O crânio

Estava tocando Reginaldo Rossi no radio do carro. Bruno odiava o Reginaldo Rossi e todas as musicas daquele sujeito brega. Mas o pai dele gostava. Além do mais, a musica do radio pifado em AM quebrava a monotonia da viagem.

-Porra pai, desliga essa merda aí!
-Ah, que isso, Bruno. Já vai acabar. É uma obra prima!
-Não vejo a hora de a gente trocar de carro, meu Deus! – Disse dona Sandra. – Com tanta rádio boa pra essa merda quebrar vai pifar logo nessa radio vagabunda AM.
-Pelo menos o carro ta andando, e a radio não é daquelas evangélicas, cheia de gritos e de gente pedindo dinheiro. – Riu o pai. E em seguida emendou o refrão. “…Sabia que o meu grande amor, hoje vai se casar, mandou uma carta pra me avisar…”
-Falta muito ainda, pai? – Perguntou Bruno.
-Pelo menos uma meia hora ainda.
-Cê falou isso meia hora atrás, Gil. – Disse dona Sandra.

O pai do Bruno retrucou. – É que eu não vou lá na granja do meu primo tem o que? Uns dez anos.

-Mais.

-É, pai, bem mais. Acho que quando fomos lá ainda era o Collor o presidente.

-Pois é. Mudou tudo. A estrada era de terra… Agora ta esse matagal miserável… Acho que me perdi em algum lugar perto da entrada de Visconde de Mauá.
-Eu disse que a entrada não era aquela. Eu lembro que tinha uma árvore…
-Ah, Sandra. Você se perde até no mercado, pô. Dá um tempo.

-Ai que fome. tô passando mal já. – Disse Bruno no banco de trás.
-Cabeça dura! Você é um cabeça dura mesmo! Não adianta falar! – Esbravejou Sandra.
-Lá lá lááááá…Você já cansou de escutar, centenas de casos de amor!
-Isso, me ignora mesmo. Vai nessa que você vai bem, Gil.
-Alé! Alá! Alá pai! Acho que é ali, hein? Alá ele!  É o Tio Carlito! – Gritou Bruno apontando pela janela do carro.
-Ah! Tá vendo? Tá vendo? Eu sabia! Viu Sandra? Viu? Quem é o cara? Quem é o cara? Diz aí! Pode dizer! Eu sou o cara! Eu! Rá! – Gritou Gil ao voltante.

O tio Carlos veio abrir a porteira. Chegou com cara feia, apontando o relógio.  – Porra Gil! Nego já comeu quase a carne toda do churrasco, meu!

-Foi Mal Carlito! Essa porra mudou tudo aí na estrada. Tá tudo diferente. Eu trouxe mais picanha!

-Não, Carlito. Ele errou mesmo a entrada! Eu disse que ia acontecer!

-Não fode Sandra. Você chegou, não chegou? Oulha aí. Vai se divertir, porra! Não enche! – Esbravejou Gil.

Bruno desceu do carro. Abraçou o tio.

-Cara o que tá havendo com seu pai? Nunca vi ele falar assim com a tua mãe… – Sussurrou o tio.

-Eles não estão bem desde que o papai foi demitido la do banco. A barra tá pesada lá em casa. – Disse Bruno em voz baixa.  Carlito disfarçou o mal estar:

-Mas gente, eu falei que era a terceira estrada depois da entrada pra Mauá! Eu perguntei se ele queria que eu desenhasse o mapinha!

-Nãããã, não precisa, ele é o senhor fodão que sabe tudo… Você conhece seu primo. – Rosnou Sandra, descendo do carro.

-E aí Sandroca? Tá com fome? Já tá saindo carne lá. O pessoal, olha aí, meu primo chegou! As meninas estão lá perto da piscina jogando biriba!

-Gil! Quem é vivo sempre aparece, hein? -Gritou um sujeito quase sem dentes na boca no meio da galera que estava fazendo o churrasco.

-Quem é morto também, mas nem sempre em boas condições.  -Gil respondeu.

Bruno achou graça na piada do pai. Era provavelmente a décima ou décima primeira vez que ouvia aquela mesma piadinha sem graça. Mas o jeito como Gil falava deixava bem engraçado.

O pai era bastante querido em meio aos amigos do tio Carlito, que Sandra costumava chamar de “esquadrão da pinga”.

Horas depois, todos entupidos de carne, frango e linguiça, bateu o sono. bêbado feito um gambá, o pai de Bruno caiu desmaiado no sofá da sala. Sandra e as outras esposas estavam conversando animadamente perto da piscina. Bruno pegou a máquina fotográfica e foi explorar a área, em busca de passarinhos.

Ele seguiu alguns sabiás e foi atraído por um belíssimo canário da terra, que voou perto dele. O animal pousou num barranco. Bruno fez varias fotografias, mas então, percebeu uma coisa curiosa. Enterrada bem abaixo onde estava o passarinho, estava uma pedra, que parecia sorrir pra ele.

Bruno adentrou o matagal que havia crescido até a altura do joelho. Desviou de espinhos e foi até o barranco. Ali estava a pedra. Era uma pedra arredondada, como um enorme seixo de rio, bem lisa, bem polida. Mas o que chamava a atenção era sua forma. A pedra havia sido esculpida em forma de um crânio. Com dificuldade, Bruno conseguiu tirar a pedra do solo ressecado. Era uma caveira perfeita de pedra.

Ele levou a caveira pra casa da granja.

-Que isso, mané?  – Perguntou um dos amigos do Tio Carlito.

-Achei no barranco daquele terreno lá atrás.

-Porra que legal, parece uma caveira.

-Que troço feio Bruno! – Disse Carlito,enquanto lavava a louça do churrasco.

-Ah, deixa o moleque, Carlito.

-Sei lá. Tava enterrado isso aí?

-Tava, tava enterrada la no barranco. – Disse Bruno, olhando para a pedra. Ele foi até a pia e lavou a caveira. O caldo vermelhão de terra escorreu para o ralo. A pedra pareceu mudar de cor.

-Nossa, ficou linda! – Disse Carlito.

-Tio, cê acha que isso é natural ou alguém esculpiu?

Logo um impasse havia se estabelecido. Metade dos cachaceiros pós churrasco apostavam que era escultura, outros diziam que aquilo era uma formação natural.

Buno Resolveu ficar com a caveira.

CONTINUA

 

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7 comentários em “O crânio”

  1. Eba! Estava com saudades dos contos, espero que se una a fantasia criada já em outros contos, adoro como todos seus contos parecem se passar num mesmo mundo.

  2. Tinha deixado um pouco as leituras bacanas por causa do fim de semestre na faculdade.
    Qual não foi minha surpresa e felicidade ao entrar aqui e encontrar um conto novinho e emocionante!
    Devorando tudo! 🙂

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