O homem que surgiu do nada

Já era noite. Enquanto os últimos carros saíam do centro, apressados para se engarrafar sobre os viadutos, as criaturas da noite se preparavam para ganhar as ruas.

Em uma rua sem nome porque roubaram a placa, perto de um beco escuro cujo chão estava repleto de poças fedendo a lixo. Dali vinha um sujeito de aparência estranha. Ele fumava um cigarro barato, enquanto andava apressado com as mãos no pesado casacão de lã. Era uma noite fria e o sereno já antecipava que aquilo só iria piorar.

Após atravessar o beco e passar ao lado do alambrado, o sujeito misterioso encontrou o que finalmente procurava.

Elas estavam, ali, como quem não quer nada. Uma estava encostada num carro velho, uma carcaça carcomida dum gol 97 que havia sido depenado e depois tacaram fogo. A outra, mais gostosa e fornida de peitos estava em pé, exibindo longas pernas curvilíneas diante dos fracos faixos de luz dos faróis que eventualmente passavam por ali.

O cara chegou como quem não quer nada, querendo tudo.

Elas olharam e encararam. Os olhos muito pintados e a pinta fajuta perto da boca denunciavam. Não eram mulheres de verdade, mas versões genéricas, muito parecidas.

-E aí? – Uma delas falou.

-Gostou, tesudo? – Disse a mais magrela, sem desencostar da carcaça do gol enferrujado.

O homem não disse nada. Fez como que fosse dar uma paradinha. Olhou as duas de cima a baixo. A grandona dos peitões até fez uma pirueta de balé, esforçando-se em empinar a bunda já bem usada na direção do homem.

-Hoje não, gatas! – Ele disse, acendendo outro cigarro na guimba do primeiro. Ele era assim. Pouco falar, muito fumar.

O sujeito continuou na mesma calçada, ouvindo risadas atras de si. Não se importava com o que as bonecas diziam dele. “Fodam-se essas mulheres genéricas”. Pensou.  Enquanto andava, achou graça, pois teve vontade de mandá-las tomar no cu, porém, não seria nada mais do que elas estavam ali justamente dispostas a fazer, de modo que o melhor era calar a boca e ir em frente, avançando dois quarteirões pelo muro da antiga fabrica de tecidos abandonada, na sombra escura das frondosas amendoeiras, onde a escuridão fazia-se casa para as meninas novas. Essas sim, mulheres de verdade.

Tão logo chegou já bateu o olho numa bonitinha lá. Cabelão batendo abaixo da bunda. Foda-se se era megahair. Ele ia agarrar naquela cabeleira e cavalgar aquela bundinha pequena e estreita até o sol raiar. Com sorte, sob uma musica do Roberto Carlos.

Já chegou pegando no peitinho.

-Ooooi. Ela disse, lânguida como uma salamandra oleosa.

No fraco brilho da luz de vapor de sódio da rua, obliterada pelas sombras das árvores ele viu que lhe faltava um dentinho ali no canto da boca. Mas era um charme. Talvez funcionasse melhorando a chupetinha.

-Oi linda. -Ele disse.  -Como você tá?

-Tô doidinha pra dar. – Ela mandou logo, assim, na cara!

-E como vai ser?

-Cento e cinquenta 45 minutos. -Ela disse.

-Pô, aí você me quebra, princesa.

-Que isso! Tá se vendo que você é uma pessoa distinta que não regateia preço quando sabe que vale a pena. – Ela mandou duma só vez, sem respirar. Frase ensaiada pelo cafetão, lógico. A frase vinha acompanhada de um golpe fatal que era abrir o casacão e mostrar as minusculas peças de lingeries exóticas. – Dá uma olhada nessas carnes e me diz se não vale!

-Mas peraí, princesa. Vamos negociar o lance, porque só vou querer a porta de trás… A da frente não quero nem saber. – Disse ele procurando o isqueiro no bolso, porque a guimba tinha apagado. Cigarro vagabundo é foda.

-Tá… Tipo, vamos fazer o seguinte. Vamos baixar para cento e vinte, meia hora. Com chupetinha delicia e tudo.

-Aí sim… Mas tens lugar? – Ele perguntou acendendo o fogo. Ela aproveitou e pediu um cigarro.

-Ali, ó. – Ela disse apontando uma portinhola carcomida que dava acesso a uma escadaria estreita, que levava a um pequeno antro, onde um portuga com só dois dentes ainda remanescentes na boca explorava uns moquifos a dez merréis a cada vinte minutos. 21 minutos já pagava vintão.

Ele conhecia o portuga, já tinha comido putas ali no ano passado.

-Tá fechado. Vamos. Ele disse, enlaçando o pescoço da menina com o braço. Ela rebolava acintosamente, talvez tentando inconscientemente empurrar ele mais pro lado.

A mão dele espertamente deslizava para o peitinho direito dela. Pequeno, minúsculo.  Em uma pessoa normal talvez desse até asco. Nele não.

Mas foi então que o impensável aconteceu.

Da escuridão, surgiu um cara. Camisa social, barba impecável, cabelo alinhado cuidadosamente. Ele conhecia aquele cara, aquela voz. Era um cara da Tv. Estava em alguma novela. Mas o nome lhe fugia.

-Ô seu Carlos Augusto, não vai perguntar se a putinha é certificada não?

-Mas… Mas que merda é essa? Você sabe meu nome, o cabôco? – Ele se espantou de tal modo que o cigarro caiu no chão. Carlos Augusto era seu nome, mas era um nome que ele não ouvia desde que o dinheiro do Brasil era o Cruzeiro.

-Puta o que? Certificada? – Ele questionou.

-Isso mesmo!  Não vai perguntar?

-E tem que perguntar?

-Claro, não pode ter vergonha de perguntar não. A puta tem que ser de origem e a menina não basta ser puta, não basta dar cu, ser safada,  tem que ser certificada! Tem que ser Friputa, com garantia de origem e controle de qualidade rigoroso, do strip ao coqueirinho. Senão não tem prazer, ué!

-Mas… Do que você tá falando, o caralho? Quem é você, ô maluco?

-Calma… Calma. – Ele disse, todo engomadinho, as mãos no bolso da calça social. Virou-se para um carro do outro lado da rua. Era uma Brasília creme rebaixada, com vidro fumê e leds azuis no conjugado.

-Thomaz? ô Thomaz?

-Então o vidro do carro se abriu e ali estava um gordinho de óculos espelhado e cordão de ouro.

-O que Tony?

-Thomaz, essa rapariga aqui é certificada friputa?

-É sim, meu camarada. Com garantia de qualidade. – Ele gritou, mostrando uma calcinha vermelha fio-dental.

-Tá vendo? Sou teu fã hein Thomaz? – Disse o sujeito esquisito apontando o dedo pra ele.

Então o cara se virou para o homem do cigarro que ainda estava agarrado na putinha. -Tá vendo? Tem que perguntar! Não pode sair comendo qualquer puta assim não, rapá!

-Mas que porra do caralho é essa? Você sabe quem é esse doido menina? – Ele perguntou para a puta.

-Não sei não senhor! Nunca vi esse cara. Ele não é o… o… Como que chama mesmo? Aquele peludo! …Mas ó, eu sou certificada sim. Certificada e inspecionada. Aqui o selinho ó: Mostrou ela, uma bolinha tatuada acima do umbigo de onde pendurava-se precariamente um piercing sensualizando sob a roupa de renda branca.

-Tá vendo? Olha aí! Agora sim!

-Ok, ok. – Ele disse, tentando se livrar do sujeito estranho, saído do nada, que se metia à frente deles. – Dá licença, meu amigo. Eu e ela temos mais o que fazer.

-Tudo bem, sendo friputa, certificada, pode comer com tranquilidade, meu amigo!

O sujeito do casacão andou com a menina sem olhar para trás, tentando se lembrar de onde que ele já tinha visto aquele cara. Era uma novela, certamente. Entraram no moquifo para uma noite ardente de sexo e perversões.

Enquanto isso, lá fora, a noite fria tornava a espera das meninas no ponto uma tortura.

Eis que veio surgindo um outro homem da esquina. Barrigudo. Putas adoram barrigudos. Eles geralmente tem picas pequenas que não machucam muito e como são desajeitados, elas ficam por cima e tem mais controle.  Ele encostou no muro da fabrica de tecidos e não tardou duas garotas abordaram-no como piratas saltando numa barrica de ouro. Conversa vai, conversa vem, eles três vem andando pela rua escura.

De trás da árvore salta ele. O Tony:

-Gulooooso hein seu Renato de Oliveira Brandão? Mas não vai perguntar se as putinhas são certificada não?

FIM

 

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17 comentários em “O homem que surgiu do nada”

  1. Não assistir televisão tem as suas desvantagens. Eu não entendi nada desse conto, mas pelo “friputa” eu achei que devia ser alguma brincadeira com a Friboi. Fui procurar no Youtube pra ver se existia algum comercial da Friboi. Aí sim o conto ficou legal!

    • Tive o mesmo pensamento, mas você já me economizou a pesquisa. Só conhecia o comercial pelo rádio, mas não lembrei na hora do conto. Agora entendi.

  2. KKKKKKKKKKKKKKKK, eu sempre rio quando vejo o comercial da Friboi por causa do Tony. Fico imaginando que ele pode me pegar por aí uma hora pra questionar sobre a qualidade do que to comprando. Não esperava que isso fosse acontecer nesse conto…hehehehe

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