O caçador – parte 1

Metrô de São Paulo, 9:45 da noite. Um homem velho, aparentando mais do que realmente tem, maltrapilho e com a barba por fazer está segurando um saco plastico. Ele parece pobre, largado. Tem um olhar maníaco. E algumas tremedeiras. Está encostado na parede. Saca um antigo relógio de algibeira, todo enferrujado do bolso e olha. Em seguida, guarda o aparelho.
Está impaciente. Olha de um lado para o outro, de modo insistente.
Ao fundo, em meio a multidão que começa a se aglomerar para pegar o metrô ele vê as pernas bem torneadas de uma mulher. É uma louraça, super gostosa. Ela desce as escadas do metrô. O metrô finalmente chega. Centenas de pessoas descem, produzindo grande confusão de pessoas entrando e saindo do veículo.
O homem caminha pela multidão até ela.
A mulher olha para ele e num breve momento os olhares se fixam um ao outro. A mulher para no fim das escadas. Faz menção se se virar, voltar, mas é impelida pela multidão que desce as escadarias para pegar o metrô. O metrô solta um apito avisando que irá fechar as portas. A multidão segue empurrando, empurrando e a mulher se embrenha no meio do povo e entra no vagão lotado.
Ela não vê mais o homem.
Estação após estação, ela observa. Olhando por cima das cabeças. Parece preocupada.
Ao fundo, dois vagões atrás, está o homem. Ele olha o relógio antigo novamente.
-Pode informar as horas, tio? – Pergunta uma mocinha.
O homem lança um olhar misterioso para a moça. Não diz nada. Ela torna a repetir:
-Pode informar as horas, tio? -Dessa vez num tom mais alto, talvez pensando que o homem é surdo.
-São… dez. – Ele diz, guardando o aparelho.
-Obrigada.
-Nove e cinqüenta. – Sussurra uma velha ao lado da moça.
-É?
-É. O relógio dele tá parado. – Diz a velha, acenando discretamente com a sobrancelha.
-Maluco, né?
-Acho que é. -Diz a velha.
O metrô vai parando nas estações e as pessoas vão descendo. Há cada vez menos pessoas nas estações.
O homem ouve que o metrô vai parar numa estação. As portas se abrem e ele salta. Sai correndo. As pessoas do metrô ficam olhando a cena. O metrô fecha as portas e se vai.
O estranho homem com cara de doido corre pelas escadas do metrô acima. Se esgueira entre uma pilastra e um quiosque de sorvete.
Nas escadas, subindo, está a mulher.
Ela anda preocupada. Olha de um lado para o outro, agarrada a uma bolsa. Tem expressão de medo. A plataforma está vazia. Não há ninguém.
Ela vai caminhando e seus sapatos altos ecoam no longo corredor vazio.
Subitamente, o velho louco salta de trás do quiosque do sorvete. Ele tem os olhos arregalados e o sorriso de dentes amarelos.
-Arrááá!
-Não! Me deixa em paz, seu louco! – Grita a mulher, assustada.
-Filha da putaaaa! – Ele grita. Enfia a mão no saco plastico e retira um punhal pequeno de prata. Pouco mais de seis dedos de lâmina.
-Não. Não… – A mulher geme, caminhando para trás. Agarra-se a bolsa.
-Eu… Preciso. – Diz o velho.
-Ahhhh! – Grita a mulher, que sai em desabalada correria pelos corredores.
O velho dana a correr atrás.
A mulher corre e salta as roletas. O salto fino quebra-se sob o esforço. Ela tropeça e cai.
O velho vem correndo com a lâmina nas mãos.
-Volta aqui bruxa! – Ele grita.
A mulher levanta e sai correndo. Vem vindo dois rapazes de uns 18 anos. São “manos”. O boné para trás, a camisa de skatista, meio desbotada e uma mochila suspeita nas costas.
-Qualé? Alá! – Um fala para o outro.
A mulher vem correndo na direção dos manos.
-Que foi? – Um deles pergunta.
-Um maluco. Com uma… (ofegante) … Faca. Quer… Matar…
-Que?
-Há. Tá me tirando, tia?
-Ih, Marquim. Lá. Alá, porra!
O velho dobra o fim do corredor. Está com a faca na mão.
Os manos puxam a mulher para trás deles.
-Coé tio?
-Parô, parô. Segura tua onda aí, véi! – Grita um deles. Estendendo a mão aberta para ele parar.
O velho vem se aproximando.
-Sai, porra. Vaza, filho da puta. Meu problema é com ela. -O velho da faca diz.
-Coé, tio? Vai encarar? Vai encarar?
-Eu vou matar essa porra! -Diz o velho com os olhos injetados de ódio.
-Tá me tirando? – O mais fortinho se encrespa.
A mulher começa a recuar. Os dois jovens vem pra cima do velho.
-Se liga no berro, tio.- Diz o mais fortinho puxando uma coronha de pistola das costas.
O velho estanca tão logo bate os olhos na arma prateada.
-Perdeu, otário! – Ri o outro mano.
-Vaza, tio. Vaza ou o pipoco vai comer.
-Porra, já disse, meu. Meu problema é com ela. Fica frio. Fica frio, garoto. Essa porra é uma bruxa.
-Não fode, meu! Eu metia bala, Marquim. – Diz um dos rapazes.
-Porra Zé Colméia. É Crack, cara. Isso é crack. O cara tá na nóia, porra.
Lá no fundo, o som de um metrô chegando na estação.
-Vaza caralho! Tô mandando vazar, porra! -Grita Marquim, gesticulando com a arma.
-Queima ele, Marquim. Queima o puto! -Diz o outro mano, enquanto olha para os arredores em busca de se certificar que não há testemunhas.
O velho recua dois passos. A mulher chora, encostada na parede, atrás dos manos.
-Isso, vaza! Se eu te ver na minha frente o pipoco vai comer. Seu puto! Maloqueiro!
-Filhos da putaaaa! – Grita o velho.
O velho sai correndo. Some no fim do corredor.
A mulher ainda está encostada na parede. Está descabelada. Cansada. A maquiagem borrada de chorar.
Os manos se viram pra ela.
-Cabô moça. Fica fria. Ele fez o que?
-Ele queria… Acho que me matar.
-Porra, velho pirado, meu. – Diz o mano menor.
Marquinho guarda a arma.
Os três ficam se observando por um tempo.
-Obrrigada… – Diz a mulher. Os dois jovens estão quietos. Olhando um para o outro.
-Aí Zé Colméia… Diz o maior.
-Coé Marquim?
-Vê se tá limpa a barra.
-… – A moça arregala os olhos. – N…não… Por favor! -Ela sussurra em pânico.
-Coé, tia. Tu tá achando que o lance foi di grátis? Bora pagar nossa comissão, aí, meu.
-Marquim, aposto que ela tá sem calcinha. -Diz o menor.
-Vai, tia. Levanta aí a saia. Bora conferir o material, Zé.
-Não, por favor. Não faz isso não. Eu…
-Cala a bora, porra. Vai ser por bem ou por mal. Escolhe! – Diz Marquim pegando a arma novamente e apontando para a mulher.
A mulher apenas chora.
-Bora, Zé Colméia. Mostra aí os peitinhos da tia pra nóis!
O mano menor se aproxima da mulher. Ela se encosta na parede, com os olhos arregalados de pavor.
As mãos do rapaz, ávidas pelos seios da mulher chegam a tremer.
-Muito gostosa, Marquim! – Ele diz, desabotoando a blusa vermelha.
-Olha só esse peitinho… – Diz Zé Colméia.
A mulher está tremendo. Começa a suar. Os olhos dela se dilatam. Ela entra num tipo de convulsão.
-Ih, caralho! – Assusta-se Zé Colméia.
A mulher revira os olhos para trás. Dá um jogo de corpo e solta uma risada tenebrosa.
-Fudeu. – Diz Marquim.
-Atira, porra! É pomba gira! – Grita Zé Colméia.
O mano maior dispara três tiros no peito da mulher. Mas cada tiro não faz efeito algum. Ela avança na direção deles. A mulher está em transe. Ela fala alguma coisa incompreensível para os ouvidos humanos e os dois caem no chão num baque seco. Imediatamente os corpos pegam fogo e em poucos minutos, transformam-se em pó. A arma fica caída no chão, ao lado da borracha do tênis, que ainda queima.
A mulher, transfigurada, solta uma sonora gargalhada. Vira as costas e se vai.
O riso satânico ecoa pelos corredores do metrô.
FIM

Continua…

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56 comentários em “O caçador – parte 1”

  1. Sei não… mas achei meio sem lógica, se ela podia fazer o que fez com dois muleques com uam arma, pq ela correu de um velho com uma adaga? Sei lá… se não tem “uma mensagem subliminar” por traz achei meio… bem sei lah.

    flws

    :B

    • Exato. Por que ela fugiu do velho? Por que o velho usava um relógio antigo, que não marcava as horas? Por que ela temia a adaga? Será que o texto chama-se “O caçador” atôa?
      Sem duvida, há uma explicação para tudo isso, mas eu optei por não dar de mão beijada.
      Mas aqui vai uma dica: O relógio não era um relógio. Era um apontador mágico. Os apontadores mágicos são poucos, e restam apenas três. Este é um deles, montado numa carcaça de relógio de algibeira do século XIX. Este apontador mostra, como uma bússola, onde está a bruxa. É como se fosse uma bússola, mas ao invés de apontar o eixo magnético da terra ele opera no nível sutil, apontando para a carga energética da bruxa. Só os caçadores sabem como usar, e na pratica, só funciona com eles.

      • Ora, ninguem vai caçar uma diabrete de Satã sem alguma proteçao…

        entao claro que ela reconheceu que nao podia com ele, teve que correr.

        Mesmo as pessoas que tem superproteçao do Demo tem um ponto fraco.

        o besouro mangangá,visto que tinha corpo fechado, morreu furado de faca de tucum, que sabidamente penetra na malha etérica dos feitiços protetores.

        Hitler, sobreviveu a mais de 15 atentados. (só dos proprios alemaes contra ele) mas nao guentou perder a guerra e se matou.

        mesmo Sigfried, com a pele impérvia, foi morto com uma flecha no ponto exato onde se grudou uma folha quando ele se banhou no sangue do dragao.

        aguardo continuaçao Philipe.

        • Todo mundo tem pontos fracos, isso é fato! mas não é pq uma pessoa sabe o nosso ponto fraco q irá fazer com q saiamos correndo feito um dessesperado pelo metrô. Existem varios exemplos de pessoas (ou seres, memso q na ficção) que mostram q o verdadeiro poder não está na capacidade de avaporar pessoas, qualquer idiota pode fazer isso (Hitler fez, não fez? e era um completo idiota) e sim na coragem de enfrentar o próprio medo. Não se escrevem histórias das pessoas que fugiram, e sim daqueles q lutaram contra uma força maior, Não é assim com vários filmes como Operação Valkiria. Ora, Até onde vai o poder dela? Se a unica capacidade dela é evaporar pessoas e o velho de correr de dois vagabundos, então não vale a pena???

          Flws!

          :B

          Obs: Não Suporto Hittler se dependesse de mim ele nunca mais seria comentado em histórias, Acho q é isso q ele merece. comentei pq é um exemplo real e por causa do post de cima.

          • Citando confúcio: “Se queres prever o futuro, estuda o passado”. Conhecer a história desse vilão da maioria do mundo  nos ajuda a evitar que outros como ele tenham êxito em suas perversidades. 

  2. porra
    meu deus texto muito show
    q legal veio tu tem talento pa escritor
    podem ter dito q ta uma merda mas fico legal o enredo
    tipo so quem le magia entendeu a questao da adaga
    mas show
    abrass

  3. bicho achei do caralho.. quando eu leio coisas assim eu tenho vontade de trabalhar com filmes.. imagina ler um texto desse e criar todo os concepts por trás..? só de ler já me veio a imagem de todos os personagens, o jeito do ambiente.. até me deu uma animada pra desenhar!! se pá tento dar uma sketchada depois só pra brincar..

    valeu philipe, teu blog sem dúvida é uma inspiração do cacete!!

  4. PUTZZZ!!!!!!!!!!!!!! philip!!cada vez se superrando mais e mais hein!!! adoro seus contos é muito legal , (meu irmão tah falando que tu em dan brown brasileiro) meus irmãos tudo curte seu blog!!

    será que um dia tu num faz um conto steampunk????

  5. Galera, cada pessoa tem um gosto pra tudo, pra literatura, filme, culinária… etc… se vc não gostou, é porque não é seu estilo, intaum pra que dizer que a obra do Phil não presta, não é legal, ficou sem fim????

    REPENSEM SEUS CONCEITOS, ANTES DE DESMERESSER ALGUÉM!

  6. Bom, eu achei o conto beeeem fraquinho. Acho que uma história pra ser boa não deve ser cheia de referências que ninguém conhece, mas sim ser interessante (se esse conto estivesse em um blog de ocultismo, ou de fãs do Paulo Coelho, talvez a coisa fosse diferente). Independente do tema, que eu particularmente gosto, a história ficou fraca na minha opinião e o final ficou a desejar, a não ser que tenha continuação. Aí sim a coisa ficaria boa, pois tem muito pano pra manga! Mas se acabou aqui, realmente ficou fraco. Reforço que gosto muito de 90% das coisas que o Philipe escreve (os 10% são as poesias de bêbado de bar)! Mas não quero “desmeresser” ninguém, ok? (nem mesmo os que matam e estripam o português) kkk

    • Brother, eu só escrevi “desmeresser” para ver se alguém repararia, pois quem lê deve saber no mínimo Português, uma prova disso é que uso o Navegador do Google e com ele qualquer erro fica grifado. Mas Blz, vejo que você foi um dos poucos que deram uma real opinião ao Phil, sem desmerecer a obra dele, como muitos fizeram, dizendo besteiras.

      Bom trabalho Phil ( x_x enho preguiça de escrever o nome td… rs)

  7. Philipe, gostei da temática do conto em geral, mas acho que você novamente deu uma acelerada no final o que acabou por comprometer um pouco o texto.
    A idéia foi muito boa, mas a maneira como você desenvolveu o final deixou a gente com a esperança de que tivesse uma continuação, pois foi tudo muito rápido.

    Continue escrevendo, cara! Você é muito bom!

    Bjo!

  8. Philipe, aqui tá dando um erro estranho no site. Quando entro fica somente nesse conto do caçador, as suas novas atualizações não são vistas. Só quando eu comento que consigo ver algo. Enfim, GUMP. O_o

    • Cara tem uma explicação para isso, mas ela não é muito simples e eu não entendo o suficiente para detalhar, mas basicamente, no dia seguinte ao post do Caçador, o servidor Vilago, que hospedava o Mundo Gump, foi comprado pelo Hostgator e migrou toda a base de dados do vilago. Pessoas em redes que respondem diretamente não notaram diferença alguma, mas algumas pessoas estão em redes que usam algum tipo de cache ou proxy, e que por conta disso ainda não atualizaram. Ao que parece, isso se resolve sozinho. Vamos dar um tempo pra ver se “desagarra”. O foda é que enquanto isso ta rolando post direto.
      Para ter certeza se é isso mesmo, entre em http://www.vtunnel.com e coloque o endereço do blog no campo URL. O site deverá carregar via proxy externo, normalmente.

  9. é.. aqui tá na mesma, até os comentários tão travados no 17..

    achei estranho nem aparecer comentário novo, pq depois de 3 dias sem postar, já estaria cheio de babaca reclamando que vc abandonou o blog.. haha

    mas tá bugado sim, dá uma olhada aí philipe.. abraço

  10. po leio mundo gump a um tempo, ja li contos melhores aqui. ;x

    mas ta maneirinho até (y)

    po suas historia tbm de muleque me mijava rindo no meio da aula aqui na facul xD

  11. O_o Maaaaaano!!! Apavorou demais. Que bem traçada essa história do caçador de bruxas. Imagino que aquele relógio seja um detector de bruxas e afins ou algo do gênero. Entendi que só uma adaga de prata pra dar cabo da desgraçada, hehehe… Enfim, muito bem estruturada. Esse velho também deve ter A história traumática de vida pra contar, afinal, vive em função da caçada, pelo que percebi. Show de bola. Parabéns.

  12. ehhh… Netuno levou o Philipe de vez ou o meu pc é um desses daí q não aparecem as atualizações????? preguiça de fazer esses trecos que o Philipe sugeriu.
    Qto ao conto, ele é massa! Gosto demais da forma como vc escreve! Em especial suas histórias de guri… sou fã incondicional da sua mãe! hahahahaha (ps:observação de uma mãe que tem um “bacuri” de 06 anos!)
    Abraços

  13. Philipe, você falou que seu livro que está em fases finais… (revisão), e como nós meros mortais e fieis seguidores da Doutrina Gump, nós que dia após dia ficamos na espera de um new.post (Queremos.parte.3 e logo rs “zuera”)… (caraca to falando como se fosse viciado kekeke)… mas bem, você poderia revelar a Arte.Gráfica do livro né… foi tu que bolou??? Como é??? Só é escrita??? O livro será de contos??? Histórias reais??? Cara vc deve divulgar mais né… tipo, já tem anos que acompanho o M.G. Tempos atrás vc falou do livro mas, não tem uma data pré-definada do lançamento…??? Pô cara, tú não fala do book e eu maior “larica” de lê-lo…
    Falando sério Philipe, cadê o post sobre o livro ta faltando né…???

    =D =D =D

    Abraços e para 1ª Dama também…

  14. cara..
    aki em casa ainda naum ta atualizando a página inicial naum..

    to entrando nos arquivos sempre pra ver
    as coisas novas..

    sei lá.. ta meio fodahh.. lol..
    curto demais o blog.. flwwww

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