A garota costumava ter uma certa dificuldade de relaxar e a bebida dava uma ajudada nessas horas. Ela colocou a garrafa na bolsa e tampamos na perna para a cidade vizinha.
Viajar para uma outra cidade só pra voltar de lá pra onde saímos era estranho, mas nada se comparou ao jeito como falamos com o “seu Mazinho”.
Nunca mais me esqueci do seu Mazinho, o homem que tinha um dente tão bizarro naquela boca que aquilo ficou registrado para sempre na minha memória. Descrever o seu Mazinho era fácil. Pegue o zeca pagodinho, misture com o Agepê e com o Latino, bata no liquidificador, envelheça 100 anos e coloque um dente inteiriço na arcada inferior da boca do cara e teremos o seu Mazinho.

Agora coloque na cena um carro tão velho que testemunhou a criação do jardim do Éden e teremos a fubica vagabunda, amarrada com arames e com coisas penduradas ao redor do vidro que nos levou ao motel Free Love, o templo do amor e da paixão.
Ocorre que a vergonha nos impediu de dizer ao seu Mazinho que queríamos ir ao motel. Nós apenas nos limitamos a dizer a cidade de onde tínhamos saído. O seu Mazinho crente que ia nos levar pra lá, quando veio chegando a porta do motel eu disse entre dentes e suando frio:
-Entra ali, moço.

Seu mazinho olhou de modo obsceno pelo espelho retrovisor. A menina envergonhada olhou fixamente pelo vidro do carro para o lado de fora, fazendo que como se não fosse com ela. Tipo: “tive um AVC e estou toda paralizada. E surda.”

Seu Mazinho sorriu maliciosamente, com aquela cara de tarado bem-passado.
Balançou a cabeça positivamente e virou o volante com tamanho desespero que eu achei que a peça ia sair na mão dele.

Entramos no motel e a atendente atendeu o interfone. Foi um suplício para falar que eu queria um quarto bom, pois a acustica do porteiro eletrônico era péssima e o seu Mazinho tinha que gritar tudo que a moça sussurava do outro lado. Nisso a meina do meu lado ainda congelada em carbonith, olhando fixamente agora para uma parede de chapisco.
Eu para não fazer feio, paguei logo a suíte presidencial de vinte e cinco reais! (uma fortuna na época) Era um quarto enorme, que tinha banheira de hidromassagem, algo que me obrigou a quase um curso prático de bombeiro hidráulico para fazer funcionar. Além disso tinha sauna, e filminho pornô. U-huuu!
Pagamos o seu Mazinho que me chamou de lado, fez um sinal que minha mente não captou com a mão e sussurrou:
-Quer que eu volte que hora, campeão?

Aquilo me doeu. Ele podia ter falar o que quisesse, mas o “campeão” no fim daquela frase fez com que eu me sentisse um merda completo. Sabe aquele tipo de gente que quanto mais elogia mais você se sente um merda? Tudo que eu queria era apertar um botão para que o seu Mazinho sumisse da minha frente. Eu fiquei com raiva porque eu sabia que o Mazinho estava desconfiado que alguém ali era virgem. Por instantes tive medo que Mazinho fosse um espião do Sapeca Iaiá.

Ele ficou ali, esperando eu dizer a que horas ia acabar. “Acabar?” como assim acabar? É tipo um restaurante que voicê entra come e sai? Cinema tem hora para acabar mas o sexo? Sexo com uma pessoa que a gente gosta deveria ser eterno. Então eu disse a ele para me dar o cartão com o telefone do ponto e a gente chamaria ele.
Mazinho me passou um cartão tão velho e carcomido que mal dava para entender os múmeros. Então partiu, para nosso alívio.

Entramos no quarto e ela tirou aquela peruca ridícula.
Sabe como são as coisas… Nós mal chegamos, abrimos a garrafa de Contine e mandamos ver no goró. Em seguida, com os parafusos mais soltos, não deu outra. Bateu um tesão feladaputa e começamos a arrancar as roupas feito dois pitados. Arranquei as calças dela, ela tirou minha cueca, jogou meus sapatos longe. E já partimos com tudo para os finalmente, sem nem ao menos desfrutar de toda aquela imensidão de tecnologia que se resumia ao controle digital da Tv e da sauna e o radinho que tocava Julio Iglesias no console da cama.
Ela tinha uma espécie de paranóia de alguém do motel ouvir os gritos e gemidos e então fui obrigado a aumentar o volume do canal “bíblico”, algo que na minha cabeça nunca fez muito sentido, afinal isso só fazia produzir mais e mais altos sons dos gemidos naquele quarto. Mas tem mulher que tem dessas coisas.

Os momentos de amor ficaram para a história mas o que mais me marcou naquele dia foi a porra da sauna. Eis que após o sexo e cheia de Contine na cabeça, a garota dormiu. Eu fiquei vendo o filminho de sacanagem até que a cena atracou num fuque-fique que não acabava mais. Eu estava ficabdo de saco cheio e resolvi fazer uma sauna para me preparar para a segunda rodada.

Fui peladão, lépido e faceiro para a sauna. Liguei a maquininha no máximo e fechei a porta de vidro.
Quando a coisa começou a esquentar muito, eu resolvi sair para tomar a ducha. Mas cadê que a porta abria?
A porta travou, mané.
No início era só uma preocupação. Até achei engraçado. Mas com o passar do tempo, comecei a sentir um cagaço leve e foi se tornando um cagação.

Eu comecei a ficar preocupado. Era o meu sapato, um mocassim que havia agarrado sob a porta de vidro da sauna, de tal modo que a maldita não abria. Pra opiorar eu havia colocado a sauna no maximo e o calor estava de matar.
A minha pulseira começou a queimar. O anel começou a queimar, o relógio queimava como brasa. Eu estava ficando tonto. Comecei a gritar e ela desmaiado na na cama. Senti vontade de vomitar todo o Contini e tive vontade de matar o capeta desgraçado que inventou aquela bebida doce.
Eu gritava, pedia socorro e nada. A tevê estava no máximo e eu mesmo só ouvia os gemidos da cena de sacanagem lá fora.

Sério mesmo que eu pensei que ia morrer logo na minha primeira vez num motel. Comecei a dar ombradas na porta na intenção de abrir, mas cada batida que eu dava, a maldição do mocassim enfiava mais e mais sob a porta e ela ficava mais e mais emperrada. Pra piorar, o vidro estava quente como brasa e chegou numa hora que simplesmente eu já não tinha forças para me mexer. O ar estava faltando e eu comecei a ver tudo meio sem foco.

Eu me sentei no tablado de madeira e comecei a me despedir da vida. Eu já podia ver a manchete do sapeca iaiá. Já podia imaginar a tia dela ouvindo os nomes e a descrição da cena tragicômica que resultou numa morte de um moleque magro e nu numa sauna. Eu imaginei as minhas fotos com partes pudendas a mostra no jornal municipal e a vergonha generalizada que me acompanharia ainda por três ou quatro encarnações.
Foi aí que fui salvo pela pura sorte. Ela acordou do porre e veio me procurar. Acho que por pouco ali e eu teria ido dessa para melhor naquela sauna. Após alguma luta com meu sapato, ela conseguiu arrancá-lo da soleira da porta e abriu a sauna. Eu me joguei lá de dentro sobre a cama e acho que apaguei por uns dois minutos.

Quando voltei a dar sinal, ela estava desesperada, com o olhão arregalado olhando pra mim.
Só nos restou dar uma arrumada no visual e ligar para o seu Mazinho nos levar de volta à civilização. Levou mais de um ano para termos coragem de voltar ao motel novamente. E quando voltamos, eu bati o carro no motel. Mas isso é uma outra história.



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