O correspondente – parte 2

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Enquanto ele caminhava com seu jeito seguro e frio, a mente de Daniel produziu um sem numero de motivos, perguntas, respostas, e mentiras.

Mesmo que não estivesse em condições de raciocinar tão velozmente, o nervoso, a adrenalina de achar que ia morrer, turbinou a mente dele de tal forma que era como se as coisas acontecessem em câmera lenta. Passo a passo aquele sapato antiquado, meio sujo de lama nas bordas tocava o chão da locadora. O terno era um pouco estreito. Suficientemente estreito para notar que o cara havia feito num alfaiate, o que tambem indicava que ele tinha dinheiro. O bigode era bem aparado, e os cabelos ralos deixavam despontar alguns fios brancos. O rosto era vincado, como o rosto de um marinheiro e o peitoral estufado. Aquilo só poderia indicar duas coisas. Ou o homem do paletó era um velho marinheiro, pescador ou coisa do tipo, ou aquela figura que vinha na direção dele era um soldado ou ex-militar. Sem dúvida, era alguém que passou grande parte de sua juventude exposta ao tempo e ganhou marcas que emolduravam isso. Seu jeito frio e forma de andar expunham uma sensação de segurança, de autoconfiança que raramente ele via nas pessoas comuns. O que indicavam que além de ter dinheiro, o homem do paletó era uma pessoa cuja força de vontade raramente era contestada.

O cara parou no balcão. E não disse nada.

Daniel ficou parado, olhando pra ele. Também não disse nada. Sabia que enquanto ele não falasse, sempre haveria uma saída. A aquela altura, a mente dele ja havia encontrado uma saída minimamente factível:

“Hã? Quê? Não, não sou eu! O senhor está me confundindo!”, ele diria, caso o homem o agarrasse pelo colarinho e questionasse o que Daniel teria visto naquela madrugada.

Mas o homem não fez nada disso. Ao contrário, pareceu cordial. Com um sorriso sacana, abaixou-se um pouco, inclinando de leve sobre o balcão.

-Tem sessão pornô aí garoto?

Danniel tentou conter o medo.

-Tem sim senhor. É ali no cantinho, ó. – Disse, apontando a prateleira.

O homem foi até lá. Ficou uns três minutos olhando cada filme. Daniel ficou olhando de rabo de olho, a atenção totalmente focada no homem.

Era ele, sem duvida. Daniel não iria esquecer aquele jeitão peculiar. E o paletó ainda era o mesmo da madrugada.

O homem começou a demorar, o que deu a Daniel a chance de refletir sobre a estranha situação. Talvez fosse apenas uma gigantesca coincidência. Certamente que o homem do paletó não havia cruzado o fato de que ele também dirigia um taxi. Ali ele era só o menino da locadora. Talvez tudo terminasse bem. Se ele pudesse manter sua tranquilidade por tempo suficiente para que o estranho não notasse o nervosismo, iria pegar o filme e ir embora. A madrugada estava escura, o carro passou rápido. Mesmo que o homem do paletó  tivesse memória fotográfica, seria difícil ter certeza de que era ele.

O homem voltou. Passou direto pelo balcão e moveu a cabeça em sinal de saudação.

Daniel manteve-se em silêncio, acompanhando o percurso do homem até a porta de blindex.

Tudo corria bem. Era só mais um segundo de calma e o homem iria embora.

Daniel nunca soube o que deu nele para fazer aquilo. Talvez um súbito e incontrolável excesso de confiança:

-Não achou o que procurava senhor?

O homem se conteve. Olhou para trás.

-Seu nome? – Ele perguntou.

Daniel gelou. Mas o homem estava esperando, segurando a porta de blindex da locadora.

-Daniel.

-Daniel… Legal. Não achei, Daniel. Eu estava procurando um filme… De mulher trepando com cachorro. Mas não tem. – Ele disse, antes de levantar a mão num discreto sinal de adeus e sair da locadora.

Quando a porta da locadora fechou, o coração de Daniel disparou. Ele não conseguia pensar direito. Sua cabeça se inundou de pensamentos e teorias diversas.

Estava claro pra ele que o assassino realmente o havia reconhecido. Talvez o estivessem seguindo desde o final da noite. Certamente que toda aquela cena de entrar na locadora e procurar filme era uma desculpa. O homem queria saber o nome dele. Só isso. E o burro não conseguiu sequer mentir um nome diferente.

Subitamente, enquanto pensava sobre a estranha visita na locadora, Daniel sentiu um choque: – Por que o homem disse aquilo? Como ele sabia? Mulher com cachorro… Ele sabia. Não tinha como inventar, não tinha como ser coincidência. Aquele estranho homem não disse aquilo atoa. Tudo tem um porquê. Aquilo era um recado. Pra bom entendedor, meia palavra basta.

Não tardou para que Daniel concluísse o que parecia óbvio: Que o estranho homem sabia mais sobre ele do que apenas o nome. Mas como? Quem seriam eles? E por que o encontro estranho na locadora?

A única explicação racional que encontrou era que os homens já estavam acompanhando a vida dele antes. Mas por que?

– Daniel sacou o diário e começou a escrever sobre o que havia ocorrido até então.- Disse Jacob.

O professor Andreas Jacob bebeu mais um gole de água. Em um silêncio repleto de ansiedade, a plateia aguardava o desenrolar de suas investigações. Ele abriu um pacote, de onde retirou um material encadernado. Abriu o documento e leu alguns trechos em silêncio. Pediu desculpas à plateia e retomou a apresentação.

-Daniel escreveu em seu diário furiosamente, tentando se ater aos mínimos detalhes de tudo que havia vivenciado…

Quando deu a hora de fechar a locadora, ele foi para casa. Esperava receber uma ligação de sua mulher, um pedido de desculpas, mas nada daquilo ocorreu. Andou pelas duas ruas, percorrendo o caminho de duzentos metros que sempre fazia. Mas naquele dia em especial, ele olhou para trás. E ao longe, reconheceu o carro preto.

Os homens estavam seguindo-o.

Até nesta parte, a comissão que analisou o caso estava certa de que os homens eram uma elaboração sofisticada da mente perturbada de Daniel. Aqui está o que eles disseram sobre isso:

O caso de Daniel Lima constitui um exemplo clássico de delírio paranóide. Como destacam Capgras e Serieux, o paciente estabelece relação de motivo com o qual se atrela no enredo do tema persecutório, que pode ter se dado por influência de um passageiro paranóide que entrou em seu táxi.

Dessa forma, enquanto portador de esquizofrenia e envolto numa situação de forte estress emocional, Daniel teria se contaminado com o delírio extrínseco, e assumido para si uma parcela do delírio do passageiro. Como a fenomenologia das idéias delirantes de Jaspers nos mostra, o paciente sempre é protagonista.

Para tal, torna-se necessário eliminar o “dono” da história original, de modo que a megalomania que acompanha a quase totalidade deste tipo de fantasia delirante possa se desenvolver, colocando o paciente no seu lugar central na trama.

Tal característica justifica a fantasia de que homens misteriosos mataram o passageiro e passaram a perseguir o paciente. A partir deste ponto, a vida do paciente se desenvolve à reboque de “um relato, uma novela”, na qual a projeção, a compensação e a imaginação criadora constituirão os suportes. O drama paranóide de Daniel, leva em seu desenvolvimento o selo da unidade e da ação, conforme Lasègue demonstrou em inúmeros trabalhos.

– Fica claro, prezados senhores, que a comissão interpretou como sendo de origem delirante os relatos de que Daniel vinha sendo perseguido por homens de paletó. Eu mesmo também acreditei nesta possibilidade, movido sobretudo, pela ideia de que a frase do homem da locadora, que ao procurar um filme de zoofilia que se resumia ao elemento de choque que desencadeou o surto esquizofrênico, aparecia ali para marcar claramente que ele era um produto da mente confusa de Daniel. Como todo delirante, ele nunca se prendeu a este detalhe, mas justifica-o com a desconfiança de que já vinha sendo “estudado” pelos homens muito antes de pegar o passageiro que posteriormente foi assassinado.

Voltando ao relato da vítima, ele fugiu dos perseguidores entrando num shopping center. Daniel percebeu que varias pessoas no shopping olhavam pra ele. Uma pessoa inclusive se aproximou e fingindo tirar uma foto de uma criança com um balão, tirou uma foto dele. Ante aquela situação, Daniel relata que começou a notar uma série de pessoas estranhas, que sempre olhavam para ele e que o mesmo até então não havia percebido.

Daniel correu pelo shopping, e subiu as escadas rolantes. Ele conseguiu ver os dois homens de terno entrando no shopping center quando já chegava no segundo andar. Eles eram rápidos, porém, discretos.

Daniel pegou a escada de incêndio e correu para o estacionamento do shopping, onde escondeu-se na caçamba de uma caminhonete. Ele cobriu a caçamba com a lona e por uma pequena fresta viu quando os dois homens apareceram armados na garagem.

Os homens procuraram em baixo dos carros, atrás e pilastras. Os dois trabalhavam rápido e em silêncio. Um deles pegou um radio e falou alguma coisa, mas Daniel não conseguiu entender. O homem do radio passou novas instruções e os dois homens voltaram para o interior do shopping. Daniel conta no diário que se manteve oculto na caçamba da caminhonete por cerca de uma hora, quando o veículo finalmente deixou o shopping.  Já estava escuro quando a caminhonete adentrou um condomínio de alto padrão na cidade. Ele esperou quieto até que houvesse completo silêncio.

Finalmente, abriu a lona e saiu andando como se fosse um morador. Passou pela guarita e acenou para o vigia, que retribuiu o sinal.

Dali, Daniel pegou um ônibus, mas antes que pudesse chegar em casa, teve um insight que os homens poderiam estar de tocaia. Os homens haviam perdido o sinal dele, mas certamente iriam recuar para o ponto em que ele seria visto novamente. A casa e o trabalho eram os pontos fracos.

Isso explica porque Daniel Lima nunca mais pegou o taxi, ou voltou para casa.

Aqui se dá o desaparecimento dele. E é a partir deste ponto que as páginas do diário foram arrancadas. Ninguém da polícia sabia que fim tinha levado Daniel. Com a alegação de que “sem corpo não há crime”, e sem parentes nem amigos para dar pela falta dele, levou um bom tempo para que a polícia entrasse no caso. Foram os vizinhos e a dona do taxi que ele alugava que fizeram a primeira queixa de desaparecimento.

O caso de Daniel parecia só mais um caso de loucura, até aquela madrugada quando a mulher me ligou.

Ela não disse o nome, mas precisei atribuir-lhe um para melhor compreender o que se passou. Chamei-a de Jéssica.

Jéssica não deu muitos detalhes sobre como conheceu Daniel. Ao que parece, ela era uma cliente da locadora, que gostava de conversar com ele sobre filmes. Foi Jéssica quem abrigou Daniel naquela noite.

Segundo ela, Daniel apareceu abatido, fraco e sujo na porta de seu apartamento, pedindo ajuda. Ele parecia desesperado.

Jessica custou a acreditar nele. Daniel precisou contar a situação do passageiro assassinado três vezes antes que ela começasse a acreditar nele. Foi graças à amizade de Jéssica que Daniel fez um grande avanço na investigação de quem eram aqueles homens. Munida de uma câmera, e completamente desconhecida, Jéssica passou a frequentar as imediações do prédio de Daniel, onde filmou e fotografou alguns deles, sem que fosse notada. Jessica passou a ser os olhos e ouvidos de Daniel, que se mantinha trancado no banheiro de empregada da casa dela, escrevendo no diário, vendo os videos e as fotos que ela obtinha e traçando hipóteses.

Uma das paginas do diário descobertas pela polícia no apartamento dele  faz menção ao material da Ylza. Talvez Ylza seja o verdadeiro nome de Jéssica, mas até anteontem, todos pensávamos que Ylza era parte do delírio dele.

Ontem pela manhã, ao chegar no meu escritório, havia um envelope pardo endereçado a mim. Nele estavam umas fotos. E as fotos são estas, senhoras e senhores:

correspondente3 O correspondente   parte 2

correspondente2 O correspondente   parte 2

correspondente1 O correspondente   parte 2

Acredito que essas sejam algumas das imagens que Jéssica fez para Daniel. Esses seriam os homens que estavam cercando a casa dele. Segundo Jéssica contou, os homens misteriosos tem circulado em todos os lugares  em que Daniel frequenta. Eles estão quase sempre de óculos escuros, olhando para a multidão, para as pessoas da rua, para quem entra no prédio. Ora parecem executivos, ora parecem seguranças, e até mesmo policiais. Jéssica disse que Daniel tinha muito medo das incursões dela, pois se fosse pega, ela os levaria diretamente até ele.

Até então, trabalhávamos apenas com a hipótese de um delírio. Mas com essas fotos, a coisa começou a mudar de figura. Por alguma razão, Daniel começou a ser perseguido pelo que parecia organização. Mas por que? Faltava uma causa. E quem seriam esses homens? A Máfia? A polícia? O crime organizado?

Jéssica disse que os homens estavam sempre muito nervosos, muito ansiosos. Eles olhavam as horas o tempo todo e eventualmente falavam em celulares. Ela teve a impressão de que eles não pareciam muito à vontade naquela função, o que indicava que poderia se tratar de uma ação criminosa.

Atendendo a um pedido de Daniel, Jéssica falou ao telefone com seu Carlito, o dono da locadora. Ele estava uma fera com o sumiço de Daniel. Jéssica disse ao seu Carlito que Daniel havia ficado muito abalado com o fim do casamento e que tinha viajado para a casa de parentes.

Seu Carlito contou a Jessica que achava que Daniel havia se metido numa encrenca, pois todo dia homens de terno com cara de polícia iam até a loja para perguntar por ele.

Depois que o velho desligou, Daniel e Jéssica concluíram que certamente os homens estavam monitorando tudo. Isso incluía o telefone da locadora, que certamente estava grampeado. Agora seria uma simples questão de tempo para que a casa de Jéssica fosse invadida.

Temendo serem descobertos, os dois saíram da casa dela. Jessica alugou um quarto de hotel nas proximidades, de modo que com um bionóculo, eles pudessem ver o que se passava na casa dela.

Foi exatamente como eles pensaram que seria. Os homens invadiram a casa dela poucas horas depois, e reviraram tudo. Eles não estavam brincando. Do quarto no hotel, Daniel e Jéssica viram os homens descerem dos carros, entrarem no prédio e voltarem para os carros carregando diversas caixas e partiram. Daniel anotava todos os detalhes do que via no diário. Ele sabia que  naquela altura,  os homens já tinham obtido uma fotografia de Jéssica.

Os dois passaram a noite confabulando quem poderiam ser aqueles homens. E o que eles queriam com um simples taxista e atendente de locadora.

-O homem do taxi. O que morreu. Ele não te disse nada?- Questionou Jéssica.

-Que eu me lembre, não. – Respondeu Daniel.

-A única hipótese que eu vejo para eles te perseguirem é queima de arquivo. Eles acham que o passageiro falou alguma coisa pra você. – Ela disse.

-É… Faz sentido. Mas que merda! Ele não me disse nada. – Respondeu Daniel.

Nisso, bateram na porta.

Daniel arregalou os olhos assustado. Agora Jéssica estava com uma expressão de desespero. Ela sussurrou:

-São eles!

(continua)

 

 

 

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8 comentários em “O correspondente – parte 2”

  1. muito bom, um conto rapido e direto, como as batidas do coração ao se fugir do medo…

    interessante o uso de fotos novamente…

    serão os mibs ?

    vai aparecer um alien ae ?

    só saberemos disso no proximo episodio de…

    TOM e Jerr… digo… o correspondente

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