Jurado de morte – parte 7

Zé Walter comprou imediatamente aquele jornal. Sentou-se no meio fio do posto, perto do jardim, e começou a ler.

11 FOGEM DE PRESÍDIO – LION E ELIAS BAGACEIRO NA RUA DE NOVO

Onze presos conseguiram fugir na noite de ontem da P 2 de Presidente Wilson, presídio de segurança máxima na região metropolitana da cidade. Os fugitivos escaparam usando uma corda conhecida como Teresa, feita com lençóis.

A Polícia Militar procura os onze fugitivos e fez a recontagem dos detentos no fim da tarde. A penitenciária abriga presos de alta periculosidade, entre eles alguns líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC), Terceiro Comando, Amigos dos amigos (ADA) e de facções diversas, como a milícia Thundercats. Os principais fugitivos, conhecidos como “estrelas” seriam Elias Soares de Pimentel Braga, o “Elias Bagaceiro” e Janilson Cunha de Bastos Coelho, o “Lion”, famoso por decepar a cabeça de seus desafetos a golpes de espadadas.

Há dificuldades para se obter informações sobre a fuga. “Não temos autorização neste momento para dar informação a respeito da fuga”, resumiu, irritado, o agente penitenciário Antônio Silva. Segundo ele, a direção do presídio estava reunida para analisar a situação. Por meio da Assessoria de Imprensa, a Secretaria da Administração Penitenciária  limitou-se a informar que vai apurar em que circunstâncias ocorreu a fuga. A SAP não divulgou a lista completa dos  nomes dos fugitivos e nem confirmou se há líderes do PCC entre eles.Segundo informações não oficiais colhidas por O GLOBO, apenas Lion, o líder da milícia Thundercats está entre os fugitivos célebres.

CABEÇAS VÃO ROLAR – A MARCA DA MILÍCIA

Nos últimos meses, as atenções se voltaram para a expansão desenfreada das milícias nas favelas da cidade. Formados por policiais e ex-policiais militares, bombeiros, vigilantes, agentes penitenciários e militares, muitos deles moradores das comunidades, esses grupos cobram uma taxa dos moradores, em troca de proteção e repressão ao tráfico de drogas. Instaladas inicialmente na Zona Oeste da cidade, elas chegaram ao subúrbio, às vias de acesso à cidade e regiões periféricas consideradas estratégicas. A Prefeitura calcula que 55 favelas já estão em poder das milícias. Já a Secretaria de Segurança suspeita que o número seja maior.

Em março de 2000, O GLOBO  já noticiava o surgimento destes grupos. Na época, atuavam em 42 comunidades, onde traficantes tinham sido expulsos. Desde então, os paramilitares vêm ampliando o território, impondo taxas de proteção a moradores de favelas e até bairros. As regiões afetadas pelo poder paralelo do crime, são marcadas por símbolos que deixam claras as zonas de ação dos grupos.  Os símbolos variam de formas geométricas simples a complexos artifícios que passariam desapercebidos das pessoas que não conhecem o local. Eles vão de triângulos verdes que são pintados nos muros de casas, a formas complexas, cuidadosamente grafitadas, como o símbolo dos Thundercats, desenho animado bastante popular na década de 80.

Levantamento do jornal com base em investigações da Corregedoria Geral Unificada das Polícias e da Subsecretaria de Inteligência, publicado em janeiro, indica a participação de 179 policiais, a maioria militares, em 18 grupos. Entre os citados figuram um tenente-coronel, um major, três capitães e cinco tenentes.

Os números comprovam que em um ano foram agregadas 30 novas comunidades à área de domínio das milícias. Na esteira da expansão de poder, os grupos também passaram a atuar na agiotagem e exploração de centrais clandestinas de TV a cabo. Conhecidas como “Gatonet”, as redes clandestinas somam pelo menos 600 mil usuários na região metropolitana da cidade, o que daria dois assinantes informais para cada assinante formal, segundo estimativas da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Na ocasião, o ex-secretário Nacional Antidrogas Walter Fanganiello Maierovitch comparou a atuação das milícias à da máfia italiana:

– Em um primeiro momento, eles cobram para garantir a segurança, mantendo as comunidades numa espécie de camisa-de-força. Em seguida começa o flagelo do terror.

Algumas milícias possuem características próprias para suas execuções. É o caso da milícia Thundercats, que ficou conhecida por torturar e degolar a golpes de espada e facão as pessoas que não compartilham de seus preceitos. Sabe-se que os Thundercats já mataram 500 pessoas nos últimos cinco anos. Segundo o inspetor da polícia Civil Robson Cruzoé de  Almeida, o líder da Thundercats Janilson Cunha de Bastos Coelho, o “Lion”, seria um poderoso e perigoso psicopata, com ligações na polícia e no mercado de transporte clandestino. Lion teria inventado o golpe da “espada justiceira” e desde então não parou mais de matar.

A notícia da fuga de Lion na noite de ontem causou alvoroço entre os moradores de Viçoso Jardim. Lojas amanheceram fechadas e  as vans irregulares desapareceram das ruas, deixando um saldo de milhares de moradores das comunidades próximas sem acesso ao trabalho e bastante irritados. Procurados por O GLOBO, nenhum morador da região quis se pronunciar. Todos temem falar alguma coisa que Lion não goste e terem suas cabeças decepadas.

“Causa espanto que em pleno século XXI as pessoas ainda tenham medo de perderem as cabeças, como na Revolução Francesa” – Diz o professor de sociologia Dr. Ibrain Paiva Swift, da Universidade Federal Fluminense.

A polícia prometeu empenho em localizar e trazer de volta os 11 foragidos, mas a julgar pelo medo das pessoas, é praticamente certo que com Lion novamente nas ruas, “cabeças vão rolar”.

Zé Walter fechou o jornal. Ele tremia. Com Lion nas ruas o problema de encontrar e “cortar o mal pela raiz” se complicava muito. Era certo que a polícia havia facilitado aquela fuga. Lion era um homem poderoso, com uma rede de informações e contatos que dava pra perder de vista. Obviamente aquilo facilitou as coisas.

Zé Walter não duvidava que inclusive a fuga dos onze era apenas uma desculpa para não dar tanto impacto para o fato de que Lion fugiria sozinho. Com onze meliantes nas ruas, ficava mais simples encontrar um ou outro e enrolar a pressão popular de que a polícia estava trabalhando. E fariam isso até que a memória curta do brasileiro se encarregasse de apagar todos os vestígios daquele pequeno golpe, custeado com dinheiro sujo.

Zé tentou se conter. Se acalmar. Precisava por as idéias em ordem.  Olhou a hora diversas vezes. Nada do Armando chegar no posto Gauchão do Brejo.  Quando finalmente Armando apareceu, Zé já não agüentava mais esperar e já pensava em pegar um ônibus parador na rua de trás do posto, até a rodoviária e de lá correr a pé até sua casa.

-Fala mermão! – Gritou Armando de dentro da Parati.

-Porra, tu demorou pra caralho, seu viado.   -Respondeu Zé Walter, entrando no carro.

Os dois ficaram um tempo no posto Gauchão do Brejo. Armando queria saber tudo com detalhes. Zé não perdeu tempo e contou-lhe tudo que acontecera até ali. Toda aquela história sobre ser ameaçado de morte, fuga, homem da pizza, bigodudo sinistro do Opala preto, motorista gordinho, balconista magrelo do posto, o roubo do Escort XR3 e etc.

À medida em que contava toda a saga dos seus últimos dias, Zé Walter explicava também suas conjecturas mentais. Armando inicialmente falante e interessado, gradualmente adquiriu uma postura mais e mais assustada. Quando Zé acabou de lhe contar o que havia se passado com ele, notou que seu interlocutor estava esquisito, com os olhos arregalados, olhando para ele.

-O que foi porra?

-…

-Fala, Armando. Que é? Tá bolado?

-Cara… Como que eu vou te dizer isso? Ai meu Deus… Bom,  cara… Se liga, acho que você está doente.

-Que merda é essa que você tá falando seu bosta?

-Meu… Isso aí, cara. Eu já vi isso num filme uma vez, meu. Isso é nóia cara. Tu tá tomando remédio?

-Ah, porra. Vai se foder, Armando. Eu te liguei pra você me ajudar e você aparece com esta conversa fiada de maluquice, meu? Tu acha que eu sou maluco? Olha bem pra minha cara, porra. Olha. Porra olha aqui. Aqui, nas fuças. E agora, agora fala, eu sou maluco?

-Cara… Me larga. Me larga. Pára, calmaí. Meu, Zé, você é um amigão, cara. A gente trabalha junto e porra, meu… A gente cresceu junto, né? Tu sabe que eu sou brother, que eu não vou te sacanear. Mas meu..  Isso aí é loucura. Tu deu uma surtada, cara. Uma surtada assim, de leve. Não quer dizer que você seja…

-Eu não sou maluco porra! Eu não sou maluco! – Zé gritava dentro do carro. E o fato de gritar que não é maluco é uma coisa que faz qualquer pessoa parecer realmente maluco. As pessoas do posto começaram a olhar para eles, e vendo que estavam chamando atenção, Zé pediu para Armando sair com o carro.

Armando acelerou a Parati para a estrada e durante vários minutos ambos ficaram em silêncio no carro. Zé Walter estava visivelmente irritado.

Armando quebrou o gelo:

-Zé?

-Fala.

-Zé, você tem alguma prova concreta de que isso que você me contou aconteceu?

-Como assim?

-Tipo, cadê o papel da ameaça?

-Pois é… O cara levou.

-Cara? Que cara?

-O cara da pizza, que invadiu a nossa casa. Porra, tu não prestou atenção não, seu viadinho?

-Ah, tá. O cara da pizzaria que entrou no seu apartamento com uma pizza que você não pediu, que mexeu na sua televisão e que você acha que foi lá pra te matar. Mas que não existe testemunha, né?

-… – Zé ficou pensativo. De fato, tirando a Gizela, ninguém tinha visto o homem da pizza.

-Tá, mas isso é irrelevante. Veja por exemplo o revolver do taxista, ó.  – Disse já tirando o 38 da cintura.

Armando quase perdeu o controle do carro quando viu a arma reluzir do lado dele.

-Caralho! Vira isso pra lá, porra!

Zé Walter riu e guardou a arma. Pela primeira vez podia ver, na expressão do cunhado que ele começava a acreditar no que Zé tinha contado.

-Meu Deus, cara… O que foi que você fez? Tu não matou o cara, né?

-Não, não… Foi como eu disse, mandei ele vazar pelo mato adentro. E eu fui embora com o taxi.

-E o que a gente vai fazer, Zé?

-Eu não sei ainda. Quando eu te liguei, eu até falei em chamar o Timbú. Meu plano era matar o Lion.

-Hã? Tá maluco? Que porra é essa? Pirou, Zé?

-Não, cara. O jeito é esse mesmo. O cara vai me cercar até me pegar. Se eu derrubar ele antes, eu escapo.

-Mas Zé, tu não é assassino, cara. Tu é Arquiteto.

-Exato. Aí que entra o Timbú.

-Cê tá pirado mesmo. Rapaz, o Timbú né brincadeira não, meu. O cara é mau. Eu tenho até medo dele.

-Que se foda. Você fala isso porque não é a tua cabeça que vai ser decepada com aquela porra de espada justiceira, meu. Se ponha no meu lugar. Imagina teus filhos sem pai… Vendo a foto da tua cabeça em cima de um muro da Zona Oeste, na capa do jornal…

-Pára, pára. Chega. Olha aqui, Zé… No início eu pensei que você estava ficando lelé. Mas agora pelo que eu vejo é sério mesmo o negócio.

-Pois é. Tô te falando. É sério mesmo. O cara quer me matar. Ele não vai descansar enquanto minha cabeça não for parar na sala de troféus dele. Mas não vai adiantar chamar o Timbú mais.

-Por que?

-O cara fugiu.

-Fugiu? Tá zoando.

-Não. Tá na capa do jornal. O cara fugiu com mais onze malucos na noite de ontem.

-E agora Zé?

-Agora que eu não sei mais o que a gente faz. O cara fugiu e vai se reorganizar. E aí vai vir atrás de mim…

-Ou…

-Ou o que, porra?

-Ou ele fugiu do presídio para poder te matar. -Disse Armando sorrindo.

Aquela frase de Armando deu um estalo na cabeça de Zé Walter. De fato, fazia algum sentido. Se o bigodudo do Opala/homem da pizza, tivessem passado sua posição e localização, Lion saberia exatamente o que fazer para dar cabo da vida dele. Obcecado por matar o jurado que o condenou, Lion então teria investido uma fábula de dinheiro numa bem elaborada fuga. Em seguida, na rua, dedicaria seu tempo a caçar e matar seu desafeto e então, quem sabe, voltar ao presídio, de onde continuaria a controlar seus negócios sujos, com a tranquilidade e paz que compete a todo facínora.

-É. Não tem jeito.

-Não tem jeito o que? – Perguntou Armando.

-A gente tem que achar o lugar onde o Lion está.

-… – Armando apenas olhou para ele, com os olhos arregalados de pavor. -Tá falando sério?

-Tô. Nunca falei tão sério em toda minha vida.

-Ai meu Deus do céu. -Armando gemeu apertando as mãos no volante. Estava suando.

-Se você não quiser se envolver, eu vou entender. Só peço que você me empreste seu carro. O resto eu faço.

-Ai Zé… Não acredito que você teria coragem de uma porra dessas.

-E aí? É com você agora. Tá dentro ou está fora?

-Tô… Fora. Cara, eu tenho filhos… Sabe como é que é…

-Eu sei, eu sei. Entendo você. Deixa comigo, cara.

Os dois continuaram em silêncio no resto da viagem. Armando parou na porta da casa dele.

-Tem certeza que quer fazer isso, Zé?

-Tenho.

-Bom. Sua cabeça é seu guia, meu amigo. -Disse Armando, abraçando Zé Walter.

-Valeu meu brother. Eu devolvo sua Parati. Eu juro.

Armando saiu do carro e ficou olhando até Zé Walter sair com o carro e virar a esquina, na direção da comunidade de Viçoso Jardim.

(Continua…)

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24 comentários em “Jurado de morte – parte 7”

  1. Rapaz… n achei outro lugar pra te mandar isso hahaha

    http://taylorhansen.tumblr.com/post/344844444/raining-blobs-the-townspeople-of-oakville

    Flubbers da gripe! Gump!!

  2. Grande Philipe,
    Que história!!! Quando eu achei que ia acabar, vc me vem om esse “continua…”
    Agora, eu sei que vc tá enrolado com mudanças e trabalho, mas por favor, veja se não demora mais taaanto tempo assim entre uma parte e outra. Cara, e entro aqui todo o dia atrás de novidaes.
    Grande abraço,
    Vanderson

  3. cara esse zé ta se revelando um maluco cada vez mais genial.. ele é tão doido que arranja provas pra doidera dele e faz as pessoas acreditarem nele… e eu ja vi isso no filme “janela secreta” que tem jony deep como personagem principal a historia nao é mesma mas se parece em alguns aspectos… mt boa historia.. e é interessante quando ele percebe que é maluco.. e agnt pensa que ele vai se redimir pedir desculpas por tudo de ruim que fez mas nao!! ele se aceita e continua as doideras, eu achei o filme massa… e sua história felipe ta tão boa quanto o tal filme que é um dos meus preferidos….

  4. Parabens pela história! Confesso que a princípio não dei muita moral pra ela, mas hoje do nada bateu uma vontade de começar a ler, já que chegou até a parte 7! Li tudo de uma vez e tô na fissura pra ler mais!
    Agora, sobre a questão da sanidade mental do Zé, acho que a parte do táxi indica a “viagem”, pq foi o porteiro que chamou o táxi no ponto. Então deveria ter vários motoristas disponíveis e provavelmente o porteiro não ia dizer pra qual morador era o táxi.
    E outra, só Zé viu a carta com a ameaça, quando seria a hora da mulher dele ver, a correspondência “sumiu”. Lembrando que não havia qualquer identificação, podendo ser endereçada a qualquer um (se é que realmente existe).

  5. bom vamos deixar que o felipe termine a história como ele bem entender, do jeito que sair eu tneho certeza de que vai ficar fodastico… e felipe vc ta devendo a continuação de “o caçador” eu tava gostando mais do caçador…

  6. Suas visitas aumentaram desde que você parou de postar coisas interessantes e curiosas?
    A graça do Blog era aquilo …

    Agora você só posta esses textos … então por que você não acaba esse blog e começa um novo?
    Ou continua com os dois, os textos em um e o blog no outro.

    • Na boa, se eu me preocupasse só com visita, faria um blog de sacanagem e não perderia meu precioso e caríssimo tempo respondendo comentários dos leitores. Embora eu goste de ter mais de 300.000 leitores mensais, e vibre quando a massa de leitores passa os 500.000, eu não deixo que a audiência influencie no que eu posto. Este é um blog autoral. Eu posto o que eu bem entender. E se eu não quiser postar, eu não posto nada e fica assim até eu resolver postar.
      Eu prefiro assim do que enrolar os leitores postando videozinhos, fotos de bundas, piadinhas toscas ou coisas que todo blog já posta só para dar uma impressão de continuidade.
      Isso não significa que eu cague e ande para os leitores. Mas significa que o blog é uma prioridade na minha vida, mas não é a primeira e sim a quarta. A primeira é minha saúde, a segunda é minha família, a terceira meu trabalho. Quando qualquer uma dessas prioridades sofre um abalo, o blog vai ser prejudicado querendo ou não.

  7. Hey cara, essa história ta muito foda, li a primeira parte e não consegui parar até chegar aqui, pra falar a verdade nunca fui muito de ler, mas esse seu blog me despertou essa vontade! 🙂
    Parabéns, e, por favor, não demore muito para postar a continuação 😛

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