Monga

Eu não queria ir, mas meu primo insistiu.

O inferno está repleto de arrependidos e não nego, se chegar minha vez, quando chegar aliás, lá estarei, aumentando o numerário.
Estávamos de férias em Cabo Frio. Tudo que nós queríamos era ter idade suficiente para ir pra a boate Maison ou na Shock, onde as mulheres mais bonitas da praia iam procurar paquera com os surfistas, mas a verdade dos fatos é que eramos um bando de “Josés Ruelas”, cujo destino era inevitavelmente vagar de um fliperama para o outro em busca de alguma máquina que ainda tivesse credito (ou funcionasse com porradas) e dali migrar, como lêmingues para o Canal, onde no final da feira Hippie tinha um cara que vendia um cachorro quente “com tudo que tem direito” a um preço acessível. Entenda o cachorro quente como uma linguiça de procedência duvidosa que dia sim dia não, causava diarreia. Era previsível imaginar o trágico destino de uma noite de rei bastando apenas uma olhada no estado de assepsia precário da carrocinha, decorada com uma figura do Mickey Mouse que parecia ter sido desenhada pelo próprio capeta, a título de autorretrato.

Mas então eu estava comendo um frango no apartamento emprestado por um amigo do meu pai, onde passávamos as férias. A cozinha era quente e apertada, mas o que realmente interessa aqui é que o frango, feito pela minha vó estava bom pra cacete. Enquanto eu comia,  escutava a encheção do saco de que eu devia parar de ser um “cagão” e aceitar ir com eles na Monga. Há muitas coisas que um marmanjo de doze anos não suporta. A primeira delas com certeza é ser chamado de cagão pelo primo e pelo amigo do primo. Obviamente eu não era um cagão. Eu apenas não via sentido em gastar meu -sempre pouco – dinheiro numa atração do famigerado Parque Filadélfia. Mas não adiantava explicar, qualquer coisa que eu alegasse seria distorcido de tal forma que ficasse palpável minha covardia. Assim, refleti por breves minutos enquanto mordiscava os últimos fiapos ainda grudados no osso do meu frango, que talvez fosse necessário pagar de burro para escapar do cruel destino de ser o cagão das férias.
Aceitei. Foi um frenesi. Todos gritando. A animação tomou conta da galera. Iriamos pela primeira vez na Monga!

Naquela noite meti minha camisa espetacular de histórias em quadrinhos do Tarzã. Eu parecia uma revistinha ambulante, mas naquele tempo, isso era ser cool, brother! E outra, eu tinha na cintura, nada menos que um Walkman da Sony! Com fones de arco no pescoço! Dificilmente você não abalaria as estruturas com tal indumentária de garbo e elegância. Mas ainda por cima, eu tinha um trunfo: Uma calça bag de cor azul escuro, que era arrematado em dois all star azuis de cano alto.  Saímos os três para a rua. Eu levava meu dinheiro contado na carteira emborrachada da OP, que havia ganhado no natal. Meu primo ostentava em sua cintura uma bela pochete de couro preta, além de uma camisa florida tipo havaiana, que graças a isso, deram a ele o apelido de “Magnum”. Claro que o bigodinho tosco que ele ostentava também contribuía para o apelido.
O amigo do meu primo, Clebinho, era o mais sexy do grupo, vestindo uma japona de nylon vermelha inspirada na do Thriller. Funcionava bem para chamar a atenção, mas ele suava como um filho da puta ali dentro. Em pleno verão, ele chegava a dar nervoso, parecia que o cara estava derretendo.

Era de noite, e já havíamos jantado. Logo, como tradicionalmente fazíamos, saímos para dar uma flanada sem horas pra voltar, uma das poucas vantagens de estar de Ferias em Cabo Frio. Metade da noite seria, claro desperdiçada tentando jogar de graça nos fliperamas, mas havia também um tempo legal gasto vendo o Russo fazer tatuagem. Pegávamos os álbuns de tatuagem e folheávamos com a expressão de que iríamos tatuar alguma coisa. Era um misto de afirmação de ter idade para tal com a de ter dinheiro pra bancar, ambas, obviamente falsas e ridículas.

Quando era chegada a hora, o Clebinho avisou com uma pergunta:  – Vamos pro parque?

Rumamos para o parque, que ficava num terreno enorme, lá pros lados da duna. Ao longe a se ouvia a cantoria de um brinquedo novo, talvez estreado naquele verão: Chamava-se “Samba”. O nome advinha da fora de pandeiro gigante rotativo onde pessoas se agarravam como podiam para não sair voando com a força centrífuga. Esse brinquedo tinha um poderoso sistema de som, que tocava a Daniella Mercury sem parar.
Eu ficava ali, zanzando pelo parque e vendo famílias descendo no tobogã, criancinhas rodando no carrossel, carrinhos de batida colidindo. O barulho era ensurdecedor de brinquedos, apitos, gente falando, musica Axé tocando e luzes de todas as cores, que piscavam loucamente entre neons e fluorescentes coloridas.

Mas era nos fundos do parque, na fronteira do desconhecido, lá perto do lugar onde ficavam os trailers da galera que trabalhava no Filadélfia, que ficavam alguns brinquedos mais macabros.

Ali estava, por exemplo, o trem fantasma. A porra do trem fantasma era um brinquedo bem idiota, mas eu viajava mesmo era nas pinturas feitas com aerógrafo por todo o parque. Eu curtia porque gostava de desenhar e meu sonho dourado até ali era um dia ter um aerógrafo.  Eu viajava naquelas ilustrações macabras, repletas de lâmpadas pisca-pisca coloridas. Mas havia um brinquedo que quase não tinha nenhum desenho. Era um brinquedo montado num ônibus velho, que ficava num cantão mal iluminado do parque. Esse ônibus tinha uma frente metálica onde podia-se ler “Castelo da Monga”. Ao fundo, uma gravação de um locutor com voz fúnebre conclamava as pessoas mais corajosas para contemplar o mistério da mulher macaca. Eu via as pessoas entrando. Em sua maioria, uma meia duzia de rapazes, fazendo uma algazarra enorme. Eles entravam, e logo uma pesada cortina de veludo preto se fechava. Lá dentro, vozes abafadas logo se tornariam uma gritaria insana, que culminaria com uma porrada de maluco pulando pra fora e correndo aos gritos. Eventualmente alguém caía, para absoluto prazer da plateia que ia se formando lá para ver os medrosos.
Confesso que vendo tudo aquilo, dava um certo cagaço, e um misto de curiosidade: O que faz esses caras saírem esbaforidos la de dentro? O que pode ser tão aterrorizante? – Eu me perguntava.

Mas então, havia chegado o dia em que finalmente eu não teria mais desculpas e teria que enfrentar a verdade sobre a Monga. Nos alto falantes a gravação de tom cavo e gutural: – “Monga, calma Monga! Monga, volte para sua… Sepultura!”

Meu primo pegou nossa grana e comprou os ingressos. Entramos na fila. Ele tomava uma latinha de fanta uva. Pensei: “Esse puto vai acabar vomitando essa merda roxa em mim”.
Entrei cabisbaixo. Não queria que marcassem meu rosto. A pequena multidão já se aglomerava diante do trailer, na esperança de nos ver fazendo uma vergonha. Com sorte alguém faria xixi na calça naquela noite. Por um desses caprichos do destino, fui um dos últimos a entrar e eu sabia o que aquilo significaria: Eu seria o primeiro a me ejetar correndo feito uma gazela silvestre.

O lugar era apertadinho ali dentro. Quase um espaço de elevador diante da escuridão. Bem à nossa frente, pesadas cortinas de um veludo vermelho. O locutor lá dentro, começava avisando que pessoas cardíacas e grávidas não deveriam contemplar a metamorfose. O show também não deveria ser visto por pessoas impressionáveis.
Dito os avisos iniciais, ele mandava abrir as cortinas. Em nossa frente, aos fundos do palco, estava uma grande jaula. Dentro dela, com uma poderosa luz em cima, quase teatral, estava uma mulher linda, vestida num manto rosa de cetim coberto de pequenos detalhes em renda, brilhos, paetês e canutilhos.

O show começava a ficar interessante e nessa parte eu juro que pensei que talvez eu devesse ter ido na Monga todo dia das férias. Tive essa certeza quando ela sensualmente desamarrou seu manto cor de rosa e o deixou cair displicentemente ao seus pés.
Praticamente nua! Os meus amigos estavam animados, um agarrando o outro. Quase não me deixavam ver. A tal Monga era uma gostosa digna de capa de revista. Um corpão escultural, enfiado num biquíni igualmente bem trabalhado. Com minha idade, era com certeza absoluta o mais operto que eu já havia chegado de ver um striptease real sem ser no programa do Miele, na conhecida “madrugada de onã”.

De fato, a tal Monga era linda e lembrava a Sylvia Kristel, a eterna Emanuelle.
O locutor continuava sua história. Monga era uma mulher muito bonita que numa viagem com seu marido, foi amaldiçoada pela magia africana. Desde então, ela passou a poder se transmutar, modificar seu corpo…  Ela iria demonstrar seu estranho e macabro poder.

E assim deu-se início a transmutação.  Diante dos meus olhos, vi a mulher lentamente se agarrando nas grades da jaula. Gradualmente, pequenos pelinhos começaram a surgir em seus braços. Lentamente, o biquini foi sendo engolfado por uma densa pelagem escura, e diante dos meus olhos, juro por tudo que é mais sagrado, ali estava uma porra dum macaco enorme, parado. Os olhos, como duas enormes bolotas pretas apontados para nós.
O locutor dizia que não deveríamos fazer barulho para não perturbar a Monga, mas então, antes que pudéssemos nos dar conta, algo saiu errado. A Monga estava agarrada na grade, forçando a mesma.

Foi quando o meu primo maluco pegou a lata de Fanta Uva e tacou na porrada Monga.  A grade começou a estalar. No sistema de som o locutor, agora visivelmente nervoso, começava a berrar: Calma Monga! Calma Monga! Mongaaa! Calma! Calma!!!
As pessoas ali no cubículo começaram a ficar nervosas. Fudeu! Fudeu! Eu gritava. Meu primo fez menção de sair me empurrando, mas então, o pior aconteceu. As grades abriram e a Monga pulou!

Puta que pariu, fui empurrado para fora e quase capotei no chão diante das pessoas na beira da grade da atração. Atrás de mim vieram cerca de oito marmanjos se cagando de medo.  Meu primo e o Clebinho evaporaram. Nem vi por onde eles passaram. Eu me levantava do chão, e todos riam, mas a coisa ficou realmente estranha foi quando o bicho peludo pulou para fora da atração. Foi uma correria.

A Monga saiu correndo, passou por cima de mim e saltou a grade.
Me horrorizei com o tamanho do bicho. Devia ter quase dois metros.
Ela pulou pra dentro do carrinho de batida, e imediatamente todo mundo começou a sair dos carrinhos e tentar pular a grade. O pânico era generalizado. Mas como o som do Samba era muito alto tocando Axé, ninguém se dava conta realmente do estardalhaço, ate que o macaco preto colossal saltasse na sua frente. Um homem que certamente era membro do staff do parque tentou contê-la, ameaçando bater nela com uma vara. Mas Monga agarrou a vara e o puxou. O homem voou no ar na direção da criatura. A Monga agarrou ele pelo pescoço e cravou aqueles dois dentões caninos gigantes na garganta do pobre infeliz. O sangue voou no teto do bate-bate, provocando faíscas na tela eletrificada.

Ali eu percebi que realmente tinha dado alguma coisa errada no show. A monstra só largou o corpo sem vida do funcionário no chão do bate-bate quando algo atraiu sua atenção.
Um sujeito saído não sei de onde, gritou qualquer coisa incompreensível e puxou um revólver. Era um “trêzoitão” cromado.

Deu um tiro.  Errou o primeiro. Mas atraiu a Monga. Ela veio pra cima dele. Deu o segundo. Errou também. Talvez de nervoso, sei lá. Quando viu que não ia dar pro terceiro, correu. O cara era um careca de bigode farto. Certamente algum policial, mas devia ser atleta, porque porra,  nunca vi uma pessoa correr tão rápido na minha vida. Mas a Monga era mais rápida, porque ela corria dando uns pulos. A monstra pulou nas costas do cara. Os dois caíram no chão. O cara, eu acho, já caiu morto só com a porrada que ela deu.
Agora as pessoas corriam de um lado para o outro, tentando fugir. Estranhamente, algumas pessoas corriam na direção da bagunça para ver o “bicho pegando”.
Minha mãe sempre diz que “Na hora que dá a merda, eu me viro”.

Fazendo justiça à minha fama, fui sagaz. Assim, me escondi por dentro do painel do Enterprise. Dali, eu tive visão privilegiada dos acontecimentos.

Eu vi o gordinho da roda gigante ligando a mesma e entrando num carrinho para ir lá pra cima. Covarde duma figa!
O monstro estava em completo frenesi, correndo solto pelo parque.

Surgiam mais e mais pessoas da gerência do parque tentando conter o monstro. Pela calma deles, senti que não era a primeira vez que a Monga dava alteração. Começaram a cercar a Monga, que urrava em completo ódio sobre o corpo do bigodudo, certamente já de pescoço quebrado.
Surgiu então um homem segurando uma espingarda. Era uma espingarda enorme e como estava longe, não identifiquei que arma era aquela, mas suspeito que era aquelas do tipo de matar rinocerontes.
Tão logo o macacão viu a arma, já começou a recuar.
Então, antes que qualquer um pudesse reagir, a Monga se virou num salto e saiu correndo, atingiu um carrinho de doces que virou. Ela saltou a parede do Samba e entrou na atração que já girava tresloucadamente. As pessoas, antes gritando com medo de saírem voando, agora estavam em completo desespero. Tocava “Monumento vivo”. O bicho tinha uma habilidade fenomenal. O pandeiro gigante rodava e balançava em pancadas sucessivas. Monga girava junto e saltava tentando se manter no centro.
Do meu esconderijo atras do Enterprise, vi o homem preparar a mira. Ele acoplou a peça na arma e se posicionou com um joelho ao chão. Os funcionários do parque correram de um lado a outro, espantando as pessoas para não entrarem na frente.

Foi um tiro só.

O monstro tombou para trás, e capotou no giro do pandeiro gigante. Caiu com seu corpanzil monstruoso no canto da atração e ficou rodando cada vez mais lentamente, até que o som fosse desligado. Quando Daniela Mercury deixou a gente ouvir alguma coisa, só se ouvia choro e gritos. Sons de sirenes dos bombeiros ecoavam ao fundo. A essa altura, o parque já não tinha quase ninguém. Quem conseguiu, correu na direção da praia.

Eu estava bem escondido e ali fiquei. Foi da minha visão privilegiada dentro do Enterprise que vi que gradualmente o enorme corpo preto repleto de pelagem densa foi se desfazendo, e gradualmente, só restava uma mulher baleada no centro do Samba. Os funcionários agora corriam de um lado para outro mandando embora as últimas pessoas corajosas que ainda teimavam em ficar na área do parque.

– Fechou! Fechou! – Eles gritavam, nervosos, expulsando os curiosos.

Em seguida, os caras do parque subiram no brinquedo e pegaram a mulher. Ela estava pelada, e sangrava muito. Eles usaram uma espécie de padiola, tipo aquelas de jogo de futebol, e levaram o corpo dela às pressas para dentro do ônibus.
Foi a última coisa que eu vi. Uma poderosa mão me agarrou no ombro e me mandou sair. Era um funcionário que havia me descoberto. Obedeci prontamente.
Fui pra casa e quase não dormi naquela noite, lembrando da monstruosidade, e como aquela coisa horrenda havia passado perto de mim. Só peguei realmente no sono ao lembrar das partes picantes que antecederam a metamorfose.

No dia seguinte, ao voltar da praia,  o parque já havia ido embora. Foram ferias inesquecíveis.

 

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7 comentários em “Monga”

  1. Sempre quis ir ver a Monga, mas ela nunca veio em minha cidade. A mais próxima ficava em aparecida e são uns 100km daqui.
    Até a Monga matar o cara no bate-bate eu achei que era algo real… alias, tenho certeza que até você cair pra fora do lugar foi tudo real!

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