O despachante da morte – Parte 4

A morte é uma curva na estrada.

Morrer é só não ser visto.

Fernando Pessoa

Gil carimbava os documentos se sentindo completamente liberto daquela estranha maldição. Jurou para si mesmo que jamais abriria a boca sobre os insólitos fatos acontecidos naqueles últimos dias.

A cada hora que passava sem o maldito chiado, ele ficava mais e mais eufórico. De alguma maneira a morte talvez o tivesse esquecido. Ou quem sabe, aquele tivesse sido um breve surto psicótico seguido de algumas coincidências e agora ele estivesse voltando ao normal.

Alguém batucou na lateral da baia dele e Gil levantou os olhos. Antôio Carlos do DP estava ali com uma mocinha bem bonita.

-Gil, esta é a Rosana. Rosana este é o Gil.

-Rosana? -Disse Gil abrindo um sorriso para a menina.

-Sim. -Falou Antônio. -Ela será a nova recepcionista aqui do setor. Vai entrar no lugar da Lu. Que Deus a tenha.

-Pobre Lu. -Disse Gil.-Mas em todo caso, bem vinda, Rosana. Muito, muito pra, prazer em conhecer.-Gil gaguejava quando via mulheres bonitas.

-O prazer é meu doutor Gil.-Disse a moça, sendo levada pelo braço para outra baia pelo Antônio do DP.

Gil ficou ali tentando pescar no ar alguma fragrância do perfume da moça. Ele tinha esta tara estranha por perfumes e cheiros de shampoo. Além disso, tinha uma tara meio bizarra por calcinhas, mas isso é outra história.

Gil voltou-se para carimbar os documentos. Dali a uns instantes, resolveu tomar um café. Ele foi até a cafeteira e chegando lá viu que tinha acabado os copinhos de plástico. Uma das grandes desgraças numa repartição pública é quando os copinhos de plástico acabam. Ele desceu pela escada no fim do corredor para ir até o andar de baixo roubar alguns copinhos, quando ouviu o som abafado que vinha do cafezinho do primeiro andar. Gil pareceu ouvir seu nome e então parou para ouvir. Em silêncio começou a escutar o eco de risos, risos femininos e pessoas falando dele.

Havia uns caras que como todos os demais, não iam com a cara dele naquele lugar. Os caras do primeiro andar estavam falando abertamente o quanto ele era estranho e chato. Falavam sobre o quanto é impertinente aquele jeito dele de se aproximar querendo filar ou entrar na conversa alheia. Preveniam a menina nova, a tal de Rosana sobre uma potencial tara.

-Viu como ele olhou para os seus peitos? -Riu Antônio do DP.

-Não. -Disse a moça sem graça.

-Ele é um maníaco. Não sei como alguém assim passa num concurso público. -Muitas pessoas riam. Gil calculou pelo som que devia ter umas sete pessoas ali, entre homens e mulheres. Todos fazendo a tradicional lavagem cerebral na Rosana contra ele.

-E você acha que passou? Esse cara tá aqui há tanto tempo que ele entrou antes de existir concurso. O avô dele era militar e botou ele pra dentro. Quem me contou foi a Selminha lá do RH.

Gil ficou puto. Mentira não! Falar que ele olhava para os peitos das meninas tudo bem. Mas entrar sem concurso? O caralho! Me desculpe o mau jeito aí, mas Gil estava fora de si. Sua vontade era de voltar e casa pegar o trabuco e estourar a cara daqueles filhos da puta. Gaviõezinhos canalhas. Já se insinuando para a menina nova queimando o filme dele. Mas a prosa continuava. Cada vez esculhambando-o mais.

-E aquele guarda-chuva? Ai Meu Deus. O que é aquilo?

-Gargalhadas.

-E as roupas desengonçadas?

-Risos.

-E gente, como que pode uma pessoa tomar tanto café? Isso não é normal.

-E o que nele é normal? Aqueles livros? -Riam todos.

Gil ficou triste. Teve vontade de chorar. Sua raiva tornou-se uma espécie de dor súbita. Teve vontade de vomitar. Quis ir embora dali e nunca mais voltar a ver aqueles mauricinhos filhos da mãe. Subiu em silêncio as escadas. Desistiu do café e sentou-se na sua baia.

Ficou ali contemplando sua montanha de livros, que fazia uma espécie de pequena muralha, separando-o do mundo exterior. Aquele mundo hostil.

-Filhos da puta. Filhos da puta. -Era só o que ele repetia para si mesmo.

Gil abaixou a cabeça e deitou na mesa. Ficou em silêncio. Sua respiração ofegante resultado da adrenalina o fazia suar. Estava se sentindo meio zonzo. Ficou ali, quietinho.

-Você está bem seu Gil? -Surgiu uma voz de mulher na baia.

-Hã? – Gil levantou a cabeça. Era a Rosana. Gil apressou-se em disfarçar seu sofrimento.

-Tô. Tô bem. Só um pouco, quer dizer, só um pouco. Bem , você sabe, Um pouco, can, cansado.

-Ah, tá. -Disse ela saindo.

GIl notou e rememorou cada detalhe daqueles três segundos. Ela estava com outra cara. Era vísivel que ela já estava percebendo-o como um maluco, talvez um tarado. Tudo bem que ele mesmo reconhecia que era ligeiramente diferente das demais – e fúteis- pessoas daquele lugar. Um bando de metidos, mas tarado e maníaco isso ele não era. Isso o deixou ainda  com mais raiva.

E foi aí que aconteceu.

O zumbido voltou mais forte do que nunca. Gil quase chorou ao perceber que aquela desgraça não havia acabado. Tão logo começou o zumbido e o barulho de estação fora do ar, a morte e sua voz metalizada de playboy surfista do Rio de Janeiro retornou. E dessa vez num monólogo quase teatral.

– A morte. É um terror que que afeta a todos. Ela é a origem de nossos piores pesadelos, eu reconheço. Porém, aos olhos dos sábios, a morte é bem mais que isso. Ela é nossa garantia de vida. Imagine só como a nossa vida tem valor só de sabermos que ela é finita. Sabemos que vamos morrer um dia e desejamos do fundo do peito que este dia nunca venha. Mas sabemos que vem.

Se a morte… Quero dizer, eu, não existisse, a verdade é que acharíamos a vida uma chatice imensa. A monotonia nos deixaria loucos. Permaneceríamos como zumbis inefáveis, um sonho ruim sem fim: Seria uma não-vida.

As pessoas não gostam da morte como não gostam do lixeiro. Mas é inegável que tanto o lixeiro quanto a morte são apenas indivíduos que guardadas as devidas proporções, tem que trabalhar com algo sujo e que ninguém quer ver. Mas sem eles, o mundo vira um caos.

Nosso mundo sem o trabalho da morte, Gilberto, seria recheado de matusaléns se arrastando por aí. E  os doentes terminais que jamais terminariam o seu sofrer?  E os acidentados?  Os queimados… Isto sim, seria um horror. Não me interprete mal. Eu não faço porque quero. Nem faço porque gosto.

Ok. Admito que gosto.

Mas há algo mais em nosso trabalho do que apenas o prazer, meu amigo Gil. Eu faço o que precisa ser feito.

Gil, lembre-se do pensamento de René Descartes: “Cogito ergo sum” careceria de sentido ontológico se eu não existisse. Eu sou a mais justa condição humana. Deus foi piedoso a lhes conceder a mortalidade. Eu sou o presente de Deus para os humanos e você é meu instrumento. Jogue por terra todas as suas dúvidas e abrace seu destino. Seu destino é ser a minha foice.- A morte ia justificando seus atos, mas esta é basicamente a parte mais interessante de tudo. Gil ouvia pacientemente os argumento da morte em sua cabeça. Eles pareciam ser sinceros e faziam todo o sentido. Ainda mais agora que Gil desprezava cada vez mais os humanos e suas vaidades fúteis.

-Você está prestando atenção ou estou desperdiçando meu latim? -Perguntou a morte.

Gil balançou com a cabeça positivamente.

-Mas por que eu? Porque Justo eu? -Sussurrou.

-Não vou te iludir meu amigo. Sofremos do mesmo mal. Quem quer ser amigo da morte? Quem quer me ter ao seu lado o tempo todo? Pra mim seria muito mais fácil entrar na mente de um político e ordenar a pena de morte. Ou convencer um policial que não vale a pena entregar um meliante ao sistema, que ele será solto e continuará a praticar assaltos na vizinhança. É tão mais fácil resolver logo. Prender, julgar e condenar. E não negarei que faço isso, usando a mente alheia e escondendo-me em pensamentos que não pertencem a estas pessoas. Gil, ninguém nasce mau. Isso é a hipocrisia humana. Uma utopia religiosa banal que precisa da idéia do mau para glorificar o que eles defendem como bem. Muitas vezes, eu tenho que lidar com pessoas treinadas para a morte que mostram-se mais condolentes do que religiosos.  Uma vez eu vi um torturador do DOPS amarelar. O nome dele era Ney. Tem noção do que é um torturador refugar em matar um comuna? Pois o fato é que ele, soldado treinado, cabeça feita para odiar os comunas, não teve coragem de dar o golpe fatal. O padreco tava no pau de arara e no entanto… No entanto eu falhei. Eu tentei de tudo. Mas ele teve pena. Não matou. Precisei fazer a cabeça do padreco algum tempo depois e então ele cometeu suicídio. O padreco se matou. Fez consigo mesmo o que o torturador não teve coragem de fazer com ele. Se a morte pudesse escrever um livro, seria um best seller. Mas por que eu estou contando isso? Porque eu quero que você saiba que há muitos e muitos anos, eu não sou honesto assim com ninguém. As pessoas não estão preparadas.

Mas você? Você não. Você é especial, Gilberto.  Você é a pessoa que eu sempre procurei. E por isso eu posso ser sincero com você. Mesmo não me vendo. Mesmo me ouvindo precáriamente.  Você sabe que pode confiar em mim. Você sente angústia como um humano qualquer. Eu reconheço sua fragilidade e respeito isso. Talvez o fardo seja pesado demais para um ser humano suportar. E é por isso, apenas por isso, que esta será a nossa penúltima encomenda. Aceita?

-Gil balançou a cabeça positivamente.

-Ah! Muito bom, garoto! Sabia que eu podia contar com você.

Gil ficou em silêncio apenas ouvindo.

– Vamos sair na hora do almoço. Temos uma encomenda para entregar.

Gil levou a mão no paletó e viu que não estava com a arma. Tinha deixado em casa, no outro paletó.

-Não se preocupe. Onde vamos não precisará disso. -Falou a morte.

Ele voltou a carimbar tranqüilamente os documentos.

Quando o relógio bateu meio dia, Gil levantou-se como de costume e saiu. Ganhou a rua.

-Vamos pela direita. Agora dobre a esquerda na próxima esquina. -Guiava a voz metálica da morte.

Gil foi andando até que a voz ressurgiu.

-É aqui. Neste prédio escuro. Entre.

A porta estava aberta e Gil adentrou o edifício em ruínas. Era um prédio comercial de poucos andares que havia incendiado. Desde então estava entregue à própria sorte, com risco de desabar. Mas mendigos invadiram o prédio.

-Suba pelas escadas. É no último andar. -Disse a morte.

Gil subiu. Chegou no andar. As paredes eram todas sujas e cobertas de pixações. Aquele era um prédio abandonado que estava entregue aos junkies.

-Naquela porta no fundo. Atrás dela. Vá até lá. -Ordenou a voz.

Gil caminhou cuidadosamente escolhendo onde pisar. O chão era coberto de baratas mortas, jornais velhos e detritos. Havia cocô e vômito ressecado por toda parte. Seringas infectas e guimbas de cigarro estavam por espalhados para onde quer que os olhos batessem.

Gil empurrou a porta e viu que havia um sofá todo carcomido com espumas faltando. Deitada no sofá estava uma menina. Provavelmente uma viciada em crack. Ela estava encolhida e tremendo. Provavelmente em um grave quadro de nóia.

Gil se aproximou. Só havia a menina no cômodo fedendo a mijo. Ela olhou pra ele com os olhos revirando para trás. GIl sentiu medo.

-Quem são vocês? Polícia? Polícia? Não fiz nada. Hein? Hein? Não fiz nada. Não fiz nada. Porra libera aí. Não fiz nada! -Disse a menina em pânico. Tremendo muito. A cabeça tombando. Os olhos revirando.

-Veja que situação, meu amigo Gil. -Disse a morte.

Gil estava parado na frente da menina. Ele estava justamente pensando na palavra “vocês”. Totalmente fora do ar, aquela menina poderia ter visto Gil e seu companheiro invisível? Ou ela estaria sofrendo de dupla visão decorrente da alucinação química?

-O que eu faço? – Perguntou Gil.  A menina gemeu e se contorceu. O braço todo marcado de picadas. O corpo era coberto de tatuagens de gosto duvidoso. Os cabelos eram quebrados e sujos. As olheiras mais profundas e escuras do que sepulturas. No chão estavam cachimbos de crack feitos precáriamente com garrafinhas de yakult e pedaços de caneta Bic e saquinhos e papelotes de alumínio de cocaína. Aos pés dele, em meio a guimbas de cigarro e pedaços de pão mofados, havia uma gilete.

-Pegue a gilete e corta a jugular. -Disse a morte.

Gil abaixou-se e pegou a gilete.

Gil pensou se valia a pena fazer aquela maldade numa criança. Sobretudo numa criança que mais cedo ou mais tarde iria acabar tendo uma overdose e indo para a terra dos pés juntos.

Olhou para a menina. Devia ter uns 15 anos ou até menos. Magra. Fraca. Era como matar um cordeiro. Com a diferença de que o cordeiro era inocente. Mas não seria aquela menina um vítima de um sistema podre? Sob certos aspectos não seria também uma inocente? Claro que em sua ânsia pela droga ela poderia ter matado, assaltado e feito atrocidades diversas. Mas no fundo, aquela era uma vítima. Gil sentiu pena da menina. Morrer sozinha, sem amigos naquele lugar. Ela iria apodrecer. Os junkies jamais iriam chamar a polícia ou bombeiros para retirar o corpo, porque o lugar seria interditado e a polícia ia marcar o ponto.

A morte não dizia nada. Só estava ali o chiado.

Gil ficou com a gilete na mão contemplando a menina.

-Ei, ei, acorda. Abre o olho. -Disse ele.

A menina custou a abrir os olhos. A cabeça mole, caindo para os lados.

-Que? Polícia? -Disse ela tentando encarar Gilberto.

-Eu tenho uma encomenda pra você.  -Ele falou.

-Pedra? -Perguntou ela abrindo bem os olhos tentando focalizar a figura embaçada na frente dela.

-Não. Isso! -Disse Gil desferindo uma navalhada no pescoço da menina. Ela tossiu e um esguicho daquele sangue preto grosso derramou no sapato dele.

A menina estribuchou. Instintivamente levou a mão no pescoço, se pintando de sangue. Mas estava fraca demais para qualquer reação e então o braço pendeu do sofá e ela caiu.  Do jeito que caiu ficou. Meio corpo no sofá, meio no chão. A cara na poça escura que se abria ao redor dela. As espumas expostas naquele sofá infecto foram drenando mais e mais o sangue da criança.

-Obrigado. -Foi o que Gil escutou a morte dizer antes do ruído sumir.

Ele se virou e saiu do prédio, deixando o frangalho de corpo para trás.

Gil andou uns 50 metros e entrou numa churrascaria à quilo na Rua do Líbano.

Ali ele pegou um pedaço de picanha mal passada, arroz e batatas fritas. A picanha escorria aquele caldinho vermelho tingindo o arroz. Enquanto comia, Gil pensava na menina. O sangue ainda estava no seu sapato. Gil abaixou-se e com um guardanapo limpou discretamente o calçado.

Levantou-se pagou a conta e voltou ao trabalho.

Chegando na repartição, cruzou com dois dos desgraçados que o difamavam no cafezinho do primeiro andar. Os dois olharam pra ele e balançaram a cabeça em saudação. Gil teve vontade de pegar a gilete do bolso e cortar as duas gargantas ali mesmo. Mas conteve seus impulsos e apenas acenou-lhes com a cabeça. Subiu as escadas e foi para sua baia.

Chegando na mesa viu que havia um recado pra ele. Um tal Doutor Palhares, delegado.

Gil tremeu. O que poderia ser aquilo? Naturalmente que ele devia estar arrolado em uma investigação de homicídios.  Deu-se conta de que havia bebido agua na casa de Luciana. Havia sido gravado no elevador e logo depois pego um avião de São Paulo para casa minutos após morte do Dr. Oduvaldo. Muitas pessoas podem tê-lo visto falando com a cigana antes do vôo dela em direção à roda do caminhão. Gil sentiu muito medo.

Pegou o telefone e tremendo como uma vara verde, ligou para o numero do papelzinho.

Atendeu o assistente do delegado. Gil se identificou e ficou sabendo que estava sendo convidado a prestar esclarecimentos na 67DP do Centro no dia seguinte.Marcou o horário, ainda que gaguejando mais que o normal. Desligou o aparelho.

Gil sentia um misto de medo e apreensão. Ninguém estava acusando-o de nada, mas o risco era grande. Um delegado experiente poderia perceber os sinais. Cada pequeno sinal. A forma de sentar-se à mesa, suas mãos, o jeito como falava, a emoção e a direção do seu olhar. Seria impossível mentir. Assumir os fatos era ainda mais improvável.

Gil olhou no relógio. As horas pareciam passar mais rapidamente do que deveriam. Ele voltou-se para o trabalho numa tentativa inútil de esquecer o sangue preto da menina, e a ligação e sua visita na delegacia.  Nisso a morte voltou.

-GIl.

-Ah, não. De novo, não. -Disse ele.

-Gil.

-Que, porraaaa? -Falou ele.

-Você está bancando o maluco. Cala essa boca -Ordenou a morte.

Gil balançou a cabeça positivamente.

-Você quer se ver livre de mim?

Gil balançou a cabeça novamente. Queria.

-Chegou a sua oportunidade. È o a sua última encomenda. Mas não pode ter erro. E tem que ser agora.

-Agora? -Sussurrou Gil. -Mas agora eu tô trabalhando, pô.

-Tem que ser agora. Levanta e vai em casa pegar o ferro. -Disse a morte.

Gil levantou-se passou na frente do chefe levando uma pilha de documentos.  Tática teatral inútil, uma vez que ele era mais invisível que qualquer um naquela repartição.

Gil desceu as escadas e correu para o ponto do ônibus. Pegou o 995 direto para sua casa. Chegando lá pegou a arma.

A morte voltou a falar com ele:

-Agora desce que não podemos perder tempo. Pega o 924. Ele vem vindo. Pega ese.

Gil acenou para o ônibus. Correu para dentro.Passou a roleta e sentou-se atrás do motorista.

A morte falou com ele:

-Gil, daqui a dois pontos, presta atenção que a pessoa vai subir.

Gil ficou ligado. O tempo todo olhava para a porta. O ponto seguinte foi numa praça. O outro, em frente a uma maternidade. Subiu uma mãe, puxando um guri de uns três anos, outro no barrigão de nove meses. Gil tremeu. Aquilo era demais. Uma grávida?

Mas Gil se acalmou ao ver que logo atrás dela subiu um sujeito com cara de marginal. Sim. Só podia ser aquele.

-É a grávida -Falou a morte.

Gil balançou a cabeça negativamente. Aquilo ele não iria fazer. A morte se irritou.

-Não se faça de palhaço. Ela vai descer e você segue ela.

Gil levantou-se e cedeu o lugar para a grávida. A moça agradeceu com um sorriso lindo. Gil sentiu que aquela mulher du mole pra ele. Brincou com a criancinha, mas o guri só ficava olhando fixamente para o sapato dele, borrado de sangue.

Gil notou e tentou disfarçar, colocando o pé sob o banco.A criancinha ficava olhando fixamente pra ele e aquilo começou a incomodá-lo. Mas a grávida puxou papo:

-Calor hoje, né?

-Po, po, pois é. Muito mesmo.

-O senhor…

-Vo-você. Por favor. Tô no, novo ainda.

A grávida riu e continuou:

-Você sabe se este ônibus passa no Engenho do Barão?

Gil não sabia. Mas dispôs-se a ir perguntar ao cobrador. O cobrador confirmou que seria dali a três pontos. Ele voltou e falou pra moça. Disse que também estava indo pra lá.

Quando chegou no ponto o cobrador sinalizou batendo uma moedinha no ferro da roleta. Gil acenou pra grávida e ela desceu. Ele desceu atrás.

Sentia-se mal por estar tão próximo de sua vítima.

-Segue ela.-Ordenou a morte.

-Deixa que eu carrego pra senhora. -Disse Gil tomando a sacola da moça. Foram andando por uma pracinha.

-Senhora não que eu estou muito nova. -Disse a grávida sorrindo. Aquele era o mais belo sorriso que gil já havia visto. Sem falar que sem o vento do ônibus, ele sentia o cheiro do perfume dela. Lavanda. Gil amava mulheres com lavanda.

O menino ia olhando fixamente pra ele. Não sorria nem chorava. Apenas olhava com ar inquiridor.

-E o seu… Marido? -Perguntou Gil.

-Ele é falecido já. Era PM morreu numa troca de tiros no morro da minhoca.

-Ah, coitado.

-Faz muito tempo?

-Seis meses. -Disse ela com olhar triste.

-Desculpe eu falar sobre, sobre …isso.

-Não, tudo bem. Estou acostumada. A gente tem que ser forte. Fiquei muito mal com a notícia, mas estou me recuperando. Tenho dois filhos dele pra criar sozinha. Sabe como é. Pior é fazer pré-natal sozinha, né? E o senhor? (risos) Você.  É  casado?

Gil notou o menino e seu olhar fixo no sapato dele. A moça ia acabar reparando.

Gil começou a se perguntar se aquele raio de menino não teria algum tipo de sexto sentido infantil. Dizem que os bois sabem quando vão morrer. Por que os humanos, bem mais espertosque os bois não saberiam?

-Não, não. Sou sol-solteiro. Quer um picolé?

O menino ficou ali, parado. Olhando pra ele. Parecia uma pequena estátua de cera. Era um menino bonitinho, com cabelo castanho lisinho.

-Olha, senta aqui que eu vou comprar um picolé pra ele. -Disse Gil para a moça.

-Ah, não precisa.

-Não, não. É só um minutinho. Um minutinho. Aguenta aí. -Disse ele saindo correndo para atravessar a rua.

Gil foi até a venda. Entrou e pagou três picolés. Aproveitou para pegar uns guardanapos e limpar melhor o sapato.  Voltou com os picolés na mão. O garoto estava num balancinho. A mãe sentada no banco da praça. A mãe chamou o guri que pegou desconfiado o picolé.

-Como é que fala pro tio?

-… -O moleque mudo com o olhar vidrado em Gilberto.

-Anda Venâncio. Fala obrigado pro moço!

-… – O moleque em silêncio.

-Não precisa, não precisa…-Repetia Gil mexendo no cabelo do menino.

-VENÂNCIO! -Berrou a grávida.

-Brigado. -Falou o guri e voltou correndo para os brinquedos da praça.

-Desculpa, seu…

-Gilberto. Muito prazer.

-Fátima.

-Bonito seu nome. É por causa da santa lá de Portugal?

-Não, minha vó chamava Fátima mesmo. Minha mãe também.

-E o neném é menina?

Então vai chamar Fátima? -Perguntou Gil sorrindo.

-Vai sim. – Ela riu. Gil entrava em êxtase toda vez que aquela mulher sorria. Ele se sentia bem ali ao lado dela, pagando picolé pra ela e para o filho dela e por um tempo, eles ficaram vendo o menino correndo.

Gil se imaginava pai. Imagens rápidas de uma fampçilia feliz surgiram em sua mente. Ele, o marido, chegando em casa do trabalho e vendo Venâncio fazendo os deveres de casa. Fátima lhe esperando de calcinha de rendinha na cama. Um passeio em familia, um aniversário. Gil não tinha uma festa de aniversário há tanto tempo que havia se esquecido de sua última festa…

Fátima imaginava a mesma coisa, com Gil ao lado dela no parto. Segurando a mão dela. Ao lado dela na missa e nos encontros com a família. Se imaginou apresentando o marido para a diretora da escola, para as amigas do salão. Ela olhava de rabo de olho pra ele. Disfarçava fingindo que olhava para o picolé  e tentava observar Gil. Sim, ali estava um homem íntegro.

-O senhor trabalha em que?

-Sou supervisor de contratos numa fundação do Tribunal de Contas do Estado. – Disse ele. Assim, o título parecia muito nobre e Gil sentia até um pouco de orgulho de seu cargo de burocrata. Para uma moça jovem viúva e grávida no subúrbio, com um bacuri levado pra criar, aquele era um sonho de consumo mágico.

-Um moço tão bonito solteiro? Ela sorriu marota.

Gil sentiu um arrepio que só lhe ocorria quando via a finada Luciana. E essa Fátima dava de dez a zero em Luciana em todos os quesitos.

-Esperando… -Disse ele.

-Esperando alguém? Sua namorada? Ela viajou? -Perguntou Fátima meio afoita, não conseguindo esconder seu interesse.

-Não. Esperando você. -Falou Gil. Dessa vez ele nem gaguejou. Sentia tanta autoconfiança que se aproximou para beijá-la.

A moça fechou os olhos esperando o beijo.

Gil beijou uma mulher pela primeira vez em toda sua vida.

Foi um beijo carinhoso. Com sabor de picolé de limão e abacaxi.

Gil saiu do beijo transformado. Parecia que havia andado numa montanha-russa. Fátima estava ofegante.

-Nossa.

-…- Ficaram num silêncio meio sem graça por uns minutos. O menino brincava no balancinho.

Gil tinha vontade de abraçar aquela mulher de dizer que ele queria protegê-la. Que ele queria ser o pai dos filhos dela. Que ele queria ficar com eles para sempre. Que ele queria apenas amar e ser amando.

Ela, disfarçava seu arrepio. Não beijava assim há muito tempo e havia ficado com vergonha. Tinha vergonha dela mesma. Uma mulher grávida, viúva… Beijar em praça pública alguém que ela havia acabado de conhecer… E se alguém tivesse visto? Tinha receio de ficar falada. Não era coisa de mulher direita, ainda mais nas vizinhanças de casa. O que ele iria pensar dela? E ainda por cima havia ficado lubrificada. Ela não sabia o que dizer a ele. E então, ficou quieta vendo o Venâncio pular do escorrega e correr na areia fingindo ser o Super-Homem.

O silêncio foi rompido na cabeça de Gil pelo chiado da morte.

-Você vai matar esta mulher. -Disse a maldita morte.

Gil abanou a cabeça negativamente.

Fátima olhou pra ele.

-Desculpe… Eu eu não sei o que me deu, eu…-Disse ela achando que aquele era um sinal de desaprovação do beijo.

-Não, não, não. Não diga nada. Falou Gil. Você é a mulher mais linda, mais perfeita…

-Você tem que matar esta mulher. -Reclamou a morte na cabeça dele.

Fátima ficou olhando pra ele. Os olhos dela brilhavam.

Gil olhou dentro daqueles profundos olhos castanhos. Resolveu ignorar a morte.

-Você é muito Gentil, Gilberto.

-Fátima… Eu sei que pode parecer piegas, meio bobo, sei lá…

-Não, fala. -Disse ela colocando a mão na perna de Gil.

-Eu estou apaixonado por você. -Disse ele de supetão.

Fátima abriu aquele sorriso. Ficou vermelha. Olhou para baixo envergonhada. Por dentro, ela soltava fogos e dava um triplo mortal carpado. Sentia-se como uma menina que acaba de conhecer o seu namoradinho.

-Quer namorar comigo? -Perguntou Gil de um modo meio antiquado.

Fátima sorriu novamente. – Quero sim.

Gil pegou na mão dela e ficaram mais pertinho um do outro naquele banco. Na frente deles, a poucos metros, o pequeno Venâncio, ou melhor dizendo, o Super Homem, voava num trepa-trepa.

Beijaram-se novamente mais duas vezes. O ruído na cabeça de Gil continuava, mas bem mais fraco.

Fátima olhou no relógio. Estava na hora de ir pra casa. Gil levantou-se e pediu para levá-la em casa. Eles caminharam por duas quadras até uma linda casinha amarela com gradil de flechas na entrada.

-Eu moro aqui. -Disse Fátima.

-Linda sua casa. -Comentou Gil olhando o Jardim.

Venâncio entrou correndo pelo portão adentro para brincar com um filhotinho de vira-lata. O portão bateu e um pedaço da ponta de uma fas flechas caiu no chão.

-Venâncio! Esse menino não tem jeito mesmo… Aí, olha só o que ele fez. Eu tenho que consertar isso. Toda hora cai.-Falou Fátima sem graça.

-Eu posso soldar isso pra você. Disse Gil.

Os dois ficaram se olhando fixamente no portão. Nenhum deles queria dizer adeus.Fátima interrompeu o silêncio apaixonado com uma pergunta:

-Vou te ver de novo quando?

-Não sei…

-Toma, pega isso. -Fátima pegou a seta de ferro fundido da grade do portão. Colocou no bolso da camisa dele.-Agora você tem um motivo para vir. Quando vai me devolver?

-Amanhã. Sem falta. – Disse ele.

-Vou estar te esperando. -Sorriu Fátima. Aquele era definitivamente o sorriso mais lindo de todo o universo.

Gil beijou-a novamente. Olhou nos olhos dela e disse.

-Me espera sim.  – E saiu.

Gil caminhou pelas ruas. O ruído ainda estava na cabeça dele. A morte estava com raiva.

-Você não podia ter feito isso. Ela precisa morrer! -Disse a morte.

Gil aproveitou que estava numa rua vazia para falar francamente com a morte.

-Porra. Saia da minha cabeça. Me deixe em paz. Eu quero viver a minha vida.

-Você vai matar essa mulher!

-Não vou não.

-Vai sim.

-Não.

-… – A morte ficou quieta. Visivelmente estava pensando alguma coisa.

-Ok. Então não mata. -Disse a morte.

-Ué. Mudou de idéia? -Perguntou Gil.

-Vou substituir essa Fátima por outra pessoa. Mas só vou fazer isso porque você é uma pessoa que eu gosto e que respeito muito. Você merece esta mulher.

-Obrigado.

-Pronto para apagar mais um?

-Claro. Quem que eu mato? Este é o ultimo, né?

– Sim. O último dos despachos. – Disse a morte.  E continuou: – Pegue um taxi ali naquele ponto.

Gil correu para o outro lado da rua. Já começava a escurecer. Entrou no taxi da vez.

-Pra onde padrão? -Perguntou o rapaz.

Gil esperou que a morte lhe dissesse.

-Para Rua dos Trigais. 220. -Disse a morte. Gil repetiu o endereço e foram.

Quando chegou na Rua dos Trigais, em frente ao número 220, ali estava o portão de uma firma falida.

-É aqui. Paga o praça e entra. -Disse a morte.

Gil pagou o taxista. desceu do carro e ficou olhando para aquela enorme empresa. Um galpão gigantesco. O mato cobria tudo. Estava tão alto que fiapos do mato apareciam sob a luz da lâmpada da rua a uns 3 metros de altura, atrás do muro.

-Pula o muro. O cara tá lá dentro. -Disse a morte.

Gil olhou para um lado e para o outro. A Rua dos Trigais era meio que uma estrada, com o calçamento todo esburacado, não havia viva alma . Ao longe ele ouviu um barulho de carro. Gil pegou distância, correu e saltou, agarrando-se no muro. Fez um esforço sobre-humano para saltar ao outro lado.

Uma vez no mato, dentro da empresa falida, Gil andou com cuidado.

-É o vigia -Pensou Gil. Ele ouvia o chiado irritante na cabeça. Caminhou pelo mato oara dentro do galpão.

-Suba as escadas. -Disse a morte.

Gil viu ao fundo, perto de umas caixas uma escadaria que dava acesso a um platô superior. Subiu com cuidado as escadas enferrujadas.

Quando chegou no alto, era um tipo de rampa de acesso a uma laje.

-Já até a laje. -Disse a morte.

Gil andou com cuidado para não fazer barulho até a tal laje. De lá dava para ter uma vista sensacional do lugar. Era uma grande oficina abandonada.

Gil estava com a arma em punho. Procurou de um lado para o outro pelo vigia. Nada.

-Não tem ninguém aqui, porra. -Sussurrou Gil.

A morte riu.

-Claro. Não tem mesmo. Eu te trouxe aqui porque a última morte será a sua. -Disse ela em tom jocoso.

Gil baixou a arma.

– Como assim? Tá maluco?

-Pegue a arma, coloca na cabeça e atira. -Disse ela.

-Vai se foder! -Respondeu Gil.-Nem a pau!

-Você me deve isso. Eu poupei a Fátima. Você substituiu o serviço.  O próximo nome na lista é o seu. Anda rápido e acaba logo com isso.

Agora quem ria era Gil.

-Olha, eu não sei o que eu tô fazendo aqui. Eu pirei. É isso. Só pode ser!

É claro que você não é porra de morte nenhuma. Eu pirei porque meu trabalho, minha vida, eu mesmo era um merda. Você é minha cabeça. Nada mais. Se eu te ignorar, você não pode fazer nada.

-Gil, não tente se iludir. Eu sou real. Eu sou real.

-Real o caralho. Você é apenas a minha mente inventando desculpas para eu descontar minha frustração nos outros. Mas agora acabou. Eu não vou me matar. Você perdeu.

-Gil… E a cigana? Você viu. A cigana me viu. E a viciadinha? Ela também me viu.

-è? Então aparece aí pra mim. Aparece, porra. Aparece seu filho da puta.

– …

-E aí? Tá com medinho? Não consegue?

-… Não vou não vou aparecer. Não preciso disso. Você vai fazer o que eu mandei. E agora! Vai se mata!

-Tá provado que você é só imaginação. Como eu pude ser tão idiota? Claro, aquilo foi pura coincidência. A cigana deve ter visto que eu era louco. Ela correu com medo, e o que aconteceu foi um acidente. Eu devo ter lido em algum jornal sobre o tal advogado, sobre o alcoolismo e isso ficou gravado em algum lugar do meu inconsciente. A minha mente usou isso para me iludir de que sabia mais do que eu sobre o que iria acontecer com o Doutor Olavo. A morte da Luciana foi ciúmes. A viciada estava chapada. Achou até que eu era da polícia. Depois pensou que eu era traficante… O cara do shopping foi escolhido aleatóriamente. É tudo acaso. Eu sou um pirado. Mas me matar eu não vou!

-Desgraçado! Se você não se matar eu vou matar a Fátima. Ela vai morrer no parto. Ela e aquela maldita criança no ventre dela. Você sabe que eu posso.

-Não! Não faça isso.

-Então vai. Pega a porcaria da arma, coloca na boca e puxa este gatilho! Já.

Gil olhou para a arma. Começou a rir.

-Pra uma morte de verdade você é bem palerma. Eu estava te enganando. Não acredito em você. Você não é nada. Eu sou mais forte. Não acredito e ponto.

-Desgraçado. Você vai morrer. Eu vou te matar. Eu te mato!!!! -A morte gritava insana.

O ruído foi diminuindo até que deu uns estalinhos e sumiu.

Gil caiu de joelhos. Ali, na laje, com a arma na mão, olhou para o céu estrelado. Estava liberto.

Destravou e retirou o pente. Espalhou as balas pelo chão. Lançou a arma longe.

Desceu as escadas e voltou para a rua.

Quando estava prestes a pular o muro, ouviu um grito. Um facho de luz atingiu seus olhos.Um estouro seco, braco aconteceu e Gil caiu para trás.

Um vigia com uma lanterna havia sido acordado com a arma de Gil batendo num telhado de amianto. Ele fez a ronda e pegou Gil tentando pular o muro. Não pensou duas vezes antes de meter o dedo no gatilho e mandar bala.

Gil estava caído no mato. Completamente tonto. Tudo parecia rodar. Ele via as estrelas. Sentia que a morte fria chegava lentamente. Não conseguia respirar direito. Sentiu o gosto metálico do sangue na boca.

O mato foi estalando e ele viu um facho de lanterna iluminar-lhe o rosto. Com o facho de luz na cara, Gil não viu a cara do vigia nem ouvia direto o que ele dizia. A única coisa que pareceu reconhecer foi uma frase e uma gargalhada.

-Encomenda pra você! – Disse o vigia sorrindo.

Tudo se apagou.

GIl abriu os olhos e o que viu foi um teto branco. Ele ficou olhando para o alto, até que reconheceu um lustre. E então começou a olhar em volta e viu que estava num leito hospitalar. Ao lado dele estava um velhinho magro todo entubado. O velho olhou para Gil e apertou um botão no controle da maca. Uma campaínha soou lá fora.  Passos apressados vieram do corredor. Uma moça negra colocou a cabeça para dentro do quarto e sorriu para Gil. Em seguida, ela saiu.

Gil tentou em vão se levantar. Tentou se mexer, mas sentiu dor.

Uma pessoa entrou no quarto. Era um médico. Ele veio até Gil.

-Senhor Gilberto…

-O que? O que aconteceu?

-O senhor é um homem de sorte. Escapou da morte duas vezes.

-Hã?

-Há alguns dias o senhor foi alvejado por um vigia que o confundiu com um ladrão. O vigia ligou para a polícia que encontrou os documentos do senhor. Eles viram pelos documentos que o senhor é um funcionário público de respeito. A polícia te levou em coma para o hospital, onde o senhor teve uma parada cadiorresporatória, mas foi reanimado e reagiu bem. Ficou em estado grave por uma semana. E agora acordou. Bem vindo à vida, senhor Gilberto. Sua sorte é que o tiro foi amortecido por uma peça de metal que havia no bolso da sua camisa. Se não fosse aquilo, o estrago teria sido mais grave e possivelmente, fatal. Agora descanse. O senhor será liberado dentro de mais alguns dias. Quer ligar para alguém?

-…Não. A pessoa que eu gostaria não sei o telefone.

-Uma pena. Descanse, sim? O senhor teve muita, muita sorte. Não era a sua hora.

O médico saiu do quarto e Gil ficou ali pensado se realmente o destino já está traçado. Será que as pessoas tem mesmo uma hora certa de morrer?

Gil olhou para o velhinho na maca ao lado. Ele estava dormindo.

Gil tentou dormir também, mas não conseguia. Só pensava em Fátima. Na repartição. Aquelas mortes, toda aquela desgraça parecia um sonho distante. Gil pesou que aquela talvez fosse a segunda vez que a morte havia visto uma assassino nato refugar. Ele ficou ali, pensando nas coisas da vida e da morte. No futuro. Nas chances que a vida dá e que muitas vezes não percebemos. No quanto ele mesmo havia se obrigado a viver uma vida de merda. Prometeu a si mesmo que iria mudar.

Já era tarde quando a porta se abriu. Gil fingiu que estava dormindo. Viu pela greta dos olhos um homem de bigode com cara de indiano entrar robóticamente na sala. Ele não estava de branco e não parecia um médico. Entrou sacudindo a cabeça como vaquinha de presépio. Aquele mesmo olhar perdido de que está ouvindo coisas. Gil sentiu um arrepio. Retesou o corpo e preparou-se para uma luta de vida ou morte. Mas manteve-se duro, imóvel, pronto para usar o elemento surpresa.

O bigodudo andou até a maca dele. Chegou perto. Olhou pra ele. Gil estava parado, a respiração presa.

O bigodudo balançou a cabeça em sinal positivo novamente. Virou-se para o lado e pegou uma seringa do bolso. Injetou o soro no velho. Balançou a cabeça novamente andou robotizado até a porta. Olhou mais uma vez para Gil, que fingia estar dormindo. Deu tchau e saiu.

Gil olhou para o velho ao lado dele. O velho deu uma convulsão. Só uma um tipo de pulo e no segundo seguinte já estava morto.

A morte havia dado uma segunda chance para Gilberto. Havia escolhido outra pessoa. Gil estava livre. Não era mais o despachante da morte. Pelo menos por um bom tempo. Mas isso éuma outra história.

FIM

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Comments

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82 comentários em “O despachante da morte – Parte 4”

  1. Como eu dissse na primeira parte….maravilhoso….nao tenho muito oq falar…apenas tenho q ler de novo pqé muito bom….adorei….paraben! 😆

    ps – se puderem…dê uma olhada na parte de ovni..eu tenho uma opniao melhor sobre a viagem do homem a Lua..algo q jamais aconteceu!ta tudo lá;;;
    eu nao acredito piamente q nem EUA;;URSS e nem porcaria nenhuma ja estiveram lá. as fotos das sonds nem posso falar nada…mas sie lá né?

  2. [quote comment="32424"]E os esclarecimentos na delegacia ??? Como ficou ???[/quote]
    Como ele estava em coma, não pôde ir. As investigações prosseguiram, mas sem descobrir o culpado. Como ele não era um suspeito diretamente relacionado, prestou esclarecimentos sobre Luciana. O delegado queria saber de todo mundo do trabalho se sabiam de algo ou alguém que fosse desafeto dela.
    A polícia nunca o investigou e não descobriu nem sua viagem nem nada. Luciana havia caído sobre a mesa de vidro e estilhaçou o copo que continha suas digitais. Gil nunca foi ligado oficialmente ao crime.

  3. Ele se supera a cada dia. Por isso que eu não vivo mais sem esse blog!
    Este teu texto não fica a dever para nenhum filme, para nenhum livro e vou te dizer que é superior a muita coisa de gente famosa que eu já li.
    O interessante do “Despachante da morte” é que tem duas leituras. A mais óbvia é a do realismo fantástico. Nessa proposta a morte realmente existe e fala com Gil.
    Mas há uma segunda opção onde Gil pode ser uma pessoa com sérios problemas mentais. A voz surge quando ele está deprimido. Isso fica claro muitas vezes ao longo do texto.
    Genial. O conflito final, o encontro com uma mulher que buscava alguém para amar. A reação da morte vendo se aproximar a sua própria inexistência. Isso é Sheakesperiano!
    E a alucinação final? Um indiano dando tchau pra ele? Seria um indício de que ele estava piorando? Seria um indício de que ele não matou ninguém e que imaginou tudo? Seria esta uma viagem a uma mente totalmente destruída pelo fracasso da vida?
    Philipe, você é um mestre. Devia estar na ABL!

  4. [quote comment="32428"]
    Philipe, você é um mestre. Devia estar na ABL![/quote]

    :lol2: :lol2: :lol2: :lol2: :lol2: :lol2: :lol2: :lol2: :lol2: :lol2:

    Que bom que vc notou as outras leituras.

    • Eu sempre tive uma dúvida sobre essa coisa das duas leituras …num to dizendo q seja isso , mais , seria possivel , não só o phillipe , como outros escritores , criarem um conto , com duas leituras e outros recursos literários bem complexos e interessantes , sem a intenção disso ? quero dizer , escrever um conto com duas leituras sem querer ?
      Porque eu mesmo ja fiz muito disso nas minhas redações pra escola , e minha professora ficou até impressionada e me elogiou muito , mais não é como se antes de começar o texto eu tenha pré-estabelecido tipo ” Huumm…vou criar este texto , assim , assim e assado ” , sacaram ?

      • Sim, acho que é possível. Neste caso foi proposital, mas é perfeitamente possível que o cara escreva algo bem simples e as pessoas enxerguem grande profundidade no que está escrito ali, pois muito do interessante de uma leitura é a formulação mental de quem lê.
        A propósito desta questão, me lembro que certa vez mostraram ao Rubem Braga (ou seria o Veríssimo?) um texto dele, cobrado no vestibular da FUVEST. O cara leu, observou as possíveis interpretações que os professores deram ao texto dele e concluiu: Porra, nem eu que sou o autor passaria neste vestibular.

  5. Cara, parabéns!!!

    Não consegui desgrudar nenhum minuto da história, ainda passei o dia todo dando reload na página esperando o final 😛

    Muito boa a história e o final melhor ainda!

  6. parabens muito bom!

    mais explica uma coisa… você não justificou a morte da luciana!
    ou se explicou desculpe minha preguiça em reler as partes anteriores…hehehe
    t+

  7. [quote comment="32476"]Eu já achava que o Gil ia se esculhambar todo no final.[/quote]
    [2]

    Véi, s-h-o-w—d-e—b-o-l-a-!
    Me deu até idéia pra uma crônica de RPG, se importaria se eu baseasse nessa história?
    Se não se importar, vou pedir pros players lerem isso, como uma base. Ae, se tu não se importar e eu fizer, te conto como foi depois. 😉

    Parabéns. /o/

  8. Ahhh massa! Adoro essas histórias! Sempre te visito (todo dia) mas geralmente não coloco comentários mas vc está de parabéns!!

    Ei ando com saudades dos ‘causos’ gump sobre entidades do outro mundo e coisa e tal. Sei que tem mais coisas para contar e vc prometeu faz alguns meses – então se possível e dentro do possível gostaria que fizesse mais uma história dessas!

    Abraços e obrigado pelas histórias!

  9. Muito boa Philipe!!

    Pareceia até aques livros de suspense policial que eu tinha que ler no colégio!

    Nunca gostava de ler, mais quando começava não conseguia parar!

    Este é o legal desses livros e história!

    Está de Parabéns!

  10. Fico feliz que vocês tenham curtido. Eu tb curti. Eu ia matar o Gil no final, mas fiquei com pena do cara. Além do mais, agora temos uma porta aberta para um personagem de longa duração em histórias futuras.
    Ninguém, pode usar no seu RPG sem galho.
    Fabiano, eu estava segurando um pouco os casos Gump, porque estou planejando lançar o livro do Mundo Gump. Eu gostaria de lançar este livro com algumas aventuras reais inéditas. Eu estava conversando com uma editora, mas não sei se vai rolar por essa. O primeiro volume já tava dando 500 paginas. Preciso arrumar uma outra editora pra lançar logo isso. A parda tá vidando coleção já, hehehe. Era pra eu ter lançado isso antes do natal de 2007. ;]
    Se alguém conhecer um editor aí e quiser me ajudar, fala do blog pra ele.

  11. Valeu! /o/

    Cara, teempos² atrás eu queria fazer um livro também.
    Era um livro de pequenas crônicas e talz, ao meu ver ia ficar tri.
    Eu queria publicar, nem que fosse uma edição, só pra mim e talz. :b
    Falei com um amigo que no qual o pai dele trabalha com algo relacionado a editoras/gráficas e talz. Ele falou que ia falar com ele e até agora espero. :~~

    O pai de outro amigo meu, que infelizmente já faleceu, tinha livros publicados até em inglês. Infelizmente ele não pode ajudar. :/ :worry:

  12. Uma opinião:
    Você já não pensou em comercializar o livro em formato digital?
    Digamos uma cópia em PDF por um valor pago em paypal, pagseguro, mercadolivre…
    Ou então vender alguns ‘casos’ em formato PDF de qualidade no próprio site: Pagou levou – como se pagasse por paypal e já pudesse fazer o download e ler.
    O bom disto é que o lucro vai diretamente para vc sem atravessadores – o ruim é que pirataria está aí não tem jeito… Mas depenendo de como for ainda ganha ‘uns trocos’ com um processo aqui e ali rsrsrsrs
    Fica aí a idéia!
    Se há 5000 visitas por dia e vc disponibilizasse uma história inédita do mundo gump por R$1 e em 1 mês ‘apenas’ 3000 pessoas comprassem uma cópia virtual seria um ótimo caixinha 🙂

  13. [quote]Muito bom mesmo!! D+…

    Mas soh me explica uma coisa…

    Como que a fatima nao sabia se o onibus ia para aquela direção se ela morava la? oO :/[/quote]

    Pelo que entendi,…

    Fátima queria apenas confirmar se o ônibus realmente passava perto donde ela morava. Na idéias de confirmar se ela tinha pegado o ônibus certo.

    Deve ter sido algo desta estirpe a abordagem desta parte.

    Minha opinião, claro. ;]

  14. ola meu filho,
    Barbaridade como vc escreve bem! Seu bisavô Hugo ficaria orgulhoso. Bem eu modestia parte fico super feliz de ver como meu menino é criativo. Vá em frente pois seu maior dom é sem dúvida a escrita. Parabéns, amei!

  15. Venho aqui todo dia mas não costumo comentar. Ficou muito bom, tomara que vc consiga uma editora se não conseguir, tente comercializá-lo digitalmente mesmo.

  16. [quote comment="32545"]Muito bom mesmo!! D+…

    Mas soh me explica uma coisa…

    Como que a fatima nao sabia se o onibus ia para aquela direção se ela morava la? oO :/[/quote]

    A Fatima tinha ido em outro bairro fazer o pré natal. Então ela pegou um ônibus para ir e outro para voltar. Daí que ela não sabia se o ônibus que ela pegou para voltar passava mesmo no bairro dela. É que no texto as coisas acontecem rápido, mas entre as duas paradas do ônibus e a pracinha onde eles desceram o veículo andou pra caramba, hehehe.

  17. [quote comment="32575"]ola meu filho,
    Barbaridade como vc escreve bem! Seu bisavô Hugo ficaria orgulhoso. Bem eu modestia parte fico super feliz de ver como meu menino é criativo. Vá em frente pois seu maior dom é sem dúvida a escrita. Parabéns, amei![/quote]

    Valeu mãe! 😆

  18. [quote comment="32568"]Uma opinião:
    Você já não pensou em comercializar o livro em formato digital?
    Digamos uma cópia em PDF por um valor pago em paypal, pagseguro, mercadolivre…
    Ou então vender alguns ‘casos’ em formato PDF de qualidade no próprio site: Pagou levou – como se pagasse por paypal e já pudesse fazer o download e ler.
    O bom disto é que o lucro vai diretamente para vc sem atravessadores – o ruim é que pirataria está aí não tem jeito… Mas depenendo de como for ainda ganha ‘uns trocos’ com um processo aqui e ali rsrsrsrs
    Fica aí a idéia!
    Se há 5000 visitas por dia e vc disponibilizasse uma história inédita do mundo gump por R$1 e em 1 mês ‘apenas’ 3000 pessoas comprassem uma cópia virtual seria um ótimo caixinha :)[/quote]

    A idéia é boa e eu tinha pensado nisso. Está nos meus planos lançar uma versão ebook do livro. Mas só pretendo lançar esta versão do volume 1 quando estiver lançando o volume 2 físico, e assim sucessivamente. Tem que ser assim porque muitas editoras já são cheias de merda de lançar um livro inédito, imagina o cara investir num livro que já tem a 1 real na web… Então preciso lançar o físico primeiro e só depois a versão ebook dele (e isso se o contrato com o futuro editor permitir)

  19. Po, eu definitivamente compraria um livro seu, Kling. Dormiria na frente da livraria se precisa-se, huasuashuas.

    Te confesso que na parte 3 eu achei a morte era o espirito de um marginal que tava usando o Gilberto pra se vingar dos caras que ferraram ele… muito boa reviravolta no final.

    Flws. 😀

  20. [quote comment="32637"]ficou mto bom! nota 10, garoto!

    mais explica ai… qual foi a justificativa da morte de Luciana para que Gil tivesse que mata-la?

    flws[/quote]

    No rascunho da idéia, Luciana iria dar mole pra ele. Então ele gastaria mais da metade do salário dele para dar um presente de natal pra ela, quando ela daria um fora nele e ficando com a jóia, mostrando-se uma mulher totalmente sacana. Mas eu resolvi não usar isso, porque achei que daria uma certa profundidade na perturbação do cara se ele matasse apenas movido por sentimentos próprios, como ciúmes da relação dela com outro cara e para mostrar que ele estava totalmente a mercê dos desmandos da morte. para a segunda leitura em que ele é apenas um psicótico, isso era fundamental.
    A morte da Luciana tb era importante para quebrar o único elo afetivo que o ligava ao trabalho. A partir desta morte ele passa a chegar tarde, sai no meio do expediente, começa a se revoltar mais. E fica definitivamente mais frio.

  21. :ohhyeahh: foda!
    fiquei uma semana sem passar por aqui e li tudo de uma vez só.
    Parabéns. Dava um ótimo curta ou média-metragem.
    Pense nisso.
    Abração!

  22. [quote comment="32545"]Muito bom mesmo!! D+…

    Mas soh me explica uma coisa…

    Como que a fatima nao sabia se o onibus ia para aquela direção se ela morava la? oO :/[/quote]

    Apesar do Philipe já ter dado a explicação e talz…
    Eu, quando vou pegar o ônibus pro meu bairro aqui… Mesmo ‘tando escancarado ali em cima onde diz a direção, mesmo tendo a plaquinha do lado da porta dizendo pra onde vai e talz… Eu sempre dou um branco e fico me perguntando se peguei o ônibus certo, isso até eu ver algum ponto de referência. ashuuahs
    E isso acontece com a maioria das pessoas que conheço. ;b

  23. Philipe, agora me explica o pq do ruído de rádio fora do ar e o sotaque carioca da morte. No inicio pensei que fosse alguma armção que fizeram com ele, pq qual seria a finalidade d a morte ter um sotaque?

  24. MAN,

    Veja só isso.

    Você, sei lá… Não sei se é assim tão simples, tenho só 13 anos de idade. Mas, você poderia chegar na maior cara de pau (ou não) na Globo, sei lá… E entregar isso para fazerem um filme.

    Afinal,
    no Brasil os filmes de “sucesso” que existem são produzidos pela Rede Globo.
    ___

    Tente pelo menos,
    Quem diz que Nerd é um panaca que só presta para estudar? Han? Não que eu seja, mas… Philipe, vejo que você é um Nerd NATO.

    “HE’S THE MAN” – Barack Obama sobre Philipe.

    HMMM… Quero lhe conheçer pessoalmente.

  25. Caraiooooo, tua criatividade ñ tem limites pelo o q eu vejo, porra, quisera eu ter uma criatividade dessa, tem dia q eu vô escrever alguma coisa e nada vem. Cara, concordo com a Daniele Dias, Philipe na ABL já!!!

  26. Legal Philipe parabéns!

    O texto conseguiu me prender até o fim, acho que você tem muito talento para escrever romances policiais, continue assim :)!

    A propósito…você parece o Serginho Malandro nessa foto! rsrs:)

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