“Nada é real, garoto”: Meu sonho com os mortos

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De vez em quando eu tenho uns sonhos muito loucos. Alguns, que eu considero melhorezinhos, eu conto no facebook, ou escrevo aqui. Minha rotina é quase sempre de contar pra Nivea as coisas malucas que eu sonho e ela sempre escuta com certa perplexidade, porque – não sei como – eles sempre são muito bem definidos e claros, com detalhes, muitos detalhes, e eu lembro de muita coisa. O engraçado é que esses sonhos não acontecem sempre. Só de vez em quando. Eu os batizei de sonhos detalhados, porque ao contrario dos sonhos “normais”, eles sempre fazem sentido, tem uma logica, começo, meio e fim, e não raro, pontos de virada, como roteiros. E eles são coloridos. Eventualmente trazem consigo imagens ruins, perturbadoras ou assustadoras. Situações enervantes, coisas que parecem, ter saído de series de tv. Eu tenho o sonho padrão também, conjuntos de imagens, situações do dia-a-dia, palavras, sons, e uma mistureba ininteligível de eventos, que logo serão esquecidos após o despertar. Mas meus sonhos detalhados eu lembro muito, e ao contrario do que ocorre com o sonho normal, eu vou lembrando mais e mais conforme fico repassando o que eu sonhei na cabeça. Dito isso, vamos ao sonho que sem dúvida, foi o melhor do ano até agora:

“NADA É REAL, GAROTO”

Lá estava eu num curso de alguma coisa absolutamente chata e irrelevante. Eu tinha já uma certa saudade daquela sensação de perda de tempo que vivenciei em boa parte dos meus anos de escola. O professor la na frente falava coisas que eu não tinha o menor interesse de saber. A sala estava lotada, todo mundo era adulto. Eu acho que era alguma coisa de economia em um curso de administração, ou algo assim. Então acabou a aula e eu fui para o hotel. Eu estava no Rio, e isso é estranho, na medida em que eu estava hospedado num hotel chique no Rio, apesar de morar em Niterói, que é quase um bairro da cidade do Rio de tão perto.
Então eu fui la para o hotel que era muito chique e clássico. Não lembro da fachada do hotel. Acho que o curso estava sendo dado lá mesmo, num prédio de escritórios anexo ao complexo de hotelaria.

O fato é que eu peguei o elevador sozinho no saguão, e estava subindo para o meu quarto quando deu um blecaute. O elevador fez Zuuuuuuuun e parou. Em absoluta escuridão, pensei: “Porra, fodeu. Acabou a luz. Será que vai demorar pra voltar? Estou morrendo de fome.”
Peguei o interfone, mas estava mudo.
-Bosta.

Mas aí a luz voltou. E eu ouvi o elevador zuuuuuuuuuuin e começou a subir, mas logo parou. A porta se abriu e para meu espanto, da escuridão abissal de um corredor eu vi entrar um homem de cavanhaque e uma mulher. Bati o olho e reconheci na hora. O nariz pontudo, olhos verdes fundos, e o indefectível bigode triangular, como um frontão do cavanhaque fininho. Eles entraram conversando baixo, ele com a voz grave, e ela sorrindo discretamente.
-Miele? – Perguntei sem conseguir acreditar.

Ele apenas sorriu e mandou um:
-E aí, chefia?

A mulher estava logo ao lado dele. Era ela mesmo.
-Elis? É você mesma?

-Boa noite. -Ela respondeu, movendo a cabeça em sinal positivo.

Então eu estava no elevador com dois fantasmas. O elevador subia absurdamente devagar, e eu me lembro de pensar. Caralho, o que esses dois estão fazendo aqui?
Elis estava metida num vestido muito chique, um pouco over, todo cinza metalizado, parecendo seda. O Miele estava de smoking.

-Vo-Vocês estão hospedados aqui? – Eu não consegua falar sem gaguejar. Por uma fração de segundo me ocorreu que talvez eu estivesse morto. E se quando faltou luz o zuuum que eu ouvi era o elevador caindo no poço? Eu estava morto? Será?

-Pode se dizer que sim, né? – Disse o Miele, com sua voz grossa.

-Estamos indo pro restaurante. Quer vir com a gente? Sabe contar piada? – Ela perguntou sorrindo.

Caramba, era ela mesma. A Elis Regina, e eu nunca tinha visto a Elis ao vivo. Era baixinha. Mais baixa do que eu imaginava. Eu disse que sabia, mas que não contava melhor que o Miele. Puxei o saco deslavadamente. Aí ele riu e disse, “Então você é um desastre, garoto!”.

O elevador que estava subindo, agora abriu a porta no restaurante. Achei estranho, mas saímos. Era um restaurante chique, com vista para o mar. Estava cheio. Imediatamente ao sair do elevador passamos por algumas pessoas em fila na entrada, e claramente notei que não, eu não tinha morrido. Todo mundo estava com os olhos arregalados vendo sair do elevador a Elis Regina e o Miéle comigo.
Chegamos até o Maitre e o Miele apenas acenou pra ele.

-Joaquim.

-O Maitre parecia estar vendo um fantasma. E talvez estivesse mesmo. Achei que o cara ia desmaiar. Empalideceu na hora e nem conseguiu responder nada.
Miele foi entrando no salão, e se dirigiu para uma mesa de canto, perto da janela.

Sentei com eles.
-Garçom, traz um uisquinho aí pra mim? – Disse o Miele, estalando os dedos, menos de um segundo após se sentar.
Eu nem vi o garçom. O restaurante estava cheio, e havia um burburinho, o som de pratos, ambiência de restaurante. Talheres se batendo, e no fundo alguém estava tocando um piano de cauda perto dum palquinho diminuto. Elis sacou não sei de onde um puta dum cigarrão e acendeu no restaurante.
O Miele pediu pra ela apagar. “Não fica bem”.
-Agora não pode?
Eu bebi cerveja com a Elis. Estranhamente nem pedimos, o garçom trouxe por conta dele. Chegou trêmulo, quase nem consegue servir ao Miele o uísque.
-Calma, rapaz. Eu não mordo não. Quem morde é ela ali. – Disse, apontando pra Elis.

Já devidamente servidos, pedi uma coisa qualquer de comer, um petisco aleatório. Elis notou que as pessoas estavam apontando celulares para nossa mesa.

-O que é aquilo? Parecem estojos de cigarro. – Ela perguntou tentando ser discreta.

Notei que Elis Regina não tinha visto ainda um celular.
-São telefones. Agora eles são assim. O mal do século. – Disse o Miele.
-Aquilo ali é telefone?
-Estão tirando fotos da gente. Eu disse.
-Mas por que? – Ela questionou, intrigada. E emendou: -Ué. Foto com… telefone? Que merda é essa?
Eu tirei meu celular e estendi pra Elis. Ela ficou maravilhada com aquilo na mão. Só naquele momento, quando entreguei, tive a certeza que ela era de carne e osso.

-Puta merda, mas isso é genial! – Ela exclamou quando eu mostrei o aparelho controlado pelos toque dos meus dedos.

-É, mas as pessoas estão escravas disso agora. Olha aí. Quase ninguém conversa mais. – Disse o Miele, meio avesso às tecnologias do futuro.

-Negócio chato pra burro. – Elis começou a acenar para as pessoas que tentavam filmar nossa mesa.- Saravá! Saravá!

Assim, constrangidas, elas baixavam os aparelhos.
O petisco chegou. Eu estava com muita fome. Pedi mais uma cerveja.
-Estão filmando vocês. Vão botar a gente na internet.

-Internet?

Me dei conta que a Elis não sabia o que era a Internet. Ficamos tentando explicar pra ela. Chegou o segundo uísque do Miele e a cerveja numero dois.

Miele se divertia com a expressão de espanto da Elis. Ela se recusava a acreditar na internet. – Vocês estão me gozando.

Eu tentei mudar de assunto. – Eles estão tirando foto nossa porque bem… Vocês já… Como vou dizer… Tipo, vocês estão ligados, né? …Vocês já-já-morreram.

-Isso é só um detalhe, mon amour. -Disse Elis com uma voz engraçada.

-Acontece nas melhores famílias. – Brincou o Miele.

-Mas então, Miele, como é o lado de lá? – Perguntei intrigado.

Os dois se entreolharam sorrindo, como que se tivessem um segredo e estavam avaliando se me contariam ou não. Miele disse:

– Não vamos estragar a surpresa. Mas o ruim de lá é que os bifes nunca tem nervo.

Eu achei que era mais uma piada, mas era sério.

-Mas como que é a morte?- Insisti.

Elis pegou na minha mão. – Nada existe. Nada é real, garoto. Nem lá, nem cá.  (depois pensando sobre o sonho, pensei que talvez ela estivesse tentando dizer que era um sonho, e não que o “cá” fosse a realidade, ou dando uma filosofada da Matrix.)

As cervejas já cobravam seu preço. Eu pedi licença para ir ao banheiro. Deixei Miele e Elis conversando animadamente. No caminho, olhei pela janela do hotel. Em baixo centenas de carros e uma pequena multidão. Enquanto esvaziava minha bexiga no diminuto banheiro do restaurante, me peguei pensando que os videos a essa altura já eram virais, devia ter um monte de jornalista la em baixo querendo subir para cobrir o estranho milagre de Miele e Elis Regina jantando na Av. Atlântica depois de já terem morrido.

Voltei para a mesa e Miele estava contando uma piada pra Elis Regina.

Assim que retomei meu lugar ela disse, animada.

-Ultimas novidades: Vamos cantar.

-Vamos, não. Ela vai. – Disse o Miele entre goles do uísque escocês.

-Você vai, vai, vai… Cantar? – Estava ficando melhor que a encomenda aquela noite.

Elis se levantou e todo mundo começou a aplaudir. Ela foi até o piano. O velho pianista puxou as primeiras notas. Não entendi o que era.
Um cara começou a batucar no prato com uma faca. E então reconheci. Era “O Bêbado e a equilibrista”.

-Ela canta divinamente, meu.

-Começou do alto… – Disse o Miele, sorrindo. – Ela não faz nada do que combina comigo. Nunca fez. Mas ela tava louca pra cantar essa de novo, garoto.

E assim, as musicas foram se sucedendo e Elis Regina cantando com uma voz absolutamente cristalina.
-Bom, agora chegou minha vez.  – Disse o Miele. Ele foi ao palco, também muito ovacionado pelas pessoas, quase em transe. Ninguém estava acreditando. Todos os celulares apontados para eles.

Elis e Miele cantaram juntos “Romaria”, do Renato Teixeira. Em seguida cantaram “Águas de Março”. O show acabou com Elis cantando “Como nossos pais”, e vi varias pessoas chorando nas mesas.
Miele fez um sinal discreto pra mim. Entendi. Paguei a conta, altíssima. Cada uísque tinha sido uma nota preta. Levantei e saí enquanto o Miele e Elis se despediam do público.
Fui para o corredor dos elevadores.
Minutos depois Elis e Miele saíram do restaurante e correram para o elevador.

-E aí? Gostou? – Perguntou a Elis, pulando na caixa de aço. Ela já sabia a resposta, mas gostava de confete.
-Maravilhoso.

-Maravilhosa, Garoto. Ela é menina. – Disse o Miele. Concordei, sem graça.
Miele meteu o dedo no botão de emergência e travou o elevador.
A porta se abriu para a escuridão abissal.
-Bom, garoto. É isso. Foi um prazer. – Elis me deu um beijo no rosto e Miele apertou minha mão com uma força que a esmagou.
Eles saíram para a escuridão e a porta se fechou.
-Até qualquer hora. – Disse Miele do escuro.

O  elevador retomou sua viagem, “zuuuuuuuun”…

Acordei.

 

8 comentários em ““Nada é real, garoto”: Meu sonho com os mortos”

  1. Vc sabe ué teve uma viagem astral né Philipão!!?!
    Não tem nada de místico, é biológico mesmo!!

    Adorei o relato, por favor não deixe de postar!!

    Abraço

  2. Faz um tempo que eu queria te mandar um relato de um sonho…o mais Gump que lembro de ter tido….
    Então vou aproveitar o gancho.
    Eu sempre tenho uns sonhos assim beem épicos com roteiro e cheio de detalhes mas este, de longe foi o mais estranho:

    Estava eu, andando com a minha mãe, por alguma cidade turística medieval (dessas vilas muradas que ficam no sopé de algum castelo.) Fomos caminha num bosque próximo dali e minha mãe, achou jogada no mato, uma caixa de sapato toda florida e cheia de fitinhas (algo que, certamente minha mãe faria na vida real é falar “olha que bonitinha” e pegar pra ver). Dentro tinha uns desenhos estranhos, tipo plantas e esquemas arquitetônicos e uma coisa que se chamava “arquitetura do desespero”. Achei bem intrigante e quis saber mais sobre o assunto.

    Pesquisei na internet e nada….

    Voltando pro vilarejo, estávamos tomando um café numa padaria local e perguntamos pra um grupo de moradores se já tinha ouvido falar nesse treco….ninguém. Aí o dono do local falou pra mim: conversa com a Fulana (não lembro o nome). Ela é curadora do Castelo, Historiadora e tal e e se alguém sabe algo sobre isso é ela. Fomos pro Castelo e perguntamos pra tal moça sobre o que se tratava. Ela pediu sigilo e mandou que viesse com ela.

    – Vou te mostrar, mas por favor, não comentem isso com ninguém. Poucas pessoas sabem e não queremos que isso se espalhe. Você vai entender porquê.

    Chegamos no que parecia ser uma capela com uma torre bem alta em forma de ogiva…
    A tal torre era feita de pedras por fora e no topo tinha uma única abertura por onde a luz entrava.

    Uma enorme porta de madeira, muito pesada selava a entrada.

    A moça chamou outros dois cara pra nos acompanhar.
    Ela explicou que a maioria das pessoas achavam que aquilo era uma capela fechada à visitação por problemas estruturais, o que estava longe de ser a verdade.

    Ela abriu a porta e disse: pode entrar. Em 15 segundos eu vou abrir a porta novamente. Ninguém pode ficar mais do que 1 minuto com a porta fechada…

    Não entendi nada… ela abriu e para a minha surpresa, era um salão vazio e enorme…não tinha nada de mais, aparentemente…

    o teto, as parede e o chão eram brancos caiados e era difícil ver onde um começava e o outro terminava.
    mas até aí tudo certo.

    Ela me pediu para ir até o centro do salão e então fechou a porta.
    E o que se seguiu foram os piores 15 segundos que já vivi (dormindo ou acordada)

    Não consigo explicar, mas algo naquela sala quando fechada, produzia um tipo de vibração ou atmosfera que me fez sentir a pior sensação que já tive: o meu corpo inteiro doía, como se estivesse sendo esmagado por uma força brutal….a única entrada de ar e luz contribuía para a sensação de loucura e a única coisa que eu conseguia pensar era em como escalar as paredes lisas e altíssimas pra alcanças aquele buraco. Não existia a menor possibilidade de pensamento racional (eu já nem me lembrava mais por onde tinha entrado).
    e os 15 segundos pareceram 15 dias na minha cabeça.

    A porta se abriu e eu acordei…com uma sensação de leveza e alívio tão grande, como se eu tivesse acabado de ressuscitar de uma morte horrível.

    Cada vez que me lembro da sensação provocada por esse sonho, tenho calafrios, mas me pergunto:
    Será que existe a “arquitetura do desespero”? Seria uma câmara de tortura?

    Será que existe algo desse tipo, já criado? Pesquisei na internet e adivinhem? Nada…

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